sexta-feira, 30 de junho de 2017

Sonho de uma noite de...



Esta história apropria-se de personagens criados por Shakespeare em “Sonho de uma noite de verão”, o texto dessa bela peça pode ser obtido em http://livros01.livrosgratis.com.br/cv000090.pdf.


A história é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, ou mesmo lugares, não terá sido mera coincidência, antes seria mais uma traquinagem perpetrada por Puck.



Se nós, sombras, vos ofendemos,
Pensai nos seguintes termos:
O que vos sucedeu foi adormecer,
E essas visões que a vós parecíeis ver
Compuseram o nosso tema, tolo
E à toa, nada mais que um sonho.
                                                                                                                               William Shakespeare

Sonho de uma noite de...

outono

Sob os auspícios de Oberon, os três casais deram curso aos filhos e rebentos da mais nobre estirpe de Atenas. Titânia, autonomeada madrinha de toda a prole, e seu séquito velavam pelo bom sono das crianças, permitindo-lhes crescer em beleza, isentas dos males do mundo como o mago lhes assegurara. Nas sombras caladas das noites, quando a lua crescente lançava os seus raios, os elfos brincavam invisíveis em roda das casas, transformando a luz da lua em eflúvios de bem para os pequenos.

Puck andava entediado com aquela quieta vida; a falta das brincadeiras divertidas, que eram a razão de sua alegria, fazia-lhe impaciente, principalmente depois daquelas confusões que o diabinho adorara ter feito nos bosques com os casais apaixonados. Aquele marasmo fazia-lhe sentir falta da diversão que se proporcionara. Vendo crescer em amizade os três jovens, que agora tinha em sua teia, não resistiu à tentação.

Fedra era a filha de Helena, trazia recato nas belas faces que eram coloridas de lábios finos; que se abriam em sorrisos, um tanto tímidos, capazes de deter o carro de Febo no meio do céu para desfrutar das ondas acariciantes daquele ar de vestal. Sem a voluptuosidade no corpo, tinha-o leve, como menina em floração que era.

Tisbe era filha de Hérmia, cabelos morenos que lhe desciam pelas costas, magra a fazer inveja a uma garça, de ares resolutos e de vontade imperiosa, fazia-se presente por disputar as atenções. Trazia nas faces finas o frescor da juventude voluntariosa que mostra o que quer e destrói os acidentes que lhe tentam opor-se.

Nascidas na mesma estação, as duas, versões femininas de Castor e Pólux, cresceram dividindo as suas brincadeiras, o aprendizado e a amizade. Tornaram-se amigas inseparáveis, duas obras vivas dos artífices pais da nobreza ateniense, filhos dos deuses. Por onde fossem, eram sempre juntas. Quando as meninas foram deixando-se vencer pela puberdade, a presença de Iannis passou a ser notada, e mais que notada, desejada. Iannis era filho de Teseu, Duque de Atenas, rapaz em treino no exercício das armas, bem como nas artes e nas letras.

Esse quadro de amores incipientes e amizade ferrenha despertou em Puck uma crescente sede de prazer e de uma boa dose de diversão. E com alegria renovada, com o frasco de suco de amor ardente, dançava ao som brejeiro do seu próprio canto:

“sou o vagabundo noturno,
que brinquedo faço de tudo”,
o papel faço de carrasco
com o suco deste meu frasco:
o primeiro olhar apaixona
e amor demente proporciona.

E Puck tecia seu plano. Pegar os três juntos seria fácil, por ser já costumeiro. Mais fácil ainda derramar no olho de Fedra o elixir do amor ardente; teria apenas que cuidar para que Iannis fosse o primeiro que ao acordar ela pudesse olhar. O danado bem sabia que Tisbe já havia recebido uma flecha do menino endiabrado que saía a distribuir paixão. Desde que causara a enorme trapalhada de despejar o sumo em olhos errados, Puck tornara-se mais cuidadoso, e, pensava ele consigo, mais sábio na prudência. Assim, agindo como vento nos ouvidos de Tisbe, afastou-a, induzindo-a a buscar um refresco para os três. A Fedra, que já estava deitada indolente, bem como a Iannis, ao seu lado esparramado, lançou um perfume no ar que os levou ao torpor e a adormecer.

