As
travessuras do Jesus Menino
Tenho
na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se
saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o
meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas
que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel
essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.
6. Lagarta
Naquele tempo, Jesus, criança ainda pequena, gostava de
andar pelo quintal aproveitando o fresco sol da manhã, que dá vida às plantas e movimenta os pequenos
bichinhos que existem entre elas. Cada nova flor desabrochada era razão para
ficar a admirar o milagre da sua beleza doadora, cada bichinho a passear era
motivo para uma prosinha de boas-vindas.
Uma lagarta riscadinha entre o preto e o amarelo, agitando
a cabeça de um lado para outro, pareceu-lhe nervosa e o incitou a indagar-lhe o
motivo da sua ansiedade. Respondeu-lhe o bichinho que, por contemplar tanta
beleza das flores ao seu redor, estava pesarosa por carregar sua aparência
asquerosa rastejando por aquele galho; que gostaria de, como elas, ser um
enfeite para o jardim e, ao invés de se encolher de medo, sempre a temer o bico
afiado de um pássaro, de poder lançar-se pelos ares enchendo de graça o quintal.
Embora Jesus achasse que cada bichinho, a seu modo,
contribuísse para a beleza, ficou sensibilizado pela ansiedade da lagarta e,
pensando em como poderia ajudá-la sem interferir demais na sua natureza, achou
uma solução que lhe pareceu bastante satisfatória e lhe propôs:
– Acho que você poderia resolver sua tristeza passando um
tempo com sua forma atual e depois se transformando em uma flor com asas. Seria
assim: enquanto você estiver nessa sua forma atual, você comeria muito para
acumular energia; estando bem forte, você teceria um casulo ao seu redor com
fios que você produziria e passaria nele o tempo necessário para
transformar-se, colorir-se e gerar asas fortes; nos seus pés você poderia
sentir o gosto de todas as flores em que pousaria e seus filhos nasceriam dos
seus ovos como novas lagartas. Que tal?
A lagarta aprovou a ideia com muita alegria e pediu logo
que ele lhe desse a genética necessária para mudar o seu destino, o que lhe foi
prontamente concedido. Ela então com muita gana passou a comer as folhas para
se preparar, engordou e iniciou o seu casulo. Duas semanas depois, deixando o
casulo, um azul intenso com extremidades negras jogou-se no ar a provar o sol,
o vento e as flores.
Jesus viu cedinho a bela borboleta a dançar sob a luz do
sol e, felicitando-a, ouviu o seu agradecimento por lhe ter dado tamanha
beleza. Jesus respondeu-lhe: “Obrigado a você por alegrar tanto a minha manhã”.
– Ih, Vó, desta vez a senhora embolou bem os milagres da
genética com os do Jesus menino!
E a vó se foi a resmungar:
– Com essas crianças de hoje, fica difícil desenrolar uma
boa estória!

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