sábado, 28 de julho de 2018

A Dança da Fantasia


              A Dança da Fantasia
















Tempo...

Houve tanto tempo.

Tempo... Tempo... Tempo...

O Amor andou maltrapilho, coxo, desgrenhado, arrastando-se

pelas inúmeras salas do seu Templo.

Queria-se cego para não ver suas dolorosas feridas.

Queria-se surdo para não ouvir a ruína de suas entranhas.

Queria-se mudo para poder esquecer-se de chorar.

Tempo...

Por falta do fogo as paredes cobriram-se de úmido esquecimento.

Por falta de alento as janelas fecharam-se ao vento.

Por falta de sombras Aurora não se fez mais acalentar.

Por não falta da dor

o Silêncio

cobriu o Templo

de escuridão sem fundo.

Tempo...

Quando Tudo já era o Nada,

da ausência do seu dote tremeluziu um Tique.

Um sopro? Um murmúrio?  Uma voz? Que falou?

Vinda longe de longe

chocalhou o esquecimento

dos sentidos.

O Amor se fez movimento a procurar o eco.

Uma sombra surgiu no mais escuro calabouço.

Sacudiu as paredes dos fechados ouvidos.

Atormentou as negras cortinas dos olhos.

Destravou os dentes cerrados do amargor.

Sempre...

Eco vibrando as paredes úmidas do Templo.

Aqui...

Sempre aqui...

Sempre aqui... Sempre aqui...

O Amor percebeu naquele canto remoto o nascer daquele Ser

florescendo a cantar

Sempre... Sempre... Sempre...

A Lua lembrou-se do Templo e despejou seus raios sobre o Ser.

O Amor reconheceu

a Fantasia.

Ela lhe estendeu os braços em um convite de dança.

O Sol inundou o Templo de Luz colorindo os acordes de uma valsa.

O Amor dançou nos braços da Fantasia.

Marchetou todas as dobradiças enferrujadas

ouvindo a Música a lhe repetir

Sempre... Sempre... Sempre...

Nos rodopios da dança

no enlaçarem-se no frêmito de vida

um fruto... ousou massacrar a infertilidade:

a Compaixão.

Acalentado nos braços do seu penhor de entrega.

Esquecido de toda a amargura do seu Eu.

O Amor soltou-se dos braços da Fantasia

e dançou a sua recompensa.

E dançou...

E sorriu...

E iluminou o seu Templo.

A Fantasia se liquefez

não devendo mais Ser.

Entregou-se às ondas que murmuravam no vento

Sempre... Sempre... Sempre...

Sempre... Sempre...

Sempre...

...

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Pousada da Lua



Pousada da Lua





O carro, após acompanhar o muro que se estendia ao longo da estrada, virou à esquerda e foi bloqueado por um grande portão de ferro; acima deste uma grande placa com fundo azul mostrava uma faixa branca, sustentada por dois anjos voando, onde em letras azuis se lia: Pousada da Lua; o anjo da esquerda estava identificado como o Arcanjo Miguel; o da direita, Gabriel. O senhor, sentado ao lado do motorista, escondeu o desconforto que lhe despertou a mísera expressão artística da placa, enquanto o porteiro cuidava da identificação dos passageiros. O pesado portão rolou vagarosa e ruidosamente escondendo-se atrás do muro.

Um gramado bem cuidado alegrava a paisagem entrecortado por árvores esparsas e canteiros variados com arbustos e flores cuidadosamente dispostos. O caminho para os prédios traçava uma curva pavimentada com duas fileiras de pedras que davam acesso a uma área de estacionamento, sombreado na entrada por um ipê amarelo em pleno florescimento, e mais atrás uma paineira espalhava fios brancos sobre os carros. Um recepcionista empertigado, todo vestido de branco, já estava ao lado do carro logo que este parou:

– Boa tarde, senhor Marco Antônio, fez boa viagem?

– Boa? Sim, muito boa, muito agradável.

– Que bom, nossa equipe estará a sua inteira disposição para lhe proporcionar uma estadia de muita comodidade, todos nos esforçaremos para melhor servir as suas necessidades.

– Obrigado por tanta gentileza.

