Crônicas de uma Saudade
“O vento sopra onde quer, e lhe ouves
a voz, mas não sabes de onde ele vem nem para onde vai; assim é todo aquele que
é nascido do Espírito.” (João 3,8)
Dizem que a palavra saudade não
tem tradução em outros idiomas, que a traduzem como nostalgia, mas que esta não
reflete o caráter ambíguo de dor e prazer que saudade tem. E estas crônicas vão
navegar através desta bipolaridade que é a herança que nossas vidas nos
concedem.
Quando nasci, uma série de
enganos parece ter ocorrido simultaneamente. Esta impressão ficou devido a
certos eventos um tanto, como dizer, no mínimo curiosos.
O primeiro engano parece ter
ocorrido a respeito do momento do nascimento, pois me foi dito, alguns anos
depois, evidentemente, ter nascido cerca de onze horas da noite do dia 5 de
julho, mas um tio insistiu para que me registrassem no dia 6, pois este era o
dia de seu aniversário, e assim foi feito: fui registrado como nascido a uma
hora do dia 6. E por causa dessa pequena alteração é claro que os céus ficaram
muito confusos com qual horóscopo eu deveria ser conduzido, portanto, nasci com
o ascendente no signo da confusão.
Além dessa confusão de dia e hora,
não é que mudaram também o lugar do meu nascimento? Pois é, nasci em Itaperuna,
estado do Rio de Janeiro, onde morava minha avó, para onde minha mãe foi para ter
sua assistência naqueles dias, e fui registrado como nascido em Miracema,
cidade vizinha, também naquele estado. Pois então já eram duas enganações que
aprontavam com meu horóscopo; além da camuflagem do dia e hora, também o lugar
estava deslocado. Acredito que o diabo deve ter-se aproveitado bastante da
situação.
Acham que parou por aí, ainda
não. Itaperuna e Miracema são cidades fronteiras de Minas Gerais e logo toda a
minha vida seria desviada para este estado. Sou tão mineiro quanto qualquer um
nascido em Minas, embora o diabo tenha tentado enganar-me. Mais estranho ainda,
meu pai contou-me que, nascido em uma fazenda, ela pertencera a Minas Gerais;
com adequação das fronteiras, mudou de lado. Vejam, minhas raízes mineiras são
bem mais profundas. Faz-me lembrar um causo contado pelo Boldrin em que um
fazendeiro turrão ficou insatisfeito porque, ao serem alteradas as divisas entre os
estados, mudaram sua fazenda de Minas Gerais para São Paulo e, de imediato, pôs
à venda sua fazenda. Quando lhe perguntaram por que estava ele vendendo seu
torrão, onde nascera e criara sua família, respondeu que ele não se dava bem
com o clima de São Paulo. É mais ou menos por aí, estou bem identificado com o
jeito mineiro de ser, encravado no meio das montanhas e no meio de mim mesmo,
este morro muito mais difícil de ser transposto.
Agora vejam, outro fato estranho
foi que parece que se enganaram com o meu nome, pois deixa a impressão de um
erro cometido por um escrivão incompetente, como tantos havia por esses
interiores. Talvez eu devesse chamar Giovani, tradução italiana de duas grandes
personagens dos evangelhos para o nome de João, mas não, meu pai nem me soube
explicar de onde ele leu esse nome, mas foi intencional mesmo. Assim, fui pela
vida afora com um nome que ficava parecendo um erro, algo assim como Soão. Não
estou reclamando, ele me deu uma identidade que nem necessita de um sobrenome
para identificar-me, o que pode ser um problema no caso de não me comportar
muito bem.
Acho que fiquei divagando e perdi o senso,
deixem-me voltar para o objetivo deste texto. Mesmo com todos os enganos fui
criado por uma família católica, bem dentro da igreja, posso mesmo dizer quase
dentro do altar, participando de todas as festas com uma alegria imensa por
cumprir meus deveres e tendo que inventar alguns ridículos pecados para não ter
que toda semana confessar os mesmos e iguais. Logo que tive suficiente idade
fui coroinha, e para a felicidade de todos parti, aos dez anos, deixando minha
família.
