A
morte é o marido
Quem ensinasse os homens a
morrer,
ensiná-los-ia a
viver.
(Michel de Montaigne)
– Bom dia, Dona Menina.
– Bom dia, Tereza, chegue-se com ligeireza. Até que é bom
vê-la, você que é musa tão grande que carrega por aí tantas rimas, talvez faça
que me desfaça de minhas ruminações.
– Tá com a fonte de alegrias avariada hoje, Dona Menina?
– Um tanto só a pensar na mania mais abusada desses
desinfelizes de figurar a morte como uma velha descarnada, Tereza, e cheia de
horrorezas.
– Ara, Dona Menina, num é que mesmo eu estava destemperada
a me horrorizar com essa megera ensacada de preto. Que abuso esse de pegarem
uma mulher sofrida de tantos anos para alegorizar coisa tão mofina.
– Você também, Tereza, nadando na correnteza dos contrários?
– Pois a mim me parece, Dona Menina, e digo com muita tristura,
que mais devia de ser bem mesmo retratada era com o feitio de um marido.
– Ué, como havera de ser isso de retratar como um marido?
Tá no pior que eu, Tereza, tá na pura crueza?
– Ah, pois, Dona Menina, qualquer mequetrefe desses sisudos
que por aí andam a desfeitar mulher, com pinta de feitor de escravos que fugiu
de século remoto serve, né?
– Nem tanto ao léu nem tanto ao créu, Tereza, vamos menos na
bruteza.
– Mas a Dona Menina ficou desarrazoada porque fiz de marido
a morte por modo de que de sempre só tratou o marido com carinhosa mesura, e
por igual recompensa foi tratada, num é vero?
– É de usança e sabença que eu e meu véio fazemos boa sorte
da vida no casório, Tereza, tudo de muita justeza.
– Mas num se apoquente, Dona Menina, que num é de marido,
marido próprio assim que deveria ser o retrato, é de um outro marido que discorro.
– Desconjuro, Tereza, tá agora na ridiculeza de se dizer
plurigâmica?
– Até que é, Dona Menina, pois com a mais avera certeza e no
sério mesmo, quando uma se casa, donzela e plena de carnes boas e belas de
promessas de resfolego, a espairecer em sonhos de prazer e suspiros, num
imagina o matrimônio plural que tá fazendo.
– Ué, Tereza, perdoe-me minha estreiteza, no meu casório
sempre só foi um marido, e olha que foi bastante pra de quando em vez me deixar
em desassossego e me fazer perder as amarras do comedimento.
– É que o outro a Dona Menina se fez de desmemoriada da presença
dele, mas de cadinho em cadinho ele vai mostrando as unhinhas, engordando os
dedos com as mordidas para tomar assento e se empossar de tudo.
– Lá pras suas redondezas, pode até ser, Tereza, mas cá nunca
não houve mais marido que o meu véio, nem de ocasião nem de atrapalhação.
– Inda tá no seu engano, Dona Menina, nadando ainda em
infantilezas mesmo depois de pôr quatro filhos pra fora?
– Quatro amores, Tereza, que deveras de infantilezas me
culminaram.
– Quatro embigos.
– Quatro embigos, Tereza, que na certeza me fartei de
prover com meu amor, dando meu sangue a nutrir.
– Quatro batismos, Dona Menina, que em você foram um
reverso, nem se deu conta de alembrar de si, que bem que deveria merecer ser
rebatizada.
– É a imolação que nos é exigida, Tereza, e de muita grandeza.
– E rebatizada em pelo menos quatro vezes, que de cada
barrigada num saiu a mesma de antes, e se tivesse a gente daqui a moda de
trocar nome com as vicissitudes, de há muito já num teria esta alcunha de
virgenzinha, já teria uma mais casada à face sugada de agora.
– Virge! Que até tô no arrependimento de me ter alegrado com
a sua chegada para me desanuviar, Tereza, pois tô no ver que lindeza e leveza
tomaram assento no sul detrás, e agora é uma tal de largueza, bruteza,
morbideza, e sei lá maiseza.
– Ah, pois, Dona Menina, num tô mesmo pra ser uma bussolazinha,
que num arreda pé de um nortezinho qualquer, mudo as rimas, já que num posso
mudar o nome.
– Pois há de ser, Tereza, que acabam aqui na justeza as
rimas, que a vida tem suas necessidades, o cabrito come onde está amarrado.
– Ah, num sei, só sei que num posso estar no contento com
este capim pisado.
– E é para ficar no amofino das lamentações, Tereza?
– E é de precisão de se agarrar num cabo de vassoura e
ficar em devaneio a observar esse marido malquisto sentar praça?
– Ara, o inverno também tem seus predicados, Tereza, o
verão enxuga nossas caras no sol, e pode amarrotar o espírito; no friozinho
podemos olhar mais pra dentro e ver um solzinho queimando nossas veleidades.
– Senhora Dona Menina! tá a me dizer que tá na satisfação
de carregar essa cara mais destruída que a correção da gente desta nossa
terrinha?
– Ora, Tereza, num é quesito de satisfação com as rugas, é
pura verificação. Pense comigo, você talvez até queira continuar em uma
juventude infinda como a ciência vem prometendo pra nós, né?
– E num seria uma beleza, Dona Menina?
– Jovem pra sempre, carregando por aí todas as vaidades e
desejos na pele viçosa?
– E num seria o paraíso aqui mesmo? Os filhos crescendo, os
netos, continuando outras umbigadas...
– Casada com o mesmo marido pra sempre?
– Ai, Dona Menina! Mas seria um despautério! Na sequência
do que foi, num seria muito satisfatório, o um ia acabar esganando o outro.
– Ou teria que ser um casa-descasa também infindo. Imagina,
só! já imaginou que baita confusão?
– Uma cabrita nova ia sempre querer um capinzinho novo...
– Pois é, Tereza, seria um tal de procurar rimas novas que
não poderiam mais existir, e no fim ia só sobrar... tristeza.
-o-
(de Hilda Hilst)
Não me procures ali
onde os vivos visitam
os chamados mortos.
Procura-me dentro das grandes águas.
Nas praças,
num fogo coração,
entre cavalos, cães,
nos arrozais, no arroio,
ou junto aos pássaros
ou espelhada num outro alguém,
subindo um duro caminho.
Pedra, semente, sal passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.

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