– Acredito que o senhor ainda não tenha almoçado.

– Exato.

– O horário de almoço já está quase no final, permita-me convidá-lo então a se dirigir direto ao restaurante antes mesmo de preencher a ficha de recepção, que eu irei providenciar, e depois lá a levarei para o senhor.

– Agradeço de coração, pois estou realmente faminto.

– Por favor, por aqui.

Atravessando a sala de recepção subiram uma escada à direita que dava acesso ao restaurante no piso superior. Ele escolheu uma mesa ao lado das amplas janelas que se abriam para o gramado por onde chegara. Ainda havia muitas pessoas terminando as suas refeições, a mistura de vozes cobrindo as várias mesas causou-lhe um certo enfado. Logo, um atendente se apresentou.

– Boa tarde, senhor, não temos muitas opções a oferecer-lhe devido ao adiantado da hora, seria de seu agrado um bife de peito de frango grelhado, acompanhado de batata sauté, arroz e alface?

– Parece-me bastante satisfatório.

– O senhor aceitaria uma bebida?

– Apenas água, por favor.

Enquanto esperava ser servido, seu olhar curioso percorreu as diversas mesas analisando as fisionomias mais próximas. Cumprimentou com um aceno de cabeça alguns que seu olhar cruzava, deteve-se um pouco mais intrigado sobre uma jovem cujas vestes leves lembraram-lhe as representações das mulheres gregas nos teatros: um vestido branco e leve terminando acima dos joelhos, tendo um fino cordão dourado a marcar sua cintura graciosa, e, acima deste, um grande decote em v lhe realçava os seios. Um sorriso amplo que emoldurava um belo rosto tornava-a extremamente atraente. Ela tinha nas mãos um cervo de pelúcia que em alguns momentos ela abraçava aconchegando-o ao seu rosto, o que lhe dava uma graça quase infantil. Cortando o seu devaneio, sua comida foi logo trazida.

Já estava a terminar seu almoço quando a jovem se aproximou de sua mesa com um jeito brejeiro; ele a olhou visivelmente agradecido com o interesse que ela demonstrava.

– Oi, o senhor chegou hoje?

– Acabo de chegar, ainda nem me acomodei em meu apartamento.

– Eu sou a Diana.

– Fico feliz em conhecê-la, Diana, eu sou o Marco Antônio.

– E este é o Actéon – ela disse apertando o cervo sobre o ombro direito em seu rosto.

– Actéon? Julgava que ele havia morrido dilacerado pelos dentes dos seus próprios cães.

– Não, não foi assim que aconteceu, isso foi uma lenda que se criou tentando impor-me um sentimento de crueldade que jamais foi um dos meus atributos. Minhas ninfas espantaram os cães que o atacaram, eu o resgatei, e ele está sempre comigo, dando-me carinho e amor.

– E é verdade que você lhe jogou a água da fonte no rosto?

– A minha eterna virgindade não podia ser profanada sequer pelos olhos de um mortal, por isto atirei-lhe a água no rosto e o transformei, para impedir que espalhasse a voz que viu toda a minha nudez, porém, ele não teve culpa de aparecer descuidado em meu banho.

– Achava que a lenda havia sido difundida pelos seus dotes de caçadora implacável.

– Ah, eu não me importei que fosse assim enaltecida. O prazer de uma caçada é um presente que faço aos homens intrépidos que a mim se dirigem pedindo minha bênção para obter boas presas.

– E as vítimas indefesas, a quem devem pedir proteção?

– Não me importa, é somente um jogo de prazer: a luta entre a força da fera e a inteligência.

– Ah, sim. Na realidade é um jogo desproporcional, diria mesmo, covarde, em usar ardis para vencer as restritas habilidades inatas dos animais. E, talvez, Actéon tenha sido levado à caverna por um desejo inconsciente de punição pelos seus muitos crimes contra suas pobres vítimas, pelo remorso deixado pelo prazer da matança, que dobrava os seus joelhos no gozo de ver uma fera cair por terra sob as suas flechas: o desejo sob a fortaleza do caçador de tornar-se a caça, de ver o ego arrogante sucumbir sob a sua própria violência.

