A
Deusa
Ai, ai, estou sem rumo. Saí da minha trilha por um golpe de
vento soprado não sei de onde, que me fez voar! Estava distraída e não consegui
me agarrar em nada. E ainda mais essa: aquela coisa que está ali a me vigiar
com aqueles dois olhos enormes. Será que foi ela que soprou em cima de mim? Por
que ela teria feito isso? Tenho medo das intenções dela. Além de tudo, parece
que perdi meu olfato, não consigo sentir cheiro das minhas irmãs, nada e nada,
não sei aonde ir. Corro para a direita e encontro uma barreira, volto agitada e
vou para o outro lado, nada, nada, para a frente e para trás, girando feito uma
doida. Acho que estou louca mesmo, e cansada.
E ela fica ali com aquele sorriso na cara de lua vigiando o
meu desespero, arregalando aqueles dois faróis enormes a observar os meus passinhos
sem rumo, parece até que estou sob a luz de dois sóis que controlam tudo o que
minhas patinhas confusas podem fazer. E o sorriso dela? Será que ela sente
alegria por me ver atrapalhada e alucinada?
E mais essa agora: água! Um lago enorme! Será que a trilha
está do outro lado, além da outra margem? Será que consigo rodeá-lo? Acho que
vou tentar. Isso mesmo, vamos lá. Mas só vejo água, água, água. Ai, que cansaço!
E ela fica ali com as duas mãos segurando a cabeça, olhando-me a tentar vencer
esta barreira de água. Eu grito para ela: bruxa malvada! vê se me deixa em paz!
Ela nem se dá conta, acho que minha vozinha é pouca para fazer com que ela me
escute.
Quando as anciãs nos ensinavam sobre os deuses, avisavam
que devíamos afastar-nos deles, pois era impossível entender as suas ações e os
seus motivos. Eles são tão grandes e poderosos. E perigosos! Por isto era preciso
que ficássemos unidas, bem juntinhas, como proteção de suas maldades. Mas agora
estou aqui sozinha, acompanhada só pelo meu medo, sujeita aos caprichos dessa
monstra horrível, que não tem nenhuma pena de mim.
Ai! Ela tirou uma das mãos de apoio do rosto, para que
será? Uma folha! Ela pôs uma folha sobre a água. O que será que ela quer? Acho
que devo me arriscar para tentar atravessar o lago. Tenho muito medo, mas não
tenho outra opção. Lá vou eu, que a Senhora Mãe das formigas me ajude.
Está soprando um vento, estou atravessando o lago. É ela
que está soprando, como se fosse a deusa dos ares, será que quer me derrubar na
água? O vento empurra a folha e me leva sobre o lago. Estou com medo! Não sei para
onde sou levada. É ela que dirige a folha, para onde? Meu destino está selado
pela vontade dela. Nada posso fazer senão deixar-me levar.
Ai, ai, cuidado! Oh, ela me levou para a margem do lago,
vou deixar a folha. Ela pôs uma barreira deste lado, quer que eu vá para lá?
Tenho medo, para onde? Tento voltar, ela não deixa, tenho que seguir para onde
ela quer. Ai, espero que com a benção de minha mãezinha eu saia desta enrascada.
Oh, que alegria! Finalmente de volta a minha trilha. Devo
reconhecer, estava confusa, e errada!
Obrigada, deusa !
- Júlia! Júlia! Onde você está?
- Aqui, mamãe, ajudando a formiguinha.
-o-

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