sábado, 30 de junho de 2018

Três esquinas



Três esquinas




A cabeça da Rua da Capivara deita sobre um travesseiro na ladeira que faz a Rua Dr. Monteiro, deixando seu corpo rígido traçar um T e criando duas esquinas que suportam casas nada orgulhosas. Pelo ombro direito sobe-se para o Campo de Aviação, e, nos tempos aqui relatados, bem antes do topo, uma outra esquálida rua pelo lado esquerdo dava acesso à mina onde água boa fresca podia ser colhida, onde também terminava o calçamento. O resto da subida, enrugada e maltratada, não permitia acesso aos carros; pelo lado direito, muitas vias serviam de suporte para as sofridas moradias cobertas de sapé, que coloriam o morro com a melancolia que traz a pobreza. Por esta ladeira desciam muitas tristezas sufocadas pela vergonha, e também outras alardeadas incontroladamente.

Nossa casa postava-se como uma sentinela que vigiava a esquina, ali, bem antes de fazer a curva. Sobre a curva, um boteco se sustinha com os pinguços que desciam o morro e com picolés não muito apreciados, mas que os poucos trocados obtidos conseguiam tornar prazerosos nas tardes tórridas, além de guardar na casa ao lado, os nada indefectíveis adversários, meninos vizinhos guardados à chave, que perturbavam nossa vizinhança, audaciosos sob a proteção que tinham por detrás das janelas, onde se penduravam, de um rápido grito pela mãe, que chegava trazendo na boca todas as pedras que a mão não podia atirar.

A rua chegava ali como se viesse para uma prosinha regada à cachaça com os habituais fregueses do Seu Manoel, outro boteco que lhe barrava o caminho à frente, e ali parava à espera do Pinga-Fogo, freguês assíduo de todos os domingos. Semana toda a passar com a massa na mão, correndo paredes e outras miudezas no seu ofício de pedreiro, domingo tirava folga para devanear e passar a limpo o cansaço e a falta de esperança. Enfatuado com sua roupa domingueira de ver Deus, fato branco impecável colorindo a pele negra, digno chapéu na cabeça, descia o morro ainda em passos firmes. Mas se o destino final algum dia foi a Matriz, agora era esse boteco, onde dançavam os copos ardentes do esquecer. E milagre mesmo acontecia, transformando o alvanel em insigne orador; e este subia no púlpito que a ladeira lhe oferecia e despejava discurso para desatentos ouvintes, que já não prestavam cuidados, amortecidos da surpresa por ser contumaz o quadro. Ao meio-dia o boteco era fechado e os fregueses dispersos; sumia o Pinga-Fogo, talvez para o recanto de sua pobre morada, para emudecer os disparates, pois na segunda cedo seria a cachaça do trabalho.

Aquela ladeira alimentou uma grande fome, ou lhe deu início, pois, bem ali no seu joelho esquerdo, a casa da Leila abrigava preciosidades, que bem antes de ir para a escola me despertaram a vontade de ler e conhecer tudo o que pudesse pôr os olhos: as histórias em quadrinhos. Estas ainda não eram os gibis que mais à frente seriam minhas grandes alegrias e meus maiores tormentos, eram preferencialmente contos de fadas, ou de bichinhos, como dizíamos, e em profusão, que delicadamente ela emprestava para que me pudesse extravasar no aprendizado das letras.

Em frente à casa da Leila, uma outra família estava bem presente em nossa vida, de um outro pedreiro, o Tião, com uma penca de filhos, que por terrível brincadeira de Deus chegavam aos pares, deixando a mãe mais parecida com um daqueles animaizinhos carregando a prole pendurada nas costas. O Tião, que costumava chamar-me carinhosamente de primo rico, embora estivéssemos só  uns poucos centímetros na proximidade de sua indigência, sem envergar um terno branco, também se entregava ao excesso da cachaça, mas este era silencioso ao liquefazer-se e, na consciência de sua triste sorte, que procurava afogar, um dia me disse: “a maior invenção do homem é a cachaça, porque permite que a gente esqueça tudo”.

