domingo, 11 de dezembro de 2016

Caos, o Construtor de Mundos - pequena peça sobre a evolução da física



Caos, o Construtor de Mundos
                                         





Cenário

O palco divide-se em dois ambientes:

à esquerda, a Terra, neste ambiente haverá  mudanças nas diversas cenas; no fundo uma parede onde serão mostrados painéis ou slides projetados;

à direita, em plano mais elevado, uma pequena sala de trabalho para Caos, o Construtor de Mundos, contendo uma prancheta profissional para desenhos, um sofá, um aparelho de som e uma luneta; no fundo, uma lâmpada verde em destaque; na parede esquerda que o separa da Terra, uma janela de onde Caos pode observar o  que aqui se passa;
na parede direita, imitando os hotéis que mostram relógios com horas de diversas cidades, quatro calendários dispostos em duas fileiras, identificados pelo nome do lugar em baixo, os meses e dias devem ser apenas simulados (usar traços ou letras estranhas); no quarto calendário o lugar mudará de acordo com as cenas.

As mudanças de cena devem ser feitas após alguns segundos de escuridão. A luz voltando devagar mostra o pessoal fazendo as alterações. Caos observa o trabalho e acompanha com gestos de comando.

Cena 1

A cortina deve continuar fechada na frente do gabinete de Caos.

A Terra está totalmente escura. Um vulto sorrateiro (uma espécie de rato) se vê cruzar no escuro por duas vezes.

A luz aos poucos vai iluminando o cenário, deixando-o em penumbra.
Vê-se um dinossauro ameaçador e o rato esgueirando-se cuidadosamente pelos cantos à procura de comida.

Ouve-se barulho de uma tempestade, urros do dinossauro, guinchos do rato.

Ouve-se um grande trovão, o dinossauro cai morto. O rato corre assustado pelo palco, chega-se aos poucos ao dinossauro morto. Sai e volta com a sua família e passeia livremente.


Cena 2                                                               

Calendários: UNIVERSO: 14.995.000.000; TERRA: 4.995.000.000;
                    CAOS:                   60.000.000; ÁFRICA:      5.000.000 A.C.

Na Terra, três macacos: um casal da mesma espécie e um terceiro bem diferente deles.
O painel no fundo mostra uma paisagem contendo duas árvores em primeiro plano, na árvore da esquerda vê-se pelo menos uma maçã pendente (real, não deve estar no painel). Os macacos brincam, só emitem guinchos, pois não sabem falar. Vê-se perto do casal um galho caído no chão.
Caos está deitado no sofá, adormecido. Acorda bem devagar. Levanta e espreguiça-se mostrando satisfação. Vai ao aparelho de som e coloca uma música. Ouve os primeiros acordes enleado.

Caos:
-- Ah.h! Que maravilha! Uma música deliciosa após um sono tão gostoso. Sonhos, sonhos e sonhos. Há milhões de anos meu trabalho tem sido assim: paz, muita paz. Só tenho que ficar atento ao que acontece lá na Terra (aponta) para não ser surpreendido por alguma repentina alteração naqueles, digamos assim, filhos.

(vai até a luneta e observa a Terra, esfrega as mãos, satisfeito)

Caos:
-- Tudo em paz. Nada de novo naquela Terrinha.

O macaco diferente aproxima-se da árvore com a maçã, mostra desejo e receio; chega bem próximo a pegá-la e desiste com um ar de pavor e aborrecimento, guinchando muito e correndo.

Caos vai ao aparelho de som e coloca para tocar Assim Falava Zaratustra, de Richard Strauss. Neste instante a macaca dirige-se à maçã e faz as mesmas demonstrações do outro. Após o movimento vibrante da música, como se tivesse sido tocada por algo, ela repentinamente pega a maçã e corre para perto do seu par. Mostra-lhe a maçã que inicialmente é recusada. Ela insiste até que ele a pega e morde.

O outro macaco que assistia a tudo chega-se e quer tomar a maçã. O casal fica ameaçador, gesticula, mas o outro consegue roubar a maçã e se afasta guinchando. O casal o persegue, o macho pega o galho caído no chão e acerta-lhe a cabeça. Este cai, levanta-se cambaleando, recupera-se e fala:

Macaco:
-- Seu...Seu...Seu grande filho... de uma macaca!
                                                                                                           
Neste instante, a luz verde começa a piscar e uma campainha dispara.
Caos, apanhado de surpresa, fica estático e assombrado.

Caos:
-- Co-me-çou! Fui expulso do meu paraíso!

                                                                                                                                                                            
Cena 3

O ano nos calendários muda:
Universo: 14.999.999.650; Terra: 4.999.999.650;
Caos:               64.999.650, e o quarto para 350 A.C., na Grécia.

Ao fundo vê-se uma praia e a imensidão do mar. No alto o Sol. O ambiente na Terra representa uma sala de aula com um professor, o menino Aristóteles e alguns alunos. O professor necessitará de um cilindro.

