quarta-feira, 18 de julho de 2018

Pousada da Lua



Pousada da Lua





O carro, após acompanhar o muro que se estendia ao longo da estrada, virou à esquerda e foi bloqueado por um grande portão de ferro; acima deste uma grande placa com fundo azul mostrava uma faixa branca, sustentada por dois anjos voando, onde em letras azuis se lia: Pousada da Lua; o anjo da esquerda estava identificado como o Arcanjo Miguel; o da direita, Gabriel. O senhor, sentado ao lado do motorista, escondeu o desconforto que lhe despertou a mísera expressão artística da placa, enquanto o porteiro cuidava da identificação dos passageiros. O pesado portão rolou vagarosa e ruidosamente escondendo-se atrás do muro.

Um gramado bem cuidado alegrava a paisagem entrecortado por árvores esparsas e canteiros variados com arbustos e flores cuidadosamente dispostos. O caminho para os prédios traçava uma curva pavimentada com duas fileiras de pedras que davam acesso a uma área de estacionamento, sombreado na entrada por um ipê amarelo em pleno florescimento, e mais atrás uma paineira espalhava fios brancos sobre os carros. Um recepcionista empertigado, todo vestido de branco, já estava ao lado do carro logo que este parou:

– Boa tarde, senhor Marco Antônio, fez boa viagem?

– Boa? Sim, muito boa, muito agradável.

– Que bom, nossa equipe estará a sua inteira disposição para lhe proporcionar uma estadia de muita comodidade, todos nos esforçaremos para melhor servir as suas necessidades.

– Obrigado por tanta gentileza.

– Acredito que o senhor ainda não tenha almoçado.

– Exato.

– O horário de almoço já está quase no final, permita-me convidá-lo então a se dirigir direto ao restaurante antes mesmo de preencher a ficha de recepção, que eu irei providenciar, e depois lá a levarei para o senhor.

– Agradeço de coração, pois estou realmente faminto.

– Por favor, por aqui.

Atravessando a sala de recepção subiram uma escada à direita que dava acesso ao restaurante no piso superior. Ele escolheu uma mesa ao lado das amplas janelas que se abriam para o gramado por onde chegara. Ainda havia muitas pessoas terminando as suas refeições, a mistura de vozes cobrindo as várias mesas causou-lhe um certo enfado. Logo, um atendente se apresentou.

– Boa tarde, senhor, não temos muitas opções a oferecer-lhe devido ao adiantado da hora, seria de seu agrado um bife de peito de frango grelhado, acompanhado de batata sauté, arroz e alface?

– Parece-me bastante satisfatório.

– O senhor aceitaria uma bebida?

– Apenas água, por favor.

Enquanto esperava ser servido, seu olhar curioso percorreu as diversas mesas analisando as fisionomias mais próximas. Cumprimentou com um aceno de cabeça alguns que seu olhar cruzava, deteve-se um pouco mais intrigado sobre uma jovem cujas vestes leves lembraram-lhe as representações das mulheres gregas nos teatros: um vestido branco e leve terminando acima dos joelhos, tendo um fino cordão dourado a marcar sua cintura graciosa, e, acima deste, um grande decote em v lhe realçava os seios. Um sorriso amplo que emoldurava um belo rosto tornava-a extremamente atraente. Ela tinha nas mãos um cervo de pelúcia que em alguns momentos ela abraçava aconchegando-o ao seu rosto, o que lhe dava uma graça quase infantil. Cortando o seu devaneio, sua comida foi logo trazida.

Já estava a terminar seu almoço quando a jovem se aproximou de sua mesa com um jeito brejeiro; ele a olhou visivelmente agradecido com o interesse que ela demonstrava.

– Oi, o senhor chegou hoje?

– Acabo de chegar, ainda nem me acomodei em meu apartamento.

– Eu sou a Diana.

– Fico feliz em conhecê-la, Diana, eu sou o Marco Antônio.

– E este é o Actéon – ela disse apertando o cervo sobre o ombro direito em seu rosto.

– Actéon? Julgava que ele havia morrido dilacerado pelos dentes dos seus próprios cães.

– Não, não foi assim que aconteceu, isso foi uma lenda que se criou tentando impor-me um sentimento de crueldade que jamais foi um dos meus atributos. Minhas ninfas espantaram os cães que o atacaram, eu o resgatei, e ele está sempre comigo, dando-me carinho e amor.

– E é verdade que você lhe jogou a água da fonte no rosto?

– A minha eterna virgindade não podia ser profanada sequer pelos olhos de um mortal, por isto atirei-lhe a água no rosto e o transformei, para impedir que espalhasse a voz que viu toda a minha nudez, porém, ele não teve culpa de aparecer descuidado em meu banho.

– Achava que a lenda havia sido difundida pelos seus dotes de caçadora implacável.

– Ah, eu não me importei que fosse assim enaltecida. O prazer de uma caçada é um presente que faço aos homens intrépidos que a mim se dirigem pedindo minha bênção para obter boas presas.

– E as vítimas indefesas, a quem devem pedir proteção?

– Não me importa, é somente um jogo de prazer: a luta entre a força da fera e a inteligência.

– Ah, sim. Na realidade é um jogo desproporcional, diria mesmo, covarde, em usar ardis para vencer as restritas habilidades inatas dos animais. E, talvez, Actéon tenha sido levado à caverna por um desejo inconsciente de punição pelos seus muitos crimes contra suas pobres vítimas, pelo remorso deixado pelo prazer da matança, que dobrava os seus joelhos no gozo de ver uma fera cair por terra sob as suas flechas: o desejo sob a fortaleza do caçador de tornar-se a caça, de ver o ego arrogante sucumbir sob a sua própria violência.