– Ah, que trágico! Os homens me criaram com os meus dons e minhas funções de proteção, e o meu dever de proteger as meninas é uma atribuição a que dediquei muito empenho, por isso puni Actéon. Sempre fui atenta aos excessos dos ardores masculinos, mas também presenteei os que mereciam. Em agradecimento, os homens dedicaram-me o mais belo dos templos, em Éfeso, e sinto-me feliz em poder retribuir os sacrifícios que me são feitos.

– Vejo que em ti os muitos anos passados não arrefeceram o ardor, e nem lhe trouxeram o mínimo de penitência, como a que dobrou o vento Zéfiro a embalar o Jacinto após o seu trágico gesto de ciúmes.

– Não tenho tempo para emoções vulgares.

– A altivez ainda é a mesma, mas percebo agora que está carregando a sua aljava, vazia, e por que não tem o seu arco poderoso?

– Não é permitido portar armas por aqui, as flechas e o arco me foram confiscados.

Neste momento eles foram interrompidos por um outro hóspede: um senhor de baixa estatura, dono de um corpo largo, quase mesmo configurando uma bola, e uma careca vistosa desnudando a parte superior da cabeça; portava um sorriso de lua cheia na face redonda que só os excessivamente providos de massa gordurosa possuem.

– Diana, podia me apresentar para o seu novo amigo? – interpelou o senhor.

– Oh claro, Bastian, este é o Sr. Marco Antônio; e este gordinho aqui é o meu amigo Bastian Baltazar Bux.

– Muito prazer, Bastian, você tem retornado a Fantasia?

– Ele nunca saiu de lá, – foi Diana quem respondeu – depois que ele cresceu e perdeu todos os desejos, o Michael o colocou aqui na Pousada.

– Ah, que bom, Bastian, aqui é bem organizado; eu sempre temi que você, adulto, ficasse preso e desorientado no mundo caótico da Cidade dos Antigos Imperadores, desmemoriado e carregando um balde na cabeça ou qualquer outro apetrecho de maluco.

– Eu perdi o AURIN, perdi minhas lembranças, perdi o livro.

– Mas não todas as lembranças, pois ainda se lembra que as teve.

– Perdi todos os meus desejos! Não invento mais estórias nem nomes, a única coisa que me sobrou é viver aqui, mas sou bem feliz.

– Então você gosta muito daqui?

– Gosto muito, é a minha nova Fantasia.

– Todos nós gostamos muito, – interrompeu Diana – e daqui ninguém vai embora, pois ninguém quer deixar este pequeno mundo, este pedaço de alegria.

– Oh, fico feliz de participar desta paz.

O recepcionista apareceu e interrompeu a conversa. Apresentando uma ficha de registro, pediu ao senhor Antônio que conferisse se tudo estava de acordo e assinasse.

– Ah, o senhor usa também um apelido, – Diana comentou lendo sobre o seu ombro – Adalberto Figueiredo da Silva.

– É assim que escondo minha identidade perante o mundo real.

Da mesa ao lado, um casal acompanhava a conversa com visível interesse. Enquanto o recepcionista agradecia e se despedia, o senhor se manifestou:

– Ora, vejo que o senhor Antônio é uma pessoa de muitos saberes.

– Marco Antônio, por favor! E sim, sou toda uma vida de estudos e muita leitura.

– Espero que possamos entreter muitas conversas interessantes.

– E quem é o senhor?

– Augusto! Mas como você, escondo minha identidade sob o nome de Paulo Roberto Guimarães. Te noscere gaudeo.

Marco Antônio nada mostrou do prazer que Augusto falou, o latinório o deixou alerta, olhou-o já mostrando no rosto uma expressão alterada, suas faces arderam desfazendo aquele ar simpático com que até então recebera todos os que se aproximaram.

– Augusto? e de onde vens?

– Admira-me que não saibas das minhas grandes conquistas como o primeiro imperador de Roma.

– Ah, meu sangue ferve de indignação! E voltaste, moleque insolente, para atormentar-me mais uma vez?

– Tua queda sobre a tua espada enfraquecida pelo amor da serpente do Nilo não foi digna de nosso embate, frustrou minha sede de acabar eu mesmo com a tua arrogância.

