domingo, 14 de janeiro de 2018

Marina e a Borboleta



Marina e a Borboleta

                                                                                                   
                                                                                           “Eu achei que era eu, Chuang Tzu, que tivesse sonhado
                                                                                           ser uma borboleta, mas, e se, agora, sou uma borboleta
                                                                                           que está sonhando ser Chuang tzu?"




– Olha, mamãe! Uma flor voando no céu.

– É uma borboleta, Marina.

– Que bonita ela é, mamãe.

Marina, não corra, tome cuidado!

– Tá, mamãe.

Marina brincava no jardim. A luz espalhando-se entre as folhas das árvores desenhava no chão um caleidoscópio de sombras e luz. Alheia ao pedido da mãe, corria atrás da flor esvoaçante. A borboleta se entregava ao calor do sol, que dava forças a suas asas, e ao balançar às carícias do vento, subindo e descendo entre as folhas das árvores.

Desistindo de acompanhar as asinhas espertas, Marina brincava no chão com a sombra da borboleta, que surgia de repente em uma malha de luz sobre o chão, e desaparecia na sombra das folhas das árvores.

A pequena borboleta pousou sobre uma flor. Fechando as asas para descansar, provou-lhe o néctar. Não teve tempo de saborear a delícia, num susto desesperado, alçou voo novamente. Fugindo do bico de um bem-te-vi, pousou sobre o ombro da menina, que ficou imobilizada pelo prazer e pelo receio de espantar a borboletinha.

– Ai! que susto enorme!

Marina ficou ainda mais espantada, parecia-lhe ter ouvido a borboleta falar com ela.

– Ufa! Ainda bem que você está aqui para me proteger! Aquele monstro de bico não vai ter coragem de me atacar aqui.

Marina estava ainda paralisada, mas finalmente reagiu:

– Você fala?

– Não, não como você, mas posso falar direto na sua cabecinha.

– O passarinho quase te pegou

– Você viu, escapei por pouco daquela coisa monstruosa!

– Eu não acho que o passarinho é um monstro, eu gosto dele.

– Você não acha porque você é grande, ele não pode fazer-lhe mal, mas ele é um perigo enorme para as borboletas.

– Eu não sou grande, sou pequenina.

– Para mim, você é muito grande!

Enquanto tudo isso acontecia, depois de algumas horas a espalhar sua luz, o sol havia desaparecido entre as nuvens, deixando o calor murchar. As nuvens chegavam negras e ameaçadoras. A mamãe de Marina logo chamou:

– Marina, vamos embora que a chuva não vai demorar.

E a borboleta novamente voltou a ficar medrosa.

– Ai, chuva!

– Você não gosta de chuva? Eu também não, porque tenho que ficar presa em minha casa.

– A chuva é muito perigosa para nós, borboletas. Nossas asas são muito frágeis, e as gotas de chuva caem como bombas sobre elas.

– Você tem medo de uma gotinha de chuva!?

– Muito medo! Quando chove tenho que me esconder debaixo de uma folha ou de uma flor. Se uma gota me derrubar, minhas asas ficam encharcadas, e não posso voar. E uma gota maior pode até furar minha asinha.

– Poxa! Há muita coisa perigosa em sua vida!

– É muito gostoso voar livre por aí e poder beber o suco docinho das flores, mas tenho de estar alerta todo o tempo para evitar os perigos. Até nas flores corremos risco de cair nas garras de uma aranha escondida.

– Então, venha comigo, lá em casa você vai ficar protegida da chuva.

A mamãe de Marina sorriu ao vê-la chegar saltitante com a borboleta voando ao redor dela. Quando deu as mãos a sua mamãe, a borboleta voltou a pousar sobre o seu ombro.

– Você arrumou uma nova amiguinha?

– Ela não é linda, mamãe? Ela me disse que estava com medo da chuva, e eu a convidei para ir lá para casa.

A mamãe de Marina sorriu com a fantasia da filhinha.

– E você entende a linguagem das borboletas?

– Entendo tudinho que ela fala bem aqui dentro da minha cabeça.

– Ah!

Somente seu irmão, ao chegar em casa, entre ciúmes e disputas, disse que ela era uma boba por acreditar que a borboleta falava com ela, e tentou pegar a borboleta. A pequenina, novamente assustada, voou e foi descansar no alto de uma prateleira da estante. Depois que o menino se cansou de chatear a irmã e retirou-se, ela desceu novamente e pousou na mão de Marina.

– Ai, tive medo novamente que aquela mãozona machucasse minhas asinhas.

– Nossa, suas asas parecem ter dois olhos redondos e pretos! São tão bonitas!

– Os seus olhos também são muito bonitos.

As duas brincaram enquanto a chuva caía lá fora. Quando Marina quis brincar de pique esconde, não teve jeito, pois a borboleta conseguia ver a menina mesmo se ela tentava se aproximar por trás das asas dela. Mas nem por isso faltava brincadeiras para as duas.

A chuva se foi. A borboleta estava cansada, pois a chuva baixara a temperatura, que era necessária para a borboleta ter energia.

– Vou ter que ir embora, ganhar forças para passar a noite.

Marina sentiu tristeza, mas não queria que sua amiguinha sofresse.

– Está bem, mas volte sempre que quiser.

Marina viu a borboletinha se afastar batendo suas asas e pensou novamente que era como uma flor esvoaçante.

Talvez ela tenha tentado voltar, talvez a sua natureza a tenha levado para outros jardins. Talvez... Mas o certo é que ficou para Marina a carícia daquele dia de tanta alegria.





2 comentários:

  1. Uma história bela, doce, traz uma nostalgia da infância a todos nós que enfrentamos diariamente as agruras da vida adulta.

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    1. É, uma forma de soltar a borboleta (alma) que insiste em ficar presa lá atrás, nos tempos que se foram.

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