A
semente de mostarda
– Ei, Miguelim, tá perdido na leitura, hem? Nem parece que me
viu entrar.
– Vi, sim, Doutor, claro, meus olhos é que não me quiseram dar
a autorização de fazer desvio, de ânsia, na querença muita de chegar no fim desta
página.
– Fico feliz de vê-lo assim tão concentrado, posso saber
que livro é esse?
– Ó, eu peguei na biblioteca da escola, de empréstimo. Veja
que capa legal.
– A Semente de
Mostarda, bem interessante! Deixou-me curioso.
– Então, pousa um tico aqui, Doutor, que hoje sou eu quem
vai desenfadá-lo a contar esta história.
– Hum, que bom! já estou, como diz o Miguilim, louquinho de
vontade de ouvir.
– Tudo começou com um menino especuloso, em que o curioso
tomou assento, e a abelhudice enorme se esparramava pelas letras; ainda carente
de idade, já todas dava conta de reconhecer, mas um nada ainda sabia do mistério
do casamento delas, porém logo tomou ciência que elas podiam fazer histórias
mil, e por elas podia passar momentos felizes no antegozo e no gozo de ouvir a
mamãe contá-las, e saboreá-las como um maná que lhe caía da boca.
– Ah, sei, sua fome de saber foi assim despertada.
– De pouquinho em pouquinho ele foi apoderando-se do escondido
de ajuntar as letras e a desembaraçar os segredos de colar os pedaços que faziam
as palavras que ele mais gostava, um quebra-cabeças de muito entreter.
– E você sabe quais eram as palavras que ele gostava?
– Ah, eram muitas, e o seu gostar era variante, pois ele
era, no normal, de demasiada inquietação para o mais conhecer. Um dia, sua
mamãe lhe fez fantasiar com a história do Aladim e sua lâmpada mágica, e ele mergulhou
legal nas suas aventuras, e até pensou que uma lamparina velha não era um bom lugar
para guardar um gênio.
– Hum, Miguilim, acho que ele ia gostar muito da história
do Ali Babá, em que as palavras abriam a caverna do tesouro dos ladrões.
– Num é que ele mesmo, encantado pela mágica das letras de escrever
as palavras todas, engendrou muitas histórias e imaginou que elas tinham o poder
para maravilhar o gênio, se nelas pusesse um muito capricho?
– E a qual gênio ele se referia?
– Ah, Doutor, a qualquer um que estivesse zanzando por aí
no desocupado e, como ele, que gostasse muito das palavras. Pois foi que então ele
escreveu com muito apuro: Palavras Cruzadas. Abriu sua caixa de brinquedos,
deitou lá dentro o papel com muita vontade, fechou-a guardando a sua não última
esperança, e, muito aparatoso e sério, foi dizendo em uma espécie de oração
àquela primeira mulher:
Aqui
nesta caixa prendo,
não os
males de outrora,
só a
alegria, no intento
do bem restante, Senhora.
–Palavras Cruzadas o que é, Miguilim? é um jogo?
– É sim, Doutor, ele pôs toda vontade naquele pedido e foi dormir. No dia seguinte, no acordar, foi atarefado para a escola, e só procurou
a sua caixa quando dela voltou, e lá dentro a sua esperança repousava cumprida:
nela achou uma caixa vermelha como ele quisera.
– Uma espécie de Papai Noel fora do tempo o atendeu!
– Quem há que possa saber? Ele ficou um pouco em cismar se
não teria sido seu avô, mas em nada não quis mais pensar, pois que mais de importância
haveria diante de tanto a brincar com suas letrinhas?
– E depois, ele continuou pidão?
– Não, não quis abusar das graças do bom gênio, mas por
duas outras vezes, na precisão de coisinhas pequenas, ele deixou as reticências
e recorreu às suas palavras mágicas, e arranjou o que queria.
– Ah, um menino de muito juízo!
– Até que era, Doutor, mas de verdade foi mesmo que algo bem
maior estava a ser alentado nos desvãos de sua cabeça, que estava em polvorosa
como um bando de maritacas agitadas gritando ao mesmo tempo.
– Hum, agora é que fiquei mesmo curioso para saber o que
foi esse algo.
– Ele estava a matutar: se com as letrinhas se podia
conseguir formar tudo que existe no mundo, talvez que...
– Talvez o quê?
– E se de um grãozinhinho de mostarda surge uma árvore
enormosa, será que se ele as suas letras plantasse...
– Plantar? Mas elas não eram de plástico?
– Não, eram deveras de madeira, então ele se acabrunhava a
imaginar se poderia conseguir uma árvore.
– Uma árvore! Mas como seria? Ele queria plantar uma só
letra?
– Não, Doutor, ele plantaria todas as letras em uma cova
só. E assim ele fez, adubando bem a terra como seu pai fazia para as
laranjeiras. Dispôs as letras em uma fila, pois ouvira dizer que era assim que
acontecia para a vida de todo ser: uma fita de letrinhas que comandava tudo. E dia
após dia, sem desatenção, ele cuidava da rega da cova.
– Chi, acho que ele vai ficar sem as suas letras ou elas
vão ficar bem sujinhas.
– Se isso lhe causou tenção, ele nem deu bola, e perseverou
nos seus cuidados. O tempo alongou no seu afobamento, mas foi-se, e, por sobre
a cova, de verde apareceu um broto, e ele correu proclama pra todo mundo saber que
sua árvore de letrinhas estava a vingar.
– É provável que por coincidência deve ter nascido algo
ali.
– Ele nem pôs dúvida que seria a árvore de suas letras e
continuou dela a cuidar como um jardineiro eficiente. E foi crescendo uma arvorezinha
bem ligeiro. Todo dia ele fazia medição do vigor de sua planta, a ver se ela se
alongava tesa e cheia de vida.
– Nem estou acreditando, Miguelim!
– E cresceu uma árvore espraiando vigorosos galhos, com uma
copa enorme esparramada e com folhas grandes de um verde bem verde escuro.
– E o pai dele não sabia dizer que árvore era aquela?
– Não, Doutor, ninguém tinha ciência e só se deixavam ouvir
especulações. Aí apareceram as flores, de todas as cores e de vários tamanhos.
– Acho, Miguilim, que esta história está tomando ares de
muitas estranhezas.
– Abelhas voavam agitadas em toda a árvore sugando o néctar
das flores, de muitos sabores diferentes a provar, e elas tinham, desenhadas nas
pétalas, as todas letras do alfabeto. O menino, exultoso, catava as que caíam e
muitas guardou dentro das páginas de livros. E os frutos começaram a se mostrar...
– Imagino, de todos os tipos!
– Tinha de tudo: frutos, legumes, muitas cápsulas
espalhadas contendo dentro cereais, castanhas e grãos de muitos tipos;
brinquedos, ah, muitos brinquedos, até uma bicicleta de vinte marchas; material
escolar e livros; à noite, a árvore parecia um céu cheiinho de luzes; produzia
roupas, e em um lado tinha um pano que brincava no vento; no tronco das árvores
colavam-se pares de sapatos prontinhos...
– Poxa, quanta riqueza. E dinheiro, também havia pronto?
– Claro que não, Doutor, se tivesse, seria falso, não ia
valer nada.
– E a árvore produziu por muito tempo?
– Nem sei ainda, já que minha leitura não está terminada,
Doutor, mas acredito que assim deve de ser: uma vez que as letras foram bem
plantadas, nunca mais devem parar de produzir, né?
– Com certeza, Miguilim, termine a sua leitura, aproveite
bem as letras e as palavras, e boa noite.
-o-

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