Estávamos em uma livraria à cata de novidades. Minha filha nem perdeu tempo com as revistas, foi atraída pelos livros e começou a folhear os infantis. Mal saída das suas primeiras leituras, pois estava ali pelos seus sete anos, depois de estender sua curiosidade pelas historinhas, agarrou o livro “O que está acontecendo comigo?” e se desinteressou pelo mais. Era um pouco cedo para aquele tipo de livro, mas sequer nos detivemos neste pensamento; se houve a curiosidade precoce, nós a deixamos à vontade. Enquanto isto eu também vasculhava os livros à procura de algo novo. A capa verde de um livro chamou-me a atenção e tinha por título: Iniciação. Na capa do livro eu li: “A história apaixonante de uma mulher e de suas reencarnações desde a época em que era uma sacerdotisa no Antigo Egito até os tempos atuais”. Pareceu-me mais uma enrolação sobre vidas passadas como princesas e outras invencionices. Ia devolvendo o livro para a estante quando o dono da livraria, que estivera observando-me, falou-me:
– Você conhece a autora?
– Não, nunca ouvi falar.
– Elisabeth Haich é uma iogue húngara que escreveu livros
sobre ioga e espiritualidade.
– Mas este assunto de vidas passadas como princesas
egípcias não me atrai.
– Eu também assim pensava. Alguns anos atrás, no aeroporto
de Recife, assim como você fez, eu também ia devolvendo o livro para a estante,
mas minha esposa chegou ao meu lado perguntando que livro era aquele. Eu
mostrei-lhe a capa e ela, num ar que não traduzia sugestão mas uma espécie de
ordem, disse-me: leva.
– E você obedeceu à ordem?
– Eu olhei para ela um tanto surpreendido, mas ela já tinha
saído do meu lado. Como eu já tivesse alguma experiência sobre essas ordens
saídas do nada, levei o livro.
– E você gostou da leitura?
– Nem posso dizer que gostei, ela levou-me à loucura,
literalmente. Como interpretar tudo aquilo que ali estava delineado? Era apenas
um romance sobre sonhos e rica imaginação ou era uma história feita para
destruir as bases mais supostamente sólidas da minha razão?
– Decerto era apenas um romance de ricas fantasias.
– Fantasias do tipo:
“Uma
pessoa que se identifique com o corpo em sua consciência, está em íntima escuridão e se parece com um estábulo de animais – os instintos físicos – que
moram nele. Nesse estábulo e nessas trevas – que se parecem com a escuridão
noturna – nasce a criança divina, a consciência do eu. Dois
tipos de pessoas reconhecem a criança divina e se inclinam diante dela: as
pessoas simples, analfabetas, sem instrução, que ainda não conhecem as dúvidas
intelectuais e que vivem em uníssono com a natureza, como os pastores, por
exemplo; e os sábios e os iniciados que já trilharam o longo caminho
intelectual, que já superaram sua anterior propensão rumo à esperteza racional
e que aprenderam a observar as coisas com sua visão interior, como fazem os
homens esclarecidos e os místicos no oriente”.
– Parece-me a descrição do presépio, do nascimento de
Cristo com os pastores e os reis magos.
– É justamente do que trata: uma história, como diria Rubem
Alves, que nunca aconteceu para que aconteça sempre.
– Como assim? Então o nascimento de Cristo nunca aconteceu?
– Não, não foi isso que eu disse. O nascimento de Cristo
seguramente não aconteceu daquela forma, mas o simbolismo dele torna-o uma
verdade apenas desfrutada por alguns que podem reconhecê-lo com sua visão
interior: o nascimento de uma criança em um estábulo que destrói aqueles
animais, ou melhor, aquelas bestas que o tomavam.
– Quer dizer que você acha que tudo é uma representação
real de algo que ocorre em nossa psique?
– Agora você chegou bem perto: uma história tão antiga que
mesmo Cristo não pode querer ser o seu formulador, uma história que os gregos
já haviam formulado na lenda de Eros e Psiquê.
– Você disse que o livro estremeceu as bases de sua razão,
por quê?
– Há coisas arraigadas em nossa experiência que jamais
poderíamos supor que não sejam inabaláveis, aqui quero dizer explicitamente de
algo que, nos termos que vemos em jornais e revistas, sempre me foi motivo de
risos, mas esse livro mostrou-me um outro lado e mostrou-me pela prática, isto
é, fez-me sentir estupefato ao revelar-me que eu havia passado pelo que ele
expunha.
– Você sentiu na pele o que o livro teorizava?
– O livro
conceituava energias que se espalham pelo universo originadas das quatro faces
de Deus, representadas pelos elementos terra, água, fogo e ar. E delineava o
que seriam essas energias, em termos precisos, a simbologia do Zodíaco.
Explicando os ciclos dos quatro elementos, assombrou-me o ciclo da terra.
– E o que é esse ciclo?
– O livro nos diz que inicialmente a terra tem que ser
arada para a fecundação, função que é realizada pelo signo de Touro: o boi que
puxa o arado a revolve e mistura, criando o caos que permitirá que sobre ele
tudo seja organizado – primeiro é necessário destruir para depois construir
sobre as ruínas. A terra agora está pronta para ser fertilizada, ela é a noiva
que está preparada para ser mãe. A energia de Touro torna a terra capaz de
receber o poder da vida no útero; que pode dar-lhe raízes para trazê-la à luz.
Ela permitirá que o princípio criativo, o Logos, torne-se carne.
– Pelo menos é uma bela simbologia.
– Em Virgem, a rainha sem mácula dos céus, a deusa-mãe da
natureza que nunca foi tocada por um macho, mas é grávida de todas as
criaturas, recebe a semente divina. Assim, ela fica grávida da criança divina, na
qual os dois princípios, o divino e o material, estão misturados em uma
perfeita unidade.
