As
travessuras do Jesus Menino
Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha
avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples
narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino,
carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar
fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me
divertia.
1. Vaga-lumes
Nos tempos quando Jesus era criança, brincando à noite
próximo a sua casa, ele ouviu, pois conhecia a língua dos bichinhos, dois
grilos a cricrilar.
– Que bonitas são as estrelas, voando lá no céu a brilhar!
– disse um grilo.
– Muito lindo, que bom seria se pudéssemos voar bem alto!
– E brilhar como as estrelas! Poderíamos colorir o céu com
muitas luzes.
Jesus parou um pouco a imaginar o bonito sugerido pelos
grilos e viu a noite iluminada por inúmeras luzinhas a voar, trazendo o céu
estrelado para bem próximo da gente. Achou bonitas as ideias dos grilos e
resolveu fazer uma travessura atendendo as suas vontades. Deu-lhes as asas
vigorosas para voarem e a luciferina, uma invenção sua, um pigmento produzido
em seus organismos, que lhes dava o poder de emitir luz através de um
farolzinho fixado em seus bumbuns. E deu não só aos dois poetinhas que lhe
deram a ideia, mas a todos os grilos que por ali existissem e desejassem ser
uma estrelinha.
Ao se verem assim transfigurados, os ex-grilos encheram o
céu noturno de luzinhas brilhantes. Jesus batizou suas novas criaturas
pisca-piscas de vaga-lumes, por serem como foguinhos a vagar pela noite. E,
ainda, deu-lhes um gostinho horrível para protegê-los dos outros bichinhos que
tentassem devorá-los. É bem verdade, pensou pesaroso, que pelo menos um deveria
perecer para que um morcego aprendesse a passar longe daquelas luzinhas, mas
como fugir às leis da natureza?
Perto dali, um menino doentinho, maravilhado de ver as
estrelinhas, dormiu e sonhou. Sonhou que estava rodeado por muitos vaga-lumes
que voavam ao seu redor e pediu a Jesus que também lhe permitisse ser como uma
estrelinha brilhante. Sua alma deixou-o e, tornada um facho de luz, brincou com
os vaga-lumes e voou... voou bem alto para ser uma estrelinha no céu.
Quando ouvi pela primeira esta estória, disse a minha avó:
– A alma é assim
algo tão grande como o nosso Sol?
E ela:
– Vocês, meninos de
hoje, sabem de tudo, mas isto é apenas uma estória para dizer que você é uma
estrela enorme, que aquece o coração de sua avozinha.

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