– Bom
dia, Dona Menina.
– Ara,
seu Zé, tava sumido, hem? Até que afinal resolveu dar as caras por estas
brenhas de gente pobre.
– Que
isso, Dona Menina, num tá comigo fazê desdenha de ninguém, inda mais da senhora,
que tenho por fé de ser filósofa e mestra de nossa parvoíce.
– E
por onde tem andado, seu Zé?
– Por
aí mesmo, Dona Menina, zanzando nos meus afazer de costume. Pingando aqui uma
tarefa dura, ali outra tamém, no mais, ralando e cavucando.
– Mas
alguma nova alvissareira deve de haver pra modo o senhor desentocar assim cedo
e vir bater por cá.
– Bem, Dona Menina, até que tem uns assunto que eu queria
desenrolar com a senhora pra ver se fica melhor esclarecida a barafunda que me
encheu a cachola.
– E que barafunda mais grossa foi essa, seu Zé?
– Bem, o caso é como vou de narrar um tanto que complicado,
Dona Menina. Começou com o meu compadre Bené, que foi pedir prum nosso amigo abonado,
ou mió digo eu, milionário cheio da bufunfa; pois o compadre pediu uma grana
emprestada pro dito cujo, que eu vou reservar o nome.
– Tá se vendo que o seu Bené vai se escaldar.
– E num é, Dona Menina? Pois o cauíra emprestou o dinheiro,
mas a troco de empenho do sítio do compadre, que ficou agarantindo o negócio.
– Decerto foi por aí que o diabo mostrou o rabo, né? Mexer
com esses traíras é mexer com marimbondo.
–Tava tudo indo nos conforme, o compadre tava agarantindo
os pagamentos na lisura, até que a doença da comadre Dita desandou a pôr tudo
no preto pior.
– Pois eu soube, seu Zé, coitada da Dita, passou maus
momentos.
– E num foi, Dona Menina? O compadre esgotou o tudo pros laboratório
e remédios da comadre e cabô na pindaíba, sem poder cumprir com as prestação.
– Ara, seu Zé, com um motivo de força maior num tem quem
não arrefeça, com certeza o outro lá haveria de entender a ocasião.
– Entender, entendeu, Dona Menina, mas em nada arrefeceu.
Disse assim na lata pro compadre que trato é trato, o assinado tem é que ser satisfeito.
– Virgem, assim é? Quis montar
por cima com todos os apetrechos?
– Pois foi mesmo assim, Dona Menina, e com as esporas nos
pé. Foi aí que o compadre veio se valer dos meus préstimos, mas eu tamém fui
pego sem os tamanco no pé, lisinho, lisinho.
– O tinhoso às vezes é bem danado nas suas arapucas.
– A gente inté foi ao banco pra modo ver se conseguia levantar
um papagaio, mas com o sítio já enrolado de penhora e minha morada tamém na
hipoteca, um nada de nada foi apurado.
– E aí, seu Zé, que sucedeu depois?
– Eu me atarantei pra ir dar uma palavrinha com o
mão de vaca pra modo ver se conseguia dar ponto na rapadura, afinal nós tudo
fomos moleque criado junto ao relento dos recreio e nas palmatórias das aula.
– É bom mesmo se valer assim, seu Zé, pois amizade antiga deixa
a camaradagem das boas memórias, né?
– Senhora Dona Menina, mas num é que o amigo da onça só
lembrava que amizade não era cordame pra amarrar negócio?
– Nem acredito, seu Zé.
– Ele disse mesmo assim: que tinha um dever funesto com o
futuro e que tinha por preceito defender os direito dele.
– E que dever era esse, seu Zé?
– Bom, aí ele falou que era por causa dele de ser espírita.
– Uai, mais uma razão a mais pra ele ter bondade; sei bem
que espíritas são gente muito das caridosas, que se prestam a fazer o bem em tudo
que podem.
– Pode inté ser assim, Dona Menina, mas num era o caso daquele.
Ele aí arrazoou que ele depois de morto ia voltar a viver.
– Que ele ia reencarnar.
– Pois é, que ele ia nascer outra vez na mesma sua família,
como filho de um neto dele.
– Mas, seu Zé, o que tem isso a ver com o seu Bené e a
dívida?
– Pois antão, foi aí que ele disse que tinha precisão de
juntar o mais que podia pra deixar pros neto, que seria, assim, como deixar pra
ele mesmo, por isso precisava mesmo do sítio do compadre.
– Que abuso, seu Zé, que mais torpe egoísta; mas isso nem
pode se chamar de egoísmo, é a mais maluca maluquice que jamais ouvi alguém
falar. Será que ele nunca ouviu nem falar de Nosso Senhor Jesus Cristo?
– Eu tamém fiquei aparvalhado, Dona Menina, até perdi a
fala num acreditando nos meus ouvido; temendo até por aquele herege dizer tão
bruta sandice.
– Então, em sendo verdade que ele reencarne, ele acha que
pode fazer sua cama, e que Nosso Senhor vai dar permissão disso?
– Vem cá, Dona Menina, a senhora acha que pode ser vero
esse tal negócio de reencarnar?
–Num sei nadinha sobre isso, seu Zé, e acho que ninguém
sabe. Pode ser e pode num ser, mas tenho certeza que Nosso Senhor num ia querer
saber de um pacto desse com tal preceito egoísta.
–Inté acho eu que ele bem devia mesmo era ir fazer o tal acordo
é numa encruzilhada.
– Bom mesmo seria, seu Zé, é que a cegonha errasse o
endereço de entrega e mandasse o dito cujo pra neto do compadre Bené.
–Bom mesmo, Dona Menina, ih ih ih.
-o-
Casamento
Adélia
Prado
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

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