sábado, 28 de abril de 2018

A 56ª Cidade



A 56ª Cidade





Nos pensamentos de Kublai Khan, a frase de Marco Polo ficou ecoando reiteradamente: “construirei pedaço por pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados por intervalos, de sinais que alguém envia e não sabe quem capta” (Italo Calvino – As Cidades Invisíveis). E o Khan, após ouvir tantas maravilhas sobre seu reino, as quais se lamentava só poder conhecer naqueles relatos, sem poder discernir o fantasioso da realidade, finalmente sentiu-se feliz por ser ele a poder contar:

As Cidades e a Memória
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Há diversos modos de se chegar em Miracema: se por acaso uma andorinha migratória, chegando das partes das Minas Gerais, avista as duas torres da Matriz, seu senso de destino lhe afirma que é o lugar para cuidar de seu ninho; enquanto os caminhos pelas águas encontram-se fechados, por terra muitas estradas conduzem o viajante a encontrar não as cúpulas de marfim, onde galos de ouro avisam ao sol que é a hora de se levantar, mas ruas simples que conduzem à praça onde se encontra a Igreja Matriz.

Sendo não conhecido da cidade, alheio aos meandros de suas ruas e anais, sendo de bom proveito o mais sabor aos olhos aproveitar, o forasteiro não deve deixar-se levar por outros atalhos e curvas que não o levem direto ao prédio da prefeitura; poderá assim surpreender-se, primeiro, com a igreja a levantar suas duas torres para o céu, dominando a cidade, e, se os deuses do tempo quiserem agraciá-lo fazendo coincidir suas pisadas com o meio-dia, em um dia de outono ameno, penetrará na praça no ritmo das doze badaladas do relógio da igreja, enfeitiçado pelos mistérios do tempo a ver a vida desperdiçada, por não haver antes estado naquele sítio abençoado pelas mães na pracinha que se ajoelha frente à gruta, um verdadeiro aperitivo para saborear ali, no coração da cidade, a Praça Dona Ermelinda, que não é apenas uma, são três.

Ao rés da rua, esta é a única das três que pode servir de piso para os seus pés, no meio das outras duas, assenta-se a Praça onde no habitual sua gente e seus visitantes podem passar momentos a flanar no vai-e-vem, e as crianças podem jogar pernas a correr. Na entrada lateral, um jamboeiro lhe presta homenagem estendendo um tapete de pompons rosa-avermelhados, e talvez alguém lhe dê as sementes mágicas que deverá portar consigo no bolso por onde for, eliminando para sempre suas dores reumáticas. Não se espante com as enormes jacas penduradas naquela imensa árvore que fica na entrada do largo central da Praça, onde poderá contemplar a linha das palmeiras perfiladas também para homenageá-lo. Atravesse a Praça em todos os seus sentidos, percorrendo os canteiros, não esquecendo de transgredir pegando uma folha nova de fícus para enrolar, amassando-a em uma das pontas, para soprar na disputa do melhor som, cuidando para que os lacerdinhas não lhe caiam nos olhos, fazendo-o chorar.

Acima das copas das palmeiras, estende-se a segunda Praça, reduto das andorinhas que invadem a cidade. Construída ao longo dos anos por diversas gerações de crianças que embaixo cresceram, ela se espalha em camadas superpostas que vão subindo em direção às nuvens, as mais antigas já ultrapassando os cúmulos. Os passantes, lá embaixo, se desviarem o olhar para cima das folhas das palmeiras, poderão contemplar anos de laboriosa construção. Um olhar menos apressado pode visualizar gerações de crianças a brincar pelas suas aleias, ver o primeiro encontro de casais que por ali se formaram, e bisbilhotar sobre um banco qualquer um primeiro beijo, visualizando o princípio gerador de várias gerações que se espalharam não se sabe mais por onde. No centro das camadas, desrespeitando as nossas leis temporais, da camada mais nova na base ao topo da mais antiga, a taça da fonte ainda colore o céu com esguichos de cores que traçam arcos-íris permanentes ao seu redor, convidando as famílias a um passeio dominical para sentir os respingos das frescas gotas que espalha. Se apurar o ouvido, lá do canto extremo, daqueles prédios abertos a todos os olhares, superpostos nas camadas, ouvirá crianças a cantar: Carneirinho, carneirão-neirão-neirão,olhai pro céu, olhai pro chão, pro chão: manda o Rei, Nosso Senhor, Senhor, Senhor, para todos se ajoelharem. E nos registros daquela antiga escolinha, ouvirá um menino, após seu primeiro dia ali, ao voltar para casa, reclamar do tédio daquela aulinha, do horário de repouso para ele desconhecido, e em não querer mais lá voltar, apesar da delicadeza de D. Santinha.

Abaixo destas duas, espelhada, desce a terceira pela terra em revertida imagem, escondendo tesouros ali acumulados pelos anos tantos, desde a sua construção. Se, hoje, os meninos fizerem búlicas para jogar bolinhas, sei que isto é bem pouco provável, se aprofundarem um pouco mais o buraco, poderão atingir o tesouro ali enterrado de milhões de bolinhas perdidas por aqueles que, adultos, delas se esqueceram, e de piões que giraram, giraram, furando a camada de terra, e continuam a girar nos meandros de túneis impulsionados pela energia do trabalho incessante de seus antigos donos aficionados; decerto encontrará também somente os ossos daqueles pássaros e outros bichinhos que, cativos no viveiro e desconhecendo suas alegrias, enfeitaram as nossas. Poderá também encontrar uma camada profunda de tristezas enterradas, daqueles que ali viram suas esperanças de amor despedaçadas, que infindos anos passados curtiram transformando em adubo para as plantas.

E nas três praças encontram-se muitas saudades, que você poderá pegar: com os olhos, naquele raio colorido refletido pela fonte; com a mão, ao passar pela cerca que protege o parquinho; e, na areia do parquinho, poderá desenterrar um coração ali perdido há tantos invernos.

-o-


Um comentário:

  1. Muitas... Mas muitas recordações naquela praça... ah! A praça.

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