Haicais
Guilherme
de Almeida, extasiado pela forma simples do haicai, escreveu: “não há ideia poética, por mais complexa, que,
despida de roupagens atrapalhantes, lavada de toda excrecência, expurgada de
qualquer impureza, não caiba estrita e suficientemente, em última análise, nas
dezessete sílabas de um haicai”.
E
adaptando a forma criada por Bashô ao nosso idioma, criou uma forma, assim:
– os três versos
japoneses, na sua ordem original: 5 - 7 – 5 sílabas;
– o primeiro, rimando
com o terceiro;
– o segundo -
septissílabo - com uma rima interna: a segunda sílaba rimando com a sétima.
Passando à prática
deixou-nos belos haicais, como estes:
O Haicai
Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.
Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.
Tristeza
Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?
Sem grande
pretensão de fazer poesia, e mais brincando como um quebra-cabeça de palavras,
dediquei-me algumas vezes a fazer haicais na forma por ele criada.
Em uma
primeira fase, vagando pelo deserto, perseguido pelo exército do faraó, odiando
aquele ser que cambaleava pela areia escaldante, carregava meu estresse sob
nuvens ameaçadoras:
Mimetismo
Que inseto tão nobre
que tem, quando lhe convém,
uma cor que o encobre.
Medo
Proíbem as tramas
o sonho. Volta o medonho
apagar das chamas.
Inutilidade
O belo é de graça
no fútil poema inútil
beleza... desgraça.
Angústia
Para ouvir vibrante
a vida, algo apodrecida,
um toque é bastante.
Menina
Um anjo a pintou,
o amor era meu pendor.
Quem foi que a levou?
Mas consegui
chegar à beira do mar, embora ao atravessá-lo tenha batido com a cabeça nas
pedras do fundo, o que a fez abrir-se tingindo de vermelho as águas. Além da
margem, um anjo esperava-me trajando uma veste de luz à porta de uma tenda branca,
que me ofereceu a posse da terra:
O viandante
Feliz, não mais trilha
deserto. O oásis aberto:
só, a rosa brilha.
Estrada
Ânsia ou moleza,
a vida em duas partida:
ou Rose ou tristeza.
Jardineira
Tuas mãos plantam:
na mente explode a semente,
meus sonhos se encantam.
Saudade
Sem teu meigo encanto
só tanto sonhar, enquanto
espero teu canto.
Santos Dumont
Doce sonho: voar.
Tua terra um anjo encerra,
mais doce adejar.
Ansiedade
É pouco o dia. Moras,
qual vento em meu pensamento,
só vinte e quatro horas.
Síntese
Viver a ternura:
tua pele, minha ânsia dela,
tuas mãos, minha cura.
Teus lábios
Um mágico som
colorem. Meus olhos morrem
na luz do batom.
E o tempo,
insistindo em não se fazer esquecer, foi colorindo a tenda com a poeira soprada
pelo vento. Um vento que não mais portava ameaças, que fazia a areia murmurar
palavras de descanso, e que trazia lembranças:
Infância
Rua do Biongo,
a casa velha dava asas
ao voar trilongo.
Amor de criança
Afrodite e Atena
são duas imagens tuas
Maria Helena
Tereza de Jesus
Subir o castelo,
viver nas moradas, ser
imagem do Belo.
A Verdade
Num saco de arroz
há tantos grãos veros quanto
o saber dispôs.
Pablo Neruda ou ódio
à cebola
Pétala a pétala
fatal escama de sal
Afrodite acéfala
Clarice Lispector
Rosto e olhar de espanto
A rosa débil tortuosa
Méleo desencanto
Jardim
Fiz uma aquarela
Abri o céu e colhi
Cristiana e Daniela
Avoíce
Vivo patrimônio
risonho amanhã de sonho
Lucca, Marco Antônio
E para dizer
que o amor também pode ser prolixo, uma tentativa de poema:
estas
paredes sempre enferrujadas
debaixo do
sangue guardam segredos
cinzas
tardes enfeitam-nas de medos
invadem a
sala almas cansadas
de mãos
dadas fazem rodas festivas
cantam os
mortos a sede da morte
correm
olhares de todas as sortes
por minhas
faces de dores cativas
mas... se a
luz querida dos olhos teus
invade o
negro quadro de sorrisos
súbito vejo
morrendo ante os meus
tragadas
pela presença de um deus
as almas
mortas que deixam-me avisos
de retorno
ao saberem teu adeus

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