A
porta negra
Quando a porta que se abriu desta vez a sua frente, só lhe
mostrou um negro sem luz alguma, ele olhou para baixo com olhar interrogativo, e
viu que o Guardião o embalava com o olhar, e lhe fez um aceno com a mão
espalmada, por ele interpretado como um desejo de paz para o seu coração. Não
foi sem inquietude que ele se afundou pela escuridão, ouvindo um murmúrio que
congelou suas apreensões.
– Observa bem este trecho de estrada. Saindo da curva que
termina no alto do aclive, existe um restaurante à direita muito frequentado,
um grande entra e sai de veículos e pessoas. A estrada desce novamente por
cerca de trezentos metros e faz uma curva acentuada para a direita, assentada
sobre uma ponte, depois ela corre reta por mais algumas centenas de metros.
Logo à frente da ponte, à direita, um entroncamento dá acesso a uma cidade. A
noite está adiantada, já é quase meia-noite. Voltemos lá no alto do trecho, no
restaurante, e vamos esperar esse carro que agora aparece no alto, contornando
a curva. O motorista tem ao seu lado sua, desde a tarde deste mesmo dia, esposa;
somente eles no veículo, aconchegados um ao outro.
– Ela recostou-se no ombro dele, cansada do dia atarefado e
da recepção, e adormeceu.
– O carro passou, vamos acompanhá-lo. O motorista está
cansado, tentara de todo jeito sair mais cedo, não conseguiu, pois os
convidados necessitavam atenção. Neste momento ele se alegra, porque em mais
uns dez quilômetros eles chegarão onde vão pernoitar. Pela cabeça um pensamento
também relaxante lhe traz a doce sensação de que as cansativas viagens semanais
estavam terminadas, eles estariam sempre juntos; mas, logo, como um choque num
espelho invisível, um pensamento não tão agradável corre em sentido contrário,
que ele afugenta com certo ar de enfado. Ele relaxa ouvindo o ressonar de sua esposa,
enquanto o carro percorre o declive sem muita pressa. Chega ao final da
descida, começa a fazer a curva à direita. Os olhos pesam, demoram um pouco
mais do que o necessário para subir novamente as pálpebras pesadas.
– Oh, não
– Saídos do escuro,
os olhos veem o farol do carro em direção à lateral da ponte. Susto. A reação
do motorista se faz com excessiva força e brusco golpe no volante. O carro faz
uma curva acentuada para a esquerda, ultrapassa o limite da estrada, falta-lhe
o chão. O choque com o solo provoca um tremendo barulho que o morador daquela
casinha, que fica ali, cerca de quinhentos metros da estrada, ouviu. Observa-o,
ele vai à janela procurando na escuridão da noite, mas nenhum sinal do que
teria provocado o barulho, apenas ouve o ronco dos motores dos carros que se
aproximam e se afastam ao longo da estrada.
– Mas por que você não interferiu?
– Não podia interferir, era necessário que ele fizesse uma
parada em sua trajetória pela vida.
– E a menina, ela também tinha que fazer a parada?
– A trajetória dos dois é totalmente emaranhada, os efeitos
e os resultados não se podem discernir, não podem ser separados e isolados.
– Mas veja o carro, o fogo se propaga pelo motor, eles vão
ser carbonizados!
– Não, não há risco de dano semelhante. O tanque de
gasolina fica na parte de trás, o cano que a conduz ao motor está amassado e o
carro está inclinado com o motor mais alto.
Eles ficarão inconscientes cerca de meia hora. Vamos nos
adiantar. Agora ele acorda. Está confuso, olha para sua querida esposa
desacordada ao seu lado, ainda não tem consciência do que aconteceu.
Sobressalta-se quando entende que houve um acidente. Ele vê um clarão subindo
do motor do carro, a tampa do motor levantada impede sua visão. Ele chama:
July! Só tem como resposta um gemido débil.
Ele sai do carro e vê o fogo que está consumindo o motor.
Apavorado, volta e retira como pode sua esposa; ela ainda não acordou. Carrega-a
um pouco mais longe do carro, o terreno é alagadiço, seus pés afundam na água e
no barro mole, ele deita-a no chão, porque não tem mais forças para aguentá-la.
O fogo agora já acabou, ele apenas vira o final. Ele precisa
de ajuda e grita por socorro. Arrasta-se pela rampa que leva ao piso da
estrada. Ele retira a camisa, agita-a, e grita por socorro. Os carros passam
direto por ele, quem poderia parar para um louco à beira da estrada àquela hora
da noite? O carro está lá embaixo, nenhum sinal do acidente. Ele desce
novamente para ir atrás de sua esposa, quer se inteirar do seu estado. Ela
ainda está desacordada. Ele chora. Não sabe o que fazer. Sobe de novo para a
estrada, grita, agita a camisa. Ninguém para. Ele desce novamente, vai vê-la.
Ela continua no mesmo estado, mas pelo menos ele sabe que ela está viva. Sobe
novamente para a estrada. Vê uma Kombi chegando devagar. Ela está parando!
– Você não podia ter interferido para que algum carro
parasse antes?
– E você acha que seria fácil vencer o medo do desconhecido
que apavora os motoristas que passam, mesmo de uma alma assaz benevolente? Além
do mais, já lhe disse que é necessário o seu estágio nestas paragens. Busquei
ajuda naquela casa ali perto da estrada, onde alguém aparecera na janela. O
morador da casa, não tendo percebido nada de anormal, foi tomar um banho, e
depois foi jantar. Foi então que ele ouviu os gritos de socorro. Terminando
afobadamente seu prato, pegou sua Kombi e foi ver se podia fazer algo pelos
acidentados.
