As
travessuras do Jesus Menino
Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha
avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de
simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando
menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou
tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir
a graça com que me divertia.
5. O Sapo
Naquele tempo, à
tardinha, Jesus estava sentado junto com seus amiguinhos à beira do poço da aldeia em alegre conversação,
quando, de repente, o Elias deu um salto de susto.
– O que foi, Elias? - toda a turma perguntou.
O Elias, sem conseguir responder por causa do susto,
apontou para o chão onde estivera o seu pé, e lá estava um sapo, quietinho,
inflando e desinflando o papo sem demonstrar nenhuma preocupação com os
meninos. O Samuel, que ouvira já muitos relatos de sapos venenosos, logo
apanhou uma pedra grande para atirar no intruso. Não conseguindo impedir aquele
gesto precipitado, por não estar próximo bastante, Jesus deu força ao sapo para
saltar e, assim, escapar de ser machucado. E lá se foi o anfíbio para o abrigo
dos arbustos que faziam sombra para o poço, de onde o insensato não deveria ter
saído.
E Jesus disse ao Samuel que nenhum mal aquela pequena
criatura poderia lhe fazer se fosse deixada em paz, e, se ela possuía realmente
um veneno, era para usar como defesa contra os predadores.
Aproveitando o despertar da curiosidade da turma, falou
sobre a simbologia que o sapo tinha de elevação espiritual, de passagem para um
plano mais apurado de consciência, pois, durante sua vida, nascido de um ovo passava a um estágio de larva que evoluía para um girino e, finalmente,
transformava-se no sapo. Assim, ensinava aos amiguinhos que essa também deveria
ser nossa função na vida: a elevação para um ser sempre melhor.
Ainda sobre a simbologia do sapo, disse-lhes que ela
variava muito entre os diversos povos, pois, se para alguns ele era símbolo da
feitiçaria e das coisas do inferno, para os seus opressores, os romanos, ele
representava a fidelidade do amor constante, da paixão mútua, e por isto uma
romana feliz e apaixonada referia-se a seu amante como o seu sapo.
– Vó, quer dizer, então, que o sapo que vira príncipe nos
contos de fada, na verdade está regredindo?
– Ah, pode até ser, por isso as estórias terminam ali, para
não contar o que vem depois.
– Por outro lado, Vó, a princesa que ousa beijar um sapo
deve passar por uma enorme prova.
– Ela sim, deve passar por uma verdadeira transformação,
tendo que superar o asco e os seus preconceitos para ousar beijo tão asqueroso.
– E se o sapo vira um príncipe comum...

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