O
quadro sobre a mesa
A mesa já deve ter bem mais de um século, fora protagonista
de muitas reuniões da família: minha avó na cabeceira, cabelos grisalhos, a
falar saudades, filhos e netos ao redor; assim era a fotografia que estava
pendurada em nenhum lugar, mas que impressionava indelevelmente o filme de
nossas memórias. Depois, minha avó também se tornou saudades, as reuniões
escassearam e foram a óbito, restando as filhas na casa antiga.
A casa foi tornando-se sempre mais decrépita. Arrumar o que
era inarrumável não fazia as tias felizes, queriam novas paredes e,
principalmente, chão novo firme em que se pudesse pisar sem medo de afundar no
vazio. Eu tinha para mim que o vazio era mais o das lembranças que do medo do
desfazer-se o assoalho podre.
As tias mudaram, ganharam casa nova velha, embora mais
caçula, e, se a firmeza era maior, os ares ficaram mais sombrios e apertados. Eu
fiquei na certeza que a troca foi péssima, pois perdi grande parte da minha
infância. A mesa não cabia naquelas paredes mínimas, e foi levada para a casa
de meu pai.
Os anos foram comidos pelos cupins que não afetaram aquela
madeira nobre, e sua serventia continuou a valer à nova geração da família,
ainda grande por muitos filhos, que aos poucos foram dispersando-se. À mesa
restou saudades dos seus tempos de glória dos almoços e jantares sem cadeiras
vazias.
A nova casa das tias, de exígua, foi passando a espaçosa,
as tias foram encolhendo, e, no encolher, desfizeram-se, livrando-se da solidão
em espaçadas viagens.
Levou algum tempo para que se pudesse perceber que uma das
cadeiras vazias de solidão ao redor da mesa pesasse um tanto mais que as
demais. O intrigante peso da cadeira fez-se assunto predileto quando
visitávamos nossos pais. Um dia, por diversão, que não podia deixar
transparecer a meu pai que o fazia a sério, para não ouvir recriminação de
idiotice, tendo alguns irmãos reunidos, quis demonstrar que era o peso de uma
alma que fazia a diferença. Propus que fizéssemos uma experiência: que dois de
nós, um de cada lado, levantássemos uma irmã, utilizando força abaixo dos seus cotovelos
dobrados em ângulo reto.
Foi com relativa facilidade que conseguimos suspendê-la.
Depois, sugeri que ela pensasse firmemente que era muito pesada, que não
poderíamos tirá-la um milímetro do chão. Tornamos então a fazer força para
suspendê-la, e, nada. Por mais que tentássemos, não conseguimos. E, ainda em
tom de galhofa, disse que era o peso da alma, assim como devia estar
acontecendo com a cadeira mais pesada, embora a cadeira não se esforçasse para
impedir que fosse levantada. E as brincadeiras continuaram, sob o olhar sério
de meu pai, sugerindo que fosse este ou aquele espírito que ali tomara lugar.
Noite avançada, todos em seus quartos, luzes apagadas. Só a
luz da lua penetrando na janela da sala mostrava os contornos dos móveis.
Levantei-me para ir ao banheiro, como costume, sem acender luz alguma. Ao voltar
para a copa, aquela cadeira mais pesada que as demais, não estava vazia. Por
estar familiarizado com tais fenômenos estranhos aos olhos de terceiros, não me
abalei. Os olhos pequeninos por serem acostumados a lentes pesadas, que agora
faltavam, foram o que logo reconheci, e, ao acostumar-me com o escuro, os
cabelos claros, que destoavam com o resto da família, eliminaram as minhas
dúvidas mal instaladas.
A figura, parecendo-me carregar uma tristeza pesada de
longa data, fez-me um gesto com a mão convidando-me a sentar.
– Sabia que você não se assustaria, por isso resolvi
deixar-me ver por você.
– Tia, por que estás aqui? por que não te desligaste deste
mundo infeliz?
– Não pude livrar-me de minha tristeza por tanto incômodo
ter causado as minhas queridas irmãs, tenho estado por todo o tempo aqui
sentada, neste hiato de tempo entre estes dois mundos, na esperança de poder
novamente reunir-me com elas, como sempre fazíamos ao redor desta mesa, para
desfiar um rosário de desculpas por tudo.