Vendo os dois ao seu inteiro intento, o diabinho exultou. Derramando o malévolo suco nos olhos de Fedra, correu a provocar um mastim que dormia ali ao lado. O cão, ao acordar assustado, partiu atrás do espírito endiabrado com fortíssimos latidos, acordando o casal entorpecido.
 
O olhar de Fedra caído em Iannis fez-se como o primeiro raio de sol iluminando a manhã. Ela jogou-se em seus braços, derramando-se em paixão.

– Iannis, luz dos meus olhos, não sei se meu coração andava ofuscado, pois te via sem te conhecer. Agora, irrompe nele a razão, que me diz o quanto estava inconsciente longe dos teus braços. Abraça-me forte, sufoca-me nos teus doces sorrisos de um beijo.

– O que te aconteceu, Freda, para mudares assim o teu comportamento?

– A maravilha de ter abertos os olhos que só querem parar a contemplar este teu rosto de Adônis.

– Terá o sangue jorrado da ferida de Afrodite tingido a tua mente de vermelho, antes tão branca e casta?

Nesse desvario do amor de Fedra abraçada a Iannis, Tisbe retornando, encontrou-os. A cólera não lhe feriu com parcimônia. O pesado jarro que trazia na mão atirou-o brutalmente contra a amiga, maltratando-lhe a fronte.

Exangue nos braços de Iannis, Fedra não teve tempo de exalar um suspiro. Iannis, ainda sem entender, segurava-lhe o corpo, que pendera nos seus braços, sem vida. Olhou atônito para Tisbe, que pálida levantou freneticamente as mãos cobrindo o rosto ao entender o horror do seu tresloucado gesto. Iannis somente viu a menina desaparecer além da sebe que cobria o jardim. Depositou o corpo de Fedra no chão e quedou-se em lágrimas sobre o corpo da amiga.

Quando Puck deu-se conta que sua brincadeira desencadeara uma tragédia, quis esconder-se, mas desesperado lembrou-se que seu mestre poderia encontrá-lo pelas vibrações do seu corpo diáfano, e apenas alguns minutos depois contemplou a face dura de Oberon.

– Desta vez foste longe demais, Robim, Tisbe também já se encontra no mundo das trevas, pois levada pelo desespero jogou-se em um abismo. Não deverias deixar tal tragédia acontecer. Pobres espíritos das duas jovens infelizes, viverão longas jornadas para dirimir os ódios gerados; deverás acompanhá-las e velar para que seus caminhos sejam os mais leves possíveis.

Titânia, a rainha das fadas, consternada pelo desfecho brutal que levou a vida de suas duas afilhadas, abriu para os espíritos das jovens uma janela de esperança:

– Somente a generosidade e a abnegação de um ato de elevado altruísmo de uma para com a outra poderá resgatá-las para uma vida onde será o amor o descanso das fadigas 
diárias. Que possam ser sábias para realizar o gesto de abandono que abreviará suas penas.

Não nos esqueçamos do pobre Iannis, que sofreu duramente a perda das amigas, ganhando uma couraça de sentimentos duros que o levou a heroicas batalhas até que perdeu a vida lutando.


Inverno


Puck estava cansado. Vagara muitos séculos acompanhando a saga daqueles três, ajudando-os a caminhar para a harmonia. Finalmente ele achava que poderia, enfim, descansar e voltar para o reino das fadas.

Em uma pequena cidade no interior, poucos meses separando o nascimento de cada um, três bebês veem a luz em três famílias diferentes. Iannis precede os outros dois. Enquanto as crianças crescem, Puck limita-se a acompanhá-las e fazer pequenas brincadeiras com suas protegidas. Iannis ficava particularmente irritado com fios emaranhados, objetos que iam ao chão, tropeços pelas calçadas, enquanto Puck ria de seu afilhado atrapalhado.

