Santo
Antônio dos Brotos
“Fiquemos, um perante o
outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando
meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos,
conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do amor antigo....”
Fernando Pessoa em uma carta a Ofélia Queiroz
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| Dafne e Apolo de Bernini |
– Doutor, você tem uma história cheia de bonitezas pra
mim?
– Uma história cheia de bonitezas? Hum, acho que sim, uma
história com muitas coisas bonitas.
– Então manda ver, Doutor, pra encher meus ouvidos!
– A história começa com um esteio que foi plantado para
construir uma capela.
– Uai, a gente planta esteio, Doutor?
– Bom, Miguelim, o sentido deste plantar é que ele foi fixado
no lugar para fazer a construção de uma capela.
– E foi plantado onde?
– Houve uma vez em que um esteio assim foi plantado em
terras quase virgens, origem de um lugar que, por ele ter brotado, chamou-se
Santo Antônio dos Brotos, mas este do qual vou contar-lhe a história foi
plantado muitos anos depois naquela cidade que se formou.
– Foi para fazer outra capela, Doutor?
– Uma capela diferente, Miguelim, mas ainda uma capela.
As duas capelas frustraram as suas famílias, porque não houve pároco para
nenhuma delas.
– Uai, Doutor, por quê?
– As duas famílias queriam um filho padre, mas nenhuma
conseguiu. Mas deixemos de lado aquela antiga capela, quero contar-lhe do outro
esteio.
– Está bem, Doutor, conte.
– O importante na história é que o esteio, em si seco e estéril,
brotou. Os brotos não saíam dele, no comum eram orquídeas que se colavam ao seu
tronco e evoluíam quando a luz era adequada.
– Que legal, Doutor!
– Quando ele entrou na escola...
– Escola, Doutor? Nunca vi falar de escola pra esteio.
– Lembra da história de Dafne, Miguelim, transformada por
seu pai em uma árvore? Assim era este esteio, nem sequer mesmo uma árvore ou,
melhor seria, uma árvore despojada de enfeites; assim como na lenda, Amor
lançou duas flechas com efeitos contrários. Quando ele entrou na escola, uma
orquídea lourinha brotou no esteio. Tão linda, tão terna, decerto uma pintura emanada
dos anjos. Ela se fazia presente com a luz emitida de suas pétalas em cores de
doçura, e exalava o seu cálido perfume sobre o esteio, não mais frio e seco,
pois era embelezado por tamanhas dádivas.
– Ela ficava bem no agrado dele, bem pertinho?
– Quando o vento não a retirava do seu pouso, ela deixava-se
ficar no seu aconchego; era como olhos que se procuravam e trocavam carícias
nas ondas de luzes verdes que se cruzavam.... Era como sorrisos que se
emolduravam para toda uma vida de ausências... E toda a escola festejava aquele
amor pueril que espalhava um perfume infantil pelos seus canteiros.
– E o que foi feito dessa orquídea, Doutor?
– Um dia o vento arrancou-a, levou-a para uma floresta
distante, deixando impregnada no esteio, com uma tinta invisível, uma
interrogação que vasculhava o futuro e os caminhos do mundo para saber de suas
novas cores e de suas sementes.
– E se foi pra toda vida, Doutor, de vez?
– Para sempre, voltando a visitar de quando em vez a sua
lembrança, pois suas pétalas nunca deixaram de tocá-lo para lembrá-lo de sua ternura.
– E o esteio tornou a ficar feio?
– Por algum tempo ele também foi levado a outros lugares,
e voltava e partia. E, quando voltava, do outro lado do muro brincava o vento que
soprou um pólen que desabrochou em uma violeta envolta pelo ar austero de sua
cor, mas que se abria em um sorriso de encanto. E encantava o seu estar e, nem
tanto por isto, então ele resolveu não mais partir.
– E ficou com a violeta?
– Ela tinha raízes pouco profundas, frágil florzinha
criança, e logo o vento a levou para além do muro da estrada. E brotinhos iam aparecendo
e desaparecendo por falta de cuidados.
– A gente tem que dar cuidados pra eles poderem crescer,
né?
– Algum tempo depois, dois brotos surgiram entrelaçados.
Envolviam o esteio em cores diferentes. Um broto lançava um perfume inebriante,
o outro coloria-se de cores mais brilhantes para atraí-lo, mas ele não se
entregou aos feitiços das cores, aturdido pelo perfume.
– E o esteio ficou todo confuso?
– Ele não queria as cores brilhantes, ele queria apenas o
perfume inebriante, e deixou-se envolver, apprivoisé
por aqueles anéis em ondas que faziam-no sonhar com florestas verdes. Certa
vez, o murmúrio das pétalas que soltavam o perfume falou-lhe de seu cepo
tortuoso, deixando-lhe um sulco profundo que o forçou a alinhar-se para merecer
suas pétalas. Mas o conflito de perfume e cores soltou-se ao vento e, por isto,
os dois brotos foram arrancados de seu tronco, pois não quiseram separar-se.
– E sumiram, Doutor?
– Aquele perfume ficou incrustado em seu cerne, profundo,
recendendo em noites escuras.
– E nessas noites escuras o esteio ficou murcho, Doutor?
– O vento sempre sopra, muda de direção e traz novas
sementes. Uma semente adejava sempre em torno dele, acariciava-lhe a casca e
deixava-se levar pelo vento. Às vezes colava-se em seu tronco, murmurava-lhe
carícias; usava gavinhas para mimoseá-lo, e ia embora com o vento. Em um dia de
tempestade mostrou-se mais inebriante, colou-se a ele como um beija-flor, neve
a desfazer-se no verão da tarde, mas ele era infante e ela foi-se no vento, e
quando excitado por tantas promessas tentou atraí-la novamente, ela voou em
busca de outro tronco mais firme, deixando uma marca de amargura que se fez em
perfídia, mais tarde recusando-lhe um simples murmurar.
– Esquisito isso, Doutor, como assim?
– Esquisito era o esteio, Miguelim.
– E depois, Doutor?
– Depois veio um broto azul, correndo pelas vias do
vento, atropelando com cores e perfumes de todos os tipos capazes de embriagarem.
Trazia gotas de orvalho sobre as suas folhas, e no espelho delas mostrava um
mundo que abria para o futuro um caleidoscópio de cores extasiantes.
– Lá no Mutum, Doutor, eu gostava de montão de ver o
orvalho nas folhas, tudo colorido com o arco-íris.
– É bonito mesmo, Miguilim! E a luz que penetrava nas
gotas refletia-se toda em azul. E este broto tomou-o completamente, lançando raízes
que se desenvolveram em folhas, flores, frutos e sementes; que penetraram pelo
seu ser, misturando em suas veias a sua própria seiva. Não era mais um esteio.
Estava florido.
– E virou uma árvore deveras?!
– Assim como Apolo fez a Dafne, uma árvore sagrada. E
foram levados para longe de Santo Antônio dos Brotos.
– E ficou em flor pra sempre, Doutor?
– Lembra da lenda, Miguelim, embora Apolo fosse o oráculo
para todo o povo, não pôde prever o próprio destino: ferido do amor que não lhe
era permitido traduzir.
– Isto não é um conto de fadas, Miguelim. Vamos dormir,
boa noite!
– Boa noite, Doutor.
-o-
Todas as Cartas de Amor são Ridículas
Fernando Pessoa - Álvaro de Campos
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


