sábado, 6 de maio de 2017

Santos protetores



Santos protetores

– Bom dia, Dona Menina.

– Bom dia, Dona Filó, essa pressa danada da senhora vai levando alguma notícia mofina?

– Nem tanto, Dona Menina, nem tanto, só tô indo visitar a comadre Minervina, que tá passando uns momentos de pena com uns desarranjos do fígado.

– Coisa séria, Dona Filó?

– Acho que não, Dona Menina, mas sabe como é, né? É melhor prevenir enquanto pode pra depois não ter que remediar.

– Então a senhora tá a levar os seus préstimos para a comadre?

– E num é, Dona Menina, não somos todos massa dum mesmo trigo? Tento ajudar no que é da minha perícia.

– Tá levando umas mezinhas pra aliviar a dor?

– Muito melhor que mezinha, Dona Menina, tô levando meu saber em matéria de santo protetor.

– Ara, Dona Filó, e carece isso? A comadre Minervina num é boa devota de Nossa Senhora da Conceição?

– Pois sim, Dona Menina, devota e consagrada, mas sabe como é, né? Cada santo tem um ramo onde atua mais melhor. Carece de usar o santo certo pra poder obter mais precisão na cura.

– Ah, sei. Mas diga, Dona Filó, pois é sempre bom ter ciência, e qual seria o santo mais capaz pra melhor sarar o fígado?

– São Tomás de Aquino.

– Ah é, Dona Filó, um santo tanto doutor? Mais me parecia que cuidasse dos miolos, dando sustância pros estudantes.

– Também, Dona Menina. Mas um santo bom assim num gasta seus bens cuidando só de uma coisa, cada um cuida também de uma parte da gente.

– Alguns poucos inté que eu sei, Dona Filó, que o povo sempre intercede. Sei de Santa Luzia, boa curadora dos olhos, e de São Brás, que é tiro e queda pras gargantas.

– Estes deveras funcionam bem, Dona Menina, mas tem uma gama doutros que podem minorar um bom desassossego.

– Sei também de Santo Expedito, o das causas urgentes.

– Bom mesmo, Santo Expedito, resolve tudo num vapt-vupt.

  Então, pra que os outros?

– É preciso cuidado, Dona Menina, vá lá que ele esteja muito ocupado, e, às vez, pela pressa dele, ele resolve o caso, mas deixa um outro pra amofinar.

– E a senhora Dona Filó agora, então, é uma enciclopédia viva de santos protetores?

– Sem falsa modéstia, sem tirar nem pôr, com um baita orgulho sei deveras muito, muito mesmo.

– Então me ilustre, Dona Filó, pra cabeça fraca, que santo deve ser usado?

– Aí depende, Dona Menina, depende do tipo de avaria que a cabeça tá a penar.

– Ah é? Antão é mesmo assim qual que os médicos?

– Justo e certo, Dona Menina. Pra cada mal dos miolos tem um protetor com mais aptidão e de mais sabedoria.

– Pra dor de cabeça, Dona Filó, quem resolve?

– Santa Catarina de Sena.

– Tem siso, tem siso, pois ela ensinou que podemos edificar uma cela cá dentro de nós como guarita e para ficar bem junto em comunhão com Nosso Senhor.

– E num havera de ter, Dona Menina, se ela já valeu-me vezes sem conta em minhas enxaquecas?

– E para imbróglios mais sérios de cabeça?

– Se for coisa de doença dos nervos, meu conselho é de apelar pra São Bernardo de Claraval, que também é de grande adjutório na epilepsia.

– E pra cabeça avariada, destrambelhada?

– Aí eu aconselho Santa Dinfna.

– Essa eu nem conheço, Dona Filó.

– Ah, essa foi uma santa princesa filha de rei. Ela teve que fugir de casa depois que sua mãe finou-se, pois num é que seu pai quis casar com ela? Ele buscou-a de volta e, diante de sua recusa, cortou fora a cabeça dela. Aliás, ela é boa também pra cuidar de sonâmbulos.

– Estou aturdida, Dona Filó, onde a senhora busca tanto saber de santos padroeiros, é o Padre Joaquim que lhe instrui?

– Qual! Sou eu que de quando em vez ensino pra ele.

– Ah, bom, seria mesmo de estranhar! Mas como é que a senhora se ilustra nesses particulares?

– Eu tô ficando moderninha, Dona Menina, tudo aprendo na internet.

– Na internet?! A senhora sabe mexer nessas maquininhas infernais de computador?

– Sei nada, Dona Menina. Quando quero achar um protetor pro que não sei, uso o Pedrinho, meu neto, pra procurar pra mim. Ele escreve lá umas consultas e acha o nome do santo certo.

– E a senhora tá com tudo isso guardado na cachola, Dona Filó?

– Às vez eu esqueço algum, mas num tem problema, que eu tenho um banco de dados dos santos todos escrito em fichas.

– Banco de dados, Dona Filó?

– Foi assim mesmo que o Pedrinho chamou as minhas fichas dos santos.

– Mas tem um porém, Dona Filó, a senhora tem ciência do que sucedeu com o filho da Maria do Rosário?

– Num tô sabendo, o que foi?

– Os doutores disseram que ele tinha uma leucemia e tinha precisão de cuidados sérios.

– Oh, coitadinho! A Maria do Rosário deveria ter apelado pra São Peregrino.

– Mas ela nem católica é, Dona Filó. O que ela fez foi levar o menino prum pastor fazedor de milagres, lá da igreja dela.

– Ah, coitada, levar o menino pra sanha desses hereges!

– Pois então o pastor disse pra ela que com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo o menino estava são e bem sarado. Ela levou o menino pra casa feliz da vida, destituiu os médicos na maior satisfação.

– Ah, coitada, num deve ter sido nada de bom o que sucedeu.

– Pois não foi, Dona Filó, que logo logo o pobre pequenino faleceu?

– Na certa deve de ter sido castigo por ela renegar o nome dela e ter assunto com os hereges.

– Mas a senhora num acha que tem perigo igual no caso de uso dos santos?

– Não, Dona Menina, num acho. Primeiro, pastor num tem autoridade nenhuma com Nosso Senhor; depois, Nosso Senhor tem muitos cuidados com o mundo e não pode cuidar de ver tudo, pra isso tem os santos, pra levar os pedidos feitos com fé pra atenção dele.

– Diga uma coisa, Dona Filó, tem algum santo que dá bom senso pros fiéis?

– Bom senso, assim na lata, não sei, mas se for problema aflitivo, assim bem perto da loucura, acho que se deve apelar pra Santo Egídio.

– Ele é melhor que a Santa Dinfa?

– Pelo que eu sei, ele é muito eficaz pra falta de razão.

– Bom saber, Dona Filó, é bom saber.

– Mas, Dona Menina, deixa eu ir ver a comadre.

– Pois vá, Dona Filó, pois vá e leve a ela meus votos de melhoras.

– Levo sim, Dona Menina, até mais ver.

– Até mais, Dona Filó, e reze bastante pra Santo Egídio.


Fra Angélico - Os precursores de Cristo com santos e mártires

 


-o-


A poesia de Helena Kolody:


       Música Submersa
Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d’água
Que canta e murmura
Na mata silenciosa.


        Mergulho
Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude.


                Dom
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.


       Arco-íris
Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.


      Grafite
Meu nome,
desenho a giz
no muro de tempo.

Choveu,
sumiu.


   




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