sábado, 24 de março de 2018

Nada



Nada




O sol fora submergido por nuvens escuras que pintavam uma quase noite. O quarto estava em lânguida penumbra; da sua cadeira de estudos, olhando com distração, ele viu sua figura formar-se no vidro da janela. Firmou os olhos e saiu de seu devaneio. Como seria possível naquele ângulo ver-se refletido?

Enquanto ainda permanecia naquela discordância da realidade ou do sonho, percebeu que a figura não lhe mostrava o jeito da estranheza, que por acaso veria se pudesse contemplar o seu próprio rosto. Ela parecia sorrir, mostrando um gesto de pura amizade.

Recuperada sua consciência, viu a janela colorir-se de manchas das mais diversas cores, que mudavam constantemente, parecendo um filme projetado no vidro. Era belo. Se pudesse captar as cores pelos ouvidos, na certa lhe pareceria uma melodia tocada por um suave violino acompanhado por delicados toques nas teclas de um piano.

E por trás das manchas de cores sua imagem lhe sorria.

Aproximou-se da janela, a imagem que lhe acudia aos olhos não repetia os seus gestos, autônoma. Agora levantava a mão direita espalmada na altura do rosto em um gesto usual de saudação, a boca imóvel, enquanto os olhos faiscavam e pareciam emitir raios de luz, que se espalhavam pelo vidro, colorindo-o. Com um lento gesto de elevar a mão, não sabendo se devia aceitar tão desajustada visão, repetiu o gesto da imagem, tentando talvez tornar à realidade de um espelho invertido.

Uma onda de um azul espesso invadiu o vidro, atravessou-o e ofuscou os seus olhos. Num breve instante de inconsciência, sentiu-se tomado por aquela luz, que lhe pareceu invadir as partes mais profundas de sua mente e agitar em um movimento efervescente todas as suas células cerebrais. Despertado da breve tontura que lhe tomara, viu, ou mais precisamente, sonhou imagens que se convertiam em palavras sussurradas ao ouvido, sentiu como se houvesse adquirido uma percepção que lhe permitia ouvir a luz que animava aquela janela de vidro.

– Consegue agora me entender?

Parecia-lhe ter ouvido, mas seguramente nenhum som havia sido emitido. Olhou com perplexidade para a figura muda no vidro.

– Percebo que sim.

Foi então que sua estupefação lhe fez compreender que a figura se comunicava com ele através da luz que partia dos seus olhos.

– Essa onda azul que lhe enviei foi para criar nas suas células os recursos necessários para interpretar a minha linguagem de luz.

– Mas, se não estou a sonhar, o que é você?

– Sou uma imagem sua, sou uma sua vida paralela que reside na quinta sombra do seu mundo, mas digo mal, não é uma sombra, senão uma outra realidade superposta.

– Não entendo, você existe dentro do vidro dessa janela?

– O vidro é apenas o meio que encontrei para poder apresentar-me ao seu mundo e a você, que é o que me foi permitido, pois vivo em um universo tão vasto quanto o seu.

– E você e eu somos um mesmo ser?

– Talvez, somos feitos de matéria com entrelaçamento quântico, tudo o que você faz afeta-me instantaneamente, e o que eu faço também o afeta.

– Se simultaneamente causamos efeitos um ao outro, quem determina nossas ações ou mesmo nossos pensamentos?

– Como saber? Mas não somos apenas os dois, outras cópias nossas existem em outras sombras.

– Você quer dizer que meus pensamentos podem ser produto de várias personalidades existentes em diversas outras dimensões?

– Calma lá, a personalidade é uma só, você é o produto, assim como eu.

– E como podem os seus olhos falarem?

– Da mesma forma estranha que sinto que a sua boca fala, para mim a boca é apenas um instrumento para a alimentação.

– Neste seu mundo, se é que estou acreditando em você, a evolução humana aconteceu diferente?

– Em alguns aspectos. A qualidade da luz em nosso mundo levou-nos a desenvolver a linguagem da luz, e em outros universos a linguagem se fez de outros modos.

– Então existe mesmo mais de um universo? Não consigo entender. Se o nosso Universo se estende por todo o sempre, onde existem os outros?

– Qual a incoerência? Se somos feitos de nada, nada precisamos ocupar.

– Mas eu estou aqui, ocupando este espaço que tomo.

– Espaço? não passa de uma ilusão sua o seu espaço.

– Mas outro ser, aqui do meu mundo, não pode estar no meu espaço.

– Ah, sim, pois ele vive a mesma ilusão sua.

– Estou entendendo-o por meio de palavras que ecoam em minha cabeça, sua linguagem de luz é também feita de palavras?

– A Palavra é um ovo que permite que tudo exista.

– Explique-me, como se formam as palavras com a luz?!

– As sete cores existentes na luz branca são as vogais de nosso alfabeto, são fótons breves emitidos em um attosegundo, as consoantes são mais longas e são combinações de duas das cores, e assim temos vinte e uma delas. Nada muito diferente do que você usa para compor as suas palavras de ondas sonoras. Aliás, a estranheza é terem vocês apenas cinco vogais, pois, nas outras sombras que contatei, usa-se quase sempre sete, como base para as linguagens.

– E são todas como a sua, de luz?

– Não, todas as sombras têm elementos diferentes que condicionam a evolução a agir de forma única.

– Mas a sua imagem é como a minha, a evolução do corpo se fez da mesma forma?

– A minha imagem, que você pensa que vê, é uma projeção de sua consciência.

– Não consigo entender, para mim tudo que vivo é muito real.

– Vamos tentar entender: o som e a luz que você ouve e vê são reais?

– Tudo que me vem através dos meus sentidos é a minha realidade.

– O som que você ouve são ondas de pressão exercidas no ar, a sua mente foi condicionada a interpretá-las como barulhos, para mim elas são apenas perturbações na atmosfera.

– Mas você está ouvindo-me, como pode então fazê-lo?

– Através de um aparelho que transforma as ondas sonoras em palavras de luz, muito parecido com os seus rádios.

– Mas a luz, é ela que me permite viver a realidade.

– A luz também é uma onda que se espalha pela atmosfera, e os seus olhos são um instrumento sofisticado para captá-la e transferir ao cérebro a ilusão da claridade ou da falta dela.

– Então, em outro universo posso ter a habilidade de comunicar-me, talvez, com o cheiro?

– É perfeitamente possível, ou melhor, é uma realidade, pois já visitei um universo onde isso acontece.

– E como você consegue viajar entre os universos?

– A ciência do meu mundo está bem desenvolvida e não temos mais barreiras mentais.

– E vocês já entendem o que é, então, a realidade?

– Realidade? O que é a realidade? É o nada.

– Nada, como pode?

– Qual a diferença entre o infinito e o nada, se no nada está contido toda a possibilidade do infinito? Se do nada surgiu o seu mundo, o meu e todos os outros? Todos os universos são feitos de partículas de energia que são apenas flutuações de nada.

– Se nada existe, se o nada é igual ao infinito, viver um yoctosegundo é como viver a eternidade.

– E se você é um nada, feito do nada que é o todo, você também é o todo.

– E este Nada que é o Todo, é o Grande Mistério.


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