sábado, 2 de fevereiro de 2019

Xiquinho



Xiquinho




– Renato, você conhece um tal Xiquinho?

– Xiquinho? Que Xiquinho?

– Esse que vai fazer aniversário.

– De que você está falando, Celinha?

– Deste convite que recebemos para uma festa na casa do Marco, é aniversário de um tal Xiquinho.

– Deixe-me ver.




– Xiquinho, o que será isso?

– O quê não, Renato, quem?

– Sei não, não parece que o tal Xiquinho seja realmente uma criança.

– Vou ligar para a Rosinha e perguntar se ela sabe de alguma coisa.

E faz a ligação:

– Rosinha, tudo bem?

– Tudo bem, e aí?

– Hum, pois é, recebi um convite estranho...

– Ah, você também?

– Você sabe quem é esse Xiquinho?

– Sei nada. Fiquei muito curiosa e tentei falar com o Marco...

– E aí?

– Não consegui. O telefone tocou, tocou até desligar.

– Hum, estou morrendo de curiosidade, mas o jeito mesmo será aguentar até amanhã. Tchau.

No dia seguinte, a curiosidade aguçou a pontualidade. Chegando na casa do Marco, já o encontraram à porta.

– Olá, gente.

– Olá. Que estranho, não esperava encontrá-los por aqui.

– Estranho? Acha que deixaríamos de atender ao seu convite?

– Convite? Ah, então vocês também receberam um?

– Recebemos, ora! E estamos doidos para conhecer o Xiquinho.

– Nós todos também estamos...

– Como assim, se nos mandou este convite para a festa do tal?

– Não temos nenhuma ideia de onde veio isso, estávamos na casa do vovô e também o recebemos. Acabamos de chegar para tentar entender que tipo de brincadeira poderia ser.

– Quer dizer...

– Que sabemos tanto quanto vocês. Bom, vamos entrar para podermos entender o mistério, se é que algum existe.

A sala estava primorosamente preparada para uma festa com os mesmos motivos do convite. Gravuras com os personagens folclóricos espalhadas pelas paredes. Uma mesa ricamente coberta por doces e um bolo de aniversário que parecia proibir qualquer regime. Os pais do Marquinho ficaram petrificados, com expressões de assombro estampadas nos rostos. Em seguida, irromperam pela casa à procura de quem estava a lhes preparar tantas surpresas:

Meu Deus, quem invadiu nossa casa?

Vasculharam e conferiram todos os cômodos, mas nada havia sumido e não havia ninguém. Assustados, mas um pouco mais calmos por nada de mais grave terem percebido, além da suspeita invasão, sentaram-se para respirar. E, logo, os demais convidados foram chegando, e entre abraços e surpresas o clima de festa foi instalando-se.

Um vento irrompeu pela casa e logo era um redemoinho, não permitindo a visão de nada; em um instante desapareceu, tão rápido quanto surgira, e ninguém percebeu que os adultos haviam desaparecido. Um bando de borboletas irrompeu pela sala maravilhando as crianças. Uma voz de soprano foi ouvida cantando uma melodia que entorpeceu a todos; quando abriram novamente os olhos, lá estavam todos os personagens do convite entre as crianças: rindo, fazendo caretas, dançando, brincando. As crianças, sem nenhum receio, estavam entregues às brincadeiras e à curiosidade de reconhecer os diversos tipos que conheciam apenas de ouvir as histórias.

O curupira deixava a todos admirados com seu jeito de andar: como se para ir a algum lugar estivesse na realidade voltando – disse o Pedrinho. O Renato ficou tontinho quando ficou olhando para os seus pés enquanto ele corria.

O caipora oferecia, a quem quisesse arriscar-se, um passeio na garupa do seu caititu, do qual ele nunca desmontava.

O boitatá a princípio causou medo, mas quando explicou que seu fogo só queimava a quem causava danos às árvores e aos animais da floresta, pôs-se a brincar de enrolar os seus dois metros no pescoço dos mais corajosos.

A mula-sem-cabeça deixou o seu fogo apagado para não assustar as crianças e levava a passeio quem quisesse experimentar o seu trote.

A cuca só cuidava de encher a sua boca de jacaré com os salgadinhos que devia servir, mas comia tudo. Era ela mesma quem os fazia, com ingredientes retirados dos armários que existiam em sua imaginação.

No meio das brincadeiras, de repente ouviu-se um assovio longo, toda a algazarra parou, e todos se voltaram para a mesa, e lá estava o Xiquinho, com sua carapuça vermelha, fumando um cachimbo sem fumo e sem fogo. Quando tudo era silêncio, ele falou:

Meus amiguinhos, estou muito feliz que tenham vindo comemorar comigo os meus cinco anos. Bom, na verdade, não sou tão novinho assim, mas eu só conto os meus anos quando posso fazer uma festa bem bacana como esta. Estamos felizes em comemorar a morte dos estilingues, essa arma que de brincadeira nada tem para os passarinhos e os pequenos animais, que voltaram para o convívio com vocês nas cidades, onde a comida é farta. Nós, os protetores, estamos um tanto inativos nas florestas e nos campos, e resolvemos assumir novas funções: a alegria das crianças, não mais apenas nas histórias, mas com festas e diversão. Viva a vida de alegria!

E o Xiquinho se misturou com as crianças fazendo das suas brincadeiras: amarrando as tranças da Glorinha e os cadarços dos tênis do Marquinho, que caiu sem consequências além dos risos das crianças.

O Marquinho quis devolver a gozação, e enquanto o Xiquinho estava distraído a ensinar o Pedrinho a andar com uma perna só, arrancou a carapuça vermelha do Xiquinho, e o saci saiu a pular atrás dele. A criançada toda entrou na brincadeira a jogar a carapuça de um para o outro, deixando o Xiquinho a tentar pegá-la, pois sem sua carapuça um saci não pode usar seus poderes de mágica.

Acho que o Xiquinho ficou exausto, pois quando finalmente agarrou sua carapuça, todos os personagens sumiram, restando apenas as crianças. Os adultos reapareceram e nem perceberam que haviam perdido o melhor da festa, que seguiu noite adentro.


-o-


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