Caos (dirigindo-se diretamente ao público):
--Olá! Eu sou Caos e meu ofício é ser o Construtor de Mundos. Eu nasci há muitos e muitos anos, foi na época em que os dinossauros estavam sendo extintos e novas espécies de animais, os mamíferos, saíam de suas tocas para dominar a Terra. Sabe como é, né, quando o gato sai a passeio, os ratos tomam conta da casa ou, melhor dizendo, da Terra. Estudei muito, muito mesmo. Fiz curso de engenharia e arquitetura do universo, fiz mestrado, fiz doutorado, e, finalmente, tornei-me um P-h-D em construção de mundos. Com tanto estudo, meus pais tinham a esperança que eu desse certo na vida, e dei. Fui designado Construtor dos Mundos dos Habitantes do Planeta Terra, daqui a pouco vocês entenderão melhor o meu trabalho.
Quando comecei a trabalhar aqui, os grandes macacos já estavam tentando ficar em pé, eretos, deixando as árvores para aventurarem-se nos campos.
Vocês viram, no início meu trabalho foi fácil, mas agora é uma barra pesada. Depois que eles aprenderam a falar, aprenderam a pensar ou, melhor, puderam discutir suas ideias, passaram a me dar um trabalhão. Sempre que uma ideia nova surgia e que fosse não muito louca (aqui para nós, o que tinha de ideia maluca!), eu tinha que adaptar o mundo de acordo com ela. Mas vamos continuar com a história, observem esta sala de aula (passa a observar pela luneta).

Durante a fala de Caos o professor e os alunos mostram-se em atividade constante de estudos e aprendizado.

Professor: (magistral e empolado)
-- Como já vimos, através dos estudos de homens mais sábios que nos precederam, hoje podemos saber com bastante profundidade sobre o funcionamento do universo, sobre a mecânica celeste.
                                                                                                                            
Entra na sala uma faxineira cuidando de varrer o chão, mas atenta às palavras do professor.

Professor:
-- Alguns acreditam que foram os deuses que nos colocaram aqui na Terra, bem no centro do universo, e em volta de nós dispuseram os astros celestes para nos dar seu calor, enchendo de beleza nossas noites estreladas. Nós outros concluímos que o universo sempre existiu e sempre existirá.
O Sol, a Lua e algumas estrelas errantes giram ao redor da Terra, e, por consequência, ao redor do homem, o mais brilhante morador desta esfera.
A forma da Terra, como nos assegurou nosso mestre Anaximandro, é de um cilindro (mostra um cilindro) enorme vagando no centro do universo, cujo diâmetro é equivalente a um terço da sua altura (mostra a relação).

 

Ao ouvir esta última frase a faxineira para surpresa e leva a mão à boca contendo o riso, e interrompe:

Faxineira:
-- Professor, quanta estupidice o senhor está ensinando para esses meninos. Quanta bobagem. Todo mundo sabe, menos o senhor, é claro, que a Terra está apoiada sobre o casco de uma tartaruga gigante.
 
Professor (com superioridade):
-- Muito bem, minha senhora, mas então diga-me, onde essa tartaruga se apoia para aguentar tanto peso?

Faxineira:
-- Você se acha muito esperto, né? É claro que ela se apoia sobre milhões de tartarugas menores que nadam neste mundo de mar que nos rodeia.

Professor:
-- Meus caros alunos, vocês acabaram de ouvir a voz da ignorância popular.

Faxineira (indignada):
-- Olha aqui, professorzinho atrevido, já que você acha que sabe de tudo, diga, então, por que a Terra treme derrubando tudo no chão, por que existem os terremotos?

Professor:
-- São os efeitos físicos da ação dos quatro elementos que compõem o mundo. Estamos estudando suas causa e efeitos.

Faxineira:
-- Enrolou bem, hem professor! Não sabe de nada e ainda quer ensinar o nada para os outros. Ó seu bocó, a Terra treme quando a tartaruga sente uma coceirinha quando o vento carrega coisas cocentas para um lugarzinho incômodo lá dela. Quando ela vira a cabeça para coçar, estremece tudo (sai).

Caos ri muito, fazendo sinais mostrando que acha tudo absurdo.

Caos:
-- Mais sábio é aquele que sabe que não sabe, já lhe ensinara antes o velho mestre Sócrates, pelo visto este professor matou aula naquele dia.

Professor:
-- Acabamos de ter o exemplo do pensamento que prospera no meio do povo e, através desse exemplo, vimos que nós não podemos aceitar essas ideias simplistas. Devemos atrever-nos a perguntar por que o mundo é como é, e ir atrás das respostas. Observar e testar com método e perseverança, fazer medições, anotar tudo que nos possa ser útil para desvendar o mistério que nos cerca.

Aristóteles:
--Professor, à noite eu gosto de observar o céu. Acompanhar a Lua e as estrelas. Já pude perceber que muitas estrelas parecem estar fixas, mas outras viajam pelo céu. Será que elas são como a Lua, que gira ao redor da Terra?

Professor:
-- Bem, filho, como é o seu nome?

Aluno:
-- Aristóteles, professor.

