sábado, 10 de junho de 2017

Iniciação






Estávamos em uma livraria à cata de novidades. Minha filha nem perdeu tempo com as revistas, foi atraída pelos livros e começou a folhear os infantis. Mal saída das suas primeiras leituras, pois estava ali pelos seus sete anos, depois de estender sua curiosidade pelas historinhas, agarrou o livro “O que está acontecendo comigo?” e se desinteressou pelo mais. Era um pouco cedo para aquele tipo de livro, mas sequer nos detivemos neste pensamento; se houve a curiosidade precoce, nós a deixamos à vontade. Enquanto isto eu também vasculhava os livros à procura de algo novo. A capa verde de um livro chamou-me a atenção e tinha por título: Iniciação. Na capa do livro eu li: “A história apaixonante de uma mulher e de suas reencarnações desde a época em que era uma sacerdotisa no Antigo Egito até os tempos atuais”. Pareceu-me mais uma enrolação sobre vidas passadas como princesas e outras invencionices. Ia devolvendo o livro para a estante quando o dono da livraria, que estivera observando-me, falou-me: 



– Você conhece a autora?


– Não, nunca ouvi falar.


– Elisabeth Haich é uma iogue húngara que escreveu livros sobre ioga e espiritualidade.

– Mas este assunto de vidas passadas como princesas egípcias não me atrai.

– Eu também assim pensava. Alguns anos atrás, no aeroporto de Recife, assim como você fez, eu também ia devolvendo o livro para a estante, mas minha esposa chegou ao meu lado perguntando que livro era aquele. Eu mostrei-lhe a capa e ela, num ar que não traduzia sugestão mas uma espécie de ordem, disse-me: leva.

– E você obedeceu à ordem?

– Eu olhei para ela um tanto surpreendido, mas ela já tinha saído do meu lado. Como eu já tivesse alguma experiência sobre essas ordens saídas do nada, levei o livro.

– E você gostou da leitura?

– Nem posso dizer que gostei, ela levou-me à loucura, literalmente. Como interpretar tudo aquilo que ali estava delineado? Era apenas um romance sobre sonhos e rica imaginação ou era uma história feita para destruir as bases mais supostamente sólidas da minha razão?

– Decerto era apenas um romance de ricas fantasias.

– Fantasias do tipo:
“Uma pessoa que se identifique com o corpo em sua consciência, está em íntima escuridão e se parece com um estábulo de animais – os instintos físicos – que moram nele. Nesse estábulo e nessas trevas – que se parecem com a escuridão noturna – nasce a criança divina, a consciência do eu. Dois tipos de pessoas reconhecem a criança divina e se inclinam diante dela: as pessoas simples, analfabetas, sem instrução, que ainda não conhecem as dúvidas intelectuais e que vivem em uníssono com a natureza, como os pastores, por exemplo; e os sábios e os iniciados que já trilharam o longo caminho intelectual, que já superaram sua anterior propensão rumo à esperteza racional e que aprenderam a observar as coisas com sua visão interior, como fazem os homens esclarecidos e os místicos no oriente”.

– Parece-me a descrição do presépio, do nascimento de Cristo com os pastores e os reis magos.

– É justamente do que trata: uma história, como diria Rubem Alves, que nunca aconteceu para que aconteça sempre.

– Como assim? Então o nascimento de Cristo nunca aconteceu?

– Não, não foi isso que eu disse. O nascimento de Cristo seguramente não aconteceu daquela forma, mas o simbolismo dele torna-o uma verdade apenas desfrutada por alguns que podem reconhecê-lo com sua visão interior: o nascimento de uma criança em um estábulo que destrói aqueles animais, ou melhor, aquelas bestas que o tomavam.

– Quer dizer que você acha que tudo é uma representação real de algo que ocorre em nossa psique?

– Agora você chegou bem perto: uma história tão antiga que mesmo Cristo não pode querer ser o seu formulador, uma história que os gregos já haviam formulado na lenda de Eros e Psiquê.

– Você disse que o livro estremeceu as bases de sua razão, por quê?

– Há coisas arraigadas em nossa experiência que jamais poderíamos supor que não sejam inabaláveis, aqui quero dizer explicitamente de algo que, nos termos que vemos em jornais e revistas, sempre me foi motivo de risos, mas esse livro mostrou-me um outro lado e mostrou-me pela prática, isto é, fez-me sentir estupefato ao revelar-me que eu havia passado pelo que ele expunha.

– Você sentiu na pele o que o livro teorizava?

–  O livro conceituava energias que se espalham pelo universo originadas das quatro faces de Deus, representadas pelos elementos terra, água, fogo e ar. E delineava o que seriam essas energias, em termos precisos, a simbologia do Zodíaco. Explicando os ciclos dos quatro elementos, assombrou-me o ciclo da terra.

– E o que é esse ciclo?

– O livro nos diz que inicialmente a terra tem que ser arada para a fecundação, função que é realizada pelo signo de Touro: o boi que puxa o arado a revolve e mistura, criando o caos que permitirá que sobre ele tudo seja organizado – primeiro é necessário destruir para depois construir sobre as ruínas. A terra agora está pronta para ser fertilizada, ela é a noiva que está preparada para ser mãe. A energia de Touro torna a terra capaz de receber o poder da vida no útero; que pode dar-lhe raízes para trazê-la à luz. Ela permitirá que o princípio criativo, o Logos, torne-se carne.

– Pelo menos é uma bela simbologia.

– Em Virgem, a rainha sem mácula dos céus, a deusa-mãe da natureza que nunca foi tocada por um macho, mas é grávida de todas as criaturas, recebe a semente divina. Assim, ela fica grávida da criança divina, na qual os dois princípios, o divino e o material, estão misturados em uma perfeita unidade.

