sábado, 19 de maio de 2018

Post Mortes



Post Mortes




Prolegômenos

A primeira vez que eu morri foi a única que me causou espanto. É, assim foi, pois na vida, e na morte, a gente se acostuma com tudo; nas outras vezes eu simplesmente morri, sem nenhuma comoção, até que me encontrei aqui, em um outro lado destes imensos universos, onde não posso ser alcançado pelos seus olhos. Lego-lhes este depoimento como um presente para que possam compreender um pouquinho os grandes mistérios desta dádiva divina. Espero que este lhes encontre em momento que possam já ter atingido uma idade da razão em que não o tornem uma bíblia, pois o tempo em que lhes  vai chegar às mãos não posso determinar, mas sei que pelo menos a escrita já terá sido inventada, e que a minha maltratada língua já terá sido separada do Lácio, pois só então ele poderá ser apreciado devidamente.

Não vejam nestas esperanças nenhuma incoerência, pois como está por mim mais que entendido em tantas vezes morrido, o tempo é um vai-e-vem concreto, não tendo um único sentido, sendo um mero produto do convencimento de nossas percepções e costumes pela luz em nossas consciências.

O maior temor que guardo comigo é que o momento, em que à luz vier esta obra de tanto esclarecimento, torne-o um inutensílio. Por que tenho este temor? Porque, quando ocorreu a minha primeira morte, a palavra escrita já estava tornando-se algo ultrapassada, substituída pela imagem em movimento, e os livros estavam tornando-se objeto de culto para alguns poucos. Longe, bem longe, estavam perdidas as palavras de Galileu Galilei: Ó irresistível sedução do livro, essa mercadoria sagrada! Corre água na boca, e as maldições se afogam (em Vida de Galileu de Bertolt Brecht).

Como uma espécie de artimanha para conseguir angariar um pouco daqueles leitores preguiçosos, vou procurar deixar minhas impressões em pequenos capítulos, que os possam não fatigar, esperando assim que, do modo como dizem sobre os grãos para as galinhas e outras aves mais, de capítulo em capítulo possam encher a mente das valiosas informações que lhes deixo.

Infelizmente este não é um tratado científico, e deixo avisado que não serão dadas informações que interessem a qualquer ciência, pois não se pode trazer, nem do futuro nem do passado, qualquer interferência no desenvolvimento do seu mundo.

E por que não escolhi um meio menos penoso e mais atraente para lhes deixar estas verdades? Problema tecnológico: os recursos que aqui tenho não lhes seria possível utilizarem, e a efemeridade dos seus meios de registro abre uma janela no tempo de pouca duração. O registro escrito ainda é o meio mais seguro para poder deixar-lhes esta obra de esclarecimento.

Estou um pouco atrapalhado em escolher um princípio, pois, depois de tantas vidas e mortes, tenho muitos cenários a correr-me pela memória. Para não os deixar muito curiosos, devo primeiro relatar-lhes como foi a minha primeira morte.



1.

Era um dia comum de um princípio de outono que nada prometia de especial. Ao levantar-me, o céu empedrado não prometia um sol muito eficiente, o que tornaria o meu dia mais acolhedor. Dormira pouco e mal, às voltas com os preparativos para um exame que exigia meus intestinos completamente vazios, os quais não vou relatar-lhes, pois é muita matéria pouco digna de menção.

Tudo correra na mais perfeita sincronia no consultório do médico afável e eficiente; a espera, que temia enfastiar-me, foi quase nenhuma. Logo fui levado para um quartinho, onde uma bela morena solicitou-me que trocasse a roupa por um avental, que deveria vestir deixando a abertura para trás. Feita a troca, que decerto me deixara na mais ridícula aparência, ela levou-me para a sala do exame.

Perguntas, que já respondera por escrito no exame que o médico me fizera, foram repetidas pela morena bonita, e, também depois, pela anestesista, fazendo-me nas ideias aquela coceira que já relatei sobre a obsolescência da palavra escrita.

