domingo, 28 de junho de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 2. Cata-vento


 

As travessuras do Jesus Menino



Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

2. Cata-vento

Naquele tempo, era uma tarde de outono, o sol caminhando para o seu poente coloria o céu sobre os montes de um tom levemente avermelhado, e uma brisa leve e fria soprava, incentivando o grupo de crianças a brincar ao sabor do vento.

Jesus, sentado à porta de sua casa no alto da colina onde estava sua aldeia, entretinha-se a fabricar papa-ventos com folhas de papiro, que entregava aos pequeninos ansiosos e excitados que ao seu redor pediam insistentemente o próximo brinquedo. Agraciado com o brinde desejado, o pequeno saía a correr pela rua exibindo a sua graça e agilidade.

Subindo pela estrada que dava acesso à aldeia, um menino estranho ao grupo, trazendo nas mãos um cajado curto, parou por ali a observar a alegre correria, sem causar atenção dos pequenos pela sua presença, que mais o viam como um deles. A alteração no quadro de alegria veio de modo repentino.

Um dos pequenos, ao passar alegremente com o seu brinquedo girando próximo ao estranho, foi por este assaltado e teve o seu troféu arrancado de sua mão e, ato contínuo, estraçalhado. O menino, tomado por susto, medo e desilusão, irrompeu em choro convulso.

Jesus foi despertado do seu trabalho ao ouvir a choradeira e, aproximando-se do estranho de maneira amistosa, perguntou-lhe o motivo do ato tão sem propósito, e ouviu-o responder:

 Eu fiz porque quis e porque eu posso.

Jesus calmamente convidou-o a brincar com o grupo e ofereceu-lhe o cata-vento que acabara de fazer, que foi pelo incauto também destroçado com raiva, e ainda disse:

 E para que eu iria querer brincar com esses pirralhos?

Aparentemente mantendo a calma que lhe era normal, Jesus fez um gesto com o braço estendido e a palma virada para cima, elevando-o vagarosamente. Viu-se o bruto a subir no ar até a altura de um metro. Em seguida, Jesus começou lentamente a rodar o braço e, pouco a pouco, aumentou a velocidade, fazendo do malcriado um cata-vento vivo.

A turma de meninos gritava vivas enquanto Jesus foi diminuindo o giro até pousar o cambaleante bruto no chão, que saiu como pôde a correr ladeira abaixo até desaparecer na curva da estrada.

Ouvindo o fim da estória, não pude deixar de dizer:

 Bem feito!

Ao que minha avó retrucou:

 Mas Jesus foi dormir aquela noite sentindo-se triste e penalizado.


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