Marco Antônio levantou-se de ímpeto, transtornado:

– Não ousaste enfrentar-me, e fugiste ao meu desafio, agora verás.

– Meu ouvido não é latrina para acumular os dejetos da tua boca imunda, e muito breve vou enterrá-lo novamente na lama podre do Nilo.

– Diana, ajuda-me a calar os uivos desse lobo demente!

E se lançou sobre Augusto. Os dois caíram no chão enrolando-se num combate feroz, atraindo todos os presentes que num círculo ao redor dos contendores torciam alucinadamente.

Dois funcionários de branco logo apareceram portando camisas de força. Tiveram alguma dificuldade para atravessar a barreira alucinada, mas imobilizaram os dois, retirando-os do restaurante. Pôde-se ouvir os seus comentários:

– Que estranho, Miguel, foi-nos dito que ele era tranquilo e não apresentava risco nenhum.

– Mas bem nos foi alertado que ele tinha uma rixa antiga com um certo Augusto.

– Mas logo o senhor Augusto, tão cordato, qual seria o problema?

– Ah, sei lá, Gabriel. problemas de vidas passadas, provavelmente.

– Pode ser, é bem provável.
– o–

sábado, 7 de julho de 2018

Contingências



Contingências




Recuerda, pues, o sueña tú, alma mía
— la fantasía es tu sustancia eterna —
lo que no fue;
con tus figuraciones hazte fuerte,
que eso es vivir, y lo demás es muerte
(Miguel de Unamuno)

O ano era o fatídico 1968: os nossos quinze anos regozijavam-se da próxima conclusão do ginasial, no Colégio N. Sra. das Graças, enquanto a agitação estudantil incendiava o país e o mundo. Sem ainda nos preocuparmos com a situação política do país, cuidávamos principalmente do futuro dos nossos estudos no ciclo médio, que teríamos logo à frente, pois a perspectiva de fazê-los em Miracema não era muito promissora.

Setembro. O Deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso na Câmara após a ocupação da Universidade de Brasília pelos militares: “...que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas”. A contundente frase aludia ao episódio das mulheres paulistas na citada guerra, similar ao que era retratado na peça que estava sendo encenada em São Paulo, a Lisístrata, uma comédia grega antiga, de Aristófanes, onde a personagem que dá nome à comédia chefiou uma greve de sexo das mulheres gregas, que seria apenas encerrada se as inúteis guerras entre Atenas e Esparta tivessem um fim. O deputado exortava nossas mulheres a repudiarem os consortes militares enquanto estes não voltassem aos quarteis. Em nossa inocência dos males em que o país estava mergulhado, fizemos inscrição para ingressar na EPCAR, Escola Preparatória dos Cadetes do Ar, em Barbacena, em busca de uma escola integralmente gratuita, de excelente qualidade, com o sonho futuro de ir para o ITA.

A matéria dos exames de admissão era vasta; uma parte importante de matemática não tinha sido aplicada pelo Professor Felicíssimo, e teríamos que estudá-la por conta própria. O professor graciosamente se ofereceu para ajudar-nos, e nos reuníamos em uma salinha da prefeitura: Felicíssimo, José Márcio, Marcelo e eu passamos algumas horas ali, estudando, pois o professor nunca havia lecionado as inequações de segundo grau, e aprendemos juntos.

Dezembro. Se a greve na peça grega teve sucesso absoluto derrotando Príapo e seus acólitos intumescidos, o discurso do deputado e a recusa da Câmara a que ele pudesse ser processado provocaram a promulgação do AI 5, mergulhando ainda mais o país nas trevas da democratura, conforme ele chamava o regime,  ao fechar o Congresso e institucionalizar as prisões arbitrárias e a tortura. Parecia mesmo uma encenação das palavras de Lisístrata: “Os homens em fúria atearam fogo no templo, os militares atearam fogo no país”. E, em meio ao caos político e institucional que víamos de tão longe, seguimos para Barbacena para fazer os exames. O trajeto me era bastante familiar, pois por três anos viajara, muito além de Barbacena, até Campo Belo. E a cidade guardava muitos de nossos parentes, dos dois Moreiras, pois fora origem de nossa família que migrou para Miracema seguindo a trilha de Dona Ermelinda, a fundadora da nossa cidade, e levávamos recomendações para visitar primos e tios.

