Confissão
- Aí, seu Padre, eu estou pensando aqui comigo, boa coisa
seria se eu fizesse a minha confissão. Sabe, há muitos anos que eu não me
confesso, desde moleque. Pois então, vai pra mais de trinta anos.
- E você tem certeza que é católico?
- Rapaz, quando eu era menino, era um tremendo papa-hóstias.
Eu cumpria minhas lições de catecismo com devoção maior que qualquer
maria-beata. Ajudei muito o Padre João Santana nas suas missas... Conheceu o
Padre João? Foi vigário por muito anos lá em Bom Jesus. Grande padre, em tudo,
volumoso no tamanho e na devoção. Dá saudade daqueles tempos.
- E por que deixou de cumprir seus deveres de bom cristão?
- É uma história muito vasta, Padre, por isso acho bom que
eu a contasse em confissão. É, fiquei resolvido assim a me abrir com o senhor,
botar minha alma a sair pela garganta, deixar o senhor agarrá-la e lavá-la com
o perdão de Deus. Tempo nós temos, não há pressa nenhuma para concluir o
trabalho.
- Talvez seja mesmo que Deus esteja tocando o seu coração.
Vamos então dar um ar oficioso ao ato, faça o sinal da cruz e comece sua
confissão sem mais formalismo.
- Então, vou começar pelo comecinho de tudo, que foi lá
pelos meus treze anos. Sabe, a vida era crua e dura. O pai se fora. Ficou minha
mãe em miséria. Tivemos que mudar para uma casinha velha, que nos foi cedida em
caridade por um tio. A comida era pouca e de menos variada, era feijão com
farinha ou angu, de raro sabíamos o gosto de um pedaço de carne se uma alma
caridosa nos regalava, mas os fundos da casa davam para um grande terreiro
vizinho cheinho das frutas mais saborosas. Eu rezava muito pedindo a Deus que
nos tirasse daquela vida sofrida, enquanto meus olhos vagavam por trás daquela
cerca que me separava de tanta vitamina. Pois é, seu Padre, tudo começou com o
pecado da gulodice, pois embarquei em uma fome cada vez maior de provar todas
aquelas delícias. E comecei a rezar pedindo a Deus que me ajudasse a fazer uma
excursão noturna depois que a última janela do vizinho fechasse. Com muita fé,
pendurei um embornal no ombro e fui, na luz da lua, à cata dos meus desejos.
Olha, seu Padre, que a ajuda divina foi grande, pois havia um sapotizeiro
pejado de frutos, o embornal foi até pequeno.
- E você acha que Deus o protegeu para cometer esse furto?
- E não? Eu tanto voltava quando o embornal ficava vazio e
tanto conseguia me safar com ele cheio. Variava muito a colheita: manga,
laranja, abiu, goiaba, mangaba, uma fartura.
- Mas isso até pode ser, Deus é misericordioso, há pecados
mais graves.
- Que eu com certeza já cometi. Ah pois, daí fui pegando
confiança na graça de Deus e parti para uns furtinhos mais proveitosos. Passei
a bisbilhotar as casas para tomar ciência dos costumes das gentes: havia umas
donas que ficavam sozinhas entretidas nos fundos a cuidar de lavar roupa ou na
cozinha, eu então aproveitava para na surdina entrar na casa e afanar um objeto
de mais valor. Eu só entrava depois de fazer as minhas orações pedindo a Nosso
Senhor que eu ficasse invisível. Deu certo por largo tempo, mas aí o pessoal
aprendeu a fechar as portas. Foi por essa época que deixei de confessar, por
causa da vergonha de ter que contar as minhas faltas.
- Do padre você tinha vergonha, mas de Deus que estava
vendo-o cometer os desatinos, nenhuma.
- Pois se eu achava que ele era misericordioso por me tirar
da miséria, vergonha nenhuma, até tinha orgulho. Taí, foi bom me alembrar de
confessar mais este.
