Eu
sei
─ Bom dia, Seu Jair!
─ Bom dia!
─ Hoje o dia está radiante e prometendo, espero registrar lições muito especiais.
─ E quem sou eu para pretender corresponder a tamanhas expectativas?
─ Pelo menos uma tampa de cisterna que nos protege de um tombo perigoso.
─ Não tenho pretensão a nada; limito-me a repetir as lições que retiro dos
mestres que caminharam a nossa frente.
─ E por isso faz o nosso caminho ficar mais curto. Vamos dizer que eu busco
nas suas lições um resumo para a vida.
─ Você está fazendo lembrar-me da alegoria da caverna.
─ O senhor está referindo-se a Platão?
─ Sim, você está pretendendo aprender através da pouca sombra que projeto
na sua mente. É possível que você veja sombras muito distorcidas da realidade
do exterior.
─ Pelo menos, quando a luz do sol cegar-me, eu poderei lembrar-me das
sombras que o senhor deixou-me entrever.
─ Bom, mas lembre-se de não ficar na plateia olhando para as sombras, de
vez em quando vire as costas para a abertura e tenha vislumbres da verdadeira luz
que lá existe. Se a luz do sol não lhe queima a pele, não será possível que
aprenda o que é o calor.
─ Eu sei que minha própria experiência é importante, mas quero valer-me da
sua. Se eu fosse buscar nos livros o conhecimento de todos os mestres, eu teria
que valer-me de muitas vidas para aprender.
─ Realmente às vezes ficamos meio tontos com tantas bifurcações que as
lições nos abrem; cada autor cita outros que nossa mente ávida quer logo ir
atrás em busca de mais; cada um dos novos remete-nos a mais e mais; e esse
ciclo abre-se em uma espiral infinita.
─ Realmente é tonto assim que me sinto, não temos o tempo necessário para
entrar nessa espiral e, se entrarmos, como poderemos ter a certeza que dela
conseguiremos sair ilesos?
─ Veja o que existe no final da espiral.
─ Como assim? Se ela é infinita; seria o mesmo que tentar colocar em minha
mente todo o conhecimento do mundo.
─ Ou?
─ Ou o quê? Não vejo alternativa, só vejo no fim da espiral a perda total
da minha sanidade. A minha mente não será suficiente para suportar tamanho
esforço.
─ Ou?
─ Ou eu fico sentado aqui observando as sombras.
─ Meu caro, vamos colocar um pouco de ordem na confusão que você aprontou. Eu
lhe disse apenas para olhar o que existe no final da espiral.
─ Olho, mas não consigo enxergar!
─ Há um filme chamado Samsara, de um indiano, Nalin Pan, sobre o caminho
trilhado por um monge budista que deixa a vida monástica pelo chamado mais
imediato de uma vida normal. Ao deixar o mosteiro ele encontra uma pedra onde
se lê uma pergunta clássica da sabedoria budista: como uma gota de água pode
viver ao sol sem desfazer-se?
─ Não sei... Não, talvez... Talvez ela possa integrar-se às águas de um rio.
─ E assim ser levada ao Oceano. O monge, após ter conhecido a vida sexual,
o casamento, as traições, a ganância, enfim, a vida normal, resolve voltar ao
monastério para cumprir sua verdadeira missão, deixando esposa, filhos e tudo.
─ Ao deixar de lutar contra os seus desejos é que ele pôde encontrar-se?
─ E a gota de água pôde encontrar o que para ela era a espiral infinita, o
Oceano, onde se imerge em completa união... não, está errado, a palavra união
não cabe aqui, ela é apenas uma sombra que enxergamos na caverna, mas não sei
como expressar isso, pois a gota conserva a sua individualidade integrada no
Todo, ela é o Todo.
─ Mas isso parece ser apenas uma ilusão da nossa mente.
─ A maioria esmagadora diz isso, mas durante a nossa história, sem
individualização de tempo ou região, de filosofia ou religião, muitos foram os
que relataram tal união, porém foram taxados como loucos, visionários, santos ou
místicos.
─ Nunca li tais relatos.
─ Provavelmente já os terá lido sim, nosso grande Mestre nos falou e
deixou-nos registrado nas suas lições dos Evangelhos, mas este não vale citar,
vamos falar dos outros que os fizeram, que normalmente ninguém os lê, exceto os
religiosos e os filósofos, ou quando os leem não percebem a realidade que está
sendo falada. Para não citar os mestres orientais e ficar no âmbito de nossa
cultura, posso citar Tereza de Ávila, João da Cruz e o Cântico dos Cânticos.
Mas para fazer uma breve descrição vou utilizar-me de um poema escrito por Jalal ud-Din
Rumi, um sábio sufi
do século XIII, e é bom que assim o faça para que se entenda que os muçulmanos
suicidas e terroristas são apenas pessoas comuns despreparadas, como tantos outros
também em nosso mundo. É assim o poema:
O
amante bateu à porta da bem-amada, e uma voz lá de dentro perguntou:
- Quem está aí?
