sábado, 10 de março de 2018

A semente de mostarda



A semente de mostarda





– Ei, Miguelim, tá perdido na leitura, hem? Nem parece que me viu entrar.

– Vi, sim, Doutor, claro, meus olhos é que não me quiseram dar a autorização de fazer desvio, de ânsia, na querença muita de chegar no fim desta página.

– Fico feliz de vê-lo assim tão concentrado, posso saber que livro é esse?

– Ó, eu peguei na biblioteca da escola, de empréstimo. Veja que capa legal.

–  A Semente de Mostarda, bem interessante! Deixou-me curioso.

– Então, pousa um tico aqui, Doutor, que hoje sou eu quem vai desenfadá-lo a contar esta história.

– Hum, que bom! já estou, como diz o Miguilim, louquinho de vontade de ouvir.

– Tudo começou com um menino especuloso, em que o curioso tomou assento, e a abelhudice enorme se esparramava pelas letras; ainda carente de idade, já todas dava conta de reconhecer, mas um nada ainda sabia do mistério do casamento delas, porém logo tomou ciência que elas podiam fazer histórias mil, e por elas podia passar momentos felizes no antegozo e no gozo de ouvir a mamãe contá-las, e saboreá-las como um maná que lhe caía da boca.

– Ah, sei, sua fome de saber foi assim despertada.

– De pouquinho em pouquinho ele foi apoderando-se do escondido de ajuntar as letras e a desembaraçar os segredos de colar os pedaços que faziam as palavras que ele mais gostava, um quebra-cabeças de muito entreter.

– E você sabe quais eram as palavras que ele gostava?

– Ah, eram muitas, e o seu gostar era variante, pois ele era, no normal, de demasiada inquietação para o mais conhecer. Um dia, sua mamãe lhe fez fantasiar com a história do Aladim e sua lâmpada mágica, e ele mergulhou legal nas suas aventuras, e até pensou que uma lamparina velha não era um bom lugar para guardar um gênio.

– Hum, Miguilim, acho que ele ia gostar muito da história do Ali Babá, em que as palavras abriam a caverna do tesouro dos ladrões.

– Num é que ele mesmo, encantado pela mágica das letras de escrever as palavras todas, engendrou muitas histórias e imaginou que elas tinham o poder para maravilhar o gênio, se nelas pusesse um muito capricho?

– E a qual gênio ele se referia?

– Ah, Doutor, a qualquer um que estivesse zanzando por aí no desocupado e, como ele, que gostasse muito das palavras. Pois foi que então ele escreveu com muito apuro: Palavras Cruzadas. Abriu sua caixa de brinquedos, deitou lá dentro o papel com muita vontade, fechou-a guardando a sua não última esperança, e, muito aparatoso e sério, foi dizendo em uma espécie de oração àquela primeira mulher:

Aqui nesta caixa prendo,             
não os males de outrora,
só a alegria, no intento
do bem restante, Senhora.

–Palavras Cruzadas o que é, Miguilim? é um jogo?

– É sim, Doutor, ele pôs toda vontade naquele pedido e foi dormir. No dia seguinte, no acordar, foi atarefado para a escola, e só procurou a sua caixa quando dela voltou, e lá dentro a sua esperança repousava cumprida: nela achou uma caixa vermelha como ele quisera.

– Uma espécie de Papai Noel fora do tempo o atendeu!

– Quem há que possa saber? Ele ficou um pouco em cismar se não teria sido seu avô, mas em nada não quis mais pensar, pois que mais de importância haveria diante de tanto a brincar com suas letrinhas?

– E depois, ele continuou pidão?

– Não, não quis abusar das graças do bom gênio, mas por duas outras vezes, na precisão de coisinhas pequenas, ele deixou as reticências e recorreu às suas palavras mágicas, e arranjou o que queria.

– Ah, um menino de muito juízo!

– Até que era, Doutor, mas de verdade foi mesmo que algo bem maior estava a ser alentado nos desvãos de sua cabeça, que estava em polvorosa como um bando de maritacas agitadas gritando ao mesmo tempo.

– Hum, agora é que fiquei mesmo curioso para saber o que foi esse algo.

– Ele estava a matutar: se com as letrinhas se podia conseguir formar tudo que existe no mundo, talvez que...

– Talvez o quê?

– E se de um grãozinhinho de mostarda surge uma árvore enormosa, será que se ele as suas letras plantasse...

– Plantar? Mas elas não eram de plástico?

– Não, eram deveras de madeira, então ele se acabrunhava a imaginar se poderia conseguir uma árvore.

– Uma árvore! Mas como seria? Ele queria plantar uma só letra?

– Não, Doutor, ele plantaria todas as letras em uma cova só. E assim ele fez, adubando bem a terra como seu pai fazia para as laranjeiras. Dispôs as letras em uma fila, pois ouvira dizer que era assim que acontecia para a vida de todo ser: uma fita de letrinhas que comandava tudo. E dia após dia, sem desatenção, ele cuidava da rega da cova.

– Chi, acho que ele vai ficar sem as suas letras ou elas vão ficar bem sujinhas.

– Se isso lhe causou tenção, ele nem deu bola, e perseverou nos seus cuidados. O tempo alongou no seu afobamento, mas foi-se, e, por sobre a cova, de verde apareceu um broto, e ele correu proclama pra todo mundo saber que sua árvore de letrinhas estava a vingar.

– É provável que por coincidência deve ter nascido algo ali.

– Ele nem pôs dúvida que seria a árvore de suas letras e continuou dela a cuidar como um jardineiro eficiente. E foi crescendo uma arvorezinha bem ligeiro. Todo dia ele fazia medição do vigor de sua planta, a ver se ela se alongava tesa e cheia de vida.

– Nem estou acreditando, Miguelim!

– E cresceu uma árvore espraiando vigorosos galhos, com uma copa enorme esparramada e com folhas grandes de um verde bem verde escuro.

– E o pai dele não sabia dizer que árvore era aquela?

– Não, Doutor, ninguém tinha ciência e só se deixavam ouvir especulações. Aí apareceram as flores, de todas as cores e de vários tamanhos.

– Acho, Miguilim, que esta história está tomando ares de muitas estranhezas.

– Abelhas voavam agitadas em toda a árvore sugando o néctar das flores, de muitos sabores diferentes a provar, e elas tinham, desenhadas nas pétalas, as todas letras do alfabeto. O menino, exultoso, catava as que caíam e muitas guardou dentro das páginas de livros. E os frutos começaram a se mostrar...

– Imagino, de todos os tipos!

– Tinha de tudo: frutos, legumes, muitas cápsulas espalhadas contendo dentro cereais, castanhas e grãos de muitos tipos; brinquedos, ah, muitos brinquedos, até uma bicicleta de vinte marchas; material escolar e livros; à noite, a árvore parecia um céu cheiinho de luzes; produzia roupas, e em um lado tinha um pano que brincava no vento; no tronco das árvores colavam-se pares de sapatos prontinhos...

– Poxa, quanta riqueza. E dinheiro, também havia pronto?

– Claro que não, Doutor, se tivesse, seria falso, não ia valer nada.

– E a árvore produziu por muito tempo?

– Nem sei ainda, já que minha leitura não está terminada, Doutor, mas acredito que assim deve de ser: uma vez que as letras foram bem plantadas, nunca mais devem parar de produzir, né?

– Com certeza, Miguilim, termine a sua leitura, aproveite bem as letras e as palavras, e boa noite.

-o-

















Nenhum comentário:

Postar um comentário