sábado, 6 de janeiro de 2018

A porta negra


A porta negra




Quando a porta que se abriu desta vez a sua frente, só lhe mostrou um negro sem luz alguma, ele olhou para baixo com olhar interrogativo, e viu que o Guardião o embalava com o olhar, e lhe fez um aceno com a mão espalmada, por ele interpretado como um desejo de paz para o seu coração. Não foi sem inquietude que ele se afundou pela escuridão, ouvindo um murmúrio que congelou suas apreensões.

– Observa bem este trecho de estrada. Saindo da curva que termina no alto do aclive, existe um restaurante à direita muito frequentado, um grande entra e sai de veículos e pessoas. A estrada desce novamente por cerca de trezentos metros e faz uma curva acentuada para a direita, assentada sobre uma ponte, depois ela corre reta por mais algumas centenas de metros. Logo à frente da ponte, à direita, um entroncamento dá acesso a uma cidade. A noite está adiantada, já é quase meia-noite. Voltemos lá no alto do trecho, no restaurante, e vamos esperar esse carro que agora aparece no alto, contornando a curva. O motorista tem ao seu lado sua, desde a tarde deste mesmo dia, esposa; somente eles no veículo, aconchegados um ao outro.

– Ela recostou-se no ombro dele, cansada do dia atarefado e da recepção, e adormeceu.

– O carro passou, vamos acompanhá-lo. O motorista está cansado, tentara de todo jeito sair mais cedo, não conseguiu, pois os convidados necessitavam atenção. Neste momento ele se alegra, porque em mais uns dez quilômetros eles chegarão onde vão pernoitar. Pela cabeça um pensamento também relaxante lhe traz a doce sensação de que as cansativas viagens semanais estavam terminadas, eles estariam sempre juntos; mas, logo, como um choque num espelho invisível, um pensamento não tão agradável corre em sentido contrário, que ele afugenta com certo ar de enfado. Ele relaxa ouvindo o ressonar de sua esposa, enquanto o carro percorre o declive sem muita pressa. Chega ao final da descida, começa a fazer a curva à direita. Os olhos pesam, demoram um pouco mais do que o necessário para subir novamente as pálpebras pesadas.

– Oh, não

–  Saídos do escuro, os olhos veem o farol do carro em direção à lateral da ponte. Susto. A reação do motorista se faz com excessiva força e brusco golpe no volante. O carro faz uma curva acentuada para a esquerda, ultrapassa o limite da estrada, falta-lhe o chão. O choque com o solo provoca um tremendo barulho que o morador daquela casinha, que fica ali, cerca de quinhentos metros da estrada, ouviu. Observa-o, ele vai à janela procurando na escuridão da noite, mas nenhum sinal do que teria provocado o barulho, apenas ouve o ronco dos motores dos carros que se aproximam e se afastam ao longo da estrada.

– Mas por que você não interferiu?

– Não podia interferir, era necessário que ele fizesse uma parada em sua trajetória pela vida.

– E a menina, ela também tinha que fazer a parada?

– A trajetória dos dois é totalmente emaranhada, os efeitos e os resultados não se podem discernir, não podem ser separados e isolados.

– Mas veja o carro, o fogo se propaga pelo motor, eles vão ser carbonizados!

– Não, não há risco de dano semelhante. O tanque de gasolina fica na parte de trás, o cano que a conduz ao motor está amassado e o carro está inclinado com o motor mais alto.
Eles ficarão inconscientes cerca de meia hora. Vamos nos adiantar. Agora ele acorda. Está confuso, olha para sua querida esposa desacordada ao seu lado, ainda não tem consciência do que aconteceu. Sobressalta-se quando entende que houve um acidente. Ele vê um clarão subindo do motor do carro, a tampa do motor levantada impede sua visão. Ele chama: July! Só tem como resposta um gemido débil.

Ele sai do carro e vê o fogo que está consumindo o motor. Apavorado, volta e retira como pode sua esposa; ela ainda não acordou. Carrega-a um pouco mais longe do carro, o terreno é alagadiço, seus pés afundam na água e no barro mole, ele deita-a no chão, porque não tem mais forças para aguentá-la.

O fogo agora já acabou, ele apenas vira o final. Ele precisa de ajuda e grita por socorro. Arrasta-se pela rampa que leva ao piso da estrada. Ele retira a camisa, agita-a, e grita por socorro. Os carros passam direto por ele, quem poderia parar para um louco à beira da estrada àquela hora da noite? O carro está lá embaixo, nenhum sinal do acidente. Ele desce novamente para ir atrás de sua esposa, quer se inteirar do seu estado. Ela ainda está desacordada. Ele chora. Não sabe o que fazer. Sobe de novo para a estrada, grita, agita a camisa. Ninguém para. Ele desce novamente, vai vê-la. Ela continua no mesmo estado, mas pelo menos ele sabe que ela está viva. Sobe novamente para a estrada. Vê uma Kombi chegando devagar. Ela está parando!

– Você não podia ter interferido para que algum carro parasse antes?

– E você acha que seria fácil vencer o medo do desconhecido que apavora os motoristas que passam, mesmo de uma alma assaz benevolente? Além do mais, já lhe disse que é necessário o seu estágio nestas paragens. Busquei ajuda naquela casa ali perto da estrada, onde alguém aparecera na janela. O morador da casa, não tendo percebido nada de anormal, foi tomar um banho, e depois foi jantar. Foi então que ele ouviu os gritos de socorro. Terminando afobadamente seu prato, pegou sua Kombi e foi ver se podia fazer algo pelos acidentados.

