quinta-feira, 12 de abril de 2018

A ilha




A ilha














I

A primeira vez quando lá chegou era um pedaço árido de terra
Ficava além do Umbigo do Mundo ilha solitária do frio Pacífico
Um só moai fazia guarita para o vento incessante a soprar
Tomou posse do desolado refúgio proclamando-se rei
Suas posses eram pedras areia um infinito horizonte de mar
Sentou-se ao pé do moai companheiro solitário do entardecer
O sol baixando no horizonte ecoava o cair do seu âmago
A melancolia vermelha do final do dia caía-lhe dos olhos
As ondas que batiam na areia desenhavam em seu rosto
Uma lágrima solitária suspirou-lhe a face em vagareza
Desceu-lhe hesitante até o lábio e parou a ganhar força
Caiu entre suas pernas cansadas sobre a terra embrutecida
Os olhos ergueu para o horizonte e viu a barra da noite a chegar
Baixou-os enegrecidos para o amor que lhe fora negado
A vida que não lhe falava teria tido palavras para ele?
O sorriso que na mente bailava teria acenado para ele?
A noite inclemente desceu sobre o corpo em pedaços

II

Quando voltou para a ilha ela já não era tão estéril
Em frente ao moai uma arvorezinha insistia em viver
Contemplou aquela vida frágil com curiosidade intensa
Soprou a areia fina que cobria suas tenras folhas
Buscou pedras redondas escolhendo-as com cuidado
Desenhou ao redor do frágil caule um círculo mágico
Sentou-se à sombra do moai em seu posto costumeiro
Tinha entre as suas pernas aquele espécime de vida
Na sua só melancolia esqueceu-se do novo amigo
Levantou indeciso os olhos para o longe horizonte
A tarde caindo o sol morria entre raras nuvens brancas
O pincel divino vertia no céu laranja as dores que portava
Sem freio correram-lhe as lágrimas que ainda retinha
Sulcando o canteiro de pedras em fios de fertilidade
Trouxe a noite impiedosa o sopro gélido do vento sul
Tremiam-lhe de febre os pedaços doloridos do corpo

III

Estava ele de volta a sua ilha onde instalara seu reino
Trazia nas mãos sementes colhidas nas noites insones
Filhas das noites gélidas que lhe vergavam seu corpo nu
Aos pés do moai encontrou o canteiro em vida frenética
Pequeninas gotas vermelhas suspensas em cachos anchos
Não ousava pisar as gotas marejadas dos seus infortúnios
Olhou com angústia e desolação o resto de sua gleba real
As sementes na mão contemplou atônito e desiludido
Arremessou-as furioso todas ao mar por sabê-las inúteis
Atrás do ídolo de pedra indiferente procurou um abrigo
Sentou-se sem ferir as gotas no pôr do sol lacrimejante
Trançou os braços inválidos sobre os joelhos encolhidos
Trouxe os olhos do infinito para a quente terra ressequida
Um seixo afiado olhava-o e pulou da terra para a sua mão
Um talho profundo transbordou de vermelho a palma
Correu pelo solo infecundo um largo rastro de sangue
Pegadas vermelhas ficaram na noite dura sem estrelas

IV

A vida vermelha cobrira toda a esterilidade da ilha
Um tapete em vermelho rodeava a massa escura
Era um altar em prece adorando o ídolo de pedra
O vento sul impiedoso corria uma onda nas flores
Saído da espuma do mar ele não tinha chão a pisar
Ouviu uma voz imperiosa que o chamava a entrar
O primeiro passo indeciso foi vestido de cuidados
Pisou as gotas vermelhas que se desfizeram em ais
Mais outro passo e a coragem voltou a sorrir-lhe
Traçou uma trilha sangrenta até o grande moai
Sua árvore lançava-se ereta desafiando o ídolo
Olhou o horizonte que se fazia no ardor do sol
Olhou a sua trilha de sangue fundida aos raios
Olhou a sombra da árvore fazer na trilha uma cruz
Olhou o ídolo de pedra se desfazer em fina areia
Olhou o tapete vermelho fundir-se em amarelo
Olhou o seu reino de dor afundar-se no Pacífico
Olhou o horizonte que se despedia em vermelho
Olhou um sorriso que lhe falava junto ao rosto


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