terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Libélulas



Libélulas




– Ei, Miguilim, saudade de uma história?

– Deveras, Doutor, de muita carência já estou a ouvi-las nos sonhos.

  Então, vamos, vou contar-lhe uma que termina como em um sonho.

  Deve de ser muito estranha.

  Você julgará. Há muitos anos, uma menininha crescia suas graças no carinho de sua família, em uma casa que tinha um grande quintal, onde ela podia ver a vida espalhando suas surpresas aos seus olhos curiosos.

– Com árvores, pássaros e bichinhos?

– E um pequenino regato que corria em direção à casa vizinha de uma senhorinha viúva, que ali vivia sozinha, acalentada com o amor do neto que morava longe e que passava as férias ao lado da vovó.

– Que saudades eles deviam passar!

– Muita, não é? E a pequena Helena, era este o nome da menininha, tinha o neto da senhorinha como companheiro de folguedos nos tempos de férias.

– E como ele se chamava, Doutor?

– Era Marco o seu nome, e para ele aqueles quintais eram um palco de aventuras, e nelas arrastava a sua amiguinha.

– E tinham muitos outros amigos?

– Ah, sim, havia muitos outros, mas grande parte das brincadeiras faziam apenas os dois, e assim iam crescendo, aprendendo a observar a vida que deslumbrava pelos terreiros, e, para os dois, uma atração desigual era observar as libélulas, que por aquelas bandas eram conhecidas como pica-fumos.

– Eu também gosto muito delas, Doutor, são muito ligeiras.

– E são muito atrativas às crianças, que gostam de testar suas habilidades para pegá-las. Elas têm olhos que enxergam tudo ao redor, e muitos melhores que os nossos, por isso é muito difícil serem apanhadas de surpresa.

– E parecem helicópteros voando, mas o engraçado é como elas fazem na água, com os rabinhos.

– São bichinhos muito divertidos, encantam as crianças, e os dois passavam bons momentos atrás deles. E foi devido a um desses que Helena ganhou uma pequena cicatriz na testa, no tombo que levou correndo para pegá-lo. E os anos foram passando, as curiosidades mudando de interesses, até que, não se imagina o começo, eles se perceberam sofrendo saudades intensas ao se verem longes, e as despedidas se tornaram momentos de muitos choros.

– É triste nada poder fazer a não sofrer a dor!

– Naquele último verão de ainda crianças, o voo de duas libélulas, entrelaçadas em coração, havia despertado seus olhares em direção a novas vontades, e trocaram beijos e juras de amor.

– Último verão, Doutor?

– A tristeza invadiu a vida de Marco, terminando com aquelas férias de alegrias; sua adorada avó deixou marcas profundas quando o coração a levou embora, e, para Helena, a casa fechada só lhe lembrava da tristeza de não ter mais seu amigo.

– Sem a vovó, Marco não voltava para passar as férias?

– A casa permaneceu abandonada por muito tempo, até que um casal tomou o lugar da avó de Marco.

– Marco não voltou mais?

– Passaram-se vários anos. Marco foi convidado por um amigo para ir com ele passar as férias naquela mesma cidade, que lhe era só uma lembrança gostosa. Passando em frente à antiga casa de sua avó, recordações dos dias felizes bateram forte. Será que Helena ainda morava ali ao lado? O colega lhe afirmou que sim.

– Ele não quis ir ver a Helena?

– Ele não sabia como seria recebido e se intimidou; agora moça, talvez não lhe guardasse as mesmas atrações.

– Poxa, que pena!

– Mas os ventos que sopraram não deixaram que tudo assim permanecesse. No dia seguinte a sua chegada, Marcos estava com os amigos a conversar e, bom, vamos deixar que eles mesmos continuem a história:

“– Pessoal, veja! A coisinha mais linda da cidade vem entrando na praça.”

“– Linda mesmo.” – falou o Marco – “Mas... é a Helena!”

E a Helena, tendo-o visto, aproximou-se da turma, e depois dos ois:

“– Marco, há quanto tempo, como você está?”

Marco estava pasmado com a beleza de Helena, respondeu um tudo bem, e Helena:

“– Estou indo para casa, não quer acompanhar-me?”

“– Claro, vamos.”

E eles, deixando o grupo a curtir suas brincadeiras, foram em direção ao lugar de suas saudosas lembranças.

“– Você se lembra das libélulas?”

“– Muito, elas ainda brincam lá pelo quintal?”

“– Não tanto quanto naquela época, são mais raras agora. Mas gosto de ficar no quintal a sentir o vento a quebrar o silêncio nas folhas das árvores, a lembrar-me do quanto ali brincávamos, e de quanto chorei por não mais ter esperanças de ouvi-lo a acariciar-me com nomes tão doces.”

Marco a fez parar, levando a mão ao seu rosto, acariciou a sua antiga cicatriz:

“– Ainda está aí, como uma marca indelével de nossas aventuras.”

Marco procurou a mão dela e por alguns momentos seguiram assim, calados, a recordar uma cena que só podia ter nascida de um mesmo sonho. Chegando em casa, Helena o arrastou para o quintal.

“– Parece mesmo um sonho! Juntos novamente! Olha, Marco, uma libélula na corda do varal, acho que veio a festejar a nossa alegria!”

Uma brisa leve de outono também veio fazer parte das suas saudades. A princípio, olharam-se, as mãos percorreram os rostos sorrindo, e um beijo levou-os a subirem no vento e a pairar no ar como as libélulas. Os cabelos esvoaçantes de Helena enredaram os de Marco, e desprenderam-se na viração, dançando, girando, sucumbindo ao prazer. Ainda se ouviu o Marco dizer uma frase, Helena responder, e, depois, um silêncio que matou a tarde:

“– Estou sonhando? parece-me estar flutuando nesta brisa gostosa.”

“– E estamos!”

Os dois corpos, diluindo-se, misturaram-se nas ondas em que Eos abriu o céu para o pôr-do-sol.

– Eles sumiram, Doutor?

– Aparentemente, mas ouviu-se muito falar por aquelas bandas que um casal de libélulas voava sempre enroscado em um coração, que nunca se separava, pairando alegremente na brisa.

– Que estranho, Doutor, vou embarcar nos meus sonhos, mas espero acordar ainda menino.

-o-

Nenhum comentário:

Postar um comentário