Aquele ser compassivo tomou a menina inconsciente nos braços, levou-a para a Kombi e seguiram para o hospital de Leopoldina. No trajeto as perguntas do samaritano ajudaram a desviá-lo da sua insegura situação. Em alguns minutos chegaram ao hospital. Ela foi atendida, estava em estado de choque. Os médicos lhe acalmaram dizendo-lhe que o pior já passara, e que agora ele é que precisava ser atendido, pois o sangue lhe manchava quase todo o corpo, mas pouco era dele mesmo. O sangue que lhe manchava a roupa quase todo era de sua esposa, apenas o que lhe escorria pelo pé era de um ferimento no joelho que precisou de alguns pontos.

Recebidos os pontos e vendo sua esposa ser atendida, ele relaxou um pouco. Uma dor imensa cresceu-lhe no peito, que doía intensamente quando ele puxava o ar para o pulmão. Ele queria parar de respirar, pois a dor era muita. Fazia-o com dificuldade. Ele já havia percebido, quando ainda no carro, que o volante do carro havia se quebrado contra o seu peito, e, somente agora, esfriado, a dor do choque começara a fazer efeito. Foi medicado e ficou ao lado da esposa que esperava as providências para fazer os exames de Raio X.

E desde aquele momento a sua situação começou a mostrar-lhe o horror dos dias futuros. E não se conformava. Seria a viagem toda de apenas uma hora até Leopoldina, e já tão perto... Voltou-lhe à mente as preocupações que estava tendo já há alguns dias antes do casamento: havia mudado de emprego, em uma situação muito vantajosa, mas descobrira depois que seus novos patrões não estavam em situação de cumprir tudo o que lhe fora prometido; recebia em atraso, e as dívidas da empresa com ele se acumulavam.
Os exames revelaram que sua esposa tinha quebrado três costelas, e que o fêmur direito se tinha partido em três pedaços. Dor. Os seus dentes da frente também estavam quebrados ou arrancados. Dor. Só dor. Madrugada de horror naquela enfermaria, e ela ainda nada sabia, mas agora estava sedada. De manhã, foram levados para um quarto. As chapas revelaram que as fraturas do fêmur teriam que ser corrigidas com uma placa de platina para juntar os fragmentos.

A família no dia seguinte começou a aparecer. Primeiro seu pai, que lhe deu o apoio necessário para ajudar a tranquilizá-lo; depois, sua irmã, que chegando em Belo Horizonte, recebeu a notícia, e retornou imediatamente. Lá em Leopoldina morava um tio do seu cunhado, sua referência na cidade, e ao dar entrada no hospital pedira que ele fosse avisado; pessoa muito querida na cidade e conhecido por todos no hospital, logo que soube, chegou bem cedo para prestar ajuda.

Onde poderia ser feito a intervenção cirúrgica? Ali mesmo havia um grande ortopedista, foi-lhe garantido. O Professor assegurava a capacidade e a eficiência do cirurgião, que também era médico de renome no Rio de janeiro. O seu pai consultou um primo médico em Juiz de Fora, que também reforçou as habilidades do cirurgião.

A operação não poderia ser realizada enquanto o estado da paciente não estivesse adequado, pois além do estado de choque, um princípio de pneumonia havia aparecido. Ficaram à espera, e algumas visitas incômodas também apareciam para aumentar-lhes o desconforto. E a operação foi realizada, aparentemente muito bem executada. Porém, somente com os exames realizados mais tarde em Belo Horizonte, seria percebido que, embora a cirurgia tenha sido realizada com a mais perfeita técnica, o apoio do fêmur na bacia ficara com um erro de inclinação, o que deixou a perna direita mais curta que a esquerda.

Mas, ainda no hospital, os dias se arrastavam. Sua única atividade era cuidar da esposa. Um sentimento de culpa não deixava de atormentá-lo, mas dela jamais ouviu qualquer palavra que não fosse apenas um gemido por uma dor, ou um incômodo pelo gesso que lhe imobilizava a perna até a cintura. Ele aliava, com a sua preocupação com as condições da esposa, uma outra, referente ao estado da sua nova empregadora, que sem ele ficaria ainda mais em apuros. Disse-lhe o diretor que estavam conseguindo equacionar os trabalhos e que não se preocupasse, gastasse quanto dias fossem necessários, o que não foi suficiente para acalmá-lo, pois sabia da falta que faria.

E foram se acumulando os dias no hospital até que os médicos a liberassem para viajar, vinte e sete dias, e na sua cabeça havia um emaranhado de indolência, preocupação e, crescendo com obstinação, algo que ele ainda não acreditava que pudesse estar acontecendo.

– E o que era?

– Veja a luz que brilha além da porta, desperta, você está novamente no salão das portas.


 -o-

3 comentários:

  1. Que história triste,pai!
    Ele foi um herói e salvou sua esposa!

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  2. É uma história muito triste, mas,ao mesmo tempo, aponta bem as suas qualidades de prosador.

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    1. Obrigado pela qualificação de boa prosa,também gosto muito dos seus poemas.

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