A Flauta Mágica
– Boa noite, Dona Menina!
– Boa noite, Sulamita. Tava sumida, quanto prazer me faz
essa sua visita!
– Se a Senhora Dona Menina tem a dispor de uns minutinhos,
eu queria aproveitar da sua sabença para um proseado assim um tanto sério, pra
modo me aliviar umas coceirinhas que me estão a arreliar.
– Tempinho sempre tenho, principalmente pras minhas caras amigas,
Sulamita, só não sei se por aqui tem essa tal sabença que veio procurar.
– Ah, tem, não saberia onde mais a achar sob os tetos
destas bandas de cá.
– Que minha mãezinha Santa Maria me ajude a não causar
desencanto.
– A senhora bem sabe, Dona Menina, que na boca das gentes
corre o dito que os que por largo tempo têm uma vida juntos, unha com carne, carne
e unha, e florescem num vaso só, comungando de tudo, tornam-se muito parecidos nos
jeitos, nos pensamentos e nos procederes. A senhora acha mesmo que isso é?
– Ara, Sulamita, assim em todos esses quesitos num acho que
pode ser, mas em um ou outro já vi casos que sim, já vi casos que não, só que próprio
o vaso não é o fundamento, pois há muitos deles que só despejam imundícies.
– É seguro, seguramente é vero, também já vi muito desses
vasos que bom mesmo seria que virassem cacos antes que algumas raízes pudessem
agarrar-se firmes na terra.
– Ah, pois, Sulamita, a mesma terra que dá a mandioca
enxutinha também dá a mandioca braba, venenosa.
– Deveras. Mas, Dona Menina, de volta pro quiproquó aludido,
no caso que sim, que a senhora inda agorinha falou, por que a senhora acha que
vigora?
– Nem é caso pra muito penseiro, Sulamita, é coisa de
chamego bom e duradouro, de maravilhamento um com outro.
– No caso que não, faz falta o xodó?
– À vez finou com o tempo, ou pode acontecer, num caso mais
maligno, de ser uma máscara colada funda que, se tirada, a cara vai de permeio.
E tem caso que a máscara mesma é fabricada no tempo, com muita malandrice.
– E pra que se tem precisão de máscara, Dona Menina?
– No início, lá nos começos do ajuntamento, o silêncio de
Deus pode até engabelar as necessidades de ambos, mas se o enchimento do
silêncio não é o cultivo do bem querer, aí que enfeia, tudo passa a ser um
embate que é produto de duas solidões que não se subtraem. E as máscaras podem
nascer do medo, do talvez das perdas ou da acomodação.
– Mas, Dona Menina, a senhora acha que os dois têm que
procurar ficar mais iguais um mais o outro?
– Num tem jeito, né Sulamita, um mais um vão ser sempre dois: duas cabeças a pensar no quase sempre diferentemente.
– E como então fazer o enchimento do silêncio?
– Ara, Sulamita, não endurecendo exigências.
– E o que fazer das coceirinhas que insistem em picar nos
mais escondidos lugares, deixando em pé as orelhas de burro que não se quer ter?
– Semear no vaso uns grãozinhos de confiança ajuda, Sulamita,
pra não deixar os bichinhos cavilosos fazerem a festa; um num pode dar azo pra
perdê-la ou nunca mais vai lambuzar-se no seu mel. E sem o mel, os fantasmas
adormecidos dão as caras na festa e criam uma bagunça sem dó.
– Fantasmas, Dona Menina? Tou pra dizer que é o próprio
demo que escapa da sua toca e vem
pôr fogo nos meados da minha cabeça e me faz assim de uma
aranha que vai soltando seus fios, traçando uma teia torta que liga o direito
com o avesso, fico tonta num carrossel de
um pensar sem fim. E os fios são lançados pra todos os lados.
– Fica toda enredada assim de tudo, Sulamita?
– E num é? Sai um cordão fininho bem plantado do meio do meu
coração, que vai encorpando com tudo de atenção à procura de um fantasma, cola
nele todo o abdicado, entremeia toda a inquietação com o futuro que aparelhei.
– Acho que bom é tentar inverter tudo, Sulamita, dar uma
virada de ponta-cabeça e redirigir o fio pra dentro do coração. Mas tô vendo mesmo
é que você consegue, pois bem fugida da teia está, já que não porta nenhuma
cicatriz.
– É que tem hora que me enfureço e rebento tudo, dou de
través e me levanto do outro lado. Num sabe, Dona Menina? eu cá num tenho meios
nem recursos de sabença, mas outro dia caí de quatro para pôr meus olhos e
ouvidos mais abertos para saborear um filme que discorria na tv a respeito de
uma ópera do tal Mozart. Tinha lá um moço, um certo Tamino, que foi esclarecido
das perfídias da Rainha da Noite e sentiu-se abandonado sozinho e ficou a
chorar, assim a dizer: Oh, noite infinita,
quando acabará? Quando a luz tocará novamente meus olhos?
– Que angustreza, Sulamita, tudo de perfídia daquela mãe
desnaturada de ignorância e prepotência da sua nobreza, que até grita: a vingança do inferno arde em meu
coração (ver ária em https://www.youtube.com/watch?v=Sgms1XRROAE&start_radio=1&list=RDSgms1XRROAE&t=1).
– Pois é, Dona Menina, pois é assim que às vezes me acho,
cega, sem luz alguma que fira meus olhos pra aclarear a noite que num quer ir
embora.
– Mas se bem me alembro, Sulamita, o moço tocou uma flauta
e fez-se o paraíso bem aqui na terrinha dos abandonados.
– Pois é, Dona Menina, uma flauta mágica, quem me dera uma!
– Mágica mesmo, Sulamita, tão mágica que tá você a me falar
é que a tristeza inté é uma coisa boa!
– Boa, Dona Menina, o que ela pode ter de boa?
– No regularmente, você ia parar pra ver assim um filme só
de cantoria?
– De regular, não...
– Pois então, a tristeza deixou você na aptidão de apreciar
as belezas da música e do filme, o que é uma alegria.
– Ah, só mesmo a senhora Dona Menina para dourar assim até
mesmo a tristura, mas é vero, me senti um tanto mais rica de compaixão com a
tristeza do moço.
– E num é, Sulamita, que a compaixão nos faz assim sentir
mais apaziguados e desinfelizes?
– É que a gente se desmilingua no esquecer...
– E, olha, Sulamita, até que eu tenho aqui uma flautinha de
bambu que o meu neto fez ele mesmo e me deu pra mim, mas que eu lhe vou dar de
presente. Em um demoninho desses mostrando os chifrinhos, você desenrola umas
notinhas, e pronto! vai-se a malvadeza e o céu se faz!
– Eu muito agradeço, Dona Menina, mas nem num sei assobiar,
num vou saber tirar uma nota que preste pra espantar diabinho nenhum.
– Sabe, Sulamita, sabe sim. Já fiz minhas rezas sobre ela, os
ouvidos ficam encantados.
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