Cogitor
Jornal do Globo, 20h00:
– Um estudo revelado hoje pela Universidade do Brasil está
despertando reações as mais variadas e contraditórias. O Professor Armando de
Albuquerque, coordenador dos estudos, corroborando o pensamento nietzschiano e freudiano anunciou a descoberta da
fonte de nossos pensamentos. Sepultando definitivamente a ideia cartesiana
resumida no aforismo “cogito, ergo sum”,
os cientistas deram como título a suas pesquisas a palavra latina cogitor. Relata o professor a descoberta de bactérias em nosso corpo que
seriam as responsáveis pelos nossos pensamentos. Diversas manifestações de cientistas,
filósofos, psiquiatras e intelectuais de todo o mundo se fizeram ouvir
iniciando uma polêmica que está apenas nos seus primórdios. Para esclarecer ao
público as consequências de tal estudo, convidamos o professor para
pessoalmente vir a nosso estúdio para falar sobre a descoberta.
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Imagem do site http://ovma.com.br
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Professor: Bom, como todos sabem, René Descartes
estabeleceu princípios racionais para tratar o conhecimento. Pelo seu método,
qualquer assunto deve ser a priori
posto em dúvida para ser analisado criteriosamente antes de ser negado ou
confirmado, e trabalhando com suas dúvidas formulou esta célebre frase “cogito, ergo sum”; o que traduzido para
nossa língua significa: “eu penso, logo existo”; e sobre essa base foi
construída a filosofia moderna. Posteriormente, Nietzsche liquidou o cogito postulando que “algo pensa em mim”; nestes termos,
podemos então dizer que o algo que pensa são as bactérias. Porém, se nossos
pensamentos são realizados por bactérias, se elas são a matriz do inconsciente
freudiano, a pedra angular da filosofia sofre um abalo ruinoso e o castelo vai
desabar. Por isso estamos sugerindo para sistematizar os novos estudos o termo cogitor.
Apresentador: Mas, Professor, o que significa cogitor?
Professor: Cogitor é
apenas a voz passiva referente a cogito, significando
portanto: sou pensado. O que seguramente nos leva a resgatar
o gênio maligno, presente na origem do pensamento de Descartes, que utilizou
todos os seus ardis de enganador para manter-nos nas ilusões de nossos sentidos.
E mesmo valores hedonistas como “viver seu pensamento e pensar sua vida” não
nos dizem mais nada.
Apresentador: E em que estágio se encontram os estudos
sobre essas descobertas?
Professor: Os estudos já avançaram em determinar que há
vários gêneros de bactérias responsáveis por formular os nossos mais diversos pensamentos.
Apresentador: O senhor está dizendo-nos que os nossos
pensamentos são o resultado aleatório da interferência de diversos tipos de
bactérias?
Professor: Até agora pudemos entender e comprovar que cada
gênero tem uma especialidade característica.
Apresentador: Deixe-nos entender isso direito, quer dizer
que cada tipo de bactéria é responsável por tipos diferentes de pensamento?
Professor: Justamente. Quando, por exemplo, uma pessoa tem
pendores poéticos elevados, é porque ela tem grande concentração da bacillus poeticus.
Apresentador: Então são as bactérias desse gênero as
responsáveis pelas grandes obras poéticas que a humanidade produziu?
Professor: Já não temos nenhuma dúvida disso.
Apresentador: É por isso que muitos poetas não sabem dizer
de onde veio a inspiração para compor?
Professor: Acreditamos que a realidade se faz realmente assim,
por exemplo: um aglomerado de bacillus poeticus
se reuniu e, de repente, um Lusíadas se formou na mente de Camões.
Apresentador: Professor, temos que interromper um instante
para atender o chamado de nosso colega Evaristo, que está na rua para
entrevistar algumas pessoas sobre este assunto, que vem despertando enorme
interesse também das pessoas comuns.
Repórter Evaristo: Estamos aqui convidando alguns
transeuntes para dar sua opinião a respeito do assunto do momento. Temos aqui
nosso primeiro entrevistado. Senhor, por favor, como o senhor se chama?
– Ah, oi, eu sou o Zé, as pessoas me chamam de Zé das Couve.
Repórter Evaristo: O que o senhor tem a dizer sobre a
descoberta de que são as bactérias as responsáveis pelos nossos pensamentos?
Zé das Couves: Ah, bem, hum... num sei o que pensar.
Repórter Evaristo: Ora, seu Zé, ponha as suas bactérias
para trabalhar.
Zé das Couves: Acho mesmo, moço, que esses bicho aí num existe
em mim não.
Repórter Evaristo: Por que o senhor diz isso, seu Zé?
Zé das Couves: É que cá na minha cabeça é um ermo só! A
gente é pobre, os bicho deve estar tudo na preguiça, aperreado de fome.
Repórter Evaristo: De qualquer forma, obrigado pela
gentileza, seu Zé. E a senhora aí, como se chama?