Abaixo da casa do Tião, fazendo a outra esquina das duas ruas, um sobrado antigo erguia-se tentando rivalizar sua altura com as casas que estavam em nível mais elevado. Ao rés do chão, nele morava um artesão do couro, que fazia trabalhos de selaria, e uma porta abria sua oficina para a Rua da Capivara. Na parte superior do sobrado funcionava o Centro Espírita Bezerra de Menezes, acho que era este o nome, mas com certeza era um centro onde reuniões noturnas acendiam nossa curiosidade sobre o que nelas acontecia. Vivendo em família de profunda tradição católica, éramos proibidos de especular sobre tais assuntos, pela mãe e pelas tias, e pela incredulidade de meu pai sobre assuntos de conversas com espíritos, que cortava nossas perguntas taxando-os de pura besteira. Mas, ali tão próximos, estávamos sempre à mercê de ouvir dos meninos mais velhos, supostamente mais expertos, relatos estranhos de mãos que saíam detrás de cortinas ou de sons de vozes e outros barulhos saídos do nada, assuntos um tanto arrepiantes, principalmente nas noites escuras sem a energia elétrica, que nos tempos-criança era como um vaga-lume.

Em um domingo como outro qualquer encharcado de discursos bêbados, já enxugados após o almoço mais trabalhado que os dias comuns, que trouxe o sempre esperado arroz de forno, macarronada e frango, estando a esperar o nada que um dia ensolarado nos afugentava da rua, e talvez a seguir na televisão uma corrida dos Fittipaldis na Fórmula Um, a modorra que imperava foi sacudida por um assombroso barulho vindo da rua, jamais ouvido tão ensurdecedor, que não se fazia explicar o que seria.

Já o susto me fizera pular do assento e ir ver o acontecido. Ao pisar na varanda, uma nuvem de poeira dela tomara conta, quase nada mais permitindo ver. Tapando a boca e protegendo os olhos, cheguei ao portão para apenas ver, sob a cortina espessa de poeira, a rua entulhada de escombros, pedaços de paredes, tijolos e telhas: a parte superior do sobrado tinha-se desfeito desabrigando todos os espíritos que ali tinham seu lar. Talvez pela consciência deles, a parte de baixo não foi afetada, provocando apenas um susto ao senhor artesão que ali morava, que a memória não me deixa lembrar o nome.

Os espíritos sem teto, alvos de nossas brincadeiras e piadas sobre aquele acontecimento inusitado, talvez tenham sofrido uma necessidade de transformação, aproveitando um vento leve soprado sobre o telhado do sobrado, que trouxe aquele último segundo de tolerância, para uma rebelião.

Talvez o sobrado se tenha esquecido do martelar incessante dos raios do sol e da lua, que só o presente pressente, esquecendo como se um nada fosse os muitos anos de sua decrepitude formada na terceira esquina daquelas duas ruas com a rua do senhor tempo, que possivelmente não substituiu aquela pedra do calçamento onde deixei um bom pedaço da pele de meu dedão do pé.

Ou terá sido inveja da perenidade do T, que tantos anos passados ainda lá está, modificado, com novos personagens que nada sabem ou lembram da minha vizinhança da infância, perdida na terceira esquina.

-o-




sexta-feira, 15 de junho de 2018

Vaga-lumes



Vaga-lumes






Como meus compromissos profissionais não me permitem outro horário, faço minhas corridas à noite, próximo das nove horas, pela rua que margeia o rio.  Ontem, quando estava além das últimas casas, onde a iluminação acaba, pois a rua se transforma em estrada, um gemido chamou-me a atenção sobre um corpo deitado embaixo de uma árvore.

A princípio receoso, aproximei-me para verificar: era uma criança encolhida, tremendo de frio naquela noite gelada. Enrolada como estava, a blusa de nylon que eu vestia serviu-lhe para cobri-la toda.

– O que você está fazendo aqui?

– Nada, moço, – a voz era muito débil – num tô fazendo nada, não.

– Por que não está em sua casa?

– Não tenho mais casa, fugi porque não aguentava mais as surras de pai.

– Vamos, vou levá-lo para um lugar quentinho – tentei pegá-lo nos braços.

– Aaaai! Não, moço, num mexe em mim, está tudo doendo.

– Doendo? Onde?

– Aqui dentro.

Fiquei desorientado, sem saber como agir. Deixá-lo ali para procurar ajuda? Não podia. Tocando seu rosto percebi ainda que ele ardia em febre. Deitei-me ao seu lado abraçando-o para lhe transmitir mais calor.

– Por que você está aqui neste lugar frio e úmido?

– Por causa das estrelinhas brilhantes que tem aqui.

– Estrelinhas brilhantes?

– Voando por aí.

Foi então que percebi que ele falava dos vaga-lumes que voavam em volta de nós.

– São vaga-lumes, bichinhos que voam e emitem uma luzinha.

– Por quê?

