Parte 0
Li o relato do Gilson Coimbra sobre o Festival da
Canção de Miracema e deparei-me com esta frase: “Como começou, no fundo...no fundo...eu não sei”.
Não sabia que a história estivesse tão perdida e acho que posso trazer um pouco
de luz sobre o 1º Festival, embora muita coisa já esteja apagada da minha memória,
principalmente nomes. Peço desculpas pelos nomes perdidos, e, mais ainda, pelas
pessoas esquecidas. Estou usando o título do relato do Gilson e como ele fez as
partes I e II, numerei esta como 0.
Naquele
ano, 1969, entrei no 1º científico do Colégio N. Sra. das Graças. O presidente
do GEAO, Grêmio Estudantil Alberto de Oliveira, era o Carlos Luiz Moreira. Certo dia estávamos conversando, e eu
reclamei um pouco da falta de atividade do Grêmio, que basicamente estava
limitada aos bailinhos. Eu estivera em Itaperuna e presenciara o festival lá
promovido pelo Colégio (se não me engano no nome) São José, e perguntei ao
Carlos Luiz: por que o Grêmio não promovia um festival?
A
resposta foi imediata: entusiasmado com a ideia, ele me chamou para irmos
conversar com o Prof. Darcy, que também acolheu a ideia com satisfação e disse-nos que levaria a proposta à diretoria da escola, já afirmando que seria
unicamente por burocracia. Ali mesmo, os dois resolveram admitir-me na
diretoria do Grêmio para poder já trabalhar pelo festival. A diretoria do GEAO, pelo
que me lembro, contava também com o Zé Cristóvão e, ainda, uma bela aluna do 2º
ou 3º ano, cujo nome parece-me fosse Ana e era bem mais madura que os meus
escassos quinze anos; ela teve muita ação em buscar auxílio de colegas seus que
eram ex-alunos.
Começamos
a divulgar a ideia contando com o máximo empenho do Prof. Darcy e com a ajuda
de alguns professores, com destaque para o Prof. Ulisses. À medida que os
ex-alunos foram tomando conhecimento, muitos apareceram prontificando-se para
ajudar. Alguns que me recordo que muito trabalharam foram o Dua, o Fernando
Nascimento, o Afonso Leitão, o João, o Miguel (que tinha um apelido que não se
podia declinar sob pena de ganhar uns sopapos), e uma moça, do qual o nome
também desapareceu, que foi minha vizinha na Rua da Capivara, pois morou num
sobrado em frente à serraria do Suquinha; esta foi das mais ativas, buscando recursos
financeiros para as despesas e para os prêmios.
E tudo
foi ganhando uma proporção muito além da intenção inicial; os prêmios começaram
a atrair a atenção, tanto que o Zé Cristóvão, que até então nem se sabia um músico,
em uma das reuniões entusiasmou-se e decidiu que ele também ia participar, e o
fez com bastante sucesso.
O grande
mérito de toda a organização foi do Prof. Darcy, que supria toda a nossa falta
de experiência, e, praticamente, o Grêmio perdeu o comando da situação. E o
apoio do José Itamar de Freitas, diretor do Fantástico na época, foi
fundamental para o sucesso.
Lembro-me
bem nitidamente de um episódio insólito a respeito das músicas selecionadas. As
músicas inscritas não eram muitas, e, na reunião que fizemos para a escolha das
músicas que seriam levadas ao público, cortamos algumas consideradas fracas. O
Carlos Gualter havia inscrito três músicas (acho que foi o limite que
estabelecemos por pessoa, senão ele dominaria o festival) e uma de suas músicas
foi eliminada: o Darcy, usando toda a sua conhecida democracia, achou que aquela
não era muito propícia para um festival (eu não sabia que existiam músicas com
tais características); ele achou-a um tanto melancólica, arrastada, e
eliminou-a. Não me lembro o motivo de ter sido eu a sofrer a indignação do
Carlos Gualter, e se eu estava sozinho, mas ele descarregou sua cólera dizendo
que não sabíamos nada de música, que aquela era justamente a melhor das três. Nem
mais sei se eu achava se ele tinha razão ou não, mas para ele aquela música era
muito especial, pois era uma homenagem a sua mãe. Enfim, saí ou saímos inteiros
do quiproquó.
Depois
foi aquela festa maravilhosa no Cine XV, palco que no início nem imaginávamos
que poderia ser usado. Casa cheia, um grande festival. Dos vencedores, lembro
pouca coisa, o Adilson Dutra já escreveu um pouco sobre eles e da sua vitória
como intérprete.
Foi minha
única participação nos festivais, pois no início do ano seguinte parti para
Belo Horizonte, para estudar e trabalhar, e fiquei muito afastado da cidade; dos
festivais seguintes, devido ao grande sucesso, tive apenas algumas notícias
pela televisão.
-o-
Mais um grande relato sobre o Festival pode ser lido no blog Moinho de Paz, do Passarinho, sob o título
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