A ilha
I
A
primeira vez quando lá chegou era um pedaço árido de terra
Ficava
além do Umbigo do Mundo ilha solitária do frio Pacífico
Um só
moai fazia guarita para o vento incessante a soprar
Tomou
posse do desolado refúgio proclamando-se rei
Suas
posses eram pedras areia um infinito horizonte de mar
Sentou-se
ao pé do moai companheiro solitário do entardecer
O sol
baixando no horizonte ecoava o cair do seu âmago
A
melancolia vermelha do final do dia caía-lhe dos olhos
As
ondas que batiam na areia desenhavam em seu rosto
Uma
lágrima solitária suspirou-lhe a face em vagareza
Desceu-lhe
hesitante até o lábio e parou a ganhar força
Caiu
entre suas pernas cansadas sobre a terra embrutecida
Os
olhos ergueu para o horizonte e viu a barra da noite a chegar
Baixou-os
enegrecidos para o amor que lhe fora negado
A vida
que não lhe falava teria tido palavras para ele?
O
sorriso que na mente bailava teria acenado para ele?
A
noite inclemente desceu sobre o corpo em pedaços
II
Quando
voltou para a ilha ela já não era tão estéril
Em
frente ao moai uma arvorezinha insistia em viver
Contemplou
aquela vida frágil com curiosidade intensa
Soprou
a areia fina que cobria suas tenras folhas
Buscou
pedras redondas escolhendo-as com cuidado
Desenhou
ao redor do frágil caule um círculo mágico
Sentou-se
à sombra do moai em seu posto costumeiro
Tinha entre
as suas pernas aquele espécime de vida
Na sua
só melancolia esqueceu-se do novo amigo
Levantou
indeciso os olhos para o longe horizonte
A
tarde caindo o sol morria entre raras nuvens brancas
O
pincel divino vertia no céu laranja as dores que portava
Sem
freio correram-lhe as lágrimas que ainda retinha
Sulcando
o canteiro de pedras em fios de fertilidade
Trouxe
a noite impiedosa o sopro gélido do vento sul
Tremiam-lhe
de febre os pedaços doloridos do corpo
III
Estava
ele de volta a sua ilha onde instalara seu reino
Trazia
nas mãos sementes colhidas nas noites insones
Filhas
das noites gélidas que lhe vergavam seu corpo nu
Aos
pés do moai encontrou o canteiro em vida frenética
Pequeninas
gotas vermelhas suspensas em cachos anchos
Não
ousava pisar as gotas marejadas dos seus infortúnios
Olhou com
angústia e desolação o resto de sua gleba real
As
sementes na mão contemplou atônito e desiludido
Arremessou-as
furioso todas ao mar por sabê-las inúteis
Atrás
do ídolo de pedra indiferente procurou um abrigo
Sentou-se
sem ferir as gotas no pôr do sol lacrimejante
Trançou
os braços inválidos sobre os joelhos encolhidos
Trouxe
os olhos do infinito para a quente terra ressequida
Um
seixo afiado olhava-o e pulou da terra para a sua mão
Um
talho profundo transbordou de vermelho a palma
Correu
pelo solo infecundo um largo rastro de sangue
Pegadas
vermelhas ficaram na noite dura sem estrelas
IV
A vida
vermelha cobrira toda a esterilidade da ilha
Um
tapete em vermelho rodeava a massa escura
Era um
altar em prece adorando o ídolo de pedra
O
vento sul impiedoso corria uma onda nas flores
Saído
da espuma do mar ele não tinha chão a pisar
Ouviu
uma voz imperiosa que o chamava a entrar
O
primeiro passo indeciso foi vestido de cuidados
Pisou
as gotas vermelhas que se desfizeram em ais
Mais
outro passo e a coragem voltou a sorrir-lhe
Traçou
uma trilha sangrenta até o grande moai
Sua
árvore lançava-se ereta desafiando o ídolo
Olhou o
horizonte que se fazia no ardor do sol
Olhou
a sua trilha de sangue fundida aos raios
Olhou
a sombra da árvore fazer na trilha uma cruz
Olhou
o ídolo de pedra se desfazer em fina areia
Olhou
o tapete vermelho fundir-se em amarelo
Olhou
o seu reino de dor afundar-se no Pacífico
Olhou
o horizonte que se despedia em vermelho
Olhou
um sorriso que lhe falava junto ao rosto

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