sábado, 3 de fevereiro de 2018

O garimpeiro



O garimpeiro




A bem da verdade, curiosa afirmação de uma história que não pode ser invencionice, o cru e o cozido aqui se dão as mãos para falar dos dois lados que todo fato tem, se é que apenas dois existam. Mas o certo é que meu amigo Ari é uma penca de habilitações pendurada em dois braços, sem falar das pernas que o carregam para todos os lados, e assaz capaz de cumprir tarefas várias com perfeita e com igual destreza.

Em mais que seja de bom tom apreciar o trabalho bem ordenado e direito, não é este o motivo que me leva a contar as suas façanhices, o real mesmo é de desfiar a sua paixão pela garimpagem. Será através de suas mesmas palavras que vou desenrolar os seus enredos, na própria moeda que me foi passada nas ocasiões de nossos entretenimentos. E foi assim o seu discorrer:

“A minha paixão das pedras maravilhas começou muito bem cedo, no acordar da minha vagabundice dos raquíticos catorze anos. Foi mesmo ali debaixo daquele vermelho pé de jambo em flor, num chão colorido de agulhinhas, que o Mortadela me mostrou aquela pedrinha brilhosa, que transluzia uma luz azulada, que fincava funduras na gente, indo bater mesmo nas chagas do coração. Num misturar das cores, não sei se na ardência da tarde ou nos meus olhos atiçados de cobiça, babei sobre a preciosa todos os ahs! que me haviam acumulado, naqueles tempos aborrecidos de crescimento, sem carregar nas algibeiras um elan.

Persegui o obter aquela beleza com todas as arapucas que as minhas ainda imaturadas apetitudes podiam conceber. Aquela Apatita prometia-me soles de alegria em banhar-me em seus raios índigos.

Depois de muitas tramas lucubradas, a vitória de ter o carinho da valiosa imergida nos meus olhos, que invejavam o poderio das mãos de possuí-la, fizeram de minha vontade este escravo da paixão pela garimpagem, que não mais se aquietou em possuir apenas aquela. E foi que me pus a varejar por terras todas as que conseguia pisar atrás das preciosas. O esforço foi dos mais recompensantes, acumulei muitas jóias.

Logo que pude deixar-me ao luxuriento prazer de buscar por terras outras, deparei-me debaixo de uma montanha mineira onde corria um riacho friinho. Dentro daquelas águas de marfim resplandecia um brilho descomum que fez-me um arrepio gélido correr pela espinha e desembocar no espantado da boca, que lançou um batizado nome: Cristalinda!

Que alegrias me trouxe aquela gema cristalina! Era um rei na exposição daquela pedrura ostentadora, rigolava de prazer das admirações mais tempestivas. Cobria-me com os seus radiantes feixes de translucidez pelas ruas, e, no egoísmo da clausura, perdia-me nas suas formas duras a gozar minha avidez de possuí-la.

Nos entrementes dos meus desejos de ajuntar mais e mais gemas, aconteceu um verão em que fui levado para mourejar nas terras baixas do Mato Grosso, num calor de cozinhar pé-de-moleque na pedra. Nos interlúdios das tarefas, punha-me a varejar o capinzal, e como sói acontecer com a recompensa do esforço, caiu-me na graça uma carminada Jaspe, lavada nas águas pantaneiras com maestria de mestre ourives. Perdi-me de gozo por ter nas mãos aquele jambo de indelicacência, servindo-me a sua contemplação de refrigerante nas redes de descanso.

De outra feita, fui parar nas terras bahianas, não por motivos fatigosos, mas no puro ócio de turismar na chapada, e decerto com o olho na vontade gulosa de desdepauperar minha coleção, que andava mais parada que bahiano em tarde de sol volumoso, o que me estava a causar depressão e ansiedade. E num foi que em uma grota onde se ficava uma lagoa emparedada de pedras, de águas mais azuis que a minha Apatita, no fundo cristalino destoou um verde charmoso que detonou todo o meu comedimento, e fez-me mergulhar sem contar os riscos na cobiça de apoderar-me da Jade. Meus olhos se tingiram daquele verde leitoso, que mais que me alegrar, alimentava minha paixão.

E foi ainda ali, nas riquezas das terras bahianas, que fui presenteado com a despudorada beleza marrom da Ágata, outra preciosidade que iluminou o meu cofre.

E correndo fui, sempre que podia furtar-me ao trabalho fatigoso, por terras muitas, nem sempre nas lonjuras, mas por veredas emburradas. Quando depois de muitos dias de faina bruta, descorajadora, no lavradio de fecundar aquela infecunda macega, bruta e desmazelada com o lodo da terra, saldou-me a esperança verde da Esmeralda. Nada havia naquele troncho bruto que deixasse brilhar um esquálido raio, mas no contrário das minhas mãos, meus olhos se desenganaram.

Ao acontecer do desenrolamento das minhas esperanças, do pouco ao muito, com o meu trato, as formas verdes foram se pondo ao mostruário. Com medo de estragar o prometido, lapidei-a, trazendo-lhe todo o desmesurado verde a encher-me os olhos, e os de todos os invejosos que a podiam ver desfilada. Esmeralda foi a joia da minha coroa.

E com a coleção engrandecida, minha cobiça se empanturrava, e foi nesses ganancismos que fui passear meus devaneios nas terras do antigo Tejuco, a ver se me encantava a dita de bamburrar uma Xica, nem tanto uma de engambelar um contratador, mas no menos uma pequetita brilhante.

E num foi que a estrela me fez convite de alvíssaras: lá estava, correndo aflita na bateia a tilintar faíscas, a minha Xica durinha, teúda e manteúda, preciosidade de um carbono puro e brioso. Fiz minhas preces de comoção, pondo o desfervor de lado e ajoelhando-me na beira do riacho, agradecendo a São Benedito sua complacência. Juntei meus trastes e deixei aquelas paragens para voltar para meu chão, rico de satisfação e orgulho, trazendo no bornal aquela delicada peça.”

– Bem fornida essa sua coleção Ari, mas diga lá, você escondeu o melhor, não foi? Pois, afinal, como aconteceu a Maria?

  Foi um tragicômico engano, a Maria.

  E por quê?

  Quando a conheci, era uma perolazinha ainda não formada, um pequenino grão. Faltava-me na coleção uma Pérola, pois cá nestas bandas não as há. E para abocanhá-la, matrimoniei-me.

– Que brinco de história!.Ela então chama-se Maria Pérola?

– Ah, pois! Nos tempos de então, eu me abestalhava no não saber que uma ostra gera a Pérola por penar na sofrência de um mal estranho em si.

– Ah, sei, e por que a desdita?

– Pelos anos de tristura desmesurada que me apenei na dor de vê-la crescer dentro da ostra, que eu fui. Por isso escondo a Pérola, só sobrou a Maria.

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