– E toda a simbologia fica ainda mais bonita.
– Finalmente, o último elemento é Capricórnio. A Cabra vive
pelas regiões mais áridas da terra, onde a matéria é mais rígida, onde as
rochas são as mais duras; mas a rocha sob enormes energias pode cristalizar-se,
tornando-se transparente e deixando-se atravessar pela luz. O cristal revela o
poder criativo da luz e pode concentrá-la, e sob o poder da concentração, a
consciência, o divino self nasce na rocha da alma humana.
– Uau! E os outros ciclos?
– Fiquemos apenas com o ciclo da terra, além dele quero
apenas falar de outro signo, Câncer, que é o primeiro signo do ciclo da água,
pois o caranguejo precisa de pouca água para viver. Depois que ele agarra sua
presa, ele retira-se para dentro de sua concha para digeri-la, isto é, a
consciência que estava voltada para fora, trabalha as experiências que coletou
para retirar sua nutrição espiritual. Portanto, Câncer é o introspectivo, a
consciência que se analisa para encontrar o self verdadeiro.
– E por
que falar desse Caranguejo?
– Porque
além dos aspectos individuais dos signos, ainda existe um outro fator
importante: dois signos opostos no Zodíaco são complementares. Eles interagem
preenchendo no outro aquilo que ele necessita.
– E o
Caranguejo é oposto a qual signo?
– A
Capricórnio, e essa oposição revela que Câncer, que tem em si mesmo seu abrigo
e sua casa, tem o poder maternal da vida, e a criança divina que nasce em
Capricórnio também terá terno abrigo, pois ela pertence à mãe, Câncer.
– Então,
é Câncer quem deverá fazê-la desenvolver-se.
– Então
Câncer tem a responsabilidade de desenvolvê-la. Os antigos tinham a astrologia
como um assunto comum e uma ciência, e esta simbologia do chamado casamento
místico está presente no Evangelho de João, nas bodas de Caná: as talhas de
pedra – o elemento terra em Capricórnio - recebem a água que se transforma em
vinho, isto é, a água que se spirit-ualiza, a criança divina inicia sua
jornada. E por todo o Evangelho terra e água serão os símbolos preferidos: o
pão – o trigo de Virgem colhido e transformado – e o vinho, que serão
transformados em sacramento.
– Mas
você ainda não explicou porque tudo isso abalou sua razão.
– Eu
percebi que eu havia percorrido o ciclo da terra, e que cada uma das fases do
ciclo durara cerca de nove anos.
– Você
passou nove anos preparando a terra?
– A
gestação de cada ciclo durou nove anos, mas houve uma inversão que causou
grande confusão: Virgem aconteceu antes de Touro, a terra foi semeada sem antes
ter sido preparada, só depois os cuidados e os adubos foram utilizados. No
entanto, por tudo que já aprendi, a visão espiritual para nós é espelhada,
assim, se os três signos forem dispostos nos vértices de um triângulo equilátero,
as duas bases se invertem no espelho; a inversão faz parte de nossa natureza
incompleta e deformada.
– E você
é o Caranguejo nessa história?
– Sou,
mas às vezes parece-me que eu sou um daqueles que fui chamado, mas não fui
escolhido.
– E por
que você tem esta sensação?
– Porque
todas as manifestações do mundo espiritual, que foram tão frequentes naquela
época de descobertas, cessaram.
– E lhe
faz falta?
– Na
verdade, não. Tudo serviu para modificar-me, e pouco a pouco sinto aquela criança
crescendo em meu coração, cada vez mais tomando o espaço ocupado pelo meu Eu.
Lições gratuitas como esta ocorriam com frequência em certa
época. Peguei o livro, paguei-o junto aos outros e levei-o para casa. Muitas e
muitas lições ele contém, nem todas aceitas por minha mente impregnada de racionalismo.
Quem sabe eu possa fazer parte daqueles “que
já superaram sua anterior propensão rumo à esperteza racional”.
-o-
Poemas de Murilo Mendes:
Tentação
Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
“Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”.
Epifania
Eu te procurei tal qual os três reis magos
Que caminhavam através de mares e desertos,
Até que um dia uma estrela enviada por ti mesmo
Me trouxe até a tua inefável presença.
Não posso te ofertar o ouro, o incenso e a mirra:
Ofereço-te a minha alma que tu mesmo criaste,
Ofereço-te a minha aridez e o meu pecado.
Ilumina agora e sempre todos os que te procuram
E todos aqueles que acreditam no teu fim.
Angústia e escuridão dominam o homem
Porque tu ainda não deste a volta ao mundo.

Para dados de conhecimento , amei nas peculiaridades ! Muito rico em detalhes...Mas pelo pouco que possa imaginar , há mistérios que não alcançaremos aqui ...Se Deus o permitir , em outra dimensão , concorda? Mas é saudável , claro , divagarMos o campo das hipóteses .Haja vista que "chegou-se " a conclusão (Roma/Academia cientifica) que aceita-se a teoria da evolução da espécie - está em aberto - Abraço .Lindo domingo.
ResponderExcluirQuero crer que você está fazendo referência a outro texto, pois este nada fala sobre a evolução, mas o conjunto dos textos conta uma história mais longa, que é a luta pela eliminação do ego. Os mistérios fazem parte da escada que deve ser galgada.
ResponderExcluirPode ser...Mas de qualquer forma não venho Dar #toques do contra!Jamais . Aprendi , com o tempo , conviver com as diferenças .A Fé ou Credo é uma delas.Mas voltando ao assunto do Texto: Achei-o bem difícil / profundo .Vou voltar nele dps....Tô ampliando agr.umas gravuras para Tapetes/ Corpus
ResponderExcluirCHRISTI.Inté!