quinta-feira, 18 de maio de 2017

Cogitor

Cogitor


Jornal do Globo, 20h00:

– Um estudo revelado hoje pela Universidade do Brasil está despertando reações as mais variadas e contraditórias. O Professor Armando de Albuquerque, coordenador dos estudos, corroborando o pensamento nietzschiano e freudiano anunciou a descoberta da fonte de nossos pensamentos. Sepultando definitivamente a ideia cartesiana resumida no aforismo “cogito, ergo sum”, os cientistas deram como título a suas pesquisas a palavra latina cogitor. Relata o professor a descoberta de bactérias em nosso corpo que seriam as responsáveis pelos nossos pensamentos. Diversas manifestações de cientistas, filósofos, psiquiatras e intelectuais de todo o mundo se fizeram ouvir iniciando uma polêmica que está apenas nos seus primórdios. Para esclarecer ao público as consequências de tal estudo, convidamos o professor para pessoalmente vir a nosso estúdio para falar sobre a descoberta.

Imagem do site http://ovma.com.br
Apresentador: Professor, inicialmente pedimos que nos esclareça a respeito da alegada liquidação da frase lapidar da filosofia cartesiana por esta palavra cogitor.

Professor: Bom, como todos sabem, René Descartes estabeleceu princípios racionais para tratar o conhecimento. Pelo seu método, qualquer assunto deve ser a priori posto em dúvida para ser analisado criteriosamente antes de ser negado ou confirmado, e trabalhando com suas dúvidas formulou esta célebre frase “cogito, ergo sum”; o que traduzido para nossa língua significa: “eu penso, logo existo”; e sobre essa base foi construída a filosofia moderna. Posteriormente, Nietzsche liquidou o cogito postulando que “algo pensa em mim”; nestes termos, podemos então dizer que o algo que pensa são as bactérias. Porém, se nossos pensamentos são realizados por bactérias, se elas são a matriz do inconsciente freudiano, a pedra angular da filosofia sofre um abalo ruinoso e o castelo vai desabar. Por isso estamos sugerindo para sistematizar os novos estudos o termo cogitor.

Apresentador: Mas, Professor, o que significa cogitor?

Professor: Cogitor é apenas a voz passiva referente a cogito, significando portanto: sou pensado. O que seguramente nos leva a resgatar o gênio maligno, presente na origem do pensamento de Descartes, que utilizou todos os seus ardis de enganador para manter-nos nas ilusões de nossos sentidos. E mesmo valores hedonistas como “viver seu pensamento e pensar sua vida” não nos dizem mais nada.

Apresentador: E em que estágio se encontram os estudos sobre essas descobertas?

Professor: Os estudos já avançaram em determinar que há vários gêneros de bactérias responsáveis por formular os nossos mais diversos pensamentos.

Apresentador: O senhor está dizendo-nos que os nossos pensamentos são o resultado aleatório da interferência de diversos tipos de bactérias?

Professor: Até agora pudemos entender e comprovar que cada gênero tem uma especialidade característica.

Apresentador: Deixe-nos entender isso direito, quer dizer que cada tipo de bactéria é responsável por tipos diferentes de pensamento?

Professor: Justamente. Quando, por exemplo, uma pessoa tem pendores poéticos elevados, é porque ela tem grande concentração da bacillus poeticus.

Apresentador: Então são as bactérias desse gênero as responsáveis pelas grandes obras poéticas que a humanidade produziu?

Professor: Já não temos nenhuma dúvida disso.

Apresentador: É por isso que muitos poetas não sabem dizer de onde veio a inspiração para compor?

Professor: Acreditamos que a realidade se faz realmente assim, por exemplo: um aglomerado de bacillus poeticus se reuniu e, de repente, um Lusíadas se formou na mente de Camões.

Apresentador: Professor, temos que interromper um instante para atender o chamado de nosso colega Evaristo, que está na rua para entrevistar algumas pessoas sobre este assunto, que vem despertando enorme interesse também das pessoas comuns.

Repórter Evaristo: Estamos aqui convidando alguns transeuntes para dar sua opinião a respeito do assunto do momento. Temos aqui nosso primeiro entrevistado. Senhor, por favor, como o senhor se chama?

– Ah, oi, eu sou o Zé, as pessoas me chamam de Zé das Couve.

Repórter Evaristo: O que o senhor tem a dizer sobre a descoberta de que são as bactérias as responsáveis pelos nossos pensamentos?

Zé das Couves: Ah, bem, hum... num sei o que pensar.

