Três
esquinas
A cabeça da Rua da Capivara deita sobre um travesseiro na
ladeira que faz a Rua Dr. Monteiro, deixando seu corpo rígido traçar um T e
criando duas esquinas que suportam casas nada orgulhosas. Pelo ombro direito
sobe-se para o Campo de Aviação, e, nos tempos aqui relatados, bem antes do
topo, uma outra esquálida rua pelo lado esquerdo dava acesso à mina onde água
boa fresca podia ser colhida, onde também terminava o calçamento. O resto da
subida, enrugada e maltratada, não permitia acesso aos carros; pelo lado
direito, muitas vias serviam de suporte para as sofridas moradias cobertas de
sapé, que coloriam o morro com a melancolia que traz a pobreza. Por esta ladeira
desciam muitas tristezas sufocadas pela vergonha, e também outras alardeadas
incontroladamente.
Nossa casa postava-se como uma sentinela que vigiava a
esquina, ali, bem antes de fazer a curva. Sobre a curva, um boteco se sustinha com
os pinguços que desciam o morro e com picolés não muito apreciados, mas que os
poucos trocados obtidos conseguiam tornar prazerosos nas tardes tórridas, além
de guardar na casa ao lado, os nada indefectíveis adversários, meninos vizinhos
guardados à chave, que perturbavam nossa vizinhança, audaciosos sob a proteção
que tinham por detrás das janelas, onde se penduravam, de um rápido grito pela
mãe, que chegava trazendo na boca todas as pedras que a mão não podia atirar.
A rua chegava ali como se viesse para uma prosinha regada à
cachaça com os habituais fregueses do Seu Manoel, outro boteco que lhe barrava
o caminho à frente, e ali parava à espera do Pinga-Fogo, freguês assíduo de
todos os domingos. Semana toda a passar com a massa na mão, correndo paredes e
outras miudezas no seu ofício de pedreiro, domingo tirava folga para devanear e
passar a limpo o cansaço e a falta de esperança. Enfatuado com sua roupa
domingueira de ver Deus, fato branco impecável colorindo a pele negra, digno
chapéu na cabeça, descia o morro ainda em passos firmes. Mas se o destino final
algum dia foi a Matriz, agora era esse boteco, onde dançavam os copos ardentes
do esquecer. E milagre mesmo acontecia, transformando o alvanel em insigne
orador; e este subia no púlpito que a ladeira lhe oferecia e despejava discurso
para desatentos ouvintes, que já não prestavam cuidados, amortecidos da
surpresa por ser contumaz o quadro. Ao meio-dia o boteco era fechado e os
fregueses dispersos; sumia o Pinga-Fogo, talvez para o recanto de sua pobre
morada, para emudecer os disparates, pois na segunda cedo seria a cachaça do
trabalho.
Aquela ladeira alimentou uma grande fome, ou lhe deu
início, pois, bem ali no seu joelho esquerdo, a casa da Leila abrigava
preciosidades, que bem antes de ir para a escola me despertaram a vontade de
ler e conhecer tudo o que pudesse pôr os olhos: as histórias em quadrinhos.
Estas ainda não eram os gibis que mais à frente seriam minhas grandes alegrias
e meus maiores tormentos, eram preferencialmente contos de fadas, ou de
bichinhos, como dizíamos, e em profusão, que delicadamente ela emprestava para
que me pudesse extravasar no aprendizado das letras.
Em frente à casa da Leila, uma outra família estava bem
presente em nossa vida, de um outro pedreiro, o Tião, com uma penca de filhos,
que por terrível brincadeira de Deus chegavam aos pares, deixando a mãe mais
parecida com um daqueles animaizinhos carregando a prole pendurada nas costas.
O Tião, que costumava chamar-me carinhosamente de primo rico, embora estivéssemos
só uns poucos centímetros na proximidade
de sua indigência, sem envergar um terno branco, também se entregava ao excesso
da cachaça, mas este era silencioso ao liquefazer-se e, na consciência de sua
triste sorte, que procurava afogar, um dia me disse: “a maior invenção do homem
é a cachaça, porque permite que a gente esqueça tudo”.
Abaixo da casa do Tião, fazendo a outra esquina das duas
ruas, um sobrado antigo erguia-se tentando rivalizar sua altura com as casas
que estavam em nível mais elevado. Ao rés do chão, nele morava um artesão do
couro, que fazia trabalhos de selaria, e uma porta abria sua oficina para a Rua
da Capivara. Na parte superior do sobrado funcionava o Centro Espírita Bezerra
de Menezes, acho que era este o nome, mas com certeza era um centro onde
reuniões noturnas acendiam nossa curiosidade sobre o que nelas acontecia.
Vivendo em família de profunda tradição católica, éramos proibidos de especular
sobre tais assuntos, pela mãe e pelas tias, e pela incredulidade de meu pai
sobre assuntos de conversas com espíritos, que cortava nossas perguntas
taxando-os de pura besteira. Mas, ali tão próximos, estávamos sempre à mercê de
ouvir dos meninos mais velhos, supostamente mais expertos, relatos estranhos de
mãos que saíam detrás de cortinas ou de sons de vozes e outros barulhos saídos
do nada, assuntos um tanto arrepiantes, principalmente nas noites escuras sem a
energia elétrica, que nos tempos-criança era como um vaga-lume.
Em um domingo como outro qualquer encharcado de discursos
bêbados, já enxugados após o almoço mais trabalhado que os dias comuns, que
trouxe o sempre esperado arroz de forno, macarronada e frango, estando a
esperar o nada que um dia ensolarado nos afugentava da rua, e talvez a seguir
na televisão uma corrida dos Fittipaldis na Fórmula Um, a modorra que imperava
foi sacudida por um assombroso barulho vindo da rua, jamais ouvido tão
ensurdecedor, que não se fazia explicar o que seria.
Já o
susto me fizera pular do assento e ir ver o acontecido. Ao pisar na varanda,
uma nuvem de poeira dela tomara conta, quase nada mais permitindo ver. Tapando
a boca e protegendo os olhos, cheguei ao portão para apenas ver, sob a cortina
espessa de poeira, a rua entulhada de escombros, pedaços de paredes, tijolos e
telhas: a parte superior do sobrado tinha-se desfeito desabrigando todos os
espíritos que ali tinham seu lar. Talvez pela consciência deles, a parte de
baixo não foi afetada, provocando apenas um susto ao senhor artesão que ali morava,
que a memória não me deixa lembrar o nome.
Os
espíritos sem teto, alvos de nossas brincadeiras e piadas sobre aquele
acontecimento inusitado, talvez tenham sofrido uma necessidade de transformação,
aproveitando um vento leve soprado sobre o telhado do sobrado, que trouxe
aquele último segundo de tolerância, para uma rebelião.
Talvez
o sobrado se tenha esquecido do martelar incessante dos raios do sol e da lua,
que só o presente pressente, esquecendo como se um nada fosse os muitos anos de
sua decrepitude formada na terceira esquina daquelas duas ruas com a rua do senhor
tempo, que possivelmente não substituiu aquela pedra do calçamento onde deixei
um bom pedaço da pele de meu dedão do pé.
Ou terá
sido inveja da perenidade do T, que tantos anos passados ainda lá está,
modificado, com novos personagens que nada sabem ou lembram da minha vizinhança
da infância, perdida na terceira esquina.
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