segunda-feira, 8 de maio de 2017

Haicais



Haicais

Guilherme de Almeida, extasiado pela forma simples do haicai, escreveu: “não há ideia poética, por mais complexa, que, despida de roupagens atrapalhantes, lavada de toda excrecência, expurgada de qualquer impureza, não caiba estrita e suficientemente, em última análise, nas dezessete sílabas de um haicai”.



E adaptando a forma criada por Bashô ao nosso idioma, criou uma forma, assim:

– os três versos japoneses, na sua ordem original: 5 - 7 – 5 sílabas;

– o primeiro, rimando com o terceiro;
– o segundo - septissílabo - com uma rima interna: a segunda sílaba rimando com a sétima.

Passando à prática deixou-nos belos haicais, como estes:

O Haicai
Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.

Tristeza
Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?


Sem grande pretensão de fazer poesia, e mais brincando como um quebra-cabeça de palavras, dediquei-me algumas vezes a fazer haicais na forma por ele criada.

Em uma primeira fase, vagando pelo deserto, perseguido pelo exército do faraó, odiando aquele ser que cambaleava pela areia escaldante, carregava meu estresse sob nuvens ameaçadoras:

Mimetismo

Que inseto tão nobre
que tem, quando lhe convém,
uma cor que o encobre.

Medo

Proíbem as tramas
o sonho. Volta o medonho
apagar das chamas.

Inutilidade
O belo é de graça
no fútil poema inútil
beleza... desgraça.

Angústia

Para ouvir vibrante
a vida, algo apodrecida,
um toque é bastante.

Menina

Um anjo a pintou,
o amor era meu pendor.
Quem foi que a levou?


Mas consegui chegar à beira do mar, embora ao atravessá-lo tenha batido com a cabeça nas pedras do fundo, o que a fez abrir-se tingindo de vermelho as águas. Além da margem, um anjo esperava-me trajando uma veste de luz à porta de uma tenda branca, que me ofereceu a posse da terra:

O viandante

Feliz, não mais trilha
deserto. O oásis aberto:
só, a rosa brilha.

Estrada
Ânsia ou moleza,
a vida em duas partida:
ou Rose ou tristeza.

Jardineira

Tuas mãos plantam:
na mente explode a semente,
meus sonhos se encantam.

Saudade
Sem teu meigo encanto
só tanto sonhar, enquanto
espero teu canto.

Santos Dumont
Doce sonho: voar.
Tua terra um anjo encerra,
mais doce adejar.

Ansiedade

É pouco o dia. Moras,
qual vento em meu pensamento,
só vinte e quatro horas.

Síntese

Viver a ternura:
tua pele, minha ânsia dela,
tuas mãos, minha cura.

Teus lábios

Um mágico som
colorem. Meus olhos morrem
na luz do batom.


E o tempo, insistindo em não se fazer esquecer, foi colorindo a tenda com a poeira soprada pelo vento. Um vento que não mais portava ameaças, que fazia a areia murmurar palavras de descanso, e que trazia lembranças:

Infância
Rua do Biongo,
a casa velha dava asas
ao voar trilongo.

Amor de criança
Afrodite e Atena
são duas imagens tuas
Maria Helena

Tereza de Jesus
Subir o castelo,
viver nas moradas, ser
imagem do Belo.

A Verdade

Num saco de arroz
há tantos grãos veros quanto
o saber dispôs.

Pablo Neruda ou ódio à cebola

Pétala a pétala
fatal escama de sal
Afrodite acéfala

Clarice Lispector

Rosto e olhar de espanto
A rosa débil tortuosa
Méleo desencanto

Jardim
Fiz uma aquarela
Abri o céu e colhi
Cristiana e Daniela

Avoíce

Vivo patrimônio
risonho amanhã de sonho
Lucca, Marco Antônio


E para dizer que o amor também pode ser prolixo, uma tentativa de poema:

estas paredes sempre enferrujadas
debaixo do sangue guardam segredos
cinzas tardes enfeitam-nas de medos
invadem a sala almas cansadas

de mãos dadas fazem rodas festivas
cantam os mortos a sede da morte
correm olhares de todas as sortes
por minhas faces de dores cativas

mas... se a luz querida dos olhos teus
invade o negro quadro de sorrisos
súbito vejo morrendo ante os meus

tragadas pela presença de um deus
as almas mortas que deixam-me avisos
de retorno ao saberem teu adeus






 

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