Fui espetado para ser pendurado em soro, e a enfermeira pediu-me que virasse de lado e mantivesse as pernas dobradas, deixando-me nova sensação de ridículo com o traseiro bem disponível. Após virar-me, deparei-me com um relógio digital bem em frente dos meus olhos, talvez para lembrar-me da eficiente máquina que é a medicina, marcando naquele instante 09h:15. O mostrador do relógio se transformou em seguida em um vídeo, que mostrava o pulsar do meu coração com uns tracinhos saltitantes registrando o meu ritmo de vida.

Em cada tique, que me hipnotizava os ouvidos e os olhos, percorria uma vasta parte da minha vida, prova da impossível cadeia do tempo. Alguns instantes fiquei ali a registrar e a ouvir os sinais repetitivos do meu coração, enquanto a anestesista repetia-me as perguntas já respondidas, passando em seguida a arengar molemente que estava a injetar-me um algo que me deixaria sonolento, e um traço contínuo no vídeo substituiu as ondas, e o som do pulsar transformou-se em um estrilo constante.

Acabara de perceber que aquele traço era o sinal da minha morte, o que me causou o espanto.


2.

Achei-me flutuando sobre a cama onde meu corpo restava incomodando a enfermeira e a anestesista, que levaram um susto bem maior que o meu. Nenhum sentimento de inquietude me foi deixado pela perda daquele monte de carnes, que se tornou o objeto de cuidados daquelas duas. Passou-me pela? cabeça? Não, impossível, pois esta estava lá bem abaixo de mim sem nenhum sinal de pensamento; passou-me pelo nada do onde era minha cabeça um sentimento de pena pelas duas, mas tratei de afastar-me dali temendo que elas tivessem sucesso nos procedimentos de ressurreição, embora eu não fosse Lázaro, e nenhuma delas, Jesus, mas vai que conhecessem o bálsamo de Ferrabrás que o Quixote buscava.

Atravessei o que me pareceram as paredes do quarto e me vi, de repente, na sala de espera do consultório, onde a única discordância no calmo ambiente foi o sobressalto da recepcionista, que se levantara para verificar um barulho não comum de vozes indistintas, mais altas, proveniente das salas de exame. Minha esposa estava sentada, absorta na tela do seu celular, alheia a tudo que me acontecera. Acheguei-me bem em frente aos seus olhos, beijei-lhe a face e não quis ver os efeitos que sobreviriam.

Passei a sentir-me como um ator que tivesse um roteiro bem estudado, embora não soubesse em que momento o teria lido.

Entrei no túnel. Não sei onde estava o túnel, mas na verdade, como sempre vi relatado pelos que experimentaram a quase morte, ali estava eu caminhando em direção ao final do túnel, onde uma luz me atraía. Eu sei, eu sei, eu não tinha olhos para perceber a luz, mas o certo é que ela me atraía. Lembrei-me do meu aprendizado da Física: pareceu-me estar vivendo uma aventura através de um buraco de minhoca, que me levava a uma distante parte do universo, mas muito mais me lembrei do super-homem, o maravilhoso homem de aço, atravessando um vórtice que o levava a outro tempo, por isto aquela aventura deixou-me uma sensação de ter atingido os ideais de Nietzsche; não sei se estava confundindo o carro de Apolo com a barca de Caronte, mas não tinha mais onde conter a minha vontade de poder. Estava livre do meu antigo Eu?


3.

Quando saí do túnel achei-me num imenso salão que tinha a forma de um funil, pois eram inúmeros os portões de entrada por onde chegavam outros que como eu tiveram a felicidade de atravessar um túnel. Pareceu-me uma sala de embarque de um aeroporto invertida, pois o funil terminava em apenas duas portas de saída. Antes de passar por uma daquelas portas, seguimos por uma fila, que andava no ritmo de nossos passos, até que penetramos por um equipamento, não sei de que outro modo poderia me referir àquilo, pois minha linguagem limitava-se ainda ao que aprendera na Terra, onde um ser - seria um anjo? -, operava um visor. Uma espécie de outdoor exortava-nos - estava em português, ali deveria ser uma seção para a nossa gente ou haveria um eficiente tradutor automático que produzia aquela frase com uma espécie de laser, pois ela não se apoiava em nada - enfim, exortava-nos: “Faça sua contrição, você merece o Paraíso?”

