quarta-feira, 31 de maio de 2017

Santo Antônio dos Brotos




Santo Antônio dos Brotos



“Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do amor antigo....”
Fernando Pessoa em uma carta a Ofélia Queiroz


Dafne e Apolo de Bernini

– Doutor, você tem uma história cheia de bonitezas pra mim?

– Uma história cheia de bonitezas? Hum, acho que sim, uma história com muitas coisas bonitas.

– Então manda ver, Doutor, pra encher meus ouvidos!

– A história começa com um esteio que foi plantado para construir uma capela.

– Uai, a gente planta esteio, Doutor?

– Bom, Miguelim, o sentido deste plantar é que ele foi fixado no lugar para fazer a construção de uma capela.

– E foi plantado onde?

– Houve uma vez em que um esteio assim foi plantado em terras quase virgens, origem de um lugar que, por ele ter brotado, chamou-se Santo Antônio dos Brotos, mas este do qual vou contar-lhe a história foi plantado muitos anos depois naquela cidade que se formou.

– Foi para fazer outra capela, Doutor?

– Uma capela diferente, Miguelim, mas ainda uma capela. As duas capelas frustraram as suas famílias, porque não houve pároco para nenhuma delas.

– Uai, Doutor, por quê?

– As duas famílias queriam um filho padre, mas nenhuma conseguiu. Mas deixemos de lado aquela antiga capela, quero contar-lhe do outro esteio.

– Está bem, Doutor, conte.

– O importante na história é que o esteio, em si seco e estéril, brotou. Os brotos não saíam dele, no comum eram orquídeas que se colavam ao seu tronco e evoluíam quando a luz era adequada.

– Que legal, Doutor!

– Quando ele entrou na escola...

– Escola, Doutor? Nunca vi falar de escola pra esteio.

– Lembra da história de Dafne, Miguelim, transformada por seu pai em uma árvore? Assim era este esteio, nem sequer mesmo uma árvore ou, melhor seria, uma árvore despojada de enfeites; assim como na lenda, Amor lançou duas flechas com efeitos contrários. Quando ele entrou na escola, uma orquídea lourinha brotou no esteio. Tão linda, tão terna, decerto uma pintura emanada dos anjos. Ela se fazia presente com a luz emitida de suas pétalas em cores de doçura, e exalava o seu cálido perfume sobre o esteio, não mais frio e seco, pois era embelezado por tamanhas dádivas.

– Ela ficava bem no agrado dele, bem pertinho?

– Quando o vento não a retirava do seu pouso, ela deixava-se ficar no seu aconchego; era como olhos que se procuravam e trocavam carícias nas ondas de luzes verdes que se cruzavam.... Era como sorrisos que se emolduravam para toda uma vida de ausências... E toda a escola festejava aquele amor pueril que espalhava um perfume infantil pelos seus canteiros.

– E o que foi feito dessa orquídea, Doutor?

– Um dia o vento arrancou-a, levou-a para uma floresta distante, deixando impregnada no esteio, com uma tinta invisível, uma interrogação que vasculhava o futuro e os caminhos do mundo para saber de suas novas cores e de suas sementes.

– E se foi pra toda vida, Doutor, de vez?

– Para sempre, voltando a visitar de quando em vez a sua lembrança, pois suas pétalas nunca deixaram de tocá-lo para lembrá-lo de sua ternura.

– E o esteio tornou a ficar feio?

– Por algum tempo ele também foi levado a outros lugares, e voltava e partia. E, quando voltava, do outro lado do muro brincava o vento que soprou um pólen que desabrochou em uma violeta envolta pelo ar austero de sua cor, mas que se abria em um sorriso de encanto. E encantava o seu estar e, nem tanto por isto, então ele resolveu não mais partir.

– E ficou com a violeta?

– Ela tinha raízes pouco profundas, frágil florzinha criança, e logo o vento a levou para além do muro da estrada. E brotinhos iam aparecendo e desaparecendo por falta de cuidados.

– A gente tem que dar cuidados pra eles poderem crescer, né?

– Algum tempo depois, dois brotos surgiram entrelaçados. Envolviam o esteio em cores diferentes. Um broto lançava um perfume inebriante, o outro coloria-se de cores mais brilhantes para atraí-lo, mas ele não se entregou aos feitiços das cores, aturdido pelo perfume.

