domingo, 17 de maio de 2020

A recompensa final


A recompensa final



Dona Gertrudes, nos tempos idos, descuidara-se dos seus compromissos com a Igreja devido aos afazeres domésticos. Com as crianças nascendo, até a Santa Missa dos domingos foi relaxada em benefício do trabalho com os filhos, que não foi pouco, pois a penca chegou a inchar com treze criaturas. “Não perdi unzinho”, dizia com orgulho.


As crianças crescendo junto com o trabalho, ela ia levando a canseira afastada das compensações religiosas, não sem um pouco de pesar e remorso. Quando a fabricação de rebentos foi paralisada pelas normas da natureza, ela já ia bem carregada de anos, e os primeiros filhos já adultos, de vidas feitas, só apareciam de visita.  A casa esvaziando pouco a pouco, os domingos já deixavam brecha para voltar a frequentar a missa.

Os últimos filhos deixando a infância, passou a ter tempo para voltar aos bordados e tricôs, que fazia com maestria, ajudando nos gastos da casa com o dinheirinho que recebia pelas toalhas, blusas e outros apetrechos.

E ficou viúva. E a necessidade de consolo na religião foi cada vez tornando-se mais e mais importante. Aliviada por nenhuma necessariedade de pecado, vez em quando confessava somente para relatar um momento de raiva, principalmente se errava um ponto em seu bordado, ou de uma gulazinha por um pudim que ela fazia como nenhuma outra, e, lógico, por este orgulho também. E comungava em todas as missas que ia, não só aos domingos.

A casa vazia, todos os filhos levados pela vida própria, sentindo a pensão que recebia bastante satisfatória a suas necessidades modestas, passou a dedicar os seus trabalhos manuais à igreja, confeccionando toalhinhas e tudo o mais que os altares pudessem enfeitar, e, quando estes estavam bem aparelhados, fazia peças para vender nas quermesses da paróquia em benefício das obras sociais.

Tornou-se muito importante para a paróquia e muito benquista.

Muito anos assim passados, a idade foi pesando mais e mais. Ela contratou para ajudá-la nas tarefas domésticas uma senhora, a Creuza, que duas vezes por semana ia fazer a faxina da casa. E um pensamento mais assíduo no dia último levou-a a interessar-se pelos anúncios que tomava conhecimento da boa morte. Deu-lhes mais atenção, e a ideia lhe pareceu interessante de não causar consternação aos filhos, deixando tudo arrumado para o seu último passeio.

Recebeu em sua casa diversos mercadores da morte que faziam louvores aos velórios que podiam oferecer, e que dispunham dos caixões mais confortáveis, mais impermeáveis, biodegradáveis ou hidrossolúveis, das flores mais ao seu gosto e do mais que pudesse alegrar o futuro defunto. Finalmente, para ver-se livre dos agoureiros, escolheu um plano de morte que lhe oferecia a possibilidade de receber o caixão para manter em sua própria guarda, sem se esquecer de contratar uma missa de corpo presente. Assim, sentiu-se segura, pois a cova há muito já tinha assegurada no andar de cima da sepultura onde depositara o finado marido. Quando os filhos souberam do arranjo, dividiram-se entre os que elogiaram o seu senso prático e os que acharam que ela tinha enlouquecido. A caçula, coitada, quase foi parar no hospital.

Quando o belo caixão chegou, em nogueira com verniz marítimo combinando com os seus móveis, foi alojado em um quarto que agora era usado pelos hóspedes, muito raros ultimamente, em pé, encostado na parede de fundo como um mobiliário a mais.

Terça-feira, dia da Creuza. Como de hábito ela chegou cedo e foi cuidar da cozinha da véspera, da roupa a lavar e passar. Findo estes afazeres, dirigiu-se aos quartos e...

– Ai, Dona Gertrudes!!! - berrou a Creuza.

Dona Gertrudes abandonou a toalha que estava bordando e foi acudir a Creuza, que estava parada em frente à porta do dito quarto encostada na parede do corredor, a mão no coração, a vassoura caída no chão.

– Dona Gertrudes! Um defunto!

Dona Gertrudes não pôde conter o riso quando viu o motivo do susto da Creuza.

Que isso, Creuza, é apenas o meu caixão.

Seu caixão?! Então a senhora está...

Deixa de ser doida, Creuza, estou vivinha, não está vendo?

E, então, para que é o caixão?

Ora, para quando eu precisar dele.

– A senhora já adiantou a compra do caixão e vai deixá-lo assim, como um aviso de morte?

– Mais ou menos isso, Creuza, assim eu vou me acostumando e tendo uma convivência mais afetiva com ele.

– Cruz Credo, Dona Gertrudes, isso deve ser de mau agouro, deixar isso ali a esperar a senhora. Ele pelo menos está trancado?

– Não, Creuza, a tampa não está lacrada, senão pode dar mofo e estragar o tecido de dentro, e também é preciso limpá-lo para não deixar acumular pó. Pó, ali, só o meu, quando me for a hora.

– Estou aturdida. E eu... Eu vou ter que limpar isso?

– Bom, Creuza, espero que você tenha essa consideração comigo e possa fazê-lo.

– Ai, meu Jesus! E a senhora já experimentou, Dona Gertrudes, já deu uma voltinha ali dentro?

– Já, e achei bastante confortável. Se você quiser pode experimentar também.

– Cruzes! Que ideia mais louca! A senhora comprou caixão, cova e tudo mais?

– Comprei, não quero dar trabalho para ninguém.

– E comprou também a entrada?

– Entrada, Creuza, que entrada?

– Para lá...

– Para lá onde?

– Para a porta de São Pedro.

– Ah, comprei. E paguei em pequenas prestações por toda a vida.


-o-

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