– A luzinha? É para atrair um parceiro.

– Mas como pode acender a luzinha?

– Bom, vou contar-lhe uma estória que minha avó me contou quando eu era criança assim como você:

Nos tempos quando Jesus era criança, brincando à noite próximo a sua casa, ele ouviu, pois conhecia a língua dos bichinhos, dois grilos a cricrilar.

– Que bonitas são as estrelas, voando lá no céu a brilhar! – disse um grilo.

– Muito lindo, que bom seria se pudéssemos voar bem alto!

– E brilhar como as estrelas! Poderíamos colorir o céu com muitas luzes.

Jesus achou bonitas as ideias dos grilos e resolveu fazer uma travessura atendendo as suas vontades. Deu-lhes as asas vigorosas para voarem e a luciferina, que lhes permitiria emitir a luz, não só aos dois, mas a todos os grilos que por ali existissem e desejassem ser uma estrelinha. Ao se verem assim transfigurados, os grilos encheram o céu noturno de luzinhas brilhantes.

Um menino, maravilhado de ver as estrelinhas, dormiu e sonhou. Sonhou que estava rodeado por muitos vaga-lumes que voavam ao seu redor e pediu a Jesus que também lhe permitisse ser como uma estrelinha brilhante. Sua alma deixou-o e, tornada um facho de luz, brincou com os vaga-lumes e voou... voou bem alto para ser uma estrelinha no céu.

Minha estória terminada, o menino dormia. Tinha parado de tremer, percebi aliviado, e estava sonhando, pensei. Alguns minutos passados, seu sonho encheu-se de luz. Tomei seu bracinho, não senti seu pulso. Ele dormia, sereno, para não mais acordar.

Voltei meus olhos para o céu e uma estrela brilhante piscava com muita intensidade. Em meio a minhas lágrimas, um sorriso se fez em mim. Tomei-o nos braços e fui caminhando, ainda sem saber o que faria com o seu corpinho.

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sábado, 9 de junho de 2018

Anunciação



Anunciação






Maria cumpria suas tarefas com muita seriedade. Até demais, pois lhe diziam que não precisava ser tão exagerada em cuidar de todos os detalhes. Mesmo nos seus momentos de folga, ela se esforçava para fazer o seu lazer o mais relaxante e gostoso, foi por isto que, quando veio a saber de um grande sábio vidente, resolveu procurá-lo para saber se o seu futuro lhe traria as alegrias dos seus sonhos, também sonhados com muitos cuidados.

Não era longe de sua morada o lugar onde o sábio atendia aos curiosos e perdidos, ficava na clareira larga da reserva florestal que se estendia por ali.

Querendo aproveitar a sua folga, Maria foi procurar o sábio. Encheu-se de esperança ao chegar em sua cabana. O sábio lhe perguntou a que vinha, e ela lhe disse de sua vontade de saber de seus sonhos, e esperava que ele lhe fizesse a anunciação do mais belo deles.

– De sonhos não sei te dizer, podes sonhar como queiras, mas vejo que o teu amanhã será de muito apuro com teus trabalhos e receberás muitos elogios. Vejo, também, que um novo hábito aparecerá em tua vida, pois amanhã estarás aqui outra vez.

Maria não perdeu as esperanças, voltou para casa imaginando que no amanhã o sábio lhe poderia revelar algo que os seus sonhos queriam.

No dia seguinte, na hora de sua folga, Maria dirigiu-se novamente para a floresta. O sábio a recebeu sem nenhuma surpresa e lhe perguntou a que vinha.

Maria não falou de sonhos, disse que queria saber o que a vida lhe reservaria.

– Da vida te posso dizer que amanhã será um novo dia, faz o teu trabalho com a costumeira maestria, e, amanhã, quem sabe a vida te sorria.

A esperança de Maria era um vício, nada lhe faria desistir dos seus sonhos.

Amanhã, Maria fugia à floresta para ouvir o sábio lhe falar do amanhã.

Amanhã, Maria corria à floresta para ver o sábio e saber do amanhã.

Assim, dia após dia, Maria ouvia os elogios e as possibilidades do amanhã. Já estava tão habituada com o esperar, que não se dava conta do vento a soprar o tempo.

Até que um dia, ao chegar na clareira da floresta, não encontrou o sábio nem a cabana, nada por ali havia do que estava acostumada. Maria se desesperou, que seria do seu amanhã?

Maria não voltou para casa, perdeu-se na floresta. Não mais se soube de Maria nem do seu amanhã.

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