– E o esteio ficou todo confuso?

– Ele não queria as cores brilhantes, ele queria apenas o perfume inebriante, e deixou-se envolver, apprivoisé por aqueles anéis em ondas que faziam-no sonhar com florestas verdes. Certa vez, o murmúrio das pétalas que soltavam o perfume falou-lhe de seu cepo tortuoso, deixando-lhe um sulco profundo que o forçou a alinhar-se para merecer suas pétalas. Mas o conflito de perfume e cores soltou-se ao vento e, por isto, os dois brotos foram arrancados de seu tronco, pois não quiseram separar-se.

– E sumiram, Doutor?

– Aquele perfume ficou incrustado em seu cerne, profundo, recendendo em noites escuras.

– E nessas noites escuras o esteio ficou murcho, Doutor?

– O vento sempre sopra, muda de direção e traz novas sementes. Uma semente adejava sempre em torno dele, acariciava-lhe a casca e deixava-se levar pelo vento. Às vezes colava-se em seu tronco, murmurava-lhe carícias; usava gavinhas para mimoseá-lo, e ia embora com o vento. Em um dia de tempestade mostrou-se mais inebriante, colou-se a ele como um beija-flor, neve a desfazer-se no verão da tarde, mas ele era infante e ela foi-se no vento, e quando excitado por tantas promessas tentou atraí-la novamente, ela voou em busca de outro tronco mais firme, deixando uma marca de amargura que se fez em perfídia, mais tarde recusando-lhe um simples murmurar.

– Esquisito isso, Doutor, como assim?

– Esquisito era o esteio, Miguelim.

– E depois, Doutor?

– Depois veio um broto azul, correndo pelas vias do vento, atropelando com cores e perfumes de todos os tipos capazes de embriagarem. Trazia gotas de orvalho sobre as suas folhas, e no espelho delas mostrava um mundo que abria para o futuro um caleidoscópio de cores extasiantes.

– Lá no Mutum, Doutor, eu gostava de montão de ver o orvalho nas folhas, tudo colorido com o arco-íris.

– É bonito mesmo, Miguilim! E a luz que penetrava nas gotas refletia-se toda em azul. E este broto tomou-o completamente, lançando raízes que se desenvolveram em folhas, flores, frutos e sementes; que penetraram pelo seu ser, misturando em suas veias a sua própria seiva. Não era mais um esteio. Estava florido.

– E virou uma árvore deveras?!

– Assim como Apolo fez a Dafne, uma árvore sagrada. E foram levados para longe de Santo Antônio dos Brotos.

– E ficou em flor pra sempre, Doutor?

– Lembra da lenda, Miguelim, embora Apolo fosse o oráculo para todo o povo, não pôde prever o próprio destino: ferido do amor que não lhe era permitido traduzir.

– Que triste, Doutor...

– Isto não é um conto de fadas, Miguelim. Vamos dormir, boa noite!

– Boa noite, Doutor.


-o-


Todas as Cartas de Amor são Ridículas

                                     Fernando Pessoa  - Álvaro de Campos


Todas as cartas de amor são 
Ridículas. 
Não seriam cartas de amor se não fossem 
Ridículas. 
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras, 
Ridículas. 

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser 
Ridículas. 

Mas, afinal, 
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso 
Cartas de amor 
Ridículas. 

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

(Todas as palavras esdrúxulas, 
Como os sentimentos esdrúxulos, 
São naturalmente 
Ridículas.)





quinta-feira, 18 de maio de 2017

Cogitor

Cogitor


Jornal do Globo, 20h00:

– Um estudo revelado hoje pela Universidade do Brasil está despertando reações as mais variadas e contraditórias. O Professor Armando de Albuquerque, coordenador dos estudos, corroborando o pensamento nietzschiano e freudiano anunciou a descoberta da fonte de nossos pensamentos. Sepultando definitivamente a ideia cartesiana resumida no aforismo “cogito, ergo sum”, os cientistas deram como título a suas pesquisas a palavra latina cogitor. Relata o professor a descoberta de bactérias em nosso corpo que seriam as responsáveis pelos nossos pensamentos. Diversas manifestações de cientistas, filósofos, psiquiatras e intelectuais de todo o mundo se fizeram ouvir iniciando uma polêmica que está apenas nos seus primórdios. Para esclarecer ao público as consequências de tal estudo, convidamos o professor para pessoalmente vir a nosso estúdio para falar sobre a descoberta.

