Santos
protetores
– Bom
dia, Dona Menina.
– Bom
dia, Dona Filó, essa pressa danada da senhora vai levando alguma notícia
mofina?
– Nem
tanto, Dona Menina, nem tanto, só tô indo visitar a comadre Minervina, que tá
passando uns momentos de pena com uns desarranjos do fígado.
– Coisa
séria, Dona Filó?
– Acho
que não, Dona Menina, mas sabe como é, né? É melhor prevenir enquanto pode pra
depois não ter que remediar.
–
Então a senhora tá a levar os seus préstimos para a comadre?
– E
num é, Dona Menina, não somos todos massa dum mesmo trigo? Tento ajudar no que
é da minha perícia.
– Tá
levando umas mezinhas pra aliviar a dor?
–
Muito melhor que mezinha, Dona Menina, tô levando meu saber em matéria de santo
protetor.
– Ara,
Dona Filó, e carece isso? A comadre Minervina num é boa devota de Nossa Senhora
da Conceição?
– Pois
sim, Dona Menina, devota e consagrada, mas sabe como é, né? Cada santo tem um
ramo onde atua mais melhor. Carece de usar o santo certo pra poder obter mais
precisão na cura.
– Ah,
sei. Mas diga, Dona Filó, pois é sempre bom ter ciência, e qual seria o santo mais
capaz pra melhor sarar o fígado?
– São
Tomás de Aquino.
– Ah é,
Dona Filó, um santo tanto doutor? Mais me parecia que cuidasse dos miolos,
dando sustância pros estudantes.
–
Também, Dona Menina. Mas um santo bom assim num gasta seus bens cuidando só de
uma coisa, cada um cuida também de uma parte da gente.
– Alguns
poucos inté que eu sei, Dona Filó, que o povo sempre intercede. Sei de Santa
Luzia, boa curadora dos olhos, e de São Brás, que é tiro e queda pras gargantas.
–
Estes deveras funcionam bem, Dona Menina, mas tem uma gama doutros que podem minorar
um bom desassossego.
– Sei
também de Santo Expedito, o das causas urgentes.
– Bom
mesmo, Santo Expedito, resolve tudo num vapt-vupt.
– Então, pra que os outros?
– É
preciso cuidado, Dona Menina, vá lá que ele esteja muito ocupado, e, às vez,
pela pressa dele, ele resolve o caso, mas deixa um outro pra amofinar.
– E a
senhora Dona Filó agora, então, é uma enciclopédia viva de santos protetores?
– Sem falsa
modéstia, sem tirar nem pôr, com um baita orgulho sei deveras muito, muito
mesmo.
–
Então me ilustre, Dona Filó, pra cabeça fraca, que santo deve ser usado?
– Aí
depende, Dona Menina, depende do tipo de avaria que a cabeça tá a penar.
– Ah
é? Antão é mesmo assim qual que os médicos?
–
Justo e certo, Dona Menina. Pra cada mal dos miolos tem um protetor com mais aptidão
e de mais sabedoria.
– Pra
dor de cabeça, Dona Filó, quem resolve?
– Santa
Catarina de Sena.
– Tem
siso, tem siso, pois ela ensinou que podemos edificar uma cela cá dentro de nós
como guarita e para ficar bem junto em comunhão com Nosso Senhor.
– E
num havera de ter, Dona Menina, se ela já valeu-me vezes sem conta em minhas
enxaquecas?
– E
para imbróglios mais sérios de cabeça?
– Se
for coisa de doença dos nervos, meu conselho é de apelar pra São Bernardo de
Claraval, que também é de grande adjutório na epilepsia.
– E
pra cabeça avariada, destrambelhada?
– Aí
eu aconselho Santa Dinfna.
– Essa
eu nem conheço, Dona Filó.
– Ah,
essa foi uma santa princesa filha de rei. Ela teve que fugir de casa depois que
sua mãe finou-se, pois num é que seu pai quis casar com ela? Ele buscou-a de
volta e, diante de sua recusa, cortou fora a cabeça dela. Aliás, ela é boa também
pra cuidar de sonâmbulos.