Não me pareceu uma pergunta difícil de ser respondida, pois todos que pude observar seguiam em direção à porta de suas esperanças. Fui surpreendido por um alarido incomum naquele ambiente de paz quando, à minha frente, um outro pretendente foi empurrado, literalmente, por forças ocultas para a segunda porta. Gente! fiquei mais atônito quando reconheci quem causou aquela balbúrdia.

O que acontecia dentro daquele equipamento era que o anjo, decidi chamá-lo assim por força de minha formação judaico-cristã, tinha acesso ao registro cármico dos que por ali passavam. Os critérios para que ele aceitasse os nossos atos de contrição não eram tanto drásticos como por aí na Terra são proclamados, pois eu só pude perceber um ou outro ser empurrado para onde não queria ir.

Dizia eu, então, que fiquei surpreendido quando reconheci o infeliz que gritava provocando o alarido. Foi-me proibido declarar o seu nome, mas ouvi nitidamente os seus gritos de desespero:

– Não, eu não sabia de nada! É tudo armação da imprensa vendida! Foi a oposição que inventou tudo!

Por um momento fiquei curioso para saber o que havia atrás daquela porta por onde ele desapareceu, mas não tive muito tempo para elucubrações, pois cheguei no portal que devia atravessar. Ainda pude ouvir um outro penitente que também gritou ao ser empurrado:

– Eu nunca tive conta nenhuma na Suiça!


4.

O que havia atrás daquela porta?

Agora estava pensando na porta que me foi franqueada; da outra, fiquei a imaginar o que aconteceria com os que por lá saíram.

Entrei novamente em um equipamento que me pareceu uma costureira automática, que não sabendo de agulhas e linhas, cosia com átomos uma veste para abrigar o meu espírito desamparado. Enquanto meu corpo etéreo ia sendo reconstruído, passei a temer que cairia nas garras de seres vampirescos que me esperariam em uma paisagem úmida e escura do outro lado. Estes pensamentos obscuros foram apenas um lampejo, pois minha história de crença no amor divino prevaleceu, e minhas esperanças voltaram-se para encontrar um mundo de branda claridade, onde um sol eterno brilharia na Luz que entoava uma doce melodia.

Em poucos instantes senti o meu corpo completo. Teria eu a mesma aparência que tinha lá na Terra? Estendi minhas mãos e observei-as longamente, a forma era a mesma, nada a surpreender-me ou causar estranheza: os mesmos cinco dedos em cada uma como já estava acostumado, porém a pele não me pareceu semelhante à que tivera, tinha a mesma elasticidade, mas a sentia como se mais sintética; testei os meus movimentos, nada a recriminar; a cor era um marrom como me acostumara a ver nos indianos. Todo o meu corpo era como o conhecia, senti apenas falta das orelhas, pois os lados da minha cabeça eram perfeitamente lisos. Olhei ao redor para ver os outros seres, éramos ainda como os humanos, e todos tínhamos a mesma cor pardacenta.

Ainda ficando a esperar pela Luz dos meus desejos, fui conduzido por meus próprios pensamentos por um longo corredor que terminou entre paredes, que pareciam de vidro, pois a iluminação do ambiente não se via de onde provinha. Muitas cadeiras se espalhavam pela imensa sala, sentei-me. Aos meus olhos apareceu uma tela onde se formou a imagem de alguém; comecei a ouvir, dentro de minha cabeça:


5.

– Bem-vindo, sou o seu preceptor e tenho que prepará-lo para entrar em nosso mundo, dando-lhe informações que você vai precisar para adaptar-se da sua antiga vida terrena para este nosso planeta.

– E que planeta é este? – pensei.

– É o mesmo planeta Terra como o seu, apenas situado em outro universo que designamos como Universo1, pois o seu universo anterior é o universo-ovo, e nós o chamamos de Universo0, onde todos os seres humanos nascem, e, como já está sabendo, nascem para sempre, contrariamente ao que pensam os terrenos de ser a morte.