Na EPCAR entramos em um ambiente, até então obscuro para nós, de um quartel, onde o espírito de tribo tinha o papel principal. Embora ainda apenas candidatos a lá ingressar, fomos submetidos aos trotes costumeiros, em que os alunos não mais calouros estão ávidos para a desforra do que sofreram. É verdade que os experimentamos em nível bem mais brando do que nos foi prometido que sofreríamos ao realmente lá ingressar. Fomos advertidos por um dos alunos que a revolta em participar dos trotes não era boa política, como era o seu exemplo, que passou a ser alijado do bom convívio da tribo. Os alunos, chamados pré-cadetes, eram considerados como suboficiais, e os soldados, que cuidavam da segurança e de outros serviços, passavam maus momentos sob a tutela de alguns mais truculentos e abusivos.

Passeando pela cidade pudemos verificar o prestígio que os pré-cadetes tinham entre as meninas, pois, ao passarmos em frente a uma escola de inglês, ouvíamos gritos vindos das janelas que já nos eram dirigidos chamando-nos de “Pré”. As histórias de abandonos de namoradas pelos alunos, algumas grávidas, que terminavam o curso e iam embora da cidade, parece que não contribuía para diminuir o glamour que eles tinham, como mais tarde pude constatar, quando lá abri uma empresa, ao ouvir de uma minha funcionária o seu caso de decepção.

Fizemos os exames e voltamos para casa para aguardar o resultado. Algum tempo depois, o Aldemar, outro colega de nossa turma, entregador de telegramas nos Correios, levou-me uma convocação, e ao Marcelo, para que nos apresentássemos para fazer os exames de saúde. Voltamos a Barbacena e de lá nos colocaram em uma jardineira que nos levaria ao Campo dos Afonsos, no Rio. Desta vez, tínhamos como companheiro um filho de um major da escola; todas as vezes que nos chamavam, a ordem alfabética era utilizada, porém arrumaram para ele um a na frente do seu nome, pois ele era o primeiro em tudo. Primeiro também nas brincadeiras de mau gosto a que se entregava com muito gosto.

Depois de um dia na estrada, pois a jardineira quebrou na descida final da serra de Petrópolis, onde ficamos soltos na estrada à espera de outra condução, chegamos ao Campo dos Afonsos onde jantamos satisfeitos em um rancho reservado aos sargentos. No dia seguinte, um domingo, o quartel se esvaziara, o rancho dos sargentos estava fechado e fomos encaminhados para outro, dos soldados. Tive que fazer greve de fome. A comida já não era do mesmo nível e uma valeta corria bem no meio do refeitório exalando um cheiro de esgoto insuportável. Felizmente, no dia seguinte, seguimos para o centro do Rio, para o Ministério da Aeronáutica, para fazermos os exames em que todo o nosso corpo seria vasculhado.

O exame de vista eliminou o Marcelo logo no início da manhã, mas, se não tivesse autorização de um parente para deixar o grupo, ele teria que permanecer conosco até o fim e voltar para Barbacena. Armamos uma fuga para que ele fosse encontrar-se com sua mãe, que estava em Niterói. Do Ministério à estação das barcas era perto, mas ele não sabia ir; eu já conhecia um pouco do centro do Rio por ali ter andado com um primo em busca de fotografias de aviões nas companhias aéreas, objetos de coleção. Durante o intervalo para almoço, eu fui com ele até a Praça XV; no final da tarde ele estava de volta com a autorização para que ambos abandonássemos o grupo ali mesmo no Rio; o mesmo sobrenome, Moreira, permitiu que nossa estratégia funcionasse, liberando-me também. Voltamos ao Campo, pois ele tinha que buscar sua bagagem, e no dia seguinte ele voltou com o grupo para o centro e foi para Niterói. Eu continuei com os exames, perdendo pontos com um problema nasal, com a estatura e, essencialmente, na entrevista com o psicólogo: ele me perguntou por que eu queria ser aviador militar e não civil, e como eu nunca tivera interesse em ser aviador de nenhuma espécie, respondi qualquer idiotice sobre patriotismo e baboseiras tais; ao sair, não percebi que a maçaneta da porta era apenas um engodo, simplesmente apoiada em um buraco aberto na porta, e puxei-a. Fiquei constrangido segurando-a na mão e tendo que enfiá-la novamente no buraco.

