domingo, 3 de maio de 2020

A Deusa



A Deusa




Ai, ai, estou sem rumo. Saí da minha trilha por um golpe de vento soprado não sei de onde, que me fez voar! Estava distraída e não consegui me agarrar em nada. E ainda mais essa: aquela coisa que está ali a me vigiar com aqueles dois olhos enormes. Será que foi ela que soprou em cima de mim? Por que ela teria feito isso? Tenho medo das intenções dela. Além de tudo, parece que perdi meu olfato, não consigo sentir cheiro das minhas irmãs, nada e nada, não sei aonde ir. Corro para a direita e encontro uma barreira, volto agitada e vou para o outro lado, nada, nada, para a frente e para trás, girando feito uma doida. Acho que estou louca mesmo, e cansada.

E ela fica ali com aquele sorriso na cara de lua vigiando o meu desespero, arregalando aqueles dois faróis enormes a observar os meus passinhos sem rumo, parece até que estou sob a luz de dois sóis que controlam tudo o que minhas patinhas confusas podem fazer. E o sorriso dela? Será que ela sente alegria por me ver atrapalhada e alucinada?

E mais essa agora: água! Um lago enorme! Será que a trilha está do outro lado, além da outra margem? Será que consigo rodeá-lo? Acho que vou tentar. Isso mesmo, vamos lá. Mas só vejo água, água, água. Ai, que cansaço! E ela fica ali com as duas mãos segurando a cabeça, olhando-me a tentar vencer esta barreira de água. Eu grito para ela: bruxa malvada! vê se me deixa em paz! Ela nem se dá conta, acho que minha vozinha é pouca para fazer com que ela me escute.

Quando as anciãs nos ensinavam sobre os deuses, avisavam que devíamos afastar-nos deles, pois era impossível entender as suas ações e os seus motivos. Eles são tão grandes e poderosos. E perigosos! Por isto era preciso que ficássemos unidas, bem juntinhas, como proteção de suas maldades. Mas agora estou aqui sozinha, acompanhada só pelo meu medo, sujeita aos caprichos dessa monstra horrível, que não tem nenhuma pena de mim.
Ai! Ela tirou uma das mãos de apoio do rosto, para que será? Uma folha! Ela pôs uma folha sobre a água. O que será que ela quer? Acho que devo me arriscar para tentar atravessar o lago. Tenho muito medo, mas não tenho outra opção. Lá vou eu, que a Senhora Mãe das formigas me ajude.

Está soprando um vento, estou atravessando o lago. É ela que está soprando, como se fosse a deusa dos ares, será que quer me derrubar na água? O vento empurra a folha e me leva sobre o lago. Estou com medo! Não sei para onde sou levada. É ela que dirige a folha, para onde? Meu destino está selado pela vontade dela. Nada posso fazer senão deixar-me levar.

Ai, ai, cuidado! Oh, ela me levou para a margem do lago, vou deixar a folha. Ela pôs uma barreira deste lado, quer que eu vá para lá? Tenho medo, para onde? Tento voltar, ela não deixa, tenho que seguir para onde ela quer. Ai, espero que com a benção de minha mãezinha eu saia desta enrascada.

Oh, que alegria! Finalmente de volta a minha trilha. Devo reconhecer, estava confusa, e errada!

Obrigada, deusa!

- Júlia! Júlia! Onde você está?

- Aqui, mamãe, ajudando a formiguinha.

-o-

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