As duas meninas, nascidas em casas gêmeas, tornaram-se amigas dedicadas. Iannis nascera delas distante e só veio a conhecê-las após a puberdade. E Puck estava feliz em provocá-los nessas idades em que o amor tinge os corações de matizes variadas de sonhos, dores e alegrias.

Iannis tinha sua turminha de amigos leais que fazia aos domingos o footing pela Rua Direita, enquanto as duas amigas, invariavelmente juntas também passeavam após a sessão de cinema das seis da tarde. Na primeira vez que Iannis percebeu a presença da beleza das duas amigas, fora Puck que insuflara Heitor, um dos marotos:

– Quer ver como ela fica brava? – Heitor falou para os amigos, e chegando-se mais perto das duas que iam pouco à frente – Ei, gatinha linda, quer namorar comigo?

A reação de Tisbe era voltar-se e chamá-lo de idiota e outros adjetivos nada lisonjeiros, enquanto Fedra fazia-se surda e admoestava a amiga para não dar bola. Puck adorava ver aqueles desencontros e insuflava os meninos a brincar com elas a cada vez que se esbarravam, que eram muitas naquele subir e descer contínuo pela rua. Aos poucos, Iannis começou a sentir um vazio crescente quando as duas sumiam da rua devido ao adiantado das horas.

E Puck continuava a brincar e a soprar nos ouvidos dos três afilhados um pouco de malícia. Certa vez em que Iannis não estava com seus amigos costumeiros, voltando para casa, as duas estavam em seus calcanhares, e Tisbe inverteu a brincadeira, assoviando e chamando-o de gatinho. Iannis encolheu-se em sua timidez e sentiu apenas certa infelicidade por não ser Fedra quem brincava com ele.

Os meses iam desenrolando-se e aquelas brincadeiras iam fazendo-se rotineiras. Na porta diária do colégio, enquanto aguardavam a chamada para o início das aulas, os olhos inquietos de meninos e meninas se procuravam. Iannis só tinha olhos para Fedra e sentia os dela sobre ele; queimaduras que se faziam profundas dia após dia.

E Puck exultava. Conseguira seu grande feito de confusão, mas agora sabia ele que esta seria a última jornada antes de seu regresso para casa. Tisbe amava Iannis, Iannis amava Fedra, e Fedra?

Iannis tinha uma tarefa que o fazia passar diariamente pela loja do pai de Fedra, e, muitas vezes, ela lá se encontrava atrás do balcão. Ele deixava-se ficar a conversar com ela, passeando os olhos por aquele rosto que lhe fazia sonhar com o passado desconhecido e com o futuro de sonhos. Puck acompanhava o enleio com atenção e esperança, até que Iannis falou a Fedra de seu amor e de seu sonho de poder torná-la sua namorada.

– Eu não posso te namorar, pois, se o fizer, Tisbe vai brigar comigo. Eu não posso fazer isto com ela, crescemos juntas, ela é como uma irmã para mim.

Enquanto Puck pulava tontamente de felicidade, naquela noite o choro correu livre e escondido pela escuridão solitária em duas camas. Só houve tristezas, nenhum rancor, e continuaram sendo amigos. Três vidas marcadas por aqueles anos inocentes pela grande generosidade de Fedra, que libertou Puck para voltar ao seu mundo.


Primavera


Puck foi recebido com alegria pelos elfos irmãos, e a Rainha das Fadas pediu a ele apenas que vez em quando olhasse por aqueles três. E ele o fazia, continuando a provocá-los apenas com suas pequenas brincadeiras.

