sábado, 1 de agosto de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 5. O Sapo


 

As travessuras do Jesus Menino

 

 

Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

 

5. O Sapo


Naquele tempo, à tardinha, Jesus estava sentado junto com seus amiguinhos à beira do poço da aldeia em alegre conversação, quando, de repente, o Elias deu um salto de susto.

– O que foi, Elias? - toda a turma perguntou.

O Elias, sem conseguir responder por causa do susto, apontou para o chão onde estivera o seu pé, e lá estava um sapo, quietinho, inflando e desinflando o papo sem demonstrar nenhuma preocupação com os meninos. O Samuel, que ouvira já muitos relatos de sapos venenosos, logo apanhou uma pedra grande para atirar no intruso. Não conseguindo impedir aquele gesto precipitado, por não estar próximo bastante, Jesus deu força ao sapo para saltar e, assim, escapar de ser machucado. E lá se foi o anfíbio para o abrigo dos arbustos que faziam sombra para o poço, de onde o insensato não deveria ter saído.

E Jesus disse ao Samuel que nenhum mal aquela pequena criatura poderia lhe fazer se fosse deixada em paz, e, se ela possuía realmente um veneno, era para usar como defesa contra os predadores.

Aproveitando o despertar da curiosidade da turma, falou sobre a simbologia que o sapo tinha de elevação espiritual, de passagem para um plano mais apurado de consciência, pois, durante sua vida, nascido de um ovo passava a um estágio de larva que evoluía para um girino e, finalmente, transformava-se no sapo. Assim, ensinava aos amiguinhos que essa também deveria ser nossa função na vida: a elevação para um ser sempre melhor.

Ainda sobre a simbologia do sapo, disse-lhes que ela variava muito entre os diversos povos, pois, se para alguns ele era símbolo da feitiçaria e das coisas do inferno, para os seus opressores, os romanos, ele representava a fidelidade do amor constante, da paixão mútua, e por isto uma romana feliz e apaixonada referia-se a seu amante como o seu sapo.

– Vó, quer dizer, então, que o sapo que vira príncipe nos contos de fada, na verdade está regredindo?

– Ah, pode até ser, por isso as estórias terminam ali, para não contar o que vem depois.

– Por outro lado, Vó, a princesa que ousa beijar um sapo deve passar por uma enorme prova.

– Ela sim, deve passar por uma verdadeira transformação, tendo que superar o asco e os seus preconceitos para ousar beijo tão asqueroso.

– E se o sapo vira um príncipe comum...

 


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