– Ah, que trágico! Os homens me criaram com os meus dons e minhas funções de proteção, e o meu dever de proteger as meninas é uma atribuição a que dediquei muito empenho, por isso puni Actéon. Sempre fui atenta aos excessos dos ardores masculinos, mas também presenteei os que mereciam. Em agradecimento, os homens dedicaram-me o mais belo dos templos, em Éfeso, e sinto-me feliz em poder retribuir os sacrifícios que me são feitos.

– Vejo que em ti os muitos anos passados não arrefeceram o ardor, e nem lhe trouxeram o mínimo de penitência, como a que dobrou o vento Zéfiro a embalar o Jacinto após o seu trágico gesto de ciúmes.

– Não tenho tempo para emoções vulgares.

– A altivez ainda é a mesma, mas percebo agora que está carregando a sua aljava, vazia, e por que não tem o seu arco poderoso?

– Não é permitido portar armas por aqui, as flechas e o arco me foram confiscados.

Neste momento eles foram interrompidos por um outro hóspede: um senhor de baixa estatura, dono de um corpo largo, quase mesmo configurando uma bola, e uma careca vistosa desnudando a parte superior da cabeça; portava um sorriso de lua cheia na face redonda que só os excessivamente providos de massa gordurosa possuem.

– Diana, podia me apresentar para o seu novo amigo? – interpelou o senhor.

– Oh claro, Bastian, este é o Sr. Marco Antônio; e este gordinho aqui é o meu amigo Bastian Baltazar Bux.

– Muito prazer, Bastian, você tem retornado a Fantasia?

– Ele nunca saiu de lá, – foi Diana quem respondeu – depois que ele cresceu e perdeu todos os desejos, o Michael o colocou aqui na Pousada.

– Ah, que bom, Bastian, aqui é bem organizado; eu sempre temi que você, adulto, ficasse preso e desorientado no mundo caótico da Cidade dos Antigos Imperadores, desmemoriado e carregando um balde na cabeça ou qualquer outro apetrecho de maluco.

– Eu perdi o AURIN, perdi minhas lembranças, perdi o livro.

– Mas não todas as lembranças, pois ainda se lembra que as teve.

– Perdi todos os meus desejos! Não invento mais estórias nem nomes, a única coisa que me sobrou é viver aqui, mas sou bem feliz.

– Então você gosta muito daqui?

– Gosto muito, é a minha nova Fantasia.

– Todos nós gostamos muito, – interrompeu Diana – e daqui ninguém vai embora, pois ninguém quer deixar este pequeno mundo, este pedaço de alegria.

– Oh, fico feliz de participar desta paz.

O recepcionista apareceu e interrompeu a conversa. Apresentando uma ficha de registro, pediu ao senhor Antônio que conferisse se tudo estava de acordo e assinasse.

– Ah, o senhor usa também um apelido, – Diana comentou lendo sobre o seu ombro – Adalberto Figueiredo da Silva.

– É assim que escondo minha identidade perante o mundo real.

Da mesa ao lado, um casal acompanhava a conversa com visível interesse. Enquanto o recepcionista agradecia e se despedia, o senhor se manifestou:

– Ora, vejo que o senhor Antônio é uma pessoa de muitos saberes.

– Marco Antônio, por favor! E sim, sou toda uma vida de estudos e muita leitura.

– Espero que possamos entreter muitas conversas interessantes.

– E quem é o senhor?

– Augusto! Mas como você, escondo minha identidade sob o nome de Paulo Roberto Guimarães. Te noscere gaudeo.

Marco Antônio nada mostrou do prazer que Augusto falou, o latinório o deixou alerta, olhou-o já mostrando no rosto uma expressão alterada, suas faces arderam desfazendo aquele ar simpático com que até então recebera todos os que se aproximaram.

– Augusto? e de onde vens?

– Admira-me que não saibas das minhas grandes conquistas como o primeiro imperador de Roma.

– Ah, meu sangue ferve de indignação! E voltaste, moleque insolente, para atormentar-me mais uma vez?

– Tua queda sobre a tua espada enfraquecida pelo amor da serpente do Nilo não foi digna de nosso embate, frustrou minha sede de acabar eu mesmo com a tua arrogância.

Marco Antônio levantou-se de ímpeto, transtornado:

– Não ousaste enfrentar-me, e fugiste ao meu desafio, agora verás.

– Meu ouvido não é latrina para acumular os dejetos da tua boca imunda, e muito breve vou enterrá-lo novamente na lama podre do Nilo.

– Diana, ajuda-me a calar os uivos desse lobo demente!

E se lançou sobre Augusto. Os dois caíram no chão enrolando-se num combate feroz, atraindo todos os presentes que num círculo ao redor dos contendores torciam alucinadamente.

Dois funcionários de branco logo apareceram portando camisas de força. Tiveram alguma dificuldade para atravessar a barreira alucinada, mas imobilizaram os dois, retirando-os do restaurante. Pôde-se ouvir os seus comentários:

– Que estranho, Miguel, foi-nos dito que ele era tranquilo e não apresentava risco nenhum.

– Mas bem nos foi alertado que ele tinha uma rixa antiga com um certo Augusto.

– Mas logo o senhor Augusto, tão cordato, qual seria o problema?

– Ah, sei lá, Gabriel. problemas de vidas passadas, provavelmente.

– Pode ser, é bem provável.
– o–

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