Repórter Evaristo: Ora, seu Zé, ponha as suas bactérias para trabalhar.

Zé das Couves: Acho mesmo, moço, que esses bicho aí num existe em mim não.

Repórter Evaristo: Por que o senhor diz isso, seu Zé?

Zé das Couves: É que cá na minha cabeça é um ermo só! A gente é pobre, os bicho deve estar tudo na preguiça, aperreado de fome.

Repórter Evaristo: De qualquer forma, obrigado pela gentileza, seu Zé. E a senhora aí, como se chama?

– Uai, moço, eu não me chamo, as outras pessoas me chamam de Dona Menina.

Repórter Evaristo: Então, Dona Menina, o que a senhora tem a dizer sobre essas bactérias pensantes?

Dona Menina: Pra mim isso num tem nada de muito novo não.

Repórter Evaristo: Como não, senhora, se é uma recentíssima descoberta da ciência?

Dona Menina: Uai, meu filho, basta pôr atenção nas coisas que a gente vê por aí.

Repórter Evaristo: A senhora poderia explicar-nos essa sua observação?

Dona Menina: Veja bem, meu filho, quando você vê esses ajuntamentos de políticos como assembleia, câmara e outras camarilhas, você só vê o quê? Bandalheira, corrupção...

Repórter Evaristo: E o que têm as bactérias pensantes com isso?

Dona Menina: Pois de há muito que eu matuto cá comigo que isso deve ser uma espécie de salmonella corrupta que grassa por aqueles pardieiros. Pois é mesmo assim, seu moço, qualquer pessoa de bem que se arrisca por aqueles lugares infectados, logo logo perde o adjetivo de bem.

Repórter Evaristo: Muito obrigado, senhora. E agora voltamos para o nosso estúdio.

Apresentador: Então, professor, a senhora entrevistada supôs que uma contaminação genérica pela salmonella corrupta é responsável pelo estado podre da nossa política, o que o senhor tem a dizer sobre isso?

Professor: Os mecanismos de proliferação dos diversos tipos de bactérias ainda não foram estudados satisfatoriamente para podermos explicar como acontecem, no entanto, já sabemos que os diversos gêneros trabalham em simbiose e têm uma resiliência persistente, que só é vencida após uma contínua exposição a novos agentes.

Apresentador: Isto quer dizer que as grandes mudanças nos pensamentos não acontecem repentinamente?

Professor: Precisamente, elas são lentas e acontecem apenas após longas exposições. Funciona mais ou menos como o ditado popular: diz-me com quem andas e te direi quem és. E também, é óbvio, podem proliferar com mais facilidade em épocas e lugares onde se concentram muitos portadores.

Apresentador: E o que senhor acha que seria possível fazer para combater as bactérias danosas e favorecer as benignas?

Professor: Com o avanço das pesquisas será possível desenvolver vacinas que combatam gêneros específicos, e esperamos poder também desenvolver técnicas para inocular e acelerar a absorção dos gêneros de boa cepa. Como não somos responsáveis pelos nossos pensamentos, somos um puro produto de nossos instintos, como animais que somos, sujeitos à vontade de poder, ou seja, aos nossos desejos. Não fosse o controle exercido pelas bactérias, o nosso inconsciente estaria livre para manifestar todo nosso egoísmo. Por isto estamos à procura de um gênero beneficus que possa se contrapor a essas bactérias maléficas criando pensamentos altruístas e compassivos.

Repórter Evaristo: Desculpem-me a interrupção, mas a senhora que acabei de entrevistar insiste em continuar expondo sua experiência.

Dona Menina: Desculpa a minha abelhudice, professor, mas a gente miúda assim como a minha pessoinha, que tá na lide da casa a cada santo dia, tem um bocado de prática pra lidar com esses vermes, e, quando a coisa tá danada de feia, quando um lugar tá assim muito contagiado, num tem precisão de esperar um tanto de tempo pra produzir resultado positivo.

Professor: Ah, sim, minha senhora, e qual seria esse método?

Dona Menina: Creolina.

Professor: Como assim, minha senhora, usar a creolina como remédio?


Dona Menina: Que nada de remédio, professor, como desinfetante mesmo. Um baita banho de creolina neste país todinho. Esborrifar com avião por todo canto, que essa gente nossa tá bem que tendo precisão. E nesses antros de políticos, para afogar as bactérias e tudo mais, usar os helicópteros deles para derramar tanques e tanques de creolina.

Apresentador: Obrigado, professor, pelos esclarecimentos e boa noite a todos.


-o-

De Adélia Prado:

A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Fliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.


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