Aquele zerinho causou-me um princípio de comichão que tratei de apagar, pois logo percebi que bastava eu pensar para comunicar-me com ele. E ele prosseguiu:

– Você já deve ter-se apercebido que está de posse de todos os seus conhecimentos acumulados, de sua memória e de sua experiência, bem como de suas características psicológicas. Nada mudou, sua vida aqui em Terra1 é uma continuidade da anterior.

– E quantos anos eu tenho?

– Nenhum para o seu corpo, mas não faz sentido a pergunta em relação ao seu espírito. O corpo que você recebeu é também composto por células e foi construído conforme o DNA que você recebeu dos seus pais terrenos, que sofreu uma mutação para adaptar-se às características próprias deste mundo.

Estava curioso demais sobre o destino dos que saíram pela outra porta, e a pergunta passou pela minha mente.

– Os que foram levados por aquela outra porta foram os egoístas em excesso, que cometeram atos nefastos que causaram danos a milhares de pessoas. Foram considerados irrecuperáveis para esta vida e as vidas futuras. Como a ciência da Terra está descobrindo, o DNA sofre em seus genes um registro das experiências vividas, e aqueles DNA estavam irremediavelmente apodrecidos, contaminados por atos tão abjetos. E foram descartados.

– Era aquela a porta do Inferno?

– Não pode haver a menor coerência na invenção cruel que os maus predicadores criaram lá em Terra0. Um lugar de tortura eterna só poderia nascer de mentes avariadas, que também foram empurradas por aquela outra porta, que é uma espécie de incinerador, mas como não há matéria a queimar, elas são simplesmente descartadas, desaparecem, e isto não chega a ser uma punição, é uma medida profilática.

Estava já bastante feliz e pacificado com toda a coerência que estava encontrando naquele mundo1, e um leve sorriso passou a fazer parte do meu novo ser1, driblando a minha anterior ironia0.


6.

Minhas ideias sobre o que encontraria naquela vida estavam já bastante abaladas, se não havia punições nem exaltações, como seriam as religiões?

– Nada existe por aqui semelhante às religiões da sua vida terrena0 original.

– E, desculpe-me a ignorância, e Deus?

– O que você chama de Deus?

– O Criador dos Universos.

– Sobre o mistério da criação não saberei nada esclarecer, ainda para nós segue sendo um mistério, pois sequer sabemos se houve um início, mas sabemos que um ser onipotente, que dirige todos os universos, que cuida pessoalmente de nossos atos e necessita ser adorado, é uma invenção muita primitiva0. O Ser Primordial é uma força que nos atrai a viver vidas em direção a nos tornarmos sempre mais perfeitos, para sermos um com ele; e para fazer o caminho contamos com a vigilância oculta de seres altamente evoluídos.

Não entendi se ele assim acreditava ou se tinha certeza.

– Ao entrarmos aqui neste mundo, passamos a saber que a morte realmente não existe, e perdemos as angústias que poderíamos ter em relação ao futuro.

– Então vamos viver para sempre?

– Isto também não é verdade, você não é mais o mesmo0 que se conhecia antes, o seu corpo é ainda composto de células vivas, e a vida não pode ser para sempre.

– Então morrerei outra vez?

– Então morrerás muitas outras vezes, e a vida do seu corpo será renovada para adequar-se, a cada vez, aos seus novos predicados.

– E quanto tempo viverei aqui?

– O acaso é uma propriedade do seu DNA. Como se pode saber o futuro? e o que importa?

– Então este corpo é ainda sujeito a doenças e a velhice?

– O seu corpo é vida. Imagine se aqui todos pudessem viver indefinidamente, logo teríamos uma superpopulação, e as consequências seriam gravíssimas.


7.

Estava começando a perceber a lógica da criação, que sobrepunha tudo o que até então pudera imaginar, mas muitas dúvidas surgiam nos meandros dos meus novos neurônios.

– Se você deixar esta confusão de pensamentos alvoroçados, eu poderei tentar tirá-lo de suas dúvidas.

– Estou curioso em saber o que acontece com os seres, não sei mais como referir-me a eles, que lá na Terra0 morrem com uma vida incompleta: que não pôde realizar-se.