Caos interrompe, solta a luneta. O professor continua dando sua aula, gesticulando.

Caos:
Viram, esse menino promete. Promete um trabalhão para mim. Também, pudera, com um nome assim, A-ris-tó-te-les, parece até grego. Mas, pensando bem, é grego mesmo. Isto me lembra um passeio que fiz, acontecido num futuro distante. Não precisa me olhar com cara de espanto, foi no futuro mesmo; para nós, passado, presente e futuro é tudo uma simples questão de ... tempo. Lembro-me bem, fui visitar um afilhado meu num país muito promissor, que por acaso recebe um apelido muito engraçado, o País do Futuro. Parece-me que os adultos desse país estão muito cansados e deixam para as crianças fazerem o que eles deveriam. Depois as crianças crescem, tornam-se adultas e ... deixam para as crianças fazerem o que elas deveriam. Depois as crianças crescem... deixa para lá, que coisa mais estranha, País do Futuro...
Onde mesmo eu estava? Ah, sim, o menino... Mas vamos continuar observando-o.

Professor:
-- Já sabemos com bastante evidência que o Sol gira ao redor da Terra descrevendo um círculo perfeito no céu, o mesmo acontecendo com a Lua, que descreve um círculo menor. Também sabemos que o círculo é a forma perfeita, nascido perfeito da mente divina, como nos ensinou Platão. Podemos deduzir, então, que todos os corpos celestes móveis giram ao redor da Terra descrevendo um círculo. Às estrelas que se movem, chamamos planetas.

Caos:
-- Planeta em grego significa exatamente viajante, simples assim, o que viaja pelo céu.

Professor:
-- Já ouvimos dizer que um tal Aristarco fala por aí que não estamos no centro, que este privilégio é do Sol, e que as demais estrelas, inclusive nós, giramos ao seu redor. É claro que não daremos ouvidos a tais besteiras, pois, se assim fosse, um objeto jogado para cima iria direto para o centro do Sol, e como qualquer um está cansado de saber, tudo cai em direção ao centro da Terra.

Caos (enigmático):
-- Pois é, uma tremenda besteira!

Professor:
-- Outro disse que a Terra gira ao redor de si. Já imaginou, ficaríamos todos bêbados e enjoados. Qualquer um também pode comprovar a falsidade desta idiotice ao jogar uma pedra para cima: decerto ela cairá na cabeça do infeliz. Se a Terra girasse, quando a pedra voltasse, o giro da Terra faria a pedra cair atrás do indivíduo, salvando sua cabeça do desastre. Uma ideia absurda, evidentemente.

Caos (desiludido):
-- Evidentemente! Um absurdo!

Professor:
-- As estrelas fixas estão no limite físico do universo; além da última esfera do céu, apenas o silêncio infinito de Deus. Hoje à noite poderemos todos contemplar no céu um belo espetáculo, um eclipse da Lua; portanto, convido a todos para voltarem após o jantar para acompanharmos esse milagroso espetáculo dos céus.

Os alunos levantam-se, o palco escurece. É noite, o Sol deu lugar à Lua, os alunos voltam a se acomodarem.

-- Professor:
No movimento ao redor da Terra, há momentos em que o Sol e a Lua ficam em posições diretamente opostas, com a Terra entre os dois. Quando a Lua começa a ficar escura é a sombra da Terra que se projeta diretamente nela, tudo isto acontece vagarosamente e poderemos acompanhar o passeio do Sol.

O eclipse começa. Desloca-se um disco preto sobre a Lua.

Professor:
-- Vejam crianças, está começando. Vejam a sombra crescendo sobre a Lua. É apenas a nossa sombra que observamos.

(todos acompanham com entusiasmo)

Aristóteles:
-- Professor! Eu vejo uma sombra redonda sobre a Lua, não vejo a sombra de um cilindro, mas apenas a de uma esfera.

Caos:
-- Viram só, eu disse, aquele bichinho é tinhoso!

Professor:
-- É porque o cilindro é muito grande, muito maior que a Lua. O que vemos é apenas uma parte do cilindro (mostra a parte central do cilindro).

Aristóteles:
-- Mas, professor, sendo um cilindro, haveria ocasiões em que num eclipse parcial deveríamos poder ver a parte achatada do cilindro. Já houve um eclipse assim?

Caos:
-- Quero ver como o professor vai se safar dessa!

Professor:
-- Ainda não nos foi possível observar um eclipse nessas condições, mas decerto um dia poderemos observar um que definitivamente comprovará nossa teoria.

Caos:
-- Esta foi muito fraca.

Aristóteles:
-- Professor, se o círculo é a forma mais perfeita, se a Lua que vemos quando cheia é redonda, se o Sol que brilha diariamente sobre nós é redondo, se a sombra que eu vejo sobre a Lua no eclipse é redonda, se eu observo um barco se afastando no horizonte e vejo sua vela sumir somente depois que o casco já desapareceu, acho, professor, que o senhor está re-don-da-men-te enganado. Acho que a Terra também é redonda.