Imagem do site http://ovma.com.br
Apresentador: Professor, inicialmente pedimos que nos esclareça a respeito da alegada liquidação da frase lapidar da filosofia cartesiana por esta palavra cogitor.

Professor: Bom, como todos sabem, René Descartes estabeleceu princípios racionais para tratar o conhecimento. Pelo seu método, qualquer assunto deve ser a priori posto em dúvida para ser analisado criteriosamente antes de ser negado ou confirmado, e trabalhando com suas dúvidas formulou esta célebre frase “cogito, ergo sum”; o que traduzido para nossa língua significa: “eu penso, logo existo”; e sobre essa base foi construída a filosofia moderna. Posteriormente, Nietzsche liquidou o cogito postulando que “algo pensa em mim”; nestes termos, podemos então dizer que o algo que pensa são as bactérias. Porém, se nossos pensamentos são realizados por bactérias, se elas são a matriz do inconsciente freudiano, a pedra angular da filosofia sofre um abalo ruinoso e o castelo vai desabar. Por isso estamos sugerindo para sistematizar os novos estudos o termo cogitor.

Apresentador: Mas, Professor, o que significa cogitor?

Professor: Cogitor é apenas a voz passiva referente a cogito, significando portanto: sou pensado. O que seguramente nos leva a resgatar o gênio maligno, presente na origem do pensamento de Descartes, que utilizou todos os seus ardis de enganador para manter-nos nas ilusões de nossos sentidos. E mesmo valores hedonistas como “viver seu pensamento e pensar sua vida” não nos dizem mais nada.

Apresentador: E em que estágio se encontram os estudos sobre essas descobertas?

Professor: Os estudos já avançaram em determinar que há vários gêneros de bactérias responsáveis por formular os nossos mais diversos pensamentos.

Apresentador: O senhor está dizendo-nos que os nossos pensamentos são o resultado aleatório da interferência de diversos tipos de bactérias?

Professor: Até agora pudemos entender e comprovar que cada gênero tem uma especialidade característica.

Apresentador: Deixe-nos entender isso direito, quer dizer que cada tipo de bactéria é responsável por tipos diferentes de pensamento?

Professor: Justamente. Quando, por exemplo, uma pessoa tem pendores poéticos elevados, é porque ela tem grande concentração da bacillus poeticus.

Apresentador: Então são as bactérias desse gênero as responsáveis pelas grandes obras poéticas que a humanidade produziu?

Professor: Já não temos nenhuma dúvida disso.

Apresentador: É por isso que muitos poetas não sabem dizer de onde veio a inspiração para compor?

Professor: Acreditamos que a realidade se faz realmente assim, por exemplo: um aglomerado de bacillus poeticus se reuniu e, de repente, um Lusíadas se formou na mente de Camões.

Apresentador: Professor, temos que interromper um instante para atender o chamado de nosso colega Evaristo, que está na rua para entrevistar algumas pessoas sobre este assunto, que vem despertando enorme interesse também das pessoas comuns.

Repórter Evaristo: Estamos aqui convidando alguns transeuntes para dar sua opinião a respeito do assunto do momento. Temos aqui nosso primeiro entrevistado. Senhor, por favor, como o senhor se chama?

– Ah, oi, eu sou o Zé, as pessoas me chamam de Zé das Couve.

Repórter Evaristo: O que o senhor tem a dizer sobre a descoberta de que são as bactérias as responsáveis pelos nossos pensamentos?

Zé das Couves: Ah, bem, hum... num sei o que pensar.

Repórter Evaristo: Ora, seu Zé, ponha as suas bactérias para trabalhar.

Zé das Couves: Acho mesmo, moço, que esses bicho aí num existe em mim não.

Repórter Evaristo: Por que o senhor diz isso, seu Zé?

Zé das Couves: É que cá na minha cabeça é um ermo só! A gente é pobre, os bicho deve estar tudo na preguiça, aperreado de fome.