Os anos passaram. Iannis tinha ido para terras estranhas. Muitos anos. Um dia Fedra recebe uma carta, sem o remetente declarado, e na carta pôde ler apenas este poema:


quando eu vivia no jardim do éden

tinha eu quinze anos perpétuos
andando por vales e fontes
morando no jardim do éden

de uma noite de sono agitada
acordei no lado trazendo
uma dor de coração rachado

dois sóis nos olhos brilhavam-me
espelhos da minha carne
tão perto dos meus sorriam-me

tomou-me as mãos trementes
murmurou em alvos dentes:  vem
aos pés da árvore levou-me

mostrou-me um caqui pendente
vermelho tinha a cor de pecado
pulsando a explodir de amor

a serpente ao lado enrolada
um chocalho de aviso rilhou
não a queiras fazer-se senhor

tudo o mais não foi interdito
outros sóis os dias faziam
outras luas noites faziam

outras frutas faziam sabor
era rei de reino tão vasto
de vasta solidão era senhor

no meio do jardim jazia
na árvore do sumo do amor
dois olhos que luz sabiam

no espelho dos dias passados
fizeram em uma eternidade
os raios de luz condensados

pendente o caqui preservou
os sóis que não se apagaram
o amor que não se entregou

tenho eu quinze anos infindos
fitando um caqui pendurado
de cento e vinte anos perfumado

Puck presenciou o momento em que Fedra, lendo o poema, voltou a chorar. Era-lhe proibido, mas ele queria dizer-lhe que aquele choro não era necessário. Quando ela caiu no sono, fazendo uma última arte, mostrou-lhe em sonho um futuro não muito longe, deixando-lhe a ventura de saber que viverá um sonho de uma noite de...


verão


– amore mio, ho aspettato tanti anni per dirti...

– cosa?

- tu sei lucida

- ahn?                                                         i        d          a     
                                                         c          i        d           a
                                                    u      c          i        d           a 
                                              a       u      c         i        d           a
                                        d        l      u       c        l        d           a
                                    i      a       l      u       c        i         d          a
                 sei          c     d     a      l      u       c        i         d          a
            tu             u     i    d     a      l      u       c        i         d          a
- cioè                 l  u  c   i    d    a     l      u       c        i         d          a
            tu             u     i    d     a      l      u       c        i         d          a
                  sei         c     d    a        l      u       c        i         d          a
                                   i       a       l      u       c        i         d           a       
                                       d         l      u       c        i         d           a      
                                               a      u      c         i         d           a
                                                     u      c         i         d           a 
                                                          c         i         d           a
                                                                   i        d          a     
      

domingo, 25 de junho de 2017

Além do além






– Bom dia, Dona Menina.

– Ara, seu Zé, tava sumido, hem? Até que afinal resolveu dar as caras por estas brenhas de gente pobre.

– Que isso, Dona Menina, num tá comigo fazê desdenha de ninguém, inda mais da senhora, que tenho por fé de ser filósofa e mestra de nossa parvoíce.

– E por onde tem andado, seu Zé?

– Por aí mesmo, Dona Menina, zanzando nos meus afazer de costume. Pingando aqui uma tarefa dura, ali outra tamém, no mais, ralando e cavucando.

– Mas alguma nova alvissareira deve de haver pra modo o senhor desentocar assim cedo e vir bater por cá.

– Bem, Dona Menina, até que tem uns assunto que eu queria desenrolar com a senhora pra ver se fica melhor esclarecida a barafunda que me encheu a cachola.

– E que barafunda mais grossa foi essa, seu Zé?

– Bem, o caso é como vou de narrar um tanto que complicado, Dona Menina. Começou com o meu compadre Bené, que foi pedir prum nosso amigo abonado, ou mió digo eu, milionário cheio da bufunfa; pois o compadre pediu uma grana emprestada pro dito cujo, que eu vou reservar o nome.

– Tá se vendo que o seu Bené vai se escaldar.

– E num é, Dona Menina? Pois o cauíra emprestou o dinheiro, mas a troco de empenho do sítio do compadre, que ficou agarantindo o negócio.

– Decerto foi por aí que o diabo mostrou o rabo, né? Mexer com esses traíras é mexer com marimbondo.

–Tava tudo indo nos conforme, o compadre tava agarantindo os pagamentos na lisura, até que a doença da comadre Dita desandou a pôr tudo no preto pior.