A luz verde volta a piscar freneticamente e a campainha dispara.

Caos:
-- Eu não disse que este moleque iria me dar muito trabalho.

                                                                                                                        
Cena 4

Caos muda os calendários:
Universo: 15.000.000.000; Terra: 5.000.000.000;
Caos:              65.000.000; no quarto: Belém ano zero.

No fundo o painel mostra a Terra no centro do universo com os sete “planetas”, então conhecidos, rodeados pelas estrelas. As órbitas circulares devem ser mostradas.
Na Terra desenvolve-se a cena do presépio com a visita dos reis magos.

Caos:
-- Passaram-se apenas 350 anos desde a última grande mudança. Aquela agitação de mentes pensantes na Grécia já não é tão intensa, aliás a própria Grécia hoje é apenas mais uma província romana sob o imperador Augusto.
Hoje é um grande dia!
Nasceu um menino que mudará a vida na Terra pelos próximos milênios como nenhum outro jamais pôde sonhar, mas ele é de paz ou, melhor, ele é a Paz do Mundo. Nem uma gota de suor sairá de meus poros por sua causa, pois não causará mudanças físicas no universo, apenas na mente das pessoas.
Sua palavra tomará conta do mundo, embora nem sempre compreendida e praticada.
Sua importância foi tão grande que até nosso calendário afetou, vocês perceberam?
Estamos no ano zero da Era Cristã ou Ano do Senhor, que em latim se escreve
Annus Domini, por isto, A.D. A partir de hoje, os anos do calendário voltarão a crescer, pois ele foi o marco zero do nosso calendário, o início.
Vamos em silêncio contemplar o milagre.

Caos coloca no aparelho de som a música de Bach, Jesus Cristo Alegria dos homens, que toca enquanto a luz vagarosamente se apaga.

                                                                                                                          
Cena 5

Caos muda os calendários:
 Universo: 15.000.001.500; Terra: 5.000.001.500;
 Caos               65.001.500;  no quarto: 1500, Polônia.

Personagens: um padre e um menino, depois Copérnico, Gise, Rheticus e Lutero.
No palco uma mesa que no início servirá como altar.
Caos está dormindo no sofá, na Terra tudo está escuro, acorda devagar.

Caos:
-- Ah! Mais um breve período de paz. Longo para vocês, para mim foi muito curto. Felizmente aquela época louca dos gregos acabou. Quanto trabalho me deram! Só sabiam pensar! Pensar, pensar e pensar. É bem verdade que a cada oito anos eles faziam uma pausinha para as Olimpíadas, mas logo que a correria das pernas acabava, começava a correria dos neurônios. Tudo mudava numa ve-lo-ci-da-de. E aquele menino, o Aristóteles, escreveu tão bem sobre os seus conhecimentos, e olha que sabia de tudo, que deixou um mundo todinho organizado nos livros. Graças a ele e aos seus mestres, pude curtir um período de 1500 anos de paz. Graças também à Igreja.

(As luzes se acendem na Terra mostrando um altar e um padre celebrando uma missa)

Caos:
-- Lá pelos anos 400, um bispo, que mais tarde foi santificado e elevado à glória de um Doutor da Igreja, escreveu um livro, A Cidade de Deus, que passou a dirigir o pensamento dos padres, bem como de todos os cristãos. Ouçamos um pouco do sermão deste padre que fala sobre ele:

Enquanto o padre celebra a missa, um menino está presente. Inquieto e curioso observa tudo a sua volta, fixa-se principalmente num ponto em cima, intrigado.

Padre:
-- Santo Agostinho alertou-nos sobre a tentação da mente, que escraviza os nossos cinco sentidos para servirem a sua vaidade em busca de conhecimento e sabedoria. Conhecimento que não tem nenhum valor. Para que revirar os mistérios da natureza que Deus nos legou? Que vantagens poderíamos obter estudando o movimento celeste? Não podemos compreender a mente de Deus. De certo...

 (a luz na Terra se apaga lentamente)

Caos:
-- Viram, tudo contrário ao que pensavam os gregos: tornou-se pecado ser curioso e estudar. É isso mesmo, tornou-se pecado estudar!
Tão pensando que não ouvi, é? Mas eu ouvi muito bem alguém dizer: que bom! Se não falou, pensou. Conheço muito menino que gostaria de ressuscitar o Santo Agostinho.
Este longo período foi chamado de Idade das Trevas. Sabem por quê, né? Porque havia trevas nas cabeças das pessoas. Ninguém pensava, ninguém se atrevia a discordar. Os que se atreveram, morreram nas fogueiras.
Muitos puderam sentir, aqui mesmo, o calorzinho do inferno nas fogueiras que os padres acendiam. As vítimas preferidas dos padres foram as mulheres, as temíveis bruxas. Bastava um olhar mais demorado sobre alguém para que uma pobre mulher fosse acusada de ter parte com o demônio e estar lançando um mau-olhado.
E sabem por que os padres utilizavam a fogueira? Porque nelas não havia sangue derramado, e como a Bíblia proibia o derramamento de sangue, os sábios padres achavam que assim não estavam cometendo pecado. Boa piada, não?
Durante esses longos anos a Igreja enriqueceu-se, construiu grandes catedrais por toda a Europa e dominava também o monopólio do conhecimento: só era ensinado aquilo que ela permitia. Mas, como aquela história da cobra que come o próprio rabo, de dentro dela começaram alguns padres a pensar por conta própria e, em breve, ela receberia um tremendo golpe. Vamos ver esta história:

A luz na Terra se acende e um velho padre está debruçado sobre a mesa cheia de livros; ao lado Gise, seu discípulo, ajuda-o enquanto o velho escreve e fala.