– E toda a simbologia fica ainda mais bonita.

– Finalmente, o último elemento é Capricórnio. A Cabra vive pelas regiões mais áridas da terra, onde a matéria é mais rígida, onde as rochas são as mais duras; mas a rocha sob enormes energias pode cristalizar-se, tornando-se transparente e deixando-se atravessar pela luz. O cristal revela o poder criativo da luz e pode concentrá-la, e sob o poder da concentração, a consciência, o divino self nasce na rocha da alma humana.

– Uau! E os outros ciclos?

– Fiquemos apenas com o ciclo da terra, além dele quero apenas falar de outro signo, Câncer, que é o primeiro signo do ciclo da água, pois o caranguejo precisa de pouca água para viver. Depois que ele agarra sua presa, ele retira-se para dentro de sua concha para digeri-la, isto é, a consciência que estava voltada para fora, trabalha as experiências que coletou para retirar sua nutrição espiritual. Portanto, Câncer é o introspectivo, a consciência que se analisa para encontrar o self verdadeiro.

– E por que falar desse Caranguejo?

– Porque além dos aspectos individuais dos signos, ainda existe um outro fator importante: dois signos opostos no Zodíaco são complementares. Eles interagem preenchendo no outro aquilo que ele necessita.

– E o Caranguejo é oposto a qual signo?

– A Capricórnio, e essa oposição revela que Câncer, que tem em si mesmo seu abrigo e sua casa, tem o poder maternal da vida, e a criança divina que nasce em Capricórnio também terá terno abrigo, pois ela pertence à mãe, Câncer.

– Então, é Câncer quem deverá fazê-la desenvolver-se.

– Então Câncer tem a responsabilidade de desenvolvê-la. Os antigos tinham a astrologia como um assunto comum e uma ciência, e esta simbologia do chamado casamento místico está presente no Evangelho de João, nas bodas de Caná: as talhas de pedra – o elemento terra em Capricórnio - recebem a água que se transforma em vinho, isto é, a água que se spirit-ualiza, a criança divina inicia sua jornada. E por todo o Evangelho terra e água serão os símbolos preferidos: o pão – o trigo de Virgem colhido e transformado – e o vinho, que serão transformados em sacramento.

– Mas você ainda não explicou porque tudo isso abalou sua razão.

– Eu percebi que eu havia percorrido o ciclo da terra, e que cada uma das fases do ciclo durara cerca de nove anos.

– Você passou nove anos preparando a terra?

– A gestação de cada ciclo durou nove anos, mas houve uma inversão que causou grande confusão: Virgem aconteceu antes de Touro, a terra foi semeada sem antes ter sido preparada, só depois os cuidados e os adubos foram utilizados. No entanto, por tudo que já aprendi, a visão espiritual para nós é espelhada, assim, se os três signos forem dispostos nos vértices de um triângulo equilátero, as duas bases se invertem no espelho; a inversão faz parte de nossa natureza incompleta e deformada.

– E você é o Caranguejo nessa história?

– Sou, mas às vezes parece-me que eu sou um daqueles que fui chamado, mas não fui escolhido.

– E por que você tem esta sensação?

– Porque todas as manifestações do mundo espiritual, que foram tão frequentes naquela época de descobertas, cessaram.

– E lhe faz falta?


– Na verdade, não. Tudo serviu para modificar-me, e pouco a pouco sinto aquela criança crescendo em meu coração, cada vez mais tomando o espaço ocupado pelo meu Eu.



Lições gratuitas como esta ocorriam com frequência em certa época. Peguei o livro, paguei-o junto aos outros e levei-o para casa. Muitas e muitas lições ele contém, nem todas aceitas por minha mente impregnada de racionalismo. Quem sabe eu possa fazer parte daqueles “que já superaram sua anterior propensão rumo à esperteza racional”.


-o-

Poemas de Murilo Mendes:

Tentação

Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
“Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”.


Epifania

Eu te procurei tal qual os três reis magos
Que caminhavam através de mares e desertos,
Até que um dia uma estrela enviada por ti mesmo
Me trouxe até a tua inefável presença.
Não posso te ofertar o ouro, o incenso e a mirra:
Ofereço-te a minha alma que tu mesmo criaste,
Ofereço-te a minha aridez e o meu pecado.
Ilumina agora e sempre todos os que te procuram
E todos aqueles que acreditam no teu fim.
Angústia e escuridão dominam o homem
Porque tu ainda não deste a volta ao mundo.

 





3 comentários:

  1. Para dados de conhecimento , amei nas peculiaridades ! Muito rico em detalhes...Mas pelo pouco que possa imaginar , há mistérios que não alcançaremos aqui ...Se Deus o permitir , em outra dimensão , concorda? Mas é saudável , claro , divagarMos o campo das hipóteses .Haja vista que "chegou-se " a conclusão (Roma/Academia cientifica) que aceita-se a teoria da evolução da espécie - está em aberto - Abraço .Lindo domingo.

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  2. Quero crer que você está fazendo referência a outro texto, pois este nada fala sobre a evolução, mas o conjunto dos textos conta uma história mais longa, que é a luta pela eliminação do ego. Os mistérios fazem parte da escada que deve ser galgada.

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  3. Pode ser...Mas de qualquer forma não venho Dar #toques do contra!Jamais . Aprendi , com o tempo , conviver com as diferenças .A Fé ou Credo é uma delas.Mas voltando ao assunto do Texto: Achei-o bem difícil / profundo .Vou voltar nele dps....Tô ampliando agr.umas gravuras para Tapetes/ Corpus
    CHRISTI.Inté!

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