Repórter Evaristo: De qualquer forma, obrigado pela gentileza, seu Zé. E a senhora aí, como se chama?

– Uai, moço, eu não me chamo, as outras pessoas me chamam de Dona Menina.

Repórter Evaristo: Então, Dona Menina, o que a senhora tem a dizer sobre essas bactérias pensantes?

Dona Menina: Pra mim isso num tem nada de muito novo não.

Repórter Evaristo: Como não, senhora, se é uma recentíssima descoberta da ciência?

Dona Menina: Uai, meu filho, basta pôr atenção nas coisas que a gente vê por aí.

Repórter Evaristo: A senhora poderia explicar-nos essa sua observação?

Dona Menina: Veja bem, meu filho, quando você vê esses ajuntamentos de políticos como assembleia, câmara e outras camarilhas, você só vê o quê? Bandalheira, corrupção...

Repórter Evaristo: E o que têm as bactérias pensantes com isso?

Dona Menina: Pois de há muito que eu matuto cá comigo que isso deve ser uma espécie de salmonella corrupta que grassa por aqueles pardieiros. Pois é mesmo assim, seu moço, qualquer pessoa de bem que se arrisca por aqueles lugares infectados, logo logo perde o adjetivo de bem.

Repórter Evaristo: Muito obrigado, senhora. E agora voltamos para o nosso estúdio.

Apresentador: Então, professor, a senhora entrevistada supôs que uma contaminação genérica pela salmonella corrupta é responsável pelo estado podre da nossa política, o que o senhor tem a dizer sobre isso?

Professor: Os mecanismos de proliferação dos diversos tipos de bactérias ainda não foram estudados satisfatoriamente para podermos explicar como acontecem, no entanto, já sabemos que os diversos gêneros trabalham em simbiose e têm uma resiliência persistente, que só é vencida após uma contínua exposição a novos agentes.

Apresentador: Isto quer dizer que as grandes mudanças nos pensamentos não acontecem repentinamente?

Professor: Precisamente, elas são lentas e acontecem apenas após longas exposições. Funciona mais ou menos como o ditado popular: diz-me com quem andas e te direi quem és. E também, é óbvio, podem proliferar com mais facilidade em épocas e lugares onde se concentram muitos portadores.

Apresentador: E o que senhor acha que seria possível fazer para combater as bactérias danosas e favorecer as benignas?

Professor: Com o avanço das pesquisas será possível desenvolver vacinas que combatam gêneros específicos, e esperamos poder também desenvolver técnicas para inocular e acelerar a absorção dos gêneros de boa cepa. Como não somos responsáveis pelos nossos pensamentos, somos um puro produto de nossos instintos, como animais que somos, sujeitos à vontade de poder, ou seja, aos nossos desejos. Não fosse o controle exercido pelas bactérias, o nosso inconsciente estaria livre para manifestar todo nosso egoísmo. Por isto estamos à procura de um gênero beneficus que possa se contrapor a essas bactérias maléficas criando pensamentos altruístas e compassivos.

Repórter Evaristo: Desculpem-me a interrupção, mas a senhora que acabei de entrevistar insiste em continuar expondo sua experiência.

Dona Menina: Desculpa a minha abelhudice, professor, mas a gente miúda assim como a minha pessoinha, que tá na lide da casa a cada santo dia, tem um bocado de prática pra lidar com esses vermes, e, quando a coisa tá danada de feia, quando um lugar tá assim muito contagiado, num tem precisão de esperar um tanto de tempo pra produzir resultado positivo.

Professor: Ah, sim, minha senhora, e qual seria esse método?

Dona Menina: Creolina.

Professor: Como assim, minha senhora, usar a creolina como remédio?


Dona Menina: Que nada de remédio, professor, como desinfetante mesmo. Um baita banho de creolina neste país todinho. Esborrifar com avião por todo canto, que essa gente nossa tá bem que tendo precisão. E nesses antros de políticos, para afogar as bactérias e tudo mais, usar os helicópteros deles para derramar tanques e tanques de creolina.

Apresentador: Obrigado, professor, pelos esclarecimentos e boa noite a todos.