– Uai, moço, eu não me chamo, as outras pessoas me chamam
de Dona Menina.
Repórter Evaristo: Então, Dona Menina, o que a senhora tem
a dizer sobre essas bactérias pensantes?
Dona Menina: Pra mim isso num tem nada de muito novo não.
Repórter Evaristo: Como não, senhora, se é uma recentíssima
descoberta da ciência?
Dona Menina: Uai, meu filho, basta pôr atenção nas coisas
que a gente vê por aí.
Repórter Evaristo: A senhora poderia explicar-nos essa sua
observação?
Dona Menina: Veja bem, meu filho, quando você vê esses
ajuntamentos de políticos como assembleia, câmara e outras camarilhas, você só
vê o quê? Bandalheira, corrupção...
Repórter Evaristo: E o que têm as bactérias pensantes com
isso?
Dona Menina: Pois de há muito que eu matuto cá comigo que
isso deve ser uma espécie de salmonella corrupta
que grassa por aqueles pardieiros. Pois é mesmo assim, seu moço, qualquer
pessoa de bem que se arrisca por aqueles lugares infectados, logo logo perde o
adjetivo de bem.
Repórter Evaristo: Muito obrigado, senhora. E agora
voltamos para o nosso estúdio.
Apresentador: Então, professor, a senhora entrevistada
supôs que uma contaminação genérica pela salmonella
corrupta é responsável pelo estado podre da nossa política, o que o senhor
tem a dizer sobre isso?
Professor: Os mecanismos de proliferação dos diversos tipos
de bactérias ainda não foram estudados satisfatoriamente para podermos explicar
como acontecem, no entanto, já sabemos que os diversos gêneros trabalham em
simbiose e têm uma resiliência persistente, que só é vencida após uma contínua
exposição a novos agentes.
Apresentador: Isto quer dizer que as grandes mudanças nos
pensamentos não acontecem repentinamente?
Professor: Precisamente, elas são lentas e acontecem apenas
após longas exposições. Funciona mais ou menos como o ditado popular: diz-me com quem andas e te direi quem és.
E também, é óbvio, podem proliferar com mais facilidade em épocas e lugares
onde se concentram muitos portadores.
Apresentador: E o que senhor acha que seria possível fazer
para combater as bactérias danosas e favorecer as benignas?
Professor: Com o avanço das pesquisas será possível
desenvolver vacinas que combatam gêneros específicos, e esperamos poder também
desenvolver técnicas para inocular e acelerar a absorção dos gêneros de boa
cepa. Como não somos responsáveis pelos nossos pensamentos, somos um puro
produto de nossos instintos, como animais que somos, sujeitos à vontade de poder,
ou seja, aos nossos desejos. Não fosse o controle exercido pelas bactérias, o
nosso inconsciente estaria livre para manifestar todo nosso egoísmo. Por isto estamos
à procura de um gênero beneficus que
possa se contrapor a essas bactérias maléficas criando pensamentos altruístas e
compassivos.
Repórter Evaristo: Desculpem-me a interrupção, mas a
senhora que acabei de entrevistar insiste em continuar expondo sua experiência.
Dona Menina: Desculpa a minha abelhudice, professor, mas a
gente miúda assim como a minha pessoinha, que tá na lide da casa a cada santo
dia, tem um bocado de prática pra lidar com esses vermes, e, quando a coisa tá danada
de feia, quando um lugar tá assim muito contagiado, num tem precisão de esperar
um tanto de tempo pra produzir resultado positivo.
Professor: Ah, sim, minha senhora, e qual seria esse
método?
Dona Menina: Creolina.
Professor: Como assim, minha senhora, usar a creolina como
remédio?
Dona Menina: Que nada de remédio, professor, como
desinfetante mesmo. Um baita banho de creolina neste país todinho. Esborrifar
com avião por todo canto, que essa gente nossa tá bem que tendo precisão. E
nesses antros de políticos, para afogar as bactérias e tudo mais, usar os
helicópteros deles para derramar tanques e tanques de creolina.
Apresentador: Obrigado, professor, pelos esclarecimentos e
boa noite a todos.
-o-
De
Adélia Prado:
A mim
que desde a infância venho vindo,
como se
o meu destino,
fosse o
exato destino de uma estrela,
apelam
incríveis coisas:
pintar
as unhas, descobrir a nuca,
piscar
os olhos, beber.
Tomo o
nome de Deus num vão.
Descobri
que a seu tempo
vão me
chorar e esquecer.
Vinte
anos mais vinte é o que tenho,
mulher
ocidental que se fosse homem,
amaria
chamar-se Fliud Jonathan.
Neste
exato momento do dia vinte de julho,
de mil
novecentos e setenta e seis,
o céu é
bruma, está frio, estou feia,
acabo
de receber um beijo pelo correio.
Quarenta
anos: não quero faca nem queijo.
Quero a
fome.

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