– Estou
aturdida, Dona Filó, onde a senhora busca tanto saber de santos padroeiros, é o
Padre Joaquim que lhe instrui?
–
Qual! Sou eu que de quando em vez ensino pra ele.
– Ah,
bom, seria mesmo de estranhar! Mas como é que a senhora se ilustra nesses
particulares?
– Eu
tô ficando moderninha, Dona Menina, tudo aprendo na internet.
– Na
internet?! A senhora sabe mexer nessas maquininhas infernais de computador?
– Sei
nada, Dona Menina. Quando quero achar um protetor pro que não sei, uso o Pedrinho,
meu neto, pra procurar pra mim. Ele escreve lá umas consultas e acha o nome do
santo certo.
– E a
senhora tá com tudo isso guardado na cachola, Dona Filó?
– Às
vez eu esqueço algum, mas num tem problema, que eu tenho um banco de dados dos
santos todos escrito em fichas.
–
Banco de dados, Dona Filó?
– Foi
assim mesmo que o Pedrinho chamou as minhas fichas dos santos.
– Mas
tem um porém, Dona Filó, a senhora tem ciência do que sucedeu com o filho da
Maria do Rosário?
– Num
tô sabendo, o que foi?
– Os doutores
disseram que ele tinha uma leucemia e tinha precisão de cuidados sérios.
– Oh,
coitadinho! A Maria do Rosário deveria ter apelado pra São Peregrino.
– Mas
ela nem católica é, Dona Filó. O que ela fez foi levar o menino prum pastor
fazedor de milagres, lá da igreja dela.
– Ah,
coitada, levar o menino pra sanha desses hereges!
– Pois
então o pastor disse pra ela que com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo o
menino estava são e bem sarado. Ela levou o menino pra casa feliz da vida, destituiu
os médicos na maior satisfação.
– Ah,
coitada, num deve ter sido nada de bom o que sucedeu.
– Pois
não foi, Dona Filó, que logo logo o pobre pequenino faleceu?
– Na certa
deve de ter sido castigo por ela renegar o nome dela e ter assunto com os
hereges.
– Mas
a senhora num acha que tem perigo igual no caso de uso dos santos?
– Não,
Dona Menina, num acho. Primeiro, pastor num tem autoridade nenhuma com Nosso
Senhor; depois, Nosso Senhor tem muitos cuidados com o mundo e não pode cuidar
de ver tudo, pra isso tem os santos, pra levar os pedidos feitos com fé pra
atenção dele.
– Diga
uma coisa, Dona Filó, tem algum santo que dá bom senso pros fiéis?
– Bom
senso, assim na lata, não sei, mas se for problema aflitivo, assim bem perto da
loucura, acho que se deve apelar pra Santo Egídio.
– Ele
é melhor que a Santa Dinfa?
– Pelo
que eu sei, ele é muito eficaz pra falta de razão.
– Bom
saber, Dona Filó, é bom saber.
– Mas,
Dona Menina, deixa eu ir ver a comadre.
– Pois
vá, Dona Filó, pois vá e leve a ela meus votos de melhoras.
– Levo
sim, Dona Menina, até mais ver.
– Até
mais, Dona Filó, e reze bastante pra Santo Egídio.
| Fra Angélico - Os precursores de Cristo com santos e mártires |
-o-
A poesia de Helena Kolody:
Música
Submersa
Não
quero ser o grande rio caudaloso
Que
figura nos mapas.
Quero
ser o cristalino fio d’água
Que
canta e murmura
Na
mata silenciosa.
Mergulho
Almejo
mergulhar
na
solidão e no silêncio,
para
encontrar-me
e
despojar-me de mim,
até
que a Eterna Presença
seja a
minha plenitude.
Dom
Deus
dá a todos uma estrela.
Uns
fazem da estrela um sol.
Outros
nem conseguem vê-la.
Arco-íris
Arco-íris
no céu.
Está
sorrindo o menino
Que há
pouco chorou.
Grafite
Meu
nome,
desenho
a giz
no
muro de tempo.
Choveu,
sumiu.
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