Ela se mostrava para mim com sua roupa de devota do Sagrado
Coração de Jesus, como sempre a via a ir para a igreja, carregando seu livro de
orações, mas sem o véu negro que costumava usar. Tentei consolá-la:
– Mas se elas às vezes deixavam uma tristeza transparecer
com a situação, nunca te incriminaram, sabendo que era tudo produto de tua
doença, que nenhuma intenção ou culpa terias.
– Ah, mas isso só foi porque elas eram bondosas em demasia,
mas sei a enorme carga que suportaram por causa da minha incontinência. Sabe,
eu nunca queria falar daquela maneira, mas não tinha domínio algum sobre o que
me ia pela boca, era como se fosse obrigada a soltar tanta besteira.
– É, tia, a gente nem entendia como podias saber tantas
palavras sujas, ficávamos impressionados com o repertório, e era na presença de
qualquer um, não poupavas crianças, estranhos e nem padres.
– Tenho tanta vergonha! Foi um grande alívio livrar-me
daquela mente doente e privar minhas manas da minha pestilenta presença.
– Talvez, tia, fosse apenas para que a santidade delas
ainda mais aflorasse, quem sabe lhes terias legado um lugar mais precioso?
– Sei apenas que estou por aqui a esperar, sem coragem de
ir prestar contas de meus atos.
– Estou um pouco preocupado que alguém mais acorde ouvindo
nossa conversa.
– Não, ninguém acordará, estou cuidando disto.
– Ah, então tens algum poder sobre os vivos?
– Alguns, mas não posso usar à vontade, usei-os para que
pudesse obter algum alívio com você.
– E por que não os usou com meu pai?
– Eu não conseguiria, perto dele eu nem conseguia soltar as
minhas bobagens, acho que também agora o respeito me tornaria muda, além do
mais, seria difícil chegar a ele, devido as suas convicções.
– E como poderia eu ajudá-la?
– Da mesma forma que eu pude mostrar-me para você, as meninas
também poderiam, pois você tem uma grande capacidade de percepção deste nosso
mundo.
– Mas eu não sei como poderia chamá-las.
– Nem é preciso, a sua força já está transmitindo-lhes o
nosso apelo, e espero que a mesa possa atraí-las para nos sentarmos novamente
ao seu redor.
Vi os olhos pequeninos abrirem-se com grande alegria ao
sentir a presença de outro vulto surgindo, e outro, e mais outro. Logo éramos
cinco ao redor da mesa.
A efusão que demonstramos entre nós não permanece entre
espíritos, pois a alegria que todas mostravam só era perceptível pelas suas
faces. Permaneci apenas como um espectador inativo naquele quadro de
reencontros e desculpas que nem quiseram ser escutadas. Não se apercebiam de
mim e juntas se foram envoltas na mais pura alegria. Apenas ouvi um murmúrio
apagando-se lentamente:
– Obrigado!
Quando elas desapareceram, levantei-me e virei-me para
voltar ao quarto. Surpreendi-me ao ver escondido, atrás da parede ao lado da
porta, meu pai:
– Fui acordado por um sonho com a minha mãe que me disse
que agora estava muito feliz, pois a paz voltara a imperar para suas filhas.
Levantei-me atraído por vozes que ouvi surgir daqui.
– E ouviu toda a conversa?
– Conversa? Vi apenas você falando sozinho como se
estivesse conversando com alguém.
– E ouviu o que eu dizia?
– Não, era tudo um imbróglio, e fiquei aqui estarrecido e
preocupado com o seu estado.
– Não há com que se preocupar, pai, está tudo resolvido.
Antes de entrar em meu quarto, vi que ele estava levantando
aquela cadeira, avaliando o seu peso; pousou-a, e levantou uma outra. Ouvi que
ele falou, dando uma sacudida nos ombros:
– Devo ter ficado impressionado.
E sempre que passo por aquela porta, vejo gravado na parede
defronte, sobre a mesa, um quadro que apenas eu posso ver, fotografia daquele
momento de perdão e alegria.
-o-

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