Caos:
-- Este velho padre publicou um livrinho, ao qual deu o nomezinho de Comentariozinhos, sobre suas ideias sobre a mecânica celeste. Seus discípulos insistem que deve publicar uma grande obra revelando ao mundo suas ideias.

Copérnico:
-- Temo, Gise, que meus estudos se percam para sempre. Não posso afrontar minha igreja com estas observações que elaborei durante a vida.

Gise:
-- Mestre Copérnico, é necessário que suas ideias sejam publicadas para que outros possam conhecê-las e continuem seus estudos.

Copérnico:
-- Mas, Gise, temo entrar em choque com a fé, tenho que ser cuidadoso. Tenho convicção de estar certo; se minhas teorias não exprimem a verdade absoluta, pelo menos estão dela mais próximas que estas antiquadas teorias de Aristóteles.

Gise:
-- Mestre, é verdade que Aristarco, lá nos tempos de Aristóteles, colocou o Sol no centro do universo?

 Copérnico:
-- Verdade, Gise, se então ele tivesse sido ouvido, o mundo hoje decerto teria menos mistérios para nós. Mas o Sol não está no centro, ele apenas está fixo perto do centro, enquanto os planetas giram ao seu redor em órbitas circulares.

Gise:
-- Quer dizer, mestre, que a Terra é apenas mais um planeta, assim como Marte e Vênus?

Copérnico:
-- É verdade. Além da Terra, são cinco planetas girando ao redor do Sol a distâncias diferentes deste: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Mercúrio, que está mais perto do Sol, completa sua viagem em apenas três meses, enquanto Saturno, por ser o mais distante, leva 30 anos.



 
Gise:
-- É claro, mestre Copérnico, quanto mais longe, maior a estrada a percorrer.

Copérnico:
-- Além disso, a Terra gira ao redor de seu eixo, por isto temos os dias e as noites.

Caos:
-- Ai! Que cacetada! Assim não sobra nada do universo do Aristóteles. Que pena! Eu gostava tanto daquele menino, tão esperto. Mas veja, chegou outro aluno do velho Copérnico, este se chama Rheticus.

Entra Rheticus.

Rheticus:
-- Mestre, já está tudo arranjado. Consegui um editor para o seu belo livro. Suas ideias vão tomar o mundo, virá-lo de cabeça para baixo.

Caos:
-- E me dar uma trabalheira. (pausa) Naquele tempo um outro menino, chamado Gutemberg, inventou os tipos móveis ou, melhor dizendo, inventou a imprensa.
Os livros tornaram-se muito mais baratos, o que permitiu uma divulgação melhor das ideias. Mais livros lidos, menos ignorância no mundo, né?

Copérnico:
-- Acho que não estarei por aqui para ver essa revolução, sou um homem velho e doente.

Rheticus:
-- O senhor ainda verá seu nome celebrado como o grande sábio que é!

Caos:
-- Ele tinha razão. Como Gise nos contou, Copérnico morreu no dia em que viu o primeiro exemplar de sua obra.

Entra Lutero com ares arrogantes.

Lutero:
--Ouvi dizer por aí que mora nesta casa um velho astrólogo que quer fazer a Terra se mover pelo céu.

Gise (no mesmo tom):
-- Sim, é aqui mesmo, meu sábio mestre Copérnico.

Lutero (irado):
-- Então é verdade mesmo. Julga-se o senhor mais inteligente que Deus ao elaborar a sua bela obra (mostra o painel).

Copérnico:
-- Senhor, a obra de Deus sempre será bela, qualquer que seja sua forma.

Lutero:
-- As Sagradas Escrituras nos afirmam que Josué ordenou ao Sol que se detivesse, e assim aconteceu. Pode o senhor, um astrólogo de dois vinténs, querer ser maior que o Espírito Santo, que nos concedeu a graça de sua verdade através das páginas santas da Bíblia Sagrada?

Copérnico:
-- Sou apenas um humilde servidor de Deus, atento as suas graças, nem por isto cego. Mas quem és tu que invades minha casa sem ao menos te apresentares.

 Lutero (orgulhoso):
-- Martinho Lutero, o Reformador.

Copérnico:
-- Ahh! Estou bem ciente das tuas ideias reformadoras. Gostarias de ser colocado a par das minhas?