– Quando os registros indicam que não houve vida necessária para que os terrenos, continuamos a chamá-los assim, possam adquirir os dons para neste mundo se adaptarem, eles lá retornam.

– Mas por que acontecem essas mortes precoces, e mesmo de bebês nascituros?

– A vida não é perfeita, o corpo da mãe pode falhar, ou o DNA do bebê pode não funcionar corretamente, mas ele terá a oportunidade de ser corrigido.

– Você diz que o DNA é preservado? onde e como? Ele não é criado no momento da fecundação?

– Por que a sua dúvida? É um mistério que não sabemos responder e talvez nunca saberemos, mas por que duvidar se do nada pôde nascer tudo que conhecemos? Por tudo que nossa ciência pôde inferir, uma parte do DNA, a que é preservada, vem de uma outra dimensão, nascida do nada que não sabemos definir o que é, talvez... possamos denominá-lo... Natura naturans... Deus.

– E eles chegam aqui através daquele túnel que eu também percorri e depois voltam?

– Não, o caminho é diferente, pois requerem mais cuidados. Temos nossos enfermeiros especializados para deles cuidar.

– E eu terei um ofício a exercer?

– Sim, você passará por alguns anos de estudos para adaptar-se. Saindo deste salão, você será recebido por alguém que o levará para a sua família de adoção.

– Alguém que eu conheci?

– É provável, mas não garantido, pois os laços familiares aqui são mais tênues, são como os dos animais terrenos: cuida-se enquanto necessidade existe. Pode ser alguém que lhe foi bem próximo, depende da carga de obrigação dos que aqui já estão e, também, do tempo decorrido de chegada.

Estava ainda bem confuso, mas aliviado.

– Minha tarefa foi apenas dar-lhe algumas informações para ajudar a sua adaptação, espero ter sido feliz. Em nome de toda a nossa gente, seja bem-vindo. Siga por aquela porta para inaugurar a sua nova vida.


8.

Senti-me bastante excitado no que iria encontrar além daquela porta. Apressei-me em percorrer a distância que dela me separava. Atravessei-a.

Um sol ameno coloria com uma luz levemente amarelada os contornos de uma enorme cidade. Do alto de uma escadaria pude contemplar o quadro que me serviria de cenário. Embaixo, uma praça colorida de verde de todos os matizes de árvores e plantas, 
disciplinadamente organizadas, espalhava-se pelos lados de uma aleia larga. Puxei uma longa respiração para acostumar-me àquele ar que me revigorava.

Demorei um pouco a entender a estranheza que me deixou por algum tempo ali parado. Olhei demoradamente para todos os lados a procurar o que me deixava aquela sensação de falta, mas era um estranhamento que me causava um sentimento de alívio, de relaxamento... até que finalmente... a calma!... um mundo feito de silêncio! Levei as mãos às minhas orelhas, que não mais existiam, e vi que isso era bom: o silêncio puro é o paraíso.

Ao pé da escada alguém me acenava, convidando-me a descer. Sorri, e descendo fui dele aproximando-me. Embora toda a diferença de pele e formato do rosto, as feições não me enganaram.

Recebeu-me com um abraço delicado ao qual correspondi com um mais eufórico.

– Pai, como é bom encontrá-lo novamente!

Ele olhou-me ternamente, sorria de maneira afetuosa.

– É muito bom tê-lo aqui aos meus cuidados mais uma vez, pela graça que nos permitiu por muitos acasos nos revermos, mas a relação de consanguinidade que nos uniu na Terra0 não mais existe, seremos, junto com os demais membros e pelo tempo que lhe for necessário, uma família, até que você esteja preparado para assumir os deveres de apadrinhamento.

Poderia parecer que aquela recepção, até mesmo fria, teria um efeito de   causar-me decepção, após os longos anos de ausência e saudade, mas nada disso aflorou-me, eu estava condicionado a recebê-la com naturalidade. Senti que minhas emoções estavam sob controle de uma mente pouco propensa a deixar-se levar pela ansiedade.

– Venha, puxou-me pelo braço suavemente, vamos tomar um transporte para irmos para casa.