Aquele ser compassivo tomou a menina inconsciente nos
braços, levou-a para a Kombi e seguiram para o hospital de Leopoldina. No
trajeto as perguntas do samaritano ajudaram a desviá-lo da sua insegura
situação. Em alguns minutos chegaram ao hospital. Ela foi atendida, estava em
estado de choque. Os médicos lhe acalmaram dizendo-lhe que o pior já passara, e
que agora ele é que precisava ser atendido, pois o sangue lhe manchava quase todo
o corpo, mas pouco era dele mesmo. O sangue que lhe manchava a roupa quase todo
era de sua esposa, apenas o que lhe escorria pelo pé era de um ferimento no
joelho que precisou de alguns pontos.
Recebidos os pontos e vendo sua esposa ser atendida, ele relaxou
um pouco. Uma dor imensa cresceu-lhe no peito, que doía intensamente quando ele
puxava o ar para o pulmão. Ele queria parar de respirar, pois a dor era muita.
Fazia-o com dificuldade. Ele já havia percebido, quando ainda no carro, que o
volante do carro havia se quebrado contra o seu peito, e, somente agora,
esfriado, a dor do choque começara a fazer efeito. Foi medicado e ficou ao lado
da esposa que esperava as providências para fazer os exames de Raio X.
E desde aquele momento a sua situação começou a mostrar-lhe
o horror dos dias futuros. E não se conformava. Seria a viagem toda de apenas
uma hora até Leopoldina, e já tão perto... Voltou-lhe à mente as preocupações
que estava tendo já há alguns dias antes do casamento: havia mudado de emprego,
em uma situação muito vantajosa, mas descobrira depois que seus novos patrões não
estavam em situação de cumprir tudo o que lhe fora prometido; recebia em
atraso, e as dívidas da empresa com ele se acumulavam.
Os exames revelaram que sua esposa tinha quebrado três
costelas, e que o fêmur direito se tinha partido em três pedaços. Dor. Os seus
dentes da frente também estavam quebrados ou arrancados. Dor. Só dor. Madrugada
de horror naquela enfermaria, e ela ainda nada sabia, mas agora estava sedada.
De manhã, foram levados para um quarto. As chapas revelaram que as fraturas do
fêmur teriam que ser corrigidas com uma placa de platina para juntar os
fragmentos.
A família no dia seguinte começou a aparecer. Primeiro seu
pai, que lhe deu o apoio necessário para ajudar a tranquilizá-lo; depois, sua
irmã, que chegando em Belo Horizonte, recebeu a notícia, e retornou
imediatamente. Lá em Leopoldina morava um tio do seu cunhado, sua referência na
cidade, e ao dar entrada no hospital pedira que ele fosse avisado; pessoa muito
querida na cidade e conhecido por todos no hospital, logo que soube, chegou bem
cedo para prestar ajuda.
Onde poderia ser feito a intervenção cirúrgica? Ali mesmo
havia um grande ortopedista, foi-lhe garantido. O Professor assegurava a
capacidade e a eficiência do cirurgião, que também era médico de renome no Rio
de janeiro. O seu pai consultou um primo médico em Juiz de Fora, que também
reforçou as habilidades do cirurgião.
A operação não poderia ser realizada enquanto o estado da
paciente não estivesse adequado, pois além do estado de choque, um princípio de
pneumonia havia aparecido. Ficaram à espera, e algumas visitas incômodas também
apareciam para aumentar-lhes o desconforto. E a operação foi realizada,
aparentemente muito bem executada. Porém, somente com os exames realizados mais
tarde em Belo Horizonte, seria percebido que, embora a cirurgia tenha sido
realizada com a mais perfeita técnica, o apoio do fêmur na bacia ficara com um
erro de inclinação, o que deixou a perna direita mais curta que a esquerda.
Mas, ainda no hospital, os dias se arrastavam. Sua única
atividade era cuidar da esposa. Um sentimento de culpa não deixava de atormentá-lo,
mas dela jamais ouviu qualquer palavra que não fosse apenas um gemido por uma
dor, ou um incômodo pelo gesso que lhe imobilizava a perna até a cintura. Ele
aliava, com a sua preocupação com as condições da esposa, uma outra, referente
ao estado da sua nova empregadora, que sem ele ficaria ainda mais em apuros.
Disse-lhe o diretor que estavam conseguindo equacionar os trabalhos e que não
se preocupasse, gastasse quanto dias fossem necessários, o que não foi
suficiente para acalmá-lo, pois sabia da falta que faria.
E foram se acumulando os dias no hospital até que os
médicos a liberassem para viajar, vinte e sete dias, e na sua cabeça havia um
emaranhado de indolência, preocupação e, crescendo com obstinação, algo que ele
ainda não acreditava que pudesse estar acontecendo.
– E o que era?
– Veja a luz que brilha além da porta, desperta, você está
novamente no salão das portas.
-o-

Que história triste,pai!
ResponderExcluirEle foi um herói e salvou sua esposa!
É uma história muito triste, mas,ao mesmo tempo, aponta bem as suas qualidades de prosador.
ResponderExcluirObrigado pela qualificação de boa prosa,também gosto muito dos seus poemas.
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