Efeito
sem causa
Quando tudo começou, os meninos
eram bem crianças ainda; o mais velho dos dois devia ter ali pelos seus oito
anos. Eles andaram uns dias com ares de mistério, em cochichos pelos cantos que
morriam quando alguém se aproximava. Pus o olho atento neles com receio de
estarem maquinando alguma estrepolia severa. Apertei-os com palavras ásperas,
mas nada saiu daquelas bocas arredias.
Um dia de tarde, em que
arranjei um tempo para afastar-me de minhas tarefas, resolvi seguir os dois
para ver se conseguia apanhá-los com a boca na botija. Eles esgueiraram-se pelo
terreiro com modos cautelosos, confirmando minhas suspeitas que alguma diabrura
estavam mesmo aprontando. Vi-os dirigirem-se para a moita de bananeiras que
havia atrás do chiqueiro e dei-lhes tempo para se convencerem que ninguém estava observando-os, e, então, cheguei neles.
Os dois estavam a cuidar de
uma espécie de cama, arrumada num espaço no meio da parte mais cerrada da
moita, feita de trapos de roupas velhas. Apareci e fui logo perguntando que
diabo significava aquilo.
Eles levaram dois baitas
sustos, e espantados gaguejaram:
– É só uma caminha para eles.
– Eles? Eles quem?
– Eles, pai, os dois que estão
sentadinhos ali.
Não enxerguei nada sentadinho
ali. E apertei-os:
– Estão fazendo troça comigo,
é? Não tem nada ali, nem sentado, nem deitado.
Eles me olharam com o espanto
desenhado nos olhos, e amedrontados com a minha maneira rude de falar, apontando
para a cama de trapos disseram:
– Ali, pai, na cama.
– Não tem nada em cima
daqueles panos velhos, vocês estão brincando comigo, é? Estão querendo medir a
dureza da minha correia, é? - fui dizendo e já desafivelando o cinto.
– Não, pai, não tem
brincadeira, nós achamos os dois na semana passada e estamos cuidando deles.
– Deles? Deles quem?
– Dos dois sacizinhos que
estão ali, pai!
Aí foi que eu perdi de vez a
calma e já fui descendo a correia no lombo deles, mas ela não chegou a
tocá-los, pois foi arrancada da minha mão com um forte puxão que não fiquei
sabendo como aconteceu.
– Viu, pai, foram eles que nos
protegeram da sua correada.
Eu não podia entender o que
acontecera; a cama de trapos continuava vazia, mas a força que senti arrancando-me
das mãos a correia não foi causada pelos meninos, por isto resolvi acalmar-me e
ver se conseguia pôr em pratos limpos o que estava ali acontecendo.
– Se tem alguma coisa ali que
vocês estão vendo, por que é que eu não vejo?
– Ô, pai, pra ver os dois é
preciso acreditar neles.
– Mas se eu não vejo nada,
como posso acreditar?
– A gente vê, pai!
– Ah, está bem, pelo arranco
que senti na mão vou acreditar em vocês, mas não acredito em saci e pronto!
– O senhor que sabe, mas assim
você não vai vê-los.
– Num tem importância, se
vocês veem, tá certo, mas não estou gostando de vocês aqui no meio deste
bananal, é melhor que vocês os levem lá para debaixo da casa, se é que eles
existem, que lá debaixo tem cômodo de sobra para eles e deve ser bem mais
saudável.
Bom, dá para perceber pela
maneira como falei que eu estava confuso de tudo. Não acreditava que os dois
tinham mesmo os sacis ali, por outro lado, o puxão foi real... É melhor dar
tempo para ver o que acontece, pensei e agi assim.
E os dois fizeram o que sugeri.
Agora que não precisavam esconder nada mais, pediram-me para fazer uma casinha
de verdade para eles. Perguntei-lhes qual era o tamanho deles e eles mostraram
colocando a mão sobre a cabeça de um que eu continuava sem ver.
– E o dito cujo está em pé? –
perguntei.
– É claro, pai, o senhor num
tá vendo, de pé num pé, como todo saci.
Olhei para o que falou com uma
cara meio azeda, pois não gostei do jeito que ele respondeu aquilo, mas não
quis mais levantar querela. Calculei a altura do saci em cerca de dois palmos
meus e preparei-me para montar em madeira uma casinha. Foi aí que eles disseram
que seria necessário que a casa tivesse dois quartos, pois a sacizinha ia
ganhar um neném.
Minha mulher desceu para ver
os sacizinhos e ficou encantada com eles. Passou a ajudar os meninos a cuidar
deles. Eles comiam frutas, coisa que não faltava naquele quintal nosso. Eu
fiquei espiando para ver se eu enxergava-os na tarefa de comer, pois imaginei
que pelo menos veria a fruta desaparecer aos poucos, mordida a mordida, mas não
foi assim. Eu via a fruta e, de repente, não via mais, desaparecia.
Meus negócios tiveram uma
súbita explosão de sucesso. Os clientes se multiplicavam e o dinheiro chegava
aos montes. Disseram os meninos que os sacizinhos estavam usando suas magias para
ajudar-nos em agradecimento aos cuidados que lhes proporcionávamos. Além disso,
eles são exímios artesãos e criam encantadoras obras de bordado que minha
mulher vende como se fosse ela a fazê-las, pois o segredo da existência deles
deve ser mantido, a pedido deles mesmos.
A família dos sacis já cresceu
mais, agora já existem dois filhinhos. Isto eu sei porque os meninos me
contaram, pois continuo não acreditando em sacis e, por isto, não consigo
enxergá-los, dizem os meninos.
Se você, caro leitor, acredita
em saci, estou autorizado pelos nossos sacis a levá-lo à casinha deles para
conhecê-los, pois, afinal, o seu mundo não é o nosso e o segredo não será
desfeito.
-o-
Manuel Bandeira
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
