Vaga-lumes
Como meus compromissos profissionais não me permitem outro
horário, faço minhas corridas à noite, próximo das nove horas, pela rua que
margeia o rio. Ontem, quando estava além
das últimas casas, onde a iluminação acaba, pois a rua se transforma em
estrada, um gemido chamou-me a atenção sobre um corpo deitado embaixo de uma
árvore.
A princípio receoso, aproximei-me para verificar: era uma
criança encolhida, tremendo de frio naquela noite gelada. Enrolada como estava,
a blusa de nylon que eu vestia serviu-lhe para cobri-la toda.
– O que você está fazendo aqui?
– Nada, moço, – a voz era muito débil – num tô fazendo
nada, não.
– Por que não está em sua casa?
– Não tenho mais casa, fugi porque não aguentava mais as
surras de pai.
– Vamos, vou levá-lo para um lugar quentinho – tentei
pegá-lo nos braços.
– Aaaai! Não, moço, num mexe em mim, está tudo doendo.
– Doendo? Onde?
– Aqui dentro.
Fiquei desorientado, sem saber como agir. Deixá-lo ali para
procurar ajuda? Não podia. Tocando seu rosto percebi ainda que ele ardia em
febre. Deitei-me ao seu lado abraçando-o para lhe transmitir mais calor.
– Por que você está aqui neste lugar frio e úmido?
– Por causa das estrelinhas brilhantes que tem aqui.
– Estrelinhas brilhantes?
– Voando por aí.
Foi então que percebi que ele falava dos vaga-lumes que
voavam em volta de nós.
– São vaga-lumes, bichinhos que voam e emitem uma luzinha.
– Por quê?
– A luzinha? É para atrair um parceiro.
– Mas como pode acender a luzinha?
– Bom, vou contar-lhe uma estória que minha avó me contou
quando eu era criança assim como você:
Nos tempos quando Jesus era criança, brincando à noite
próximo a sua casa, ele ouviu, pois conhecia a língua dos bichinhos, dois
grilos a cricrilar.
– Que bonitas são as estrelas, voando lá no céu a brilhar!
– disse um grilo.
– Muito lindo, que bom seria se pudéssemos voar bem alto!
– E brilhar como as estrelas! Poderíamos colorir o céu com
muitas luzes.
Jesus achou bonitas as ideias dos grilos e resolveu fazer
uma travessura atendendo as suas vontades. Deu-lhes as asas vigorosas para
voarem e a luciferina, que lhes permitiria emitir a luz, não só aos dois, mas a
todos os grilos que por ali existissem e desejassem ser uma estrelinha. Ao se
verem assim transfigurados, os grilos encheram o céu noturno de luzinhas
brilhantes.
Um menino, maravilhado de ver as estrelinhas, dormiu e
sonhou. Sonhou que estava rodeado por muitos vaga-lumes que voavam ao seu redor
e pediu a Jesus que também lhe permitisse ser como uma estrelinha brilhante.
Sua alma deixou-o e, tornada um facho de luz, brincou com os vaga-lumes e
voou... voou bem alto para ser uma estrelinha no céu.
Minha estória terminada, o menino dormia. Tinha parado de
tremer, percebi aliviado, e estava sonhando, pensei. Alguns minutos passados, seu
sonho encheu-se de luz. Tomei seu bracinho, não senti seu pulso. Ele dormia,
sereno, para não mais acordar.
Voltei meus olhos para o céu e uma estrela brilhante
piscava com muita intensidade. Em meio a minhas lágrimas, um sorriso se fez em
mim. Tomei-o nos braços e fui caminhando, ainda sem saber o que faria com o seu
corpinho.
-o-

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