Lutero:
-- Ideias? Que ideias!? Tolices, nada mais que tolices. Nem preciso ouvi-las para saber que são tolices. E nenhum cristão dará ouvidos a tais tolices.
(saindo:) Tão tolo quanto velho, querendo virar toda a astronomia pelo avesso.

Caos:
-- Alarme falso, o menino Aristóteles continua mandando. Ainda não foi dada a devida atenção às ideias daquele velho sábio... ou tolo?


Cena 6

Personagens: Galileu, o papa, dois cardeais e comitiva religiosa.
A luz está apagada na Terra, quando volta a sala está vazia. Caos avança os calendários em 100 anos, na Itália é o ano de 1600.

Caos tem um jornal na mão e uma atitude triste e pesarosa.

Caos:
-- Tenho uma triste notícia para dar-lhes. Hoje, dia 17 de fevereiro de 1600 da Era Cristã (enfatiza), morreu em Roma o grande Giordano Bruno, por defender suas ideias e seus estudos perante a ignorância administrada pela Igreja Católica, Apostólica e Romana. Foi queimado na fogueira acesa no Campos das Flores. Morreu como herege por defender, entres outras, as ideias de Copérnico sobre o universo.

Entra Galileu

Caos:
-- O mocinho da fita agora é o meu afilhado preferido. Adoro este menino, embora ele seja um tanto quanto presunçoso, mas ele me traz muitas lembranças da minha infância, quando eu tinha um belo galo de briga. Quanta saudade do meu galinho ele me traz, basta falar no seu nome que, zás, lá vem a lembrança do galinho. Galileu Galilei. Vocês não acham que é um nome de galinho, aliás, de dois galinhos, ou um bigalinho. Mas deixemos a saudade de lado e vamos observá-lo.

Quando Caos mira a luneta em Galileu, este repete os seus movimentos como num espelho, mirando Caos, que se assusta quando vê Galileu observando-o.

Caos:
-- Nossa! Que susto! Ele conseguiu uma luneta igualzinha a minha. Será que ele consegue ver-me aqui? Não, impossível, estou longe demais para isto, mas agora ele pode observar o céu mais de perto e descobrir muito sobre as estrelas.

Entram com pompa o papa e sua comitiva. Sentam-se, enquanto Galileu prepara-se para sua explanação.

Galileu:
-- Em primeiro lugar, desejo pedir a Vossa Santidade que me conceda vossa bênção.

Papa:
-- Que Deus o abençoe e ilumine, meu filho.

Galileu:
-- Senhores dignatários do clero, estou aqui, intimado pelos senhores, para fazer a minha defesa das acusações de heresia. Não posso aceitar que tal condição de herético caiba-me, homem que sou temente a Deus e cumpridor de Seus mandamentos e da Santa Madre Igreja. Mas também sou um cientista.

Caos:
-- Dizem que ele foi o primeiro cientista moderno. Moderno por causa dos gregos, que como vimos, também procuravam a verdade com ciência e método.

 Galileu:
-- E como cientista só posso acreditar nas ideias quando elas não contrariem a realidade. Quando coloco minhas ideias à prova, testando-as com experiências na natureza, posso descartar as que continham erros e selecionar as que são confirmadas pelos experimentos. E quando defendo estas ideias, acusam-me de desrespeitar a autoridade da Igreja. A mim, somente a mim, foi concedida a graça de Deus para revelar o que está escrito no céu.

Caos:
-- Presunçoso!

Galileu:
-- Se Vossa Santidade puder vir até aqui, poderei mostrar-lhe através deste telescópio algumas das belas palavras que Deus deixou escritas no céu.

Cardeal Inquisidor:
-- Ousas afrontar Sua Santidade com esse instrumento demoníaco, enganador, indigno da filosofia e do saber.

Galileu:
-- É apenas um objeto, um instrumento para aperfeiçoar nossa limitada visão.

Cardeal Inquisidor:
-- Os olhos que Deus nos deu são suficientes para vermos as coisas como elas são, não necessitando aperfeiçoamentos. Pretendes ser mais sábio que Deus, nosso criador?

Galileu:
-- Nossos olhos são uma dádiva sublime do criador, mas é preciso olhar com olhos que queiram ver! Por isso, reitero meu pedido a Vossa Santidade: que me conceda a graça de deixar os seus olhos como minhas testemunhas.

Papa:
-- Não, meu filho, isso me seria penoso. (ao Cardeal à direita:) Vai, padre Barberini,
depois me ponha a par do que viu.

O cardeal levanta-se, olha pela luneta, mostra assombro. Volta balançando a cabeça.

Galileu:
-- Como o Cardeal Barberini pôde comprovar, Júpiter tem quatro estrelas girando ao seu redor, isto é, Júpiter tem quatro luas como a nossa. Além disso, podemos ver pela luneta que nossa lua tem montanhas e vales como os que existem na Terra. Podemos concluir que se existem estrelas que não giram ao redor da Terra, então a Terra não é o centro do universo, e que todas essas estrelas devem ser de natureza semelhante à natureza da Terra.

Os religiosos ficam alvoroçados, conversando entre si.