-o-

De Adélia Prado:

A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Fliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Haicais



Haicais

Guilherme de Almeida, extasiado pela forma simples do haicai, escreveu: “não há ideia poética, por mais complexa, que, despida de roupagens atrapalhantes, lavada de toda excrecência, expurgada de qualquer impureza, não caiba estrita e suficientemente, em última análise, nas dezessete sílabas de um haicai”.



E adaptando a forma criada por Bashô ao nosso idioma, criou uma forma, assim:

– os três versos japoneses, na sua ordem original: 5 - 7 – 5 sílabas;

– o primeiro, rimando com o terceiro;
– o segundo - septissílabo - com uma rima interna: a segunda sílaba rimando com a sétima.

Passando à prática deixou-nos belos haicais, como estes:

O Haicai
Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.

Tristeza
Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?


Sem grande pretensão de fazer poesia, e mais brincando como um quebra-cabeça de palavras, dediquei-me algumas vezes a fazer haicais na forma por ele criada.

Em uma primeira fase, vagando pelo deserto, perseguido pelo exército do faraó, odiando aquele ser que cambaleava pela areia escaldante, carregava meu estresse sob nuvens ameaçadoras:

Mimetismo

Que inseto tão nobre
que tem, quando lhe convém,
uma cor que o encobre.

Medo

Proíbem as tramas
o sonho. Volta o medonho
apagar das chamas.

Inutilidade
O belo é de graça
no fútil poema inútil
beleza... desgraça.

Angústia

Para ouvir vibrante
a vida, algo apodrecida,
um toque é bastante.

Menina

Um anjo a pintou,
o amor era meu pendor.
Quem foi que a levou?


Mas consegui chegar à beira do mar, embora ao atravessá-lo tenha batido com a cabeça nas pedras do fundo, o que a fez abrir-se tingindo de vermelho as águas. Além da margem, um anjo esperava-me trajando uma veste de luz à porta de uma tenda branca, que me ofereceu a posse da terra:

O viandante

Feliz, não mais trilha
deserto. O oásis aberto:
só, a rosa brilha.

Estrada
Ânsia ou moleza,
a vida em duas partida:
ou Rose ou tristeza.

Jardineira

Tuas mãos plantam:
na mente explode a semente,
meus sonhos se encantam.

Saudade
Sem teu meigo encanto
só tanto sonhar, enquanto
espero teu canto.

Santos Dumont
Doce sonho: voar.
Tua terra um anjo encerra,
mais doce adejar.

Ansiedade

É pouco o dia. Moras,
qual vento em meu pensamento,
só vinte e quatro horas.

Síntese

Viver a ternura:
tua pele, minha ânsia dela,
tuas mãos, minha cura.

Teus lábios

Um mágico som
colorem. Meus olhos morrem
na luz do batom.


E o tempo, insistindo em não se fazer esquecer, foi colorindo a tenda com a poeira soprada pelo vento. Um vento que não mais portava ameaças, que fazia a areia murmurar palavras de descanso, e que trazia lembranças:

Infância
Rua do Biongo,
a casa velha dava asas
ao voar trilongo.

Amor de criança
Afrodite e Atena
são duas imagens tuas
Maria Helena

Tereza de Jesus
Subir o castelo,
viver nas moradas, ser
imagem do Belo.

A Verdade

Num saco de arroz
há tantos grãos veros quanto
o saber dispôs.

Pablo Neruda ou ódio à cebola

Pétala a pétala
fatal escama de sal
Afrodite acéfala

Clarice Lispector

Rosto e olhar de espanto
A rosa débil tortuosa
Méleo desencanto

Jardim
Fiz uma aquarela
Abri o céu e colhi
Cristiana e Daniela

Avoíce

Vivo patrimônio
risonho amanhã de sonho
Lucca, Marco Antônio


E para dizer que o amor também pode ser prolixo, uma tentativa de poema:

estas paredes sempre enferrujadas
debaixo do sangue guardam segredos
cinzas tardes enfeitam-nas de medos
invadem a sala almas cansadas

de mãos dadas fazem rodas festivas
cantam os mortos a sede da morte
correm olhares de todas as sortes
por minhas faces de dores cativas

mas... se a luz querida dos olhos teus
invade o negro quadro de sorrisos
súbito vejo morrendo ante os meus

tragadas pela presença de um deus
as almas mortas que deixam-me avisos
de retorno ao saberem teu adeus