domingo, 26 de maio de 2019

O Noivo Enfeitiçado



O Noivo Enfeitiçado






– SENHORA DONA MENINA!

A casa estava silenciosa, ninguém à vista.

– DONA MENINA!

– Que foi? Que desespero será esse? Ah, é você, Coralina.

– Sou eu mesma, Dona Menina. Sou eu, sim, com todos os meus dentes sobrantes e os poucos cabelos que me restam!

– E que escarcéu é esse, dona? Pareceu-me até um cão danado a ameaçar minha porta.

– É, deveras, é demais raiva que tenho aqui varada no gogó.

– Nem parece a Coralina que conheço, tão devota de Nossa Senhora.

– Pois é, é que nem a coitada aqui está se sustendo mais.

– Calma, Coralina, toma um arzinho para desanuviar que isso faz mal, respira fundo e ponha-se a contar o sucedido.

Coralina continuava a falar de maneira atabalhoada:

– Pois a senhora num me agarantiu que isso de mandingas e malefícios são inventos de gente desajustada a querer tripudiar sobre os incautos?

– Garanti e garanto, Coralina, nada num há a se arrecear de simuladas bruxarias.

– Pois então, o que sucedeu é que pegou, Dona Menina, pegou mesmo e nada dá jeito de suprimir a embruxação.

– Do quê você tá falando, Coralina? que embruxação?

– Da Mariinha, Dona Menina, num lhe contei do casório dela? E pois que a filha daquela macumbeira lá das Palmeiras queria o noivo dela?

– Já me alembro, Coralina, você falou que a mãe dela fez uma mandinga braba pra não deixar o moço funcionar.

– Braba, do mais pior que ela engendrou! Me contaram, Dona Menina, que o bruxedo foi mesmo feito com pena de urubu ungida para o coisa-ruim em missa negra, e nos depois encovada em buraco de cemitério regado com pinga, e, assim, só pode ser desfeito pela jararaca que o oficiou.

– Engenhosa essa gente para difundir crendices!

– Pois é isso, Dona Menina, o moço não funciona!

– Ara, Cora, isso é só mesmo entupimento de cabeça fraca contaminada por esse vozerio a alardear poderes de bruxa. Diz pra mim, Cora, em antes do bruxedo, no namoro, o moço era atrevido?

– Senhora Dona Menina, acha que a Mariinha se prestava a essas sem-vergonhices?

– Não, Coralina, só queria saber como o moço era.

– Num sabemos bem das intimidades dos dois, mas a Mariinha agarante que inda é hoje virgíssima! como é de costume nessa família nossa de inocentes e tementes a Deus.

– Por suposto o moço deve ser mesmo cabeça fraca, manobrável.

– E olha, depois que a senhora tentou me fazer descrer do real dos malefícios, mas que ele continuou na sua falta de macheza, fui tomar o reparo do Padre Joaquim se tal podia ser deveras operante.

– E o que disse o velho parvo?

– Ele arengou de muito em me falando de como as bruxas podem agir com o auxílio do diabo para atanazar as gentes, e ficou parolando que alguns anjos maus foram expulsos do Céu e se tornaram os demônios, e que Deus às vezes permite que um desses satanize a vida alheia. Citou tantos santos que apregoaram a existência do maldito e de seus asseclas, São Tomás, Santo Agostinho, Santo Antão e nem num me alembro mais qual, e que todos pregaram que o cristão precisa de proteção de muita oração para afastar o mal que as servas de satanás podem causar.

– E é esse coisa que nós temos para tirar o povo da ignorância!

– E, ainda, lembrou daquele santo homem justo, o Jó, que sofreu na carne e nas posses as feridas do diabo só para reafirmar a sua fé.

– São tudo histórias velhas, Coralina, surgidas em tempos desusados onde não se entendia os modos da natureza, tinham que procurar uma causa para o mal.

– Pois a senhora persiste na sua descredulidade?

– Das coisas desse tinhoso, persisto, mas no caso do moço frouxo, há que se buscar uma causa natural, já que uma deve existir.

– Até que já procuramos, Dona Menina, o moço foi consultar os médicos, fez tudo quanto exame pedido e tá tudo nos conformes, nadinha de impedimentos.

– Sério? Parece então ser caso de razão impedida, quando a cabeça tem uma leve intenção de funcionar, mas o corpo não permite por medo, costume, inação ou por assim ser mais prazenteiro.

– Razão impedida? Já te digo, Dona Menina, que deve ser é mais a minha desrazão desimpedida, que nem sei mais onde buscar alento.

– Diga, Coralina, como que tá a vida lá dos dois?

– Nem te conto, mas com muita pena é que digo: a Mariinha só se arrasta pela casa, e a gente que todo sacrifício fez para dar pra eles uma casinha tão meiga.

– Cê tá a me dizer que vocês deram uma casa de presente pra eles?

– E num foi? Arrumamos tudo com tanto desvelo, e olha que a Mariinha, para dar mais alegria pro moço dela, até arrumou um quarto para o amigo dele, que os dois são muito inseparáveis.

– Deveras?

– E por mal dos azares, o amigo é irmão da lambisgoia que encomendou o feitiço.

– Mas que rendoso, e nem com tamanha comodidade o moço não se anima?

– Infelizmente!

– E a Mariinha faz umas artimanhas pra pôr um fogo nele?

– Hum! ela de tudo usou e já atentou, mas quando ela vai assim lampeira para o lado dele, assim mais atrevida e desvestida para ferroar o moço, ele vira a cara e diz que tem nojo da... da coisa dela.

– Nojo da coisa dela?!

– É que o feitiço faz isso assim, que ele fica enojado e foge dela!

– Que minha Virgem Mãe Santíssima me perdoe pela maledicência, mas...

– Mas o quê, Dona Menina?

– Eu tô começando a achar que você tá com toda a razão, Coralina!

– Então, acha que o moço tá mesmo enfeitiçado?

– Muito, Coralina.

– Ai, Minha Nossa Senhora nos ajude a livrar-nos do mal.

– Só que eu acho que o feitiço é muito, mas muito mais antigo.

– Ah é? em desde quando, Dona Menina?

– Provavelmente desde que o moço foi concebido.


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