E parti para o cemitério. Não,
desculpem-me pelo lapso inconsciente, parti para o seminário, por isto toda a
minha família ficou feliz, não foi porque estava livre de mim como podem ter
imaginado. Fui para Campo Belo iniciando minha jornada como mineiro. Era 1964.
Naquele tempo levava dois dias na viagem: de Miracema ia a Leopoldina e a manhã
do primeiro dia ia embora; à tarde fazia o percurso para Juiz de Fora, onde
dormia na casa paroquial da Igreja de Santa Rita de onde guardei boas lembranças
de um padre camarada (Padre Haroldo); no dia seguinte embarcava para Belo
Horizonte, onde chegava pela hora do almoço e, à tarde, finalmente tomava o
ônibus que me levaria a Campo Belo. Este percurso tornou-se importante em
minhas memórias pelo que, muitos e muitos anos depois, um dia me revelou uma
estranha coincidência que espero contar em outra crônica.
Como menino que era tive momentos
bons e ruins pelos três anos que lá passei, mas como a adolescência foi se
instalando, junto com ela fui perdendo a essência de criança que podia
acreditar em tudo que afirmavam. E crescia comigo a ciência e a capacidade de
criticar, e as dúvidas foram tomando-me. Foram muitos os padres com quem por lá
convivi, dos perfis mais variados, desde aqueles onde podíamos enxergar uma
piedosa devoção até àqueles onde víamos pura vaidade e arrogância, e outros
mais como em qualquer porção de nossa sociedade. Antes que me façam a pergunta
sobre abusos, coisa comum de ouvir quando digo que estive no seminário, respondo
que nunca sofri e nunca soube que quaisquer dos meus colegas os sofressem.
Meu primeiro grito de
independência foi dado no final daqueles três anos. Eu sabia que iria causar um
rebuliço na família, mais que rebuliço, uma enorme decepção, mas mesmo assim,
ao voltar para casa de férias, comuniquei a todos que não retornaria e que nada
poderia ser feito para que eu o fizesse. Tive compaixão das minhas tias.
O lapso que cometi acima a
respeito do cemitério talvez tenha sido porque lá também ficou enterrada a minha
crença na igreja, e, consequentemente, por confundir o continente com o
conteúdo, em coisas do espírito. E sem eu perceber que era esta a falta, a
aridez foi tomando conta do meu ser e eu fui adentrando um deserto onde passei
a conhecer só a sede, ou a morte (“...e deixa os mortos sepultar seus mortos”,
Mt 8,22).
E fui subindo a escada, ora
empurrado, ora empurrando. A dor maior não era causada pelo tamanho dos degraus,
mas em ver aumentar o abismo que ia crescendo, deixando-me tão distante daquele
ser que podia perder-se no mundo dos seus gibis em aventuras de Tarzan, do
Zorro, do Cavaleiro Negro e muitos outros heróis, mas também podia acreditar
quando lhe falavam do Amor. Talvez aquele menino pudesse vislumbrar, sem entender
os reais motivos, que este era o mote que existia em todas aquelas aventuras de
heróis e jornadas fantásticas. E durante a subida, a desilusão de um Dom Quixote
retornado à racionalidade suprimia qualquer possibilidade de contato com aquela
esfera.
A saudade foi crescendo, camada
por camada, e tornou-se tão doída, tão desesperada, que, quando não mais parecia
ser suportável, houve um choque quando alguém sussurrou que era possível vê-lo
renascer, que era possível ressuscitá-lo. E foi quando um velho amigo fez-se
vivo.
-o-
Sonho
Olavo Bilac
Solto para onde estás, e fico de ti perto!
Como, depois do sonho, é triste a realidade!
Como tudo, sem ti, fica depois deserto!
Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.
Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma:
De cada estrela de ouro um anjo se debruça,
E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.
Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.
Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.
E, como sobre um leito um alvo cortinado,
Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.
Porém, subitamente, um relâmpago corta
Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta
E, sorrindo, serena, apareces à porta,

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