Xiquinho
– Renato, você conhece um tal Xiquinho?
– Xiquinho? Que Xiquinho?
– Esse que vai fazer aniversário.
– De que você está falando, Celinha?
– Deste convite que recebemos para uma festa na casa do Marco, é
aniversário de um tal Xiquinho.
– Deixe-me ver.
– Xiquinho, o que será isso?
– O quê não, Renato, quem?
– Sei não, não parece que o tal Xiquinho seja realmente uma criança.
– Vou ligar para a Rosinha e perguntar se ela sabe de alguma coisa.
E faz a ligação:
– Rosinha, tudo bem?
– Tudo bem, e aí?
– Hum, pois é, recebi um convite estranho...
– Ah, você também?
– Você sabe quem é esse Xiquinho?
– Sei nada. Fiquei muito curiosa e tentei falar com o Marco...
– E aí?
– Não consegui. O telefone tocou, tocou até desligar.
– Hum, estou morrendo de curiosidade, mas o jeito mesmo será aguentar
até amanhã. Tchau.
No dia seguinte, a curiosidade aguçou a pontualidade. Chegando na casa
do Marco, já o encontraram à porta.
– Olá, gente.
– Olá. Que estranho, não esperava encontrá-los por aqui.
– Estranho? Acha que deixaríamos de atender ao seu convite?
– Convite? Ah, então vocês também receberam um?
– Recebemos, ora! E estamos doidos para conhecer o Xiquinho.
– Nós todos também estamos...
– Como assim, se nos mandou este convite para a festa do tal?
– Não temos nenhuma ideia de onde veio isso, estávamos na casa do vovô e
também o recebemos. Acabamos de chegar para tentar entender que tipo de
brincadeira poderia ser.
– Quer dizer...
– Que sabemos tanto quanto vocês. Bom, vamos entrar para podermos
entender o mistério, se é que algum existe.
A sala estava primorosamente preparada para uma festa com os mesmos
motivos do convite. Gravuras com os personagens folclóricos espalhadas pelas
paredes. Uma mesa ricamente coberta por doces e um bolo de aniversário que
parecia proibir qualquer regime. Os pais do Marquinho ficaram petrificados, com
expressões de assombro estampadas nos rostos. Em seguida, irromperam pela casa
à procura de quem estava a lhes preparar tantas surpresas:
– Meu Deus, quem invadiu nossa casa?
Vasculharam e conferiram todos os cômodos, mas nada havia sumido e não
havia ninguém. Assustados, mas um pouco mais calmos por nada de mais grave
terem percebido, além da suspeita invasão, sentaram-se para respirar. E, logo,
os demais convidados foram chegando, e entre abraços e surpresas o clima de
festa foi instalando-se.
Um vento irrompeu pela casa e logo era um redemoinho, não permitindo a
visão de nada; em um instante desapareceu, tão rápido quanto surgira, e ninguém
percebeu que os adultos haviam desaparecido. Um bando de borboletas irrompeu
pela sala maravilhando as crianças. Uma voz de soprano foi ouvida cantando uma
melodia que entorpeceu a todos; quando abriram novamente os olhos, lá estavam
todos os personagens do convite entre as crianças: rindo, fazendo caretas,
dançando, brincando. As crianças, sem nenhum receio, estavam entregues às
brincadeiras e à curiosidade de reconhecer os diversos tipos que conheciam
apenas de ouvir as histórias.
O curupira deixava a todos admirados com seu jeito de andar: como se
para ir a algum lugar estivesse na realidade voltando – disse o Pedrinho. O
Renato ficou tontinho quando ficou olhando para os seus pés enquanto ele
corria.
O caipora oferecia, a quem quisesse arriscar-se, um passeio na garupa do
seu caititu, do qual ele nunca desmontava.
O boitatá a princípio causou medo, mas quando explicou que seu fogo só queimava
a quem causava danos às árvores e aos animais da floresta, pôs-se a brincar de
enrolar os seus dois metros no pescoço dos mais corajosos.
A mula-sem-cabeça deixou o seu fogo apagado para não assustar as
crianças e levava a passeio quem quisesse experimentar o seu trote.
A cuca só cuidava de encher a sua boca de jacaré com os salgadinhos que
devia servir, mas comia tudo. Era ela mesma quem os fazia, com ingredientes
retirados dos armários que existiam em sua imaginação.
No meio das brincadeiras, de repente ouviu-se um assovio longo, toda a
algazarra parou, e todos se voltaram para a mesa, e lá estava o Xiquinho, com
sua carapuça vermelha, fumando um cachimbo sem fumo e sem fogo. Quando tudo era
silêncio, ele falou:
– Meus amiguinhos, estou muito feliz que tenham vindo
comemorar comigo os meus cinco anos. Bom, na verdade, não sou tão novinho
assim, mas eu só conto os meus anos quando posso fazer uma festa bem bacana
como esta. Estamos felizes em comemorar a morte dos estilingues, essa arma que
de brincadeira nada tem para os passarinhos e os pequenos animais, que voltaram
para o convívio com vocês nas cidades, onde a comida é farta. Nós, os
protetores, estamos um tanto inativos nas florestas e nos campos, e resolvemos
assumir novas funções: a alegria das crianças, não mais apenas nas histórias,
mas com festas e diversão. Viva a vida de alegria!
E o Xiquinho se misturou com as crianças fazendo das suas brincadeiras:
amarrando as tranças da Glorinha e os cadarços dos tênis do Marquinho, que caiu
sem consequências além dos risos das crianças.
O Marquinho quis devolver a gozação, e enquanto o Xiquinho estava
distraído a ensinar o Pedrinho a andar com uma perna só, arrancou a carapuça
vermelha do Xiquinho, e o saci saiu a pular atrás dele. A criançada toda entrou
na brincadeira a jogar a carapuça de um para o outro, deixando o Xiquinho a
tentar pegá-la, pois sem sua carapuça um saci não pode usar seus poderes de
mágica.
Acho que o Xiquinho ficou exausto, pois quando finalmente agarrou sua
carapuça, todos os personagens sumiram, restando apenas as crianças. Os adultos
reapareceram e nem perceberam que haviam perdido o melhor da festa, que seguiu
noite adentro.
-o-

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