A 56ª Cidade
Nos
pensamentos de Kublai Khan, a frase de Marco Polo ficou ecoando reiteradamente:
“construirei pedaço por pedaço a cidade
perfeita, feita de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados
por intervalos, de sinais que alguém envia e não sabe quem capta” (Italo
Calvino – As Cidades Invisíveis). E o Khan, após ouvir tantas maravilhas sobre
seu reino, as quais se lamentava só poder conhecer naqueles relatos, sem poder
discernir o fantasioso da realidade, finalmente sentiu-se feliz por ser ele a poder
contar:
As Cidades e a Memória
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Há
diversos modos de se chegar em Miracema: se por acaso uma andorinha migratória,
chegando das partes das Minas Gerais, avista as duas torres da Matriz, seu
senso de destino lhe afirma que é o lugar para cuidar de seu ninho; enquanto os
caminhos pelas águas encontram-se fechados, por terra muitas estradas conduzem
o viajante a encontrar não as cúpulas de marfim, onde galos de ouro avisam ao
sol que é a hora de se levantar, mas ruas simples que conduzem à praça onde se
encontra a Igreja Matriz.
Sendo não
conhecido da cidade, alheio aos meandros de suas ruas e anais, sendo de bom
proveito o mais sabor aos olhos aproveitar, o forasteiro não deve deixar-se
levar por outros atalhos e curvas que não o levem direto ao prédio da prefeitura;
poderá assim surpreender-se, primeiro, com a igreja a levantar suas duas torres
para o céu, dominando a cidade, e, se os deuses do tempo quiserem agraciá-lo fazendo
coincidir suas pisadas com o meio-dia, em um dia de outono ameno, penetrará na
praça no ritmo das doze badaladas do relógio da igreja, enfeitiçado pelos
mistérios do tempo a ver a vida desperdiçada, por não haver antes estado naquele
sítio abençoado pelas mães na pracinha que se ajoelha frente à gruta, um verdadeiro
aperitivo para saborear ali, no coração da cidade, a Praça Dona Ermelinda, que
não é apenas uma, são três.
Ao rés da
rua, esta é a única das três que pode servir de piso para os seus pés, no meio
das outras duas, assenta-se a Praça onde no habitual sua gente e seus
visitantes podem passar momentos a flanar no vai-e-vem, e as crianças podem
jogar pernas a correr. Na entrada lateral, um jamboeiro lhe presta homenagem estendendo
um tapete de pompons rosa-avermelhados, e talvez alguém lhe dê as sementes
mágicas que deverá portar consigo no bolso por onde for, eliminando para sempre
suas dores reumáticas. Não se espante com as enormes jacas penduradas naquela
imensa árvore que fica na entrada do largo central da Praça, onde poderá
contemplar a linha das palmeiras perfiladas também para homenageá-lo. Atravesse
a Praça em todos os seus sentidos, percorrendo os canteiros, não esquecendo de
transgredir pegando uma folha nova de fícus para enrolar, amassando-a em uma
das pontas, para soprar na disputa do melhor som, cuidando para que os
lacerdinhas não lhe caiam nos olhos, fazendo-o chorar.
Acima das
copas das palmeiras, estende-se a segunda Praça, reduto das andorinhas que
invadem a cidade. Construída ao longo dos anos por diversas gerações de crianças
que embaixo cresceram, ela se espalha em camadas superpostas que vão subindo em
direção às nuvens, as mais antigas já ultrapassando os cúmulos. Os passantes,
lá embaixo, se desviarem o olhar para cima das folhas das palmeiras, poderão contemplar
anos de laboriosa construção. Um olhar menos apressado pode visualizar gerações
de crianças a brincar pelas suas aleias, ver o primeiro encontro de casais que
por ali se formaram, e bisbilhotar sobre um banco qualquer um primeiro beijo,
visualizando o princípio gerador de várias gerações que se espalharam não se
sabe mais por onde. No centro das camadas, desrespeitando as nossas leis
temporais, da camada mais nova na base ao topo da mais antiga, a taça da fonte
ainda colore o céu com esguichos de cores que traçam arcos-íris permanentes ao
seu redor, convidando as famílias a um passeio dominical para sentir os
respingos das frescas gotas que espalha. Se apurar o ouvido, lá do canto extremo,
daqueles prédios abertos a todos os olhares, superpostos nas camadas, ouvirá
crianças a cantar: Carneirinho, carneirão-neirão-neirão,olhai pro céu, olhai pro
chão, pro chão: manda o Rei, Nosso Senhor, Senhor, Senhor, para todos se
ajoelharem. E nos registros daquela antiga escolinha, ouvirá um menino,
após seu primeiro dia ali, ao voltar para casa, reclamar do tédio daquela
aulinha, do horário de repouso para ele desconhecido, e em não querer mais lá voltar,
apesar da delicadeza de D. Santinha.
Abaixo destas
duas, espelhada, desce a terceira pela terra em revertida imagem, escondendo
tesouros ali acumulados pelos anos tantos, desde a sua construção. Se, hoje, os
meninos fizerem búlicas para jogar bolinhas, sei que isto é bem pouco provável,
se aprofundarem um pouco mais o buraco, poderão atingir o tesouro ali enterrado
de milhões de bolinhas perdidas por aqueles que, adultos, delas se esqueceram,
e de piões que giraram, giraram, furando a camada de terra, e continuam a girar
nos meandros de túneis impulsionados pela energia do trabalho incessante de
seus antigos donos aficionados; decerto encontrará também somente os ossos
daqueles pássaros e outros bichinhos que, cativos no viveiro e desconhecendo
suas alegrias, enfeitaram as nossas. Poderá também encontrar uma camada profunda
de tristezas enterradas, daqueles que ali viram suas esperanças de amor
despedaçadas, que infindos anos passados curtiram transformando em adubo para
as plantas.
E nas
três praças encontram-se muitas saudades, que você poderá pegar: com os olhos,
naquele raio colorido refletido pela fonte; com a mão, ao passar pela cerca que
protege o parquinho; e, na areia do parquinho, poderá desenterrar um coração
ali perdido há tantos invernos.
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