Pousada
da Lua
O carro, após acompanhar o muro que se estendia ao longo da
estrada, virou à esquerda e foi bloqueado por um grande portão de ferro; acima
deste uma grande placa com fundo azul mostrava uma faixa branca, sustentada por
dois anjos voando, onde em letras azuis se lia: Pousada da Lua; o anjo da
esquerda estava identificado como o Arcanjo Miguel; o da direita, Gabriel. O senhor,
sentado ao lado do motorista, escondeu o desconforto que lhe despertou a mísera
expressão artística da placa, enquanto o porteiro cuidava da identificação dos
passageiros. O pesado portão rolou vagarosa e ruidosamente escondendo-se atrás
do muro.
Um gramado bem cuidado alegrava a paisagem entrecortado por
árvores esparsas e canteiros variados com arbustos e flores cuidadosamente
dispostos. O caminho para os prédios traçava uma curva pavimentada com duas
fileiras de pedras que davam acesso a uma área de estacionamento, sombreado na
entrada por um ipê amarelo em pleno florescimento, e mais atrás uma paineira
espalhava fios brancos sobre os carros. Um recepcionista empertigado, todo
vestido de branco, já estava ao lado do carro logo que este parou:
– Boa tarde, senhor Marco Antônio, fez boa viagem?
– Boa? Sim, muito boa, muito agradável.
– Que bom, nossa equipe estará a sua inteira disposição
para lhe proporcionar uma estadia de muita comodidade, todos nos esforçaremos
para melhor servir as suas necessidades.
– Obrigado por tanta gentileza.
– Acredito que o senhor ainda não tenha almoçado.
– Exato.
– O horário de almoço já está quase no final, permita-me convidá-lo
então a se dirigir direto ao restaurante antes mesmo de preencher a ficha de
recepção, que eu irei providenciar, e depois lá a levarei para o senhor.
– Agradeço de coração, pois estou realmente faminto.
– Por favor, por aqui.
Atravessando a sala de recepção subiram uma escada à
direita que dava acesso ao restaurante no piso superior. Ele escolheu uma mesa ao
lado das amplas janelas que se abriam para o gramado por onde chegara. Ainda
havia muitas pessoas terminando as suas refeições, a mistura de vozes cobrindo
as várias mesas causou-lhe um certo enfado. Logo, um atendente se apresentou.
– Boa tarde, senhor, não temos muitas opções a oferecer-lhe
devido ao adiantado da hora, seria de seu agrado um bife de peito de frango
grelhado, acompanhado de batata sauté, arroz e alface?
– Parece-me bastante satisfatório.
– O senhor aceitaria uma bebida?
– Apenas água, por favor.
Enquanto esperava ser servido, seu olhar curioso percorreu as
diversas mesas analisando as fisionomias mais próximas. Cumprimentou com um
aceno de cabeça alguns que seu olhar cruzava, deteve-se um pouco mais intrigado
sobre uma jovem cujas vestes leves lembraram-lhe as representações das mulheres
gregas nos teatros: um vestido branco e leve terminando acima dos joelhos, tendo
um fino cordão dourado a marcar sua cintura graciosa, e, acima deste, um grande
decote em v lhe realçava os seios. Um sorriso amplo que emoldurava um belo
rosto tornava-a extremamente atraente. Ela tinha nas mãos um cervo de pelúcia
que em alguns momentos ela abraçava aconchegando-o ao seu rosto, o que lhe dava
uma graça quase infantil. Cortando o seu devaneio, sua comida foi logo trazida.
Já estava a terminar seu almoço quando a jovem se aproximou
de sua mesa com um jeito brejeiro; ele a olhou visivelmente agradecido com o
interesse que ela demonstrava.
– Oi, o senhor chegou hoje?
– Acabo de chegar, ainda nem me acomodei em meu
apartamento.
– Eu sou a Diana.
– Fico feliz em conhecê-la, Diana, eu sou o Marco Antônio.
– E este é o Actéon – ela disse apertando o cervo sobre o
ombro direito em seu rosto.
– Actéon? Julgava que ele havia morrido dilacerado pelos dentes
dos seus próprios cães.
– Não, não foi assim que aconteceu, isso foi uma lenda que
se criou tentando impor-me um sentimento de crueldade que jamais foi um dos
meus atributos. Minhas ninfas espantaram os cães que o atacaram, eu o resgatei,
e ele está sempre comigo, dando-me carinho e amor.
– E é verdade que você lhe jogou a água da fonte no rosto?
– A minha eterna virgindade não podia ser profanada sequer
pelos olhos de um mortal, por isto atirei-lhe a água no rosto e o transformei, para
impedir que espalhasse a voz que viu toda a minha nudez, porém, ele não teve
culpa de aparecer descuidado em meu banho.
– Achava que a lenda havia sido difundida pelos seus dotes
de caçadora implacável.
– Ah, eu não me importei que fosse assim enaltecida. O
prazer de uma caçada é um presente que faço aos homens intrépidos que a mim se
dirigem pedindo minha bênção para obter boas presas.
– E as vítimas indefesas, a quem devem pedir proteção?
– Não me importa, é somente um jogo de prazer: a luta entre
a força da fera e a inteligência.
– Ah, sim. Na realidade é um jogo desproporcional, diria
mesmo, covarde, em usar ardis para vencer as restritas habilidades inatas dos
animais. E, talvez, Actéon tenha sido levado à caverna por um desejo
inconsciente de punição pelos seus muitos crimes contra suas pobres vítimas,
pelo remorso deixado pelo prazer da matança, que dobrava os seus joelhos no
gozo de ver uma fera cair por terra sob as suas flechas: o desejo sob a
fortaleza do caçador de tornar-se a caça, de ver o ego arrogante sucumbir sob a
sua própria violência.
