sexta-feira, 15 de junho de 2018

Vaga-lumes



Vaga-lumes






Como meus compromissos profissionais não me permitem outro horário, faço minhas corridas à noite, próximo das nove horas, pela rua que margeia o rio.  Ontem, quando estava além das últimas casas, onde a iluminação acaba, pois a rua se transforma em estrada, um gemido chamou-me a atenção sobre um corpo deitado embaixo de uma árvore.

A princípio receoso, aproximei-me para verificar: era uma criança encolhida, tremendo de frio naquela noite gelada. Enrolada como estava, a blusa de nylon que eu vestia serviu-lhe para cobri-la toda.

– O que você está fazendo aqui?

– Nada, moço, – a voz era muito débil – num tô fazendo nada, não.

– Por que não está em sua casa?

– Não tenho mais casa, fugi porque não aguentava mais as surras de pai.

– Vamos, vou levá-lo para um lugar quentinho – tentei pegá-lo nos braços.

– Aaaai! Não, moço, num mexe em mim, está tudo doendo.

– Doendo? Onde?

– Aqui dentro.

Fiquei desorientado, sem saber como agir. Deixá-lo ali para procurar ajuda? Não podia. Tocando seu rosto percebi ainda que ele ardia em febre. Deitei-me ao seu lado abraçando-o para lhe transmitir mais calor.

– Por que você está aqui neste lugar frio e úmido?

– Por causa das estrelinhas brilhantes que tem aqui.

– Estrelinhas brilhantes?

– Voando por aí.

Foi então que percebi que ele falava dos vaga-lumes que voavam em volta de nós.

– São vaga-lumes, bichinhos que voam e emitem uma luzinha.

– Por quê?

– A luzinha? É para atrair um parceiro.

– Mas como pode acender a luzinha?

– Bom, vou contar-lhe uma estória que minha avó me contou quando eu era criança assim como você:

Nos tempos quando Jesus era criança, brincando à noite próximo a sua casa, ele ouviu, pois conhecia a língua dos bichinhos, dois grilos a cricrilar.

– Que bonitas são as estrelas, voando lá no céu a brilhar! – disse um grilo.

– Muito lindo, que bom seria se pudéssemos voar bem alto!

– E brilhar como as estrelas! Poderíamos colorir o céu com muitas luzes.

Jesus achou bonitas as ideias dos grilos e resolveu fazer uma travessura atendendo as suas vontades. Deu-lhes as asas vigorosas para voarem e a luciferina, que lhes permitiria emitir a luz, não só aos dois, mas a todos os grilos que por ali existissem e desejassem ser uma estrelinha. Ao se verem assim transfigurados, os grilos encheram o céu noturno de luzinhas brilhantes.

Um menino, maravilhado de ver as estrelinhas, dormiu e sonhou. Sonhou que estava rodeado por muitos vaga-lumes que voavam ao seu redor e pediu a Jesus que também lhe permitisse ser como uma estrelinha brilhante. Sua alma deixou-o e, tornada um facho de luz, brincou com os vaga-lumes e voou... voou bem alto para ser uma estrelinha no céu.

Minha estória terminada, o menino dormia. Tinha parado de tremer, percebi aliviado, e estava sonhando, pensei. Alguns minutos passados, seu sonho encheu-se de luz. Tomei seu bracinho, não senti seu pulso. Ele dormia, sereno, para não mais acordar.

Voltei meus olhos para o céu e uma estrela brilhante piscava com muita intensidade. Em meio a minhas lágrimas, um sorriso se fez em mim. Tomei-o nos braços e fui caminhando, ainda sem saber o que faria com o seu corpinho.

-o-


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