quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Efeito sem causa




Efeito sem causa


Quando tudo começou, os meninos eram bem crianças ainda; o mais velho dos dois devia ter ali pelos seus oito anos. Eles andaram uns dias com ares de mistério, em cochichos pelos cantos que morriam quando alguém se aproximava. Pus o olho atento neles com receio de estarem maquinando alguma estrepolia severa. Apertei-os com palavras ásperas, mas nada saiu daquelas bocas arredias.
Um dia de tarde, em que arranjei um tempo para afastar-me de minhas tarefas, resolvi seguir os dois para ver se conseguia apanhá-los com a boca na botija. Eles esgueiraram-se pelo terreiro com modos cautelosos, confirmando minhas suspeitas que alguma diabrura estavam mesmo aprontando. Vi-os dirigirem-se para a moita de bananeiras que havia atrás do chiqueiro e dei-lhes tempo para se convencerem que ninguém estava observando-os, e, então, cheguei neles.
Os dois estavam a cuidar de uma espécie de cama, arrumada num espaço no meio da parte mais cerrada da moita, feita de trapos de roupas velhas. Apareci e fui logo perguntando que diabo significava aquilo.
Eles levaram dois baitas sustos, e espantados gaguejaram:
– É só uma caminha para eles.
– Eles? Eles quem?
– Eles, pai, os dois que estão sentadinhos ali.
Não enxerguei nada sentadinho ali. E apertei-os:
– Estão fazendo troça comigo, é? Não tem nada ali, nem sentado, nem deitado.
Eles me olharam com o espanto desenhado nos olhos, e amedrontados com a minha maneira rude de falar, apontando para a cama de trapos disseram:
– Ali, pai, na cama.
– Não tem nada em cima daqueles panos velhos, vocês estão brincando comigo, é? Estão querendo medir a dureza da minha correia, é? - fui dizendo e já desafivelando o cinto.
– Não, pai, não tem brincadeira, nós achamos os dois na semana passada e estamos cuidando deles.
– Deles? Deles quem?
– Dos dois sacizinhos que estão ali, pai!
Aí foi que eu perdi de vez a calma e já fui descendo a correia no lombo deles, mas ela não chegou a tocá-los, pois foi arrancada da minha mão com um forte puxão que não fiquei sabendo como aconteceu.
– Viu, pai, foram eles que nos protegeram da sua correada.
Eu não podia entender o que acontecera; a cama de trapos continuava vazia, mas a força que senti arrancando-me das mãos a correia não foi causada pelos meninos, por isto resolvi acalmar-me e ver se conseguia pôr em pratos limpos o que estava ali acontecendo.
– Se tem alguma coisa ali que vocês estão vendo, por que é que eu não vejo?
– Ô, pai, pra ver os dois é preciso acreditar neles.
– Mas se eu não vejo nada, como posso acreditar?
– A gente vê, pai!
– Ah, está bem, pelo arranco que senti na mão vou acreditar em vocês, mas não acredito em saci e pronto!
– O senhor que sabe, mas assim você não vai vê-los.
– Num tem importância, se vocês veem, tá certo, mas não estou gostando de vocês aqui no meio deste bananal, é melhor que vocês os levem lá para debaixo da casa, se é que eles existem, que lá debaixo tem cômodo de sobra para eles e deve ser bem mais saudável.
Bom, dá para perceber pela maneira como falei que eu estava confuso de tudo. Não acreditava que os dois tinham mesmo os sacis ali, por outro lado, o puxão foi real... É melhor dar tempo para ver o que acontece, pensei e agi assim.
E os dois fizeram o que sugeri. Agora que não precisavam esconder nada mais, pediram-me para fazer uma casinha de verdade para eles. Perguntei-lhes qual era o tamanho deles e eles mostraram colocando a mão sobre a cabeça de um que eu continuava sem ver.
– E o dito cujo está em pé? – perguntei.
– É claro, pai, o senhor num tá vendo, de pé num pé, como todo saci.
Olhei para o que falou com uma cara meio azeda, pois não gostei do jeito que ele respondeu aquilo, mas não quis mais levantar querela. Calculei a altura do saci em cerca de dois palmos meus e preparei-me para montar em madeira uma casinha. Foi aí que eles disseram que seria necessário que a casa tivesse dois quartos, pois a sacizinha ia ganhar um neném.


Minha mulher desceu para ver os sacizinhos e ficou encantada com eles. Passou a ajudar os meninos a cuidar deles. Eles comiam frutas, coisa que não faltava naquele quintal nosso. Eu fiquei espiando para ver se eu enxergava-os na tarefa de comer, pois imaginei que pelo menos veria a fruta desaparecer aos poucos, mordida a mordida, mas não foi assim. Eu via a fruta e, de repente, não via mais, desaparecia.
Meus negócios tiveram uma súbita explosão de sucesso. Os clientes se multiplicavam e o dinheiro chegava aos montes. Disseram os meninos que os sacizinhos estavam usando suas magias para ajudar-nos em agradecimento aos cuidados que lhes proporcionávamos. Além disso, eles são exímios artesãos e criam encantadoras obras de bordado que minha mulher vende como se fosse ela a fazê-las, pois o segredo da existência deles deve ser mantido, a pedido deles mesmos.
A família dos sacis já cresceu mais, agora já existem dois filhinhos. Isto eu sei porque os meninos me contaram, pois continuo não acreditando em sacis e, por isto, não consigo enxergá-los, dizem os meninos.
Se você, caro leitor, acredita em saci, estou autorizado pelos nossos sacis a levá-lo à casinha deles para conhecê-los, pois, afinal, o seu mundo não é o nosso e o segredo não será desfeito.

-o-


      Porquinho-da-Índia
Manuel Bandeira

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.