- Virgem Santíssima, perdoa também àquele que se faz de
ignorante.
- Daí, Padre, minhas necessidades foram acrescendo, e
passei a necessitar de um dinheirinho para comprar cigarro, ir ao cinema,
adquirir uma roupinha melhor, e até mesmo para descolar um berro. Foi então que
passei a fazer umas investidas noturnas nas casas alheias. Igual nos faroestes:
cobria a cara com um lenço, garrava um gorro na cabeça deixando só os olhos de
fora, fazia a minha oração pedindo a proteção para não ser apanhado e não ter
que machucar ninguém, e invadia. Agradeço ao bom Deus que passei muitos anos
nesse ofício, sem contratempos, sem ferir viva alma, até que um dia, já na
maioridade, dei um vacilo e tive que acertar um segurança de um supermercado.
- Matou o pobre?
- Graças a Deus, não, seu Padre, o homem se safou. Mas aí,
nas conversas de botequim, fiquei sabendo de uns serviços que precisavam de
gente de coragem: os primeiros que pratiquei foram só de dar uns corretivos em
uns desafetos dos mandantes, deixando um recado para que ficassem de rabo
murcho; depois passaram a ser mandados de morte mesmo. Fui pegando vício e fama.
Diziam pelas quebradas que eu tinha o corpo fechado, é que ninguém sabia das
minhas rezas pedindo a proteção de Deus antes dos trabalhos. Está a acompanhar,
seu Padre? Pareceu-me que ficou meio aturdido.
- Será que ainda tem algo pior?
- Nem tanto, seu Padre, como minha fama cresceu, fui
disputado pelos políticos, até que meu patrãozinho generoso me fichou como
assessor dele na Câmara, emprego fixo dos bons, sem muito pelejar. De função
mesmo eu só tinha que acompanhá-lo nas suas andanças, pendurado atrás do seu
ombro, de cara fechada. Foi assim que assosseguei um tanto, bastava a fama para
intimidar os maldizentes, e, aí, com as mordomias de poder gastar por conta das
verbas do deputado, o motivo dos meus pecados foram as donas, de todos os tipos
e cores, mas a minha predileção era pelas casadas, pois o pecado era duplo e o
risco maior, mas eu rezava pedindo que os maridos não aparecessem, por dó
deles, assim meu berro podia ficar descansando, e graças ao bom Deus, assim
acontecia.
- Acabou a ladainha de pecados?
- Dos passados, acabou. O Padre acha que me pode dar a
penitência para eu conseguir a absolvição?
- Você já rezou tanto que nem faz falta uma penitência, e
já que em sua fé Deus lhe dá tanta graça, reze um terço pelas almas que você
livrou.
- E desse que ainda vou cometer, Padre, estarei perdoado
também?
- Já que agora está com a alma lavada, que necessidade tem
de cometê-lo?
- Bem, seu Padre, é que o agravo ao meu patrão foi grande, e
eu preciso justificar meu salário. O seu pecado foi mesmo muito grave ao fazer
aquela peroração na missa de ontem, dizendo dos fariseus que aparecem nas
missas portando uma arma viva pendurada no ombro, ostentando um sorriso na cara
que não consegue dirimir o olho de gavião à procura das avezinhas
desprotegidas. E logo na presença toda da família do meu patrão. A procissão
que percorremos de humilhação para sair da igreja terminou com a ordem para eu
resolver o assunto. Espero, Padre, que o senhor não vai se furtar a aumentar a
minha penitência por mais este pecadinho, que eu já rezei pedindo ao bom Deus
para entender as minhas necessidades, e espero, encarecidamente também peço, o
seu antecipado perdão.
- Acresça um Pai Nosso pela minha alma, e eu lhe perdoo em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
- Amém.
Na igreja vazia, ecoou um tiro seco que assustou apenas uma
andorinha que deixou seu ninho alvoroçada.
-o-

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