– Pois eu soube, seu Zé, coitada da Dita, passou maus momentos.

– E num foi, Dona Menina? O compadre esgotou o tudo pros laboratório e remédios da comadre e cabô na pindaíba, sem poder cumprir com as prestação.

– Ara, seu Zé, com um motivo de força maior num tem quem não arrefeça, com certeza o outro lá haveria de entender a ocasião.

– Entender, entendeu, Dona Menina, mas em nada arrefeceu. Disse assim na lata pro compadre que trato é trato, o assinado tem é que ser satisfeito.

– Virgem, assim é? Quis montar por cima com todos os apetrechos?

– Pois foi mesmo assim, Dona Menina, e com as esporas nos pé. Foi aí que o compadre veio se valer dos meus préstimos, mas eu tamém fui pego sem os tamanco no pé, lisinho, lisinho.

– O tinhoso às vezes é bem danado nas suas arapucas.

– A gente inté foi ao banco pra modo ver se conseguia levantar um papagaio, mas com o sítio já enrolado de penhora e minha morada tamém na hipoteca, um nada de nada foi apurado.

– E aí, seu Zé, que sucedeu depois?

– Eu me atarantei pra ir dar uma palavrinha com o mão de vaca pra modo ver se conseguia dar ponto na rapadura, afinal nós tudo fomos moleque criado junto ao relento dos recreio e nas palmatórias das aula.

– É bom mesmo se valer assim, seu Zé, pois amizade antiga deixa a camaradagem das boas memórias, né?

– Senhora Dona Menina, mas num é que o amigo da onça só lembrava que amizade não era cordame pra amarrar negócio?

– Nem acredito, seu Zé.

– Ele disse mesmo assim: que tinha um dever funesto com o futuro e que tinha por preceito defender os direito dele.

– E que dever era esse, seu Zé?

– Bom, aí ele falou que era por causa dele de ser espírita.

– Uai, mais uma razão a mais pra ele ter bondade; sei bem que espíritas são gente muito das caridosas, que se prestam a fazer o bem em tudo que podem.

– Pode inté ser assim, Dona Menina, mas num era o caso daquele. Ele aí arrazoou que ele depois de morto ia voltar a viver.

– Que ele ia reencarnar.

– Pois é, que ele ia nascer outra vez na mesma sua família, como filho de um neto dele.

– Mas, seu Zé, o que tem isso a ver com o seu Bené e a dívida?

– Pois antão, foi aí que ele disse que tinha precisão de juntar o mais que podia pra deixar pros neto, que seria, assim, como deixar pra ele mesmo, por isso precisava mesmo do sítio do compadre.

– Que abuso, seu Zé, que mais torpe egoísta; mas isso nem pode se chamar de egoísmo, é a mais maluca maluquice que jamais ouvi alguém falar. Será que ele nunca ouviu nem falar de Nosso Senhor Jesus Cristo?

– Eu tamém fiquei aparvalhado, Dona Menina, até perdi a fala num acreditando nos meus ouvido; temendo até por aquele herege dizer tão bruta sandice.

– Então, em sendo verdade que ele reencarne, ele acha que pode fazer sua cama, e que Nosso Senhor vai dar permissão disso?

– Vem cá, Dona Menina, a senhora acha que pode ser vero esse tal negócio de reencarnar?

–Num sei nadinha sobre isso, seu Zé, e acho que ninguém sabe. Pode ser e pode num ser, mas tenho certeza que Nosso Senhor num ia querer saber de um pacto desse com tal preceito egoísta.

–Inté acho eu que ele bem devia mesmo era ir fazer o tal acordo é numa encruzilhada.



Desenho do site http://www.tudodesenhos.com

 
– Bom mesmo seria, seu Zé, é que a cegonha errasse o endereço de entrega e mandasse o dito cujo pra neto do compadre Bené.

–Bom mesmo, Dona Menina, ih ih ih.

-o-

Casamento
                 Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.