Recebi a notícia dos meus pontos que excediam o permitido sem dar muita importância, talvez fazendo o papel da raposa desdenhando as uvas fora de alcance, mas aquele ambiente de ordens, prepotência e desprezo pelos soldados já me deixara demais incomodado, e, ainda, tendo ficado sozinho sem o apoio dos colegas, já não estava muito propenso àquela escola, onde seguramente seria um elemento estranho.

Voltei ao Campo ainda naquela tarde e na manhã seguinte peguei um ônibus para a Praça XV, enquanto o resto do grupo seguiria para Barbacena. Fui para a casa de meu tio Inaldo, em Niterói; ele estava viajando com a família, mas sua sogra tratou-me com muita preocupação, pois achou-me muito necessitado, dizendo que eu deveria ter sido muito maltratado. E, assim, o sonho que acalentei de um dia ir para o ITA foi sepultado, pois as condições de minha família pediam que eu próprio custeasse os meus estudos. Fiz o primeiro científico no N. Sra. das Graças enquanto dava aulas particulares para os alunos que o Felicíssimo me encaminhava, bem como para os meus próprios colegas, de Física e Matemática.

O Marcelo tinha ido para o Rio cursar uma escola técnica, e eu vim para Belo Horizonte, onde passei a trabalhar como controlador da produção de trefilados na Belgo Mineira, estudando à noite no Colégio Estadual Central, que naquela época ainda era uma escola conceituada, onde alguns professores foram os mesmos que mais tarde encontrei na universidade. Durante o segundo semestre do terceiro ano do científico, pela primeira vez encarei os estudos com afinco, com o objetivo do vestibular. Como trabalhava o dia inteiro, para estudar aproveitava os trinta minutos de trajeto do ônibus que me levava para o trabalho, e, à noite, o próprio horário das aulas, a cuja frequência estava obrigado, mas os professores me conheciam e não se importavam com minha desatenção as suas aulas, com exceção da professora de Biologia, que constantemente mandava-me sair da sala, mas eu provocava um pouco, a antipatia era mútua.

1972. Entrei para o ICEX para fazer os dois anos básicos preparatórios para Engenharia. Com dois meses de aula minha decepção com a universidade já se manifestou, nada era diferente dos meus tempos de colégio. Achava que perdia tempo nas salas de aula a ouvir professores que eu podia, no mínimo, igualar em conhecimento sobre as matérias, pois as estudava antecipadamente sempre que podia. A frequência não era um quesito muito rígido, e tornei-me um estudante ausente das aulas, comparecendo apenas para fazer provas e aulas práticas; quando necessário usava xerox das anotações de alguns colegas que me auxiliavam, pois sabiam da minha necessidade de trabalhar. Tendo deixado a Belgo por causa da faculdade, fui monitor de Física no Colégio Pitágoras no primeiro semestre, onde descobri que dar aulas não me era recomendável, pois não tinha paciência com a dificuldade dos alunos, mas naquele ano ainda dei aulas particulares auxiliando a muitos alunos a enfrentarem os seus exames. Com o acesso aos computadores da escola para fazer testes de programas, em poucos dias estudei toda a linguagem Fortran, e resolvi ganhar dinheiro na área de computação. Consegui um curso na IBM de uma linguagem comercial e me embrenhei na área. Ainda com relação a minha frustração, conversei com alunos de Física, e mesmo um professor, falando da minha vontade de trocar a Engenharia pela Física. Fui demovido. Todos alegavam que, no fim, o que me restaria seria apenas ser um professor, pois a universidade não oferecia nada além.

No início do ano seguinte, encontrei-me com o Marcelo, que tinha passado brilhantemente nos vestibulares do ITA, da Nacional e da UFF, podendo escolher à vontade onde estudar. Eu lhe relatei a minha experiência frustrante com a universidade e, aliado às ressalvas que fazia aos militares, que nos faziam calar, ficarmos cegos e surdos a tudo que não estivesse de acordo com suas verdades, disse-lhe: em minha opinião, acho que não deveria ir para o ITA; mas o seu sonho falou mais alto.