Caos:
-- Vocês estão vendo como essas ideias apavoravam a Igreja, pois elas sepultavam completamente o universo de Aristóteles, que tinha um lugar reservado para Deus além da oitava esfera. Pena, né, eu gostava tanto daquele menino.

Cardeal Barberini:
-- O que eu pude ver contraria totalmente o que Deus nos disse através das Escrituras, portanto, deve haver outra explicação possível.

Galileu:
-- Não pode haver contradição no que meus olhos vêem. As Escrituras não estão sendo desmentidas, mas apenas a sua interpretação. Ora, se o que vejo como realidade contraria as Escrituras, muda-se a interpretação para adequá-la ao que vejo. 

O tumulto se estabelece entre os padres, alguns gritam:

Padres:
-- Heresia! Heresia! Queime-se o herege.

Cardeal Barberini:
-- Calma. Calma, meus irmãos. Meu caro Galileu, gostaria que usasse de mais cautela. Seria mais prudente falar dessas novas ideias como suposições, como modelos matemáticos, que podem ser utilizados para estudar os movimentos celestes, não como fatos reais.

Galileu:
-- Senhor, com todo o respeito que tenho às coisas sagradas, ouso teimar que as Sagradas Escrituras não pretendem ensinar-nos o que se passa no universo. Nas páginas que nos legou, “o Espírito Santo quer ensinar-nos como se vai ao céu e não como vai o céu”.

Os padres exaltam-se novamente. Ouve-se gritos: Heresia!

Cardeal Barberini:
-- É lei que a explicação das escrituras pertence aos teólogos e novas ideias para explicá-las, há de concordar, causariam muita confusão.

Galileu:
-- Vossa Eminência, por sua vez, há de concordar comigo que tudo mostra que Copérnico estava certo, que a Terra gira verdadeiramente ao redor do Sol.

Cardeal Barberini:
-- Mas enquanto não houver uma prova irrefutável dessa hipótese, devemos deixar como estão as interpretações das escrituras.

Galileu (triunfante):
- Mas eu tenho a prova definitiva, o movimento das marés é a prova.

Caos:
-- Galileu não sabia, mas com essa prova ele estava embarcando em uma canoa furada. Sua explicação sobre as marés estava totalmente errada. Mas que importa, né, os padres nada entendiam de marés e o resto era tudo correto.

Galileu:
-- Pelos meus estudos sobre os movimentos na natureza, pude concluir que as marés são devidas aos movimentos da Terra em torno de si mesma e em torno do Sol. Os mares recebem forças contrárias que variam ao longo do dia e que fazem as águas subirem e descerem. Podemos simplificar o modelo observando uma bacia cheia de água: ao imprimirmos movimentos laterais à bacia, de vai e vem, a água se agita formando ondas, nos mares se dá o mesmo em ritmo mais lento.

Caos vai ao aparelho de som, coloca a música Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque), a princípio bem baixa. Deve-se coordená-la com a fala do Inquisidor, quando esta terminar o volume será aumentado justo no Cálice.

Cardeal Inquisidor:
-- O livro de Copérnico está no Índex dos livros proibidos pela Igreja, suas ideias foram proibidas por serem absurdas e contrárias à palavra de Deus. Proíbo-te de continuar a divulgar essas ideias que tanta agitação causam no seio da paz que o mundo desfruta sob a coordenação da Igreja. Deves firmar um compromisso de calar-te ou serás aprisionado.

As luzes começam a diminuir enquanto o papa entrega suas insígnias ao Cardeal Barberini, que as veste, e sai (apenas o papa sai). As luzes se apagam e voltam com os mesmos personagens.

Caos:
-- Galileu Galilei obedeceu. Calou-se. Mas agora o novo papa, seu amigo e protetor, parece-lhe mais propício e Galileu resolve escrever um novo livro, que foi publicado, mas em seguida foi proibido.

Inquisidor:
-- Conforme ficou estabelecido pela Santa Igreja no julgamento anterior, o senhor Galileu estava proibido de ensinar ou defender as ideias de Copérnico. O senhor não respeitou esta proibição em seu livro Diálogo sobre os dois Máximos Sistemas.

Galileu (humilde):
-- Nunca mantive ou defendi nesse livro a opinião de que a Terra se move e que o Sol permanece fixo, mas demonstrei o oposto da opinião de Copérnico provando que seus argumentos são fracos e inconclusivos.

Padres (agitados e surpresos):
-- Ele quer-nos fazer de tolos?

 Inquisidor:
-- O senhor confessa então os seus erros?

Galileu:
-- Confesso!

Caos:
-- Onde está o galinho de briga? Acho que virou galinha.
É compreensível, Galileu estava com medo. Há pouco vimos que Giordano Bruno foi queimado. Sentindo o calor da fogueira que os padres já haviam acendido para ele, Galileu resolve se recolher humildemente, sufocando todo seu orgulho e sua ciência.
Há violências que não necessitam de armas para serem infligidas.
                                                                                               
Inquisidor:
-- “O senhor Galileu, suspeito de heresia, isto é, de haver mantido e crido em doutrina falsa e contrária às Sagradas Escrituras, será condenado à prisão domiciliar por toda a sua vida, e durante três anos deverá rezar diariamente sete salmos penitenciais, e deverá, perante a Santa Igreja, confessar os seus erros”.