– Ah, que trágico! Os homens me criaram com os meus dons e
minhas funções de proteção, e o meu dever de proteger as meninas é uma
atribuição a que dediquei muito empenho, por isso puni Actéon. Sempre fui
atenta aos excessos dos ardores masculinos, mas também presenteei os que
mereciam. Em agradecimento, os homens dedicaram-me o mais belo dos templos, em
Éfeso, e sinto-me feliz em poder retribuir os sacrifícios que me são feitos.
– Vejo
que em ti os muitos anos passados não arrefeceram o ardor, e nem lhe trouxeram
o mínimo de penitência, como a que dobrou o vento Zéfiro a embalar o Jacinto
após o seu trágico gesto de ciúmes.
– Não
tenho tempo para emoções vulgares.
– A
altivez ainda é a mesma, mas percebo agora que está carregando a sua aljava,
vazia, e por que não tem o seu arco poderoso?
– Não é permitido portar armas por aqui, as flechas e o
arco me foram confiscados.
Neste momento eles foram interrompidos por um outro hóspede:
um senhor de baixa estatura, dono de um corpo largo, quase mesmo configurando uma
bola, e uma careca vistosa desnudando a parte superior da cabeça; portava um
sorriso de lua cheia na face redonda que só os excessivamente providos de massa
gordurosa possuem.
– Diana, podia me apresentar para o seu novo amigo? –
interpelou o senhor.
– Oh claro, Bastian, este é o Sr. Marco Antônio; e este
gordinho aqui é o meu amigo Bastian Baltazar Bux.
– Muito prazer, Bastian, você tem retornado a Fantasia?
– Ele nunca saiu de lá, – foi Diana quem respondeu – depois
que ele cresceu e perdeu todos os desejos, o Michael o colocou aqui na Pousada.
– Ah, que bom, Bastian, aqui é bem organizado; eu sempre
temi que você, adulto, ficasse preso e desorientado no mundo caótico da Cidade
dos Antigos Imperadores, desmemoriado e carregando um balde na cabeça ou
qualquer outro apetrecho de maluco.
– Eu perdi o AURIN, perdi minhas lembranças, perdi o livro.
– Mas não todas as lembranças, pois ainda se lembra que as
teve.
– Perdi todos os meus desejos! Não invento mais estórias
nem nomes, a única coisa que me sobrou é viver aqui, mas sou bem feliz.
– Então você gosta muito daqui?
– Gosto muito, é a minha nova Fantasia.
– Todos nós gostamos muito, – interrompeu Diana – e daqui
ninguém vai embora, pois ninguém quer deixar este pequeno mundo, este pedaço de
alegria.
– Oh, fico feliz de participar desta paz.
O recepcionista apareceu e interrompeu a conversa.
Apresentando uma ficha de registro, pediu ao senhor Antônio que conferisse se
tudo estava de acordo e assinasse.
– Ah, o senhor usa também um apelido, – Diana comentou lendo
sobre o seu ombro – Adalberto Figueiredo da Silva.
– É assim que escondo minha identidade perante o mundo
real.
Da mesa ao lado, um casal acompanhava a conversa com
visível interesse. Enquanto o recepcionista agradecia e se despedia, o senhor
se manifestou:
– Ora, vejo que o senhor Antônio é uma pessoa de muitos
saberes.
– Marco Antônio, por favor! E sim, sou toda uma vida de
estudos e muita leitura.
– Espero que possamos entreter muitas conversas
interessantes.
– E quem é o senhor?
– Augusto! Mas como você, escondo minha identidade sob o
nome de Paulo Roberto Guimarães. Te
noscere gaudeo.
Marco Antônio nada mostrou do prazer que Augusto falou, o
latinório o deixou alerta, olhou-o já mostrando no rosto uma expressão
alterada, suas faces arderam desfazendo aquele ar simpático com que até então
recebera todos os que se aproximaram.
– Augusto? e de onde vens?
– Admira-me que não saibas das minhas grandes conquistas
como o primeiro imperador de Roma.
– Ah, meu sangue ferve de indignação! E voltaste, moleque
insolente, para atormentar-me mais uma vez?
– Tua queda sobre a tua espada enfraquecida pelo amor da
serpente do Nilo não foi digna de nosso embate, frustrou minha sede de acabar
eu mesmo com a tua arrogância.
Marco Antônio levantou-se de ímpeto, transtornado:
– Não ousaste enfrentar-me, e fugiste ao meu desafio, agora
verás.
– Meu ouvido não é latrina para acumular os dejetos da tua
boca imunda, e muito breve vou enterrá-lo novamente na lama podre do Nilo.
– Diana, ajuda-me a calar os uivos desse lobo demente!
E se lançou sobre Augusto. Os dois caíram no chão enrolando-se
num combate feroz, atraindo todos os presentes que num círculo ao redor dos
contendores torciam alucinadamente.
Dois funcionários de branco logo apareceram portando
camisas de força. Tiveram alguma dificuldade para atravessar a barreira
alucinada, mas imobilizaram os dois, retirando-os do restaurante. Pôde-se ouvir
os seus comentários:
– Que estranho, Miguel, foi-nos dito que ele era tranquilo
e não apresentava risco nenhum.
– Mas bem nos foi alertado que ele tinha uma rixa antiga com
um certo Augusto.
– Mas logo o senhor Augusto, tão cordato, qual seria o
problema?
– Ah, sei lá, Gabriel. problemas de vidas passadas,
provavelmente.
– Pode ser, é bem provável.
– o–