Passados dois anos, tive na Escola de Engenharia um colega que deixara o ITA. Perguntei-lhe se conhecera o Marcelo; ele o conhecera. Perguntei-lhe como ele suportava aquele ambiente e sua resposta foi que o interesse dele estava voltado para as artes, para o teatro, e que levava a escola na “flauta”.

1975. Naquela época, envolvido com o trabalho e os estudos, já casado, pouco tempo eu tinha para leitura de jornais, e utilizava a revista Veja como uma maneira de manter-me menos desatualizado. Um dia, encontro uma página onde uma foto estampava meu primo e amigo, e um relato de prisão e expulsão do ITA de um grupo de alunos que liderara uma luta contra a militarização da escola.

O processo a que foram submetidos pelo regime enquadrava-os como um “agrupamento perigoso à segurança nacional”, e por três anos se arrastaria. A expulsão do ITA os marcara e não conseguiam outra escola que aceitasse suas transferências, até que a Universidade de Campinas os acolheu. Ainda houve uma tentativa de levá-los ao DOPS quando já alunos da Unicamp, mas a interferência da universidade frustrou os agentes que foram buscá-los. Em um relato da Unicamp:

“Condenados pelo Supremo Tribunal Militar em 23 de setembro de 1976 e com ordem de captura no Dops, os cinco ex-alunos do ITA permaneceram foragidos até março do ano seguinte, quando resolveram se entregar à Auditoria Militar de São Paulo. Libertados em setembro do mesmo ano, retomaram seus cursos no ponto em que os tinham abandonado. Em fevereiro de 1979, numa reviravolta, o STM os absolveu. Em março de 2004, quase trinta anos depois do famigerado expurgo de alunos, o ITA fez justiça a 21 deles que estavam prestes a se formar na época, entre os quais Sérgio Salazar e Osvair Trevisan. Dos cinco ex-alunos do ITA abrigados pela Unicamp em 1976, Trevisan, Gallo e Ganzarolli são hoje professores da universidade.” (http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2006/ju325pag6-7.html)

Ainda estive com o Marcelo uma vez após a sua expulsão do ITA. Conversamos sobre o episódio e ele me disse que tortura ele não sofreu, mas que ficou preso com pessoas que participaram da luta armada, tendo com eles aprendido técnicas que nunca utilizou.

Como dizia o Riobaldo, viver é perigoso, e eu acrescento que, às vezes, sonhar também pode sê-lo. Mas tudo terminou bem, hoje o Professor Marcelo Moreira Ganzarolli tem renome em sua área, com diversos trabalhos publicados. E é com muito pesar que perdi contato com ele, devido à distância que nos separa. Em 08/12/2005 recebeu do ITA o título de Engenheiro Honoris Causa.     

Infelizmente, muitas mulheres desconheceram sua potencialidade para mudar os rumos do país não aderindo à greve Lisístrata, e tivemos que nos calar e sofrer barbaridades por tantos longos anos. E se o arauto espartano na peça pôde dizer:

“Cada soldado apareceu com uma arma nova, que só não assusta o inimigo porque o inimigo surgiu com arma igual.”

Aqui, os inimigos dos bárbaros não tinham as mesmas armas, munidos muitas vezes apenas das suas palavras, que tanto medo causaram e causam. Esperemos que as vozes emudecidas para os ouvidos que insistem em esquecer sejam repetidas e repetidas e repetidas, emudecendo aquelas que só sabem ouvir o que lhes agrada, esforçando-se sempre para calar as demais, sejam elas de caráter político, filosófico, religioso ou de comportamento, com todas as armas que podem utilizar, inclusive a morte. Se as parábolas de Cristo fossem proferidas nestes novos tempos de intolerância, ele não escaparia da cruz.

“Ninguém consegue tirar das coisas, incluindo os livros, mais do que aquilo que ele já conhece. Pois aquilo a que alguém não pode chegar por meio da experiência, para isso ele não terá ouvidos.” (Nietzsche)

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