domingo, 24 de fevereiro de 2019

A Flauta Mágica


A Flauta Mágica



– Boa noite, Dona Menina!

– Boa noite, Sulamita. Tava sumida, quanto prazer me faz essa sua visita!

– Se a Senhora Dona Menina tem a dispor de uns minutinhos, eu queria aproveitar da sua sabença para um proseado assim um tanto sério, pra modo me aliviar umas coceirinhas que me estão a arreliar.

– Tempinho sempre tenho, principalmente pras minhas caras amigas, Sulamita, só não sei se por aqui tem essa tal sabença que veio procurar.

– Ah, tem, não saberia onde mais a achar sob os tetos destas bandas de cá.

– Que minha mãezinha Santa Maria me ajude a não causar desencanto.

– A senhora bem sabe, Dona Menina, que na boca das gentes corre o dito que os que por largo tempo têm uma vida juntos, unha com carne, carne e unha, e florescem num vaso só, comungando de tudo, tornam-se muito parecidos nos jeitos, nos pensamentos e nos procederes. A senhora acha mesmo que isso é?

– Ara, Sulamita, assim em todos esses quesitos num acho que pode ser, mas em um ou outro já vi casos que sim, já vi casos que não, só que próprio o vaso não é o fundamento, pois há muitos deles que só despejam imundícies.

– É seguro, seguramente é vero, também já vi muito desses vasos que bom mesmo seria que virassem cacos antes que algumas raízes pudessem agarrar-se firmes na terra.

– Ah, pois, Sulamita, a mesma terra que dá a mandioca enxutinha também dá a mandioca braba, venenosa.

– Deveras. Mas, Dona Menina, de volta pro quiproquó aludido, no caso que sim, que a senhora inda agorinha falou, por que a senhora acha que vigora?

– Nem é caso pra muito penseiro, Sulamita, é coisa de chamego bom e duradouro, de maravilhamento um com outro.

– No caso que não, faz falta o xodó?

– À vez finou com o tempo, ou pode acontecer, num caso mais maligno, de ser uma máscara colada funda que, se tirada, a cara vai de permeio. E tem caso que a máscara mesma é fabricada no tempo, com muita malandrice.

– E pra que se tem precisão de máscara, Dona Menina?

– No início, lá nos começos do ajuntamento, o silêncio de Deus pode até engabelar as necessidades de ambos, mas se o enchimento do silêncio não é o cultivo do bem querer, aí que enfeia, tudo passa a ser um embate que é produto de duas solidões que não se subtraem. E as máscaras podem nascer do medo, do talvez das perdas ou da acomodação.

– Mas, Dona Menina, a senhora acha que os dois têm que procurar ficar mais iguais um mais o outro?

– Num tem jeito, né Sulamita, um mais um vão ser sempre dois: duas cabeças a pensar no quase sempre diferentemente.

– E como então fazer o enchimento do silêncio?

– Ara, Sulamita, não endurecendo exigências.

– E o que fazer das coceirinhas que insistem em picar nos mais escondidos lugares, deixando em pé as orelhas de burro que não se quer ter?

– Semear no vaso uns grãozinhos de confiança ajuda, Sulamita, pra não deixar os bichinhos cavilosos fazerem a festa; um num pode dar azo pra perdê-la ou nunca mais vai lambuzar-se no seu mel. E sem o mel, os fantasmas adormecidos dão as caras na festa e criam uma bagunça sem dó.

– Fantasmas, Dona Menina? Tou pra dizer que é o próprio demo que escapa da sua toca e vem pôr fogo nos meados da minha cabeça e me faz assim de uma aranha que vai soltando seus fios, traçando uma teia torta que liga o direito com o avesso, fico tonta num carrossel de um pensar sem fim. E os fios são lançados pra todos os lados.

– Fica toda enredada assim de tudo, Sulamita?

– E num é? Sai um cordão fininho bem plantado do meio do meu coração, que vai encorpando com tudo de atenção à procura de um fantasma, cola nele todo o abdicado, entremeia toda a inquietação com o futuro que aparelhei.

– Acho que bom é tentar inverter tudo, Sulamita, dar uma virada de ponta-cabeça e redirigir o fio pra dentro do coração. Mas tô vendo mesmo é que você consegue, pois bem fugida da teia está, já que não porta nenhuma cicatriz.

– É que tem hora que me enfureço e rebento tudo, dou de través e me levanto do outro lado. Num sabe, Dona Menina? eu cá num tenho meios nem recursos de sabença, mas outro dia caí de quatro para pôr meus olhos e ouvidos mais abertos para saborear um filme que discorria na tv a respeito de uma ópera do tal Mozart. Tinha lá um moço, um certo Tamino, que foi esclarecido das perfídias da Rainha da Noite e sentiu-se abandonado sozinho e ficou a chorar, assim a dizer: Oh, noite infinita, quando acabará? Quando a luz tocará novamente meus olhos?

– Que angustreza, Sulamita, tudo de perfídia daquela mãe desnaturada de ignorância e prepotência da sua nobreza, que até grita: a vingança do inferno arde em meu coração (ver ária em https://www.youtube.com/watch?v=Sgms1XRROAE&start_radio=1&list=RDSgms1XRROAE&t=1).

– Pois é, Dona Menina, pois é assim que às vezes me acho, cega, sem luz alguma que fira meus olhos pra aclarear a noite que num quer ir embora.

– Mas se bem me alembro, Sulamita, o moço tocou uma flauta e fez-se o paraíso bem aqui na terrinha dos abandonados.

– Pois é, Dona Menina, uma flauta mágica, quem me dera uma!

– Mágica mesmo, Sulamita, tão mágica que tá você a me falar é que a tristeza inté é uma coisa boa!

– Boa, Dona Menina, o que ela pode ter de boa?

– No regularmente, você ia parar pra ver assim um filme só de cantoria?

– De regular, não...

– Pois então, a tristeza deixou você na aptidão de apreciar as belezas da música e do filme, o que é uma alegria.

– Ah, só mesmo a senhora Dona Menina para dourar assim até mesmo a tristura, mas é vero, me senti um tanto mais rica de compaixão com a tristeza do moço.

– E num é, Sulamita, que a compaixão nos faz assim sentir mais apaziguados e desinfelizes?

– É que a gente se desmilingua no esquecer...

– E, olha, Sulamita, até que eu tenho aqui uma flautinha de bambu que o meu neto fez ele mesmo e me deu pra mim, mas que eu lhe vou dar de presente. Em um demoninho desses mostrando os chifrinhos, você desenrola umas notinhas, e pronto! vai-se a malvadeza e o céu se faz!

– Eu muito agradeço, Dona Menina, mas nem num sei assobiar, num vou saber tirar uma nota que preste pra espantar diabinho nenhum.

– Sabe, Sulamita, sabe sim. Já fiz minhas rezas sobre ela, os ouvidos ficam encantados.

-o-





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