Nada
O sol fora submergido por nuvens escuras que pintavam uma
quase noite. O quarto estava em lânguida penumbra; da sua cadeira de estudos,
olhando com distração, ele viu sua figura formar-se no vidro da janela. Firmou
os olhos e saiu de seu devaneio. Como seria possível naquele ângulo ver-se
refletido?
Enquanto ainda permanecia naquela discordância da realidade
ou do sonho, percebeu que a figura não lhe mostrava o jeito da estranheza, que
por acaso veria se pudesse contemplar o seu próprio rosto. Ela parecia sorrir,
mostrando um gesto de pura amizade.
Recuperada sua consciência, viu a janela colorir-se de
manchas das mais diversas cores, que mudavam constantemente, parecendo um filme
projetado no vidro. Era belo. Se pudesse captar as cores pelos ouvidos, na
certa lhe pareceria uma melodia tocada por um suave violino acompanhado por
delicados toques nas teclas de um piano.
E por trás das manchas de cores sua imagem lhe sorria.
Aproximou-se da janela, a imagem que lhe acudia aos olhos
não repetia os seus gestos, autônoma. Agora levantava a mão direita espalmada
na altura do rosto em um gesto usual de saudação, a boca imóvel, enquanto os
olhos faiscavam e pareciam emitir raios de luz, que se espalhavam pelo vidro,
colorindo-o. Com um lento gesto de elevar a mão, não sabendo se devia aceitar
tão desajustada visão, repetiu o gesto da imagem, tentando talvez tornar à
realidade de um espelho invertido.
Uma onda de um azul espesso invadiu o vidro, atravessou-o e
ofuscou os seus olhos. Num breve instante de inconsciência, sentiu-se tomado
por aquela luz, que lhe pareceu invadir as partes mais profundas de sua mente e
agitar em um movimento efervescente todas as suas células cerebrais. Despertado
da breve tontura que lhe tomara, viu, ou mais precisamente, sonhou imagens que
se convertiam em palavras sussurradas ao ouvido, sentiu como se houvesse
adquirido uma percepção que lhe permitia ouvir a luz que animava aquela janela
de vidro.
– Consegue agora me entender?
Parecia-lhe ter ouvido, mas seguramente nenhum som havia
sido emitido. Olhou com perplexidade para a figura muda no vidro.
– Percebo que sim.
Foi então que sua estupefação lhe fez compreender que a
figura se comunicava com ele através da luz que partia dos seus olhos.
– Essa onda azul que lhe enviei foi para criar nas suas
células os recursos necessários para interpretar a minha linguagem de luz.
– Mas, se não estou a sonhar, o que é você?
– Sou uma imagem sua, sou uma sua vida paralela que reside
na quinta sombra do seu mundo, mas digo mal, não é uma sombra, senão uma outra
realidade superposta.
– Não entendo, você existe dentro do vidro dessa janela?
– O vidro é apenas o meio que encontrei para poder
apresentar-me ao seu mundo e a você, que é o que me foi permitido, pois vivo em
um universo tão vasto quanto o seu.
– E você e eu somos um mesmo ser?
– Talvez, somos feitos de matéria com entrelaçamento
quântico, tudo o que você faz afeta-me instantaneamente, e o que eu faço também
o afeta.
– Se simultaneamente causamos efeitos um ao outro, quem
determina nossas ações ou mesmo nossos pensamentos?
– Como saber? Mas não somos apenas os dois, outras cópias
nossas existem em outras sombras.
– Você quer dizer que meus pensamentos podem ser produto de
várias personalidades existentes em diversas outras dimensões?
– Calma lá, a personalidade é uma só, você é o produto,
assim como eu.
– E como podem os seus olhos falarem?
– Da mesma forma estranha que sinto que a sua boca fala,
para mim a boca é apenas um instrumento para a alimentação.
– Neste seu mundo, se é que estou acreditando em você, a
evolução humana aconteceu diferente?
– Em alguns aspectos. A qualidade da luz em nosso mundo
levou-nos a desenvolver a linguagem da luz, e em outros universos a linguagem
se fez de outros modos.
– Então existe mesmo mais de um universo? Não consigo
entender. Se o nosso Universo se estende por todo o sempre, onde existem os
outros?
– Qual a incoerência? Se somos feitos de nada, nada
precisamos ocupar.
– Mas eu estou aqui, ocupando este espaço que tomo.
– Espaço? não passa de uma ilusão sua o seu espaço.
– Mas outro ser, aqui do meu mundo, não pode estar no meu
espaço.
– Ah, sim, pois ele vive a mesma ilusão sua.
– Estou entendendo-o por meio de palavras que ecoam em
minha cabeça, sua linguagem de luz é também feita de palavras?
– A Palavra é um ovo que permite que tudo exista.
– Explique-me, como se formam as palavras com a luz?!
– As sete cores existentes na luz branca são as vogais de
nosso alfabeto, são fótons breves emitidos em um attosegundo, as consoantes são
mais longas e são combinações de duas das cores, e assim temos vinte e uma
delas. Nada muito diferente do que você usa para compor as suas palavras de
ondas sonoras. Aliás, a estranheza é terem vocês apenas cinco vogais, pois, nas
outras sombras que contatei, usa-se quase sempre sete, como base para as
linguagens.
– E são todas como a sua, de luz?
– Não, todas as sombras têm elementos diferentes que
condicionam a evolução a agir de forma única.
– Mas a sua imagem é como a minha, a evolução do corpo se
fez da mesma forma?
– A minha imagem, que você pensa que vê, é uma projeção de
sua consciência.
– Não consigo entender, para mim tudo que vivo é muito
real.
– Vamos tentar entender: o som e a luz que você ouve e vê
são reais?
– Tudo que me vem através dos meus sentidos é a minha
realidade.
– O som que você ouve são ondas de pressão exercidas no ar,
a sua mente foi condicionada a interpretá-las como barulhos, para mim elas são
apenas perturbações na atmosfera.
– Mas você está ouvindo-me, como pode então fazê-lo?
– Através de um aparelho que transforma as ondas sonoras em
palavras de luz, muito parecido com os seus rádios.
– Mas a luz, é ela que me permite viver a realidade.
– A luz também é uma onda que se espalha pela atmosfera, e
os seus olhos são um instrumento sofisticado para captá-la e transferir ao
cérebro a ilusão da claridade ou da falta dela.
– Então, em outro universo posso ter a habilidade de
comunicar-me, talvez, com o cheiro?
– É perfeitamente possível, ou melhor, é uma realidade,
pois já visitei um universo onde isso acontece.
– E como você consegue viajar entre os universos?
– A ciência do meu mundo está bem desenvolvida e não temos
mais barreiras mentais.
– E vocês já entendem o que é, então, a realidade?
– Realidade? O que é a realidade? É o nada.
– Nada, como pode?
– Qual a diferença entre o infinito e o nada, se no nada
está contido toda a possibilidade do infinito? Se do nada surgiu o seu mundo, o
meu e todos os outros? Todos os universos são feitos de partículas de energia
que são apenas flutuações de nada.
– Se nada existe, se o nada é igual ao infinito, viver um
yoctosegundo é como viver a eternidade.
– E se você é um nada, feito do nada que é o todo, você
também é o todo.
– E este Nada que é o Todo, é o Grande Mistério.
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