As
travessuras do Jesus Menino
Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha
avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples
narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas
de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir
neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me
divertia.
2.
Cata-vento
Naquele tempo, era uma tarde de outono, o sol caminhando
para o seu poente coloria o céu sobre os montes de um tom levemente
avermelhado, e uma brisa leve e fria soprava, incentivando o grupo de crianças
a brincar ao sabor do vento.
Jesus, sentado à porta
de sua casa no alto da colina onde estava sua aldeia, entretinha-se a fabricar
papa-ventos com folhas de papiro, que entregava aos pequeninos ansiosos e
excitados que ao seu redor pediam insistentemente o próximo brinquedo. Agraciado
com o brinde desejado, o pequeno saía a correr pela rua exibindo a sua graça e
agilidade.
Subindo pela estrada que dava acesso à aldeia, um menino estranho ao grupo,
trazendo nas mãos um cajado curto, parou por ali a observar a alegre correria,
sem causar atenção dos pequenos pela sua presença, que mais o viam como um
deles. A alteração no quadro de alegria veio de modo repentino.
Um dos pequenos, ao passar alegremente com o seu brinquedo
girando próximo ao estranho, foi por este assaltado e teve o seu troféu
arrancado de sua mão e, ato contínuo, estraçalhado. O menino, tomado por susto,
medo e desilusão, irrompeu em choro convulso.
Jesus foi despertado do seu trabalho ao ouvir a choradeira
e, aproximando-se do estranho de maneira amistosa, perguntou-lhe o motivo do
ato tão sem propósito, e ouviu-o responder:
– Eu fiz porque quis
e porque eu posso.
Jesus calmamente convidou-o a brincar com o grupo e
ofereceu-lhe o cata-vento que acabara de fazer, que foi pelo incauto também
destroçado com raiva, e ainda disse:
– E para que eu iria
querer brincar com esses pirralhos?
Aparentemente mantendo a calma que lhe era normal, Jesus
fez um gesto com o braço estendido e a palma virada para cima, elevando-o
vagarosamente. Viu-se o bruto a subir no ar até a altura de um metro. Em
seguida, Jesus começou lentamente a rodar o braço e, pouco a pouco, aumentou a
velocidade, fazendo do malcriado um cata-vento vivo.
A turma de meninos gritava vivas enquanto Jesus foi
diminuindo o giro até pousar o cambaleante bruto no chão, que saiu como pôde a
correr ladeira abaixo até desaparecer na curva da estrada.
Ouvindo o fim da estória, não pude deixar de dizer:
– Bem feito!
Ao que minha avó retrucou:
– Mas Jesus foi
dormir aquela noite sentindo-se triste e penalizado.