E ele respondeu:
- Sou eu.
A voz então disse:
- Esta casa não conterá nós dois.
E a porta continuou fechada. Então o amante foi para o deserto, e na solidão jejuou e orou. Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta. E de novo a voz perguntou:
- Quem é?
E o amante respondeu:
- És tu mesma!
E a porta lhe foi aberta.
- Quem está aí?
E ele respondeu:
- Sou eu.
A voz então disse:
- Esta casa não conterá nós dois.
E a porta continuou fechada. Então o amante foi para o deserto, e na solidão jejuou e orou. Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta. E de novo a voz perguntou:
- Quem é?
E o amante respondeu:
- És tu mesma!
E a porta lhe foi aberta.
─ Não sei se entendi...
─ Enquanto o que bate à porta ainda
conserva a consciência do seu eu, ele não pode penetrar naquela casa, e
enquanto ele não tiver a necessária experiência para perceber que ele nada mais
é que a própria Consciência, ele não volta a bater à porta.
─ Quando ele volta a bater responde
que é a própria amante, pois já está preparado e se tornou um com ela.
─ E assim a porta se abre e ele
pode penetrar em sua própria Alma.
─ Mas como trilhar o caminho que
possa levar-me a tal experiência?
─ Siga a sua intuição, siga os
raios que você pode enxergar penetrando na caverna.
─ E como eu farei para percebê-los?
─ Basta que você se coloque no
caminho para perceber que seu ego é um nada e nem sequer merece a comida que
você lhe dá para sustentá-lo.
─ O senhor está falando de um jejum
real, de comida?
─ Bom, podemos tratar desse jejum
com seus dois significados: um deles, o jejum real, foi o caminho trilhado por
muitos místicos, como no poema citado; dizem que também funciona, mas não sei,
não tenho essa experiência.
─ De qualquer modo o ego é o
empecilho.
─ Como sempre foi chamado: é o
demônio que nos afasta da Consciência.
─ Dessa forma o senhor retira Deus
do exterior e o coloca dentro de nós, bem como a sua antítese, o mundo das
sombras e da ignorância.
─ É necessário que saiamos da
caverna para encarar a luz, caso contrário continuaremos a viver inconscientes
ou no inconsciente.
─ O termo agora é o mesmo utilizado
na psicologia?
─ Mais ou menos. Jung falou-nos
muito a respeito do inconsciente coletivo, que seria um conjunto “cultural” que
portamos que não vem apenas de nossa educação, mas que herdamos de nossos
ancestrais, que pode ir tão longe no tempo quanto da formação de nosso corpo,
antes que nos tornássemos homens.
─ Foi a isso que o senhor chamou de
vislumbres da Consciência?
─ Exatamente, podemos de algum modo
partilhar da experiência dos outros que antes de nós a experimentaram ou, mesmo
talvez, dos que no futuro irão experimentá-la.
─ No futuro? É lógico que o senhor
está brincando comigo.
─ Por que brincando? Havendo uma
Consciência, ela não terá a prisão do tempo, porque se encontra além de nossa
experiência. A própria física moderna está experimentando isso.
─ O senhor disse havendo, há ainda
algum resto de dúvida no senhor?
─ São vícios de nossa linguagem. Um
dia, em uma entrevista, perguntaram a Jung se ele acreditava em Deus...
─ Evidentemente ele acreditava.
─ Sua resposta foi: “Eu não creio,
eu sei”.
─ Eu sei?
─ Ele não caiu na armadilha da
pergunta que lhe foi feita, que inconscientemente o entrevistador armou; pela
sua experiência, ele não poderia responder “eu creio”, porque estaria admitindo
a sua negação, a potência do “não creio”; com a resposta dada ele negou a
potencialidade do não creio para afirmar o “eu sei”, algo que não admite a
menor contestação; de um certo modo, ele estava respondendo ao próprio Deus que
disse chamar-se “Eu Sou”.
─ Estou tonto, resuma para mim o
teor desta entrevista.
─ Poderíamos fazer uma prece, no
sentido de colocarmo-nos em atitude de prece, e pedir-Lhe que abra nossas
mentes para que todos possamos perceber mais rapidamente o Seu Nome e possamos
afirmar:
─ Eu Sei.
-o-
Promessa
Jalal ud-Din Rumi
Noite passada fiz outra vez a promessa:
jurei por tua vida jamais desviar os olhos de tua face.
Se golpeares com a espada, não me esquivarei.
Não buscarei cura em mais ninguém,
pois a causa de minha dor é ver-me longe de ti.
Joga-me ao fogo;
se deixar escapar um único suspiro
não serei homem de verdade.
Surgi do teu caminho como pó.
Retorno agora ao pó do teu caminho.

Texto excepcional que como outros da lavra de Siovani nos abre novas perspectivas, e nos orienta para possibilidades pouco usais. Enriqueceu-me essa leitura, e cada vez mais me torno, através de seus escritos, um admirador do poeta Rumi.
ResponderExcluirLulu