Levou-me até uma pequena construção que abrigava um daqueles, para mim, incompreensíveis aparelhos. Tocou em uma tela traçando um itinerário sobre um mapa. Uma espécie de carro parou ao lado alguns segundos depois; subimos e o carro seguiu o caminho traçado. Meu padrinho, assim ele pediu-me para tratá-lo, ao longo do trajeto mostrou-me as diversas construções e suas utilidades. O percurso foi rápido, e chegamos no que seria meu lar por um longo tempo.


9.

Não vou deter-me a descrever um apartamento que nada tinha de diferente ao que me era familiar, o inusitado eram os aparelhos que não deixavam de me causar espanto, nada supérfluo, todos de utilidade prática.

Conheci ao longo do dia os demais membros da minha família: minha madrinha, a companheira atual de meu pai, uma pessoa de simpatia incomum e de uma irradiação de benevolência que me envolveu em uma sensação de um doce amor; meus três irmãos, estudantes como eu, dedicados a aprender as ciências daquele mundo, em estágios diferentes de estudos e de especialidades.

Em meu quarto encontrei tudo o que necessitaria para desenvolver os meus estudos. Quando lá entrei, fui recebido com as boas vindas de uma tela que ocupava toda uma parede, e as informações continuaram a me serem passadas. Foi-me dada a gentileza de escolher o ambiente do meu quarto, ocasional, pois poderia modificá-lo a minha vontade sempre que quisesse, pois ali seria o lugar principal da minha vida de estudante. Poderia estar em uma sala de estudos na presença de professor e outros alunos, poderia entrar em um jardim para relaxamento e exercícios, poderia escolher o clima e paisagem à vontade; apenas um toque naquela parede e o ambiente holográfico era transformado.

As primeiras aulas que tive foi uma continuação das informações que precisava para adaptar-me aos novos padrões. Fiquei sabendo que todas as minhas necessidades pessoais poderiam ser satisfeitas por um crédito anual que eu deveria administrar com parcimônia, suficiente para uma vida cômoda. Era uma cota comum a todos as pessoas, e, para a quase totalidade delas, não causava nenhuma escassez. Eu teria ampla liberdade de usar meus créditos, mas, se cometesse excessos, as consequências teria que sofrer:

– Como você já sabe, os desejos incontrolados levam ao vício, e consequentemente a um distanciamento dos nossos objetivos maiores de nos aproximarmos do Ser Primordial. Não pedimos sacrifícios, pois cada um tem o que necessita, mas aquele de vontade desregrada mostra uma mente ainda despreparada para seguir no caminho da evolução, e aqui neste estágio deverá viver quantas vidas necessitar para aprender, repetindo-as o quanto for necessário.

– E quando eu me tornar capaz de exercer um trabalho, receberei mais créditos?

– Não, o trabalho é um direito, mas também um dever. Devemos executá-lo sempre no objetivo de crescimento individual, visando a nossa vida futura. A indolência leva também à repetição desta etapa da vida.

– E o que acontece com os que cometem crimes?

– Só há crimes possíveis contra outra pessoa: coação, ferimentos e, mesmo, mortes, porém são poucos. Os que os cometem são levados a instituições que lhes fornecerão todos os meios para se recuperarem, ou terão que repetir esta etapa da vida. 


10.

Fiquei longo tempo a vasculhar as opções que me eram oferecidas para estudo, embora já tivesse em mente os meus objetivos de exercer o que não me foi possível na minha vida0.
Passeei ali no quarto pelo novo mundo que me era oferecido e me encantei com tudo. 

Assaltou-me a curiosidade sobre a questão do amor...


A título de esclarecimento:

Este documento foi encontrado em uma antiga biblioteca descoberta sob as ruínas de uma cidade soterrada. Nada mais foi possível recuperar do resto das páginas, totalmente consumidas pelos insetos.


-o-

Adélia Prado:

 “Saberemos viver uma vida melhor que esta, quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos? Depois da morte eu quero o que seu vácuo abrupto fixou na minha alma. Quando eu ressuscitar, o que eu quero é a vida repetida sem o perigo da morte, os riscos todos, a garantia: à noite estaremos juntos...”




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