O
Noivo Enfeitiçado
– SENHORA
DONA MENINA!
A casa
estava silenciosa, ninguém à vista.
– DONA
MENINA!
– Que
foi? Que desespero será esse? Ah, é você, Coralina.
– Sou
eu mesma, Dona Menina. Sou eu, sim, com todos os meus dentes sobrantes e os
poucos cabelos que me restam!
– E
que escarcéu é esse, dona? Pareceu-me até um cão danado a ameaçar minha porta.
– É,
deveras, é demais raiva que tenho aqui varada no gogó.
– Nem
parece a Coralina que conheço, tão devota de Nossa Senhora.
– Pois
é, é que nem a coitada aqui está se sustendo mais.
–
Calma, Coralina, toma um arzinho para desanuviar que isso faz mal, respira
fundo e ponha-se a contar o sucedido.
Coralina
continuava a falar de maneira atabalhoada:
– Pois
a senhora num me agarantiu que isso de mandingas e malefícios são inventos de
gente desajustada a querer tripudiar sobre os incautos?
–
Garanti e garanto, Coralina, nada num há a se arrecear de simuladas bruxarias.
– Pois
então, o que sucedeu é que pegou, Dona Menina, pegou mesmo e nada dá jeito de
suprimir a embruxação.
– Do
quê você tá falando, Coralina? que embruxação?
– Da
Mariinha, Dona Menina, num lhe contei do casório dela? E pois que a filha
daquela macumbeira lá das Palmeiras queria o noivo dela?
– Já
me alembro, Coralina, você falou que a mãe dela fez uma mandinga braba pra não
deixar o moço funcionar.
–
Braba, do mais pior que ela engendrou! Me contaram, Dona Menina, que o bruxedo
foi mesmo feito com pena de urubu ungida para o coisa-ruim em missa negra, e nos
depois encovada em buraco de cemitério regado com pinga, e, assim, só pode ser
desfeito pela jararaca que o oficiou.
–
Engenhosa essa gente para difundir crendices!
– Pois
é isso, Dona Menina, o moço não funciona!
– Ara,
Cora, isso é só mesmo entupimento de cabeça fraca contaminada por esse vozerio a
alardear poderes de bruxa. Diz pra mim, Cora, em antes do bruxedo, no namoro, o
moço era atrevido?
–
Senhora Dona Menina, acha que a Mariinha se prestava a essas sem-vergonhices?
– Não,
Coralina, só queria saber como o moço era.
– Num
sabemos bem das intimidades dos dois, mas a Mariinha agarante que inda é hoje
virgíssima! como é de costume nessa família nossa de inocentes e tementes a
Deus.
– Por
suposto o moço deve ser mesmo cabeça fraca, manobrável.
– E
olha, depois que a senhora tentou me fazer descrer do real dos malefícios, mas
que ele continuou na sua falta de macheza, fui tomar o reparo do Padre Joaquim
se tal podia ser deveras operante.
– E o
que disse o velho parvo?
– Ele
arengou de muito em me falando de como as bruxas podem agir com o auxílio do
diabo para atanazar as gentes, e ficou parolando que alguns anjos maus foram
expulsos do Céu e se tornaram os demônios, e que Deus às vezes permite que um
desses satanize a vida alheia. Citou tantos santos que apregoaram a existência
do maldito e de seus asseclas, São Tomás, Santo Agostinho, Santo Antão e nem
num me alembro mais qual, e que todos pregaram que o cristão precisa de proteção
de muita oração para afastar o mal que as servas de satanás podem causar.
– E é esse
coisa que nós temos para tirar o povo da ignorância!
– E,
ainda, lembrou daquele santo homem justo, o Jó, que sofreu na carne e nas
posses as feridas do diabo só para reafirmar a sua fé.
– São
tudo histórias velhas, Coralina, surgidas em tempos desusados onde não se
entendia os modos da natureza, tinham que procurar uma causa para o mal.
– Pois
a senhora persiste na sua descredulidade?
– Das
coisas desse tinhoso, persisto, mas no caso do moço frouxo, há que se buscar
uma causa natural, já que uma deve existir.
– Até
que já procuramos, Dona Menina, o moço foi consultar os médicos, fez tudo
quanto exame pedido e tá tudo nos conformes, nadinha de impedimentos.
–
Sério? Parece então ser caso de razão impedida, quando a cabeça tem uma leve
intenção de funcionar, mas o corpo não permite por medo, costume, inação ou por
assim ser mais prazenteiro.
–
Razão impedida? Já te digo, Dona Menina, que deve ser é mais a minha desrazão desimpedida,
que nem sei mais onde buscar alento.
–
Diga, Coralina, como que tá a vida lá dos dois?
– Nem
te conto, mas com muita pena é que digo: a Mariinha só se arrasta pela casa, e a
gente que todo sacrifício fez para dar pra eles uma casinha tão meiga.
– Cê
tá a me dizer que vocês deram uma casa de presente pra eles?
– E
num foi? Arrumamos tudo com tanto desvelo, e olha que a Mariinha, para dar mais
alegria pro moço dela, até arrumou um quarto para o amigo dele, que os dois são
muito inseparáveis.
– Deveras?
– E
por mal dos azares, o amigo é irmão da lambisgoia que encomendou o feitiço.
– Mas
que rendoso, e nem com tamanha comodidade o moço não se anima?
–
Infelizmente!
– E a
Mariinha faz umas artimanhas pra pôr um fogo nele?
– Hum!
ela de tudo usou e já atentou, mas quando ela vai assim lampeira para o lado
dele, assim mais atrevida e desvestida para ferroar o moço, ele vira a cara e
diz que tem nojo da... da coisa dela.
– Nojo
da coisa dela?!
– É
que o feitiço faz isso assim, que ele fica enojado e foge dela!
– Que
minha Virgem Mãe Santíssima me perdoe pela maledicência, mas...
– Mas
o quê, Dona Menina?
– Eu
tô começando a achar que você tá com toda a razão, Coralina!
–
Então, acha que o moço tá mesmo enfeitiçado?
–
Muito, Coralina.
– Ai,
Minha Nossa Senhora nos ajude a livrar-nos do mal.
– Só
que eu acho que o feitiço é muito, mas muito mais antigo.
– Ah
é? em desde quando, Dona Menina?
– Provavelmente
desde que o moço foi concebido.
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