Na
Figueira
Caraco estendeu as suas antenas espreguiçando-se: – Ah, que preguiça, que sono bom. Pôs a cabeça para
fora, a
lua brilholhava no céu alto. – Ah, que preguiça, já serão horas de mastigar?
Procurou
o relógio no bolso para saber do adiantado da hora, só então se lembrou que não
tinha bolso nem relógio. Mas devia ser hora, pois sentia como se na sua casinha
pudesse caber outro ele, de tão esmagriçado, a concha larga; de tanta fome
seria capaz de comer uma árvore inteira! Inclinou a cabeça, encaracolou-se
todo, depois se esticou e lá foi ao léu a procurar as folhas que mais gostava
para empaturrar-se, sem destino, no caminho traçado pelo seu leeento rastro
brilhante.
– Ah, bom seria parar debaixo de uma goiabeira, estou a morrer de
saudade de um jantar de uma goiabada de folhas.
Caraco era um andatrilho. Onde pudesse e quisesse estacionar sua concha,
deixava-se tombar, de preferência onde o cheirinho de folhas tenras agitasse as
suas antenas. Morava em todo lugar e não morava em deslugar nenhum.
– Cansei, andei tanto, devo ter cruzado uma lonjuritude de dez metros,
vou abarracar-me aqui debaixo desta figueira.
Em cima, sobre uma folha da figueira, Lagata interrompeu a sua comilança
para observar o caracol que abocanhava as folhas decaídas no chão. Esqueceu-se
da sua gulodice atraída por um não sei o quê que bisbilhotava nos seus meandros
dos miolos. Sentiu-se infeliz presa naquele ramo de figueira, sem novos
horizontes a conhecer.
– Que belo ele é desfilando com sua casa por todo o jardim, que bom
seria fazer morada onde se quisesse - no meio de tanta tristeza, caiu no sono.
Quando acordou, escarafunchou o chão em busca do belo caracol e não o
encontrou mais. Suspirou. O bichinho do amor havia penetrado em sua pele
novinha e lá fizera morada. Contou as suas saudades para uma formiga, sua velha
conhecida, e pediu-lhe que escrevesse em uma folha uma carta de amor. A
formiga, compadecida e prestimosa, usou os seus ferrões para picotar uma folha
com as letras mais bonitas.
– CEP? - pediu a formiga.
– Oh, como fazer? se ele não tinha morada fixa?
Vendo a aflição de Lagata, Dona Joaninha se ofereceu, como boa
mensageira que era, para procurar o andatrilho. Mesmo com suas asas ligeiras,
demorou alguns dias para encontrar o lento nômade a dorminhocar debaixo de uma
goiabeira. A carta lhe foi entregue, e, para dizer a verdade, causou-lhe
comoção. Pôs-se a caminho para voltar à figueira, sem pressa, que não a sabia
cultivar. Bom, vamos ser mais justos, não a podia cultivar.
Muitos dias depois, Caraco chegou à figueira onde morava sua esperançosa
apaixonada. Esperou pacientemente que ela se revelasse. E nada aconteceu. A
formiga que picotara a carta viu o caracol perdido a olhar para o alto e lhe
contou:
– Ela esperou tanto, e a tristeza a fez recolher-se em um casulo. Vê,
ali em cima? mas agora ele está vazio, pois ela está voando ali – ela apontou
para uma borboleta – e em sua nova forma ela nem mais se lembra que um dia
sentiu tristeza por viver presa em um galho de figueira, acho que ela não tem
recordações de sua vida passada, nem de seu antigo amor.
E aquele bichinho que um dia picou a lagarta, fez ponto nas antenas do
caracol:
– Que belo seria voar ao seu lado!
-o-

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