segunda-feira, 16 de abril de 2018

A morte é o marido



A morte é o marido



                                                                                                  Quem ensinasse os homens a morrer,
                                                                                       ensiná-los-ia a viver.
                                                                                                                        (Michel de Montaigne)




– Bom dia, Dona Menina.

– Bom dia, Tereza, chegue-se com ligeireza. Até que é bom vê-la, você que é musa tão grande que carrega por aí tantas rimas, talvez faça que me desfaça de minhas ruminações.

– Tá com a fonte de alegrias avariada hoje, Dona Menina?

– Um tanto só a pensar na mania mais abusada desses desinfelizes de figurar a morte como uma velha descarnada, Tereza, e cheia de horrorezas.

– Ara, Dona Menina, num é que mesmo eu estava destemperada a me horrorizar com essa megera ensacada de preto. Que abuso esse de pegarem uma mulher sofrida de tantos anos para alegorizar coisa tão mofina.

– Você também, Tereza, nadando na correnteza dos contrários?

– Pois a mim me parece, Dona Menina, e digo com muita tristura, que mais devia de ser bem mesmo retratada era com o feitio de um marido.

– Ué, como havera de ser isso de retratar como um marido? Tá no pior que eu, Tereza, tá na pura crueza?

– Ah, pois, Dona Menina, qualquer mequetrefe desses sisudos que por aí andam a desfeitar mulher, com pinta de feitor de escravos que fugiu de século remoto serve, né?

– Nem tanto ao léu nem tanto ao créu, Tereza, vamos menos na bruteza.

– Mas a Dona Menina ficou desarrazoada porque fiz de marido a morte por modo de que de sempre só tratou o marido com carinhosa mesura, e por igual recompensa foi tratada, num é vero?

– É de usança e sabença que eu e meu véio fazemos boa sorte da vida no casório, Tereza, tudo de muita justeza.

– Mas num se apoquente, Dona Menina, que num é de marido, marido próprio assim que deveria ser o retrato, é de um outro marido que discorro.

– Desconjuro, Tereza, tá agora na ridiculeza de se dizer plurigâmica?

– Até que é, Dona Menina, pois com a mais avera certeza e no sério mesmo, quando uma se casa, donzela e plena de carnes boas e belas de promessas de resfolego, a espairecer em sonhos de prazer e suspiros, num imagina o matrimônio plural que tá fazendo.

– Ué, Tereza, perdoe-me minha estreiteza, no meu casório sempre só foi um marido, e olha que foi bastante pra de quando em vez me deixar em desassossego e me fazer perder as amarras do comedimento.

– É que o outro a Dona Menina se fez de desmemoriada da presença dele, mas de cadinho em cadinho ele vai mostrando as unhinhas, engordando os dedos com as mordidas para tomar assento e se empossar de tudo.

– Lá pras suas redondezas, pode até ser, Tereza, mas cá nunca não houve mais marido que o meu véio, nem de ocasião nem de atrapalhação.

– Inda tá no seu engano, Dona Menina, nadando ainda em infantilezas mesmo depois de pôr quatro filhos pra fora?

– Quatro amores, Tereza, que deveras de infantilezas me culminaram.

– Quatro embigos.

– Quatro embigos, Tereza, que na certeza me fartei de prover com meu amor, dando meu sangue a nutrir.

– Quatro batismos, Dona Menina, que em você foram um reverso, nem se deu conta de alembrar de si, que bem que deveria merecer ser rebatizada.

– É a imolação que nos é exigida, Tereza, e de muita grandeza.

– E rebatizada em pelo menos quatro vezes, que de cada barrigada num saiu a mesma de antes, e se tivesse a gente daqui a moda de trocar nome com as vicissitudes, de há muito já num teria esta alcunha de virgenzinha, já teria uma mais casada à face sugada de agora.

– Virge! Que até tô no arrependimento de me ter alegrado com a sua chegada para me desanuviar, Tereza, pois tô no ver que lindeza e leveza tomaram assento no sul detrás, e agora é uma tal de largueza, bruteza, morbideza, e sei lá maiseza.

– Ah, pois, Dona Menina, num tô mesmo pra ser uma bussolazinha, que num arreda pé de um nortezinho qualquer, mudo as rimas, já que num posso mudar o nome.

– Pois há de ser, Tereza, que acabam aqui na justeza as rimas, que a vida tem suas necessidades, o cabrito come onde está amarrado.

– Ah, num sei, só sei que num posso estar no contento com este capim pisado.

– E é para ficar no amofino das lamentações, Tereza?

– E é de precisão de se agarrar num cabo de vassoura e ficar em devaneio a observar esse marido malquisto sentar praça?

– Ara, o inverno também tem seus predicados, Tereza, o verão enxuga nossas caras no sol, e pode amarrotar o espírito; no friozinho podemos olhar mais pra dentro e ver um solzinho queimando nossas veleidades.

– Senhora Dona Menina! tá a me dizer que tá na satisfação de carregar essa cara mais destruída que a correção da gente desta nossa terrinha?

– Ora, Tereza, num é quesito de satisfação com as rugas, é pura verificação. Pense comigo, você talvez até queira continuar em uma juventude infinda como a ciência vem prometendo pra nós, né?

– E num seria uma beleza, Dona Menina?

– Jovem pra sempre, carregando por aí todas as vaidades e desejos na pele viçosa?

– E num seria o paraíso aqui mesmo? Os filhos crescendo, os netos, continuando outras umbigadas...

– Casada com o mesmo marido pra sempre?

– Ai, Dona Menina! Mas seria um despautério! Na sequência do que foi, num seria muito satisfatório, o um ia acabar esganando o outro.

– Ou teria que ser um casa-descasa também infindo. Imagina, só! já imaginou que baita confusão?

– Uma cabrita nova ia sempre querer um capinzinho novo...

– Pois é, Tereza, seria um tal de procurar rimas novas que não poderiam mais existir, e no fim ia só sobrar... tristeza.

-o-

(de Hilda Hilst)

Não me procures ali
onde os vivos visitam
os chamados mortos.
Procura-me dentro das grandes águas.
Nas praças,
num fogo coração,
entre cavalos, cães,
nos arrozais, no arroio,
ou junto aos pássaros
ou espelhada num outro alguém,
subindo um duro caminho.
Pedra, semente, sal passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.









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