As
travessuras do Jesus Menino
Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha
avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples
narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino,
carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar
fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me
divertia.
8. Bolinhas de barro
Naquele tempo, era uma tarde tórrida de verão, Jesus e seu
grupo estavam a jogar com bolinhas. Como o vidro ainda era um produto de
difícil acesso para os filhos de trabalhadores pobres de Nazaré, as bolinhas
eram feitas de barro pelos próprios meninos, que se juntavam em algumas
ocasiões para bater o barro e moldar as bolinhas no côncavo das mãos; nesses
momentos de trabalho sério, havia ocasiões em que se deixavam levar pelas
traquinagens, quando o barro se tornava fonte de brincadeiras de sujar uns aos
outros, que quase sempre terminavam em uma guerra de barro. Mas quando a
seriedade voltava, as bolinhas sobreviventes eram deixadas sob o sol escaldante
a secar e endurecer.
Na tarde em questão brincavam com o jogo preferido da turma,
onde a pontaria era a habilidade exigida: traçada uma meia-lua no chão de
terra, cada menino colocava uma bolinha dentro dela e de uma linha de tiro, traçada
a três metros de distância, procurava tirar, com uma outra, uma bolinha do
círculo, ganhando-a.
O Levi estava a cada lance mais nervoso, reclamando muito
dos colegas mais habilidosos. Quando em nova rodada tinha apenas a sua última
bolinha, perdeu de vez o espírito de brincadeira e desistindo de colocá-la na
meia-lua, com choro e grito atirou-a com raiva na direção do bando de pintassilgos
que saltitavam em um pequeno pinheiro ali próximo. E, desta vez, acertou.
Um passarinho caiu ao chão, o bando voou assustado, e
apenas um outro permaneceu onde estava pousado.
O choro do Levi intensificou-se em pranto, pois não tivera
a intenção de acertar o bichinho que encantava a todos.
Jesus correu a pegar o pássaro caído, e o Levi, chegando ao
seu lado, ouviu-o dizer:
– Ele foi atingido na
cabecinha, veja aqui a ferida. Ele é a Raiva, o descontrole dos seus atos, e
aquele que lá ficou quietinho é a Culpa, presa no galho.
Pegando na mão de Levi, levou-a a acariciar a cabecinha do
bichinho.
– Se você sente tanto,
talvez a Culpa possa voar e o Perdão voltar. Talvez ele esteja apenas
desacordado.
O passarinho que ficara no galho veio a pousar no ombro de
Jesus, arrancando um sorriso de Levi. O pintassilgo ferido agitou suas asas e
se pôs em pé. Um outro pintassilgo apareceu e foi aninhar-se na palma de Levi,
que soube reconhecer o Perdão.
E os três voaram em busca do seu bando.
– Vó, que mistureba danada você fez
de pintassilgos, palavras e sentimentos.
– São apenas metáforas que fazem
mais fáceis o entender das nossas emoções.
– Metáfora, Vó, como é isso?
– São invenções ou às vezes
mentirinhas que ajudam a compreensão através de comparações.
– Ah! Assim como dizer que você é
uma bruxa!