Galileu ajoelha-se perante os inquisidores e recebe uma Bíblia sobre a qual colocará a mão direita.

Galileu:
-- “... com o coração sincero e absoluta fé eu abjuro, amaldiçoo e deploro todos os erros e heresias mencionados anteriormente, ... e juro que no futuro jamais mencionarei, oralmente ou por escrito, qualquer...”

Caos:
-- Apenas em 1992 o Papa João Paulo II revogará a condenação de Galileu, depois de passados quase trezentos anos.

Galileu levanta-se e dirige-se à plateia, as luzes diminuindo:

Galileu:
-- Apesar disso tudo, a Terra ainda se move.

A luz verde volta a piscar e a campainha dispara.


Cena 7

Personagens: dois meninos, Kepler e Ticho Brahe.
Calendários: apenas o local do quarto calendário muda para Praga.
A macieira volta à cena, a maçã deve estar fora de alcance.
Dois meninos (Kepler e outro anônimo) brigam rolando no chão agarrados e socando um ao outro. O outro chora, soltam-se.

Caos:
-- Outro menino feroz, mas este não tem nome de galinho, entra em cena na Terrinha, chama-se Kepler; vamos observá-lo.

Menino (chorando):
-- Seu imbecil, vou chamar meus irmãos. Você vai ver!

Kepler:
-- Chama quem você quiser. Não me importo, está pensando que tenho medo? São todos uns imbecis, mesmo. Acabo com todos juntos.

O menino sai chorando, Kepler brinca com um ímã.

Kepler (ainda com raiva):
-- Posso arrastar tudo e todos eles com meus poderes magnéticos e jogar tudo no abismo.  Não há no mundo nada que possa salvá-los.

Levanta-se, coloca-se abaixo da maçã, tenta atraí-la com o ímã.

Kepler:
-- Se eu pudesse atraí-la com meu magnetismo mágico, tanta coisa seria resolvida; de imediato, minha fome de maçã (sai, caminhando de costas, olhando fixamente para a maçã).

Caos:
-- Foi uma grande pena que esta maçã não tenha caído.

A luz se apaga e quando volta, Kepler está deitado em uma cama (já adulto), doente. Entra Ticho Brahe.

Ticho:
-- Ora, ora, soube que meu querido Kepler está doente, o que houve?

Kepler:
-- Nada além de um banho!

Ticho:
-- Banho? E desde quando este hábito estranho entrou nesta casa?

Kepler:
-- Ah! Mestre Ticho, desde a maldita hora em que fui querer agradar minha mulher, que vive pelos cantos resmungando a reclamar do meu cheiro.

Ticho:
-- E não tomou as precauções necessárias antes dessa perigosa aventura de tomar seu primeiro banho?

Kepler:
-- As consequências estou bem a lamentá-las agora. Mas, prometo, pelo resto da minha vida jamais entrar novamente em uma banheira!

Caos:
-- Esta é dura de engolir, será mesmo que alguém pode passar uma vida inteira e tomar um único banho?

Ticho:
-- Voltando aos temas de nossos estudos, meu caro Kepler, tenho terminadas minhas teorias sobre o universo. Não posso aceitar as ideias que Copérnico deixou publicadas.

Kepler:
-- Quanto a mim, não tenho mais dúvidas, o velho polonês estava certo. Estou realmente convencido que a Terra gira ao redor do Sol e em redor de seu eixo, de leste para oeste.

Ticho:
-- Tolices. Não posso crer nesse giro da Terra ao redor de si mesma. Embora isso explique o dia e a noite, há fatos que contrariam essa teoria.

Kepler:
-- Por exemplo?

Ticho:
-- Se a Terra girasse, uma bala de canhão disparada para o leste, isto é, no sentido do giro da Terra, voaria mais longe que a mesma bala disparada para o oeste.

Kepler:
-- Parece evidente, Ticho, que o giro da Terra carregaria a bala disparada para o leste um pouco além, enquanto que para o oeste, a bala seria retida um pouco para trás.

Ticho:
-- Isso é suficiente para provar que a Terra não gira, pois sabemos, na prática, que a bala percorre a mesma distância qualquer que seja a direção do tiro.

Kepler:
-- Não tenho argumentos para explicar tal contradição, mas muitos outros fatos são explicados pela configuração de Copérnico.

Caos:
-- Eles ainda não poderiam saber, mas os experimentos que Galileu estava realizando mostrariam, poucos anos após, porque a bala de canhão percorre a mesma distância, seja qual for a direção do tiro.

Ticho:
-- Por outro lado, estudei suficientemente a trajetória do cometa que há pouco brilhou em nosso céu para concluir que os antigos estavam errados, que nem tudo que existe no céu gira ao redor da Terra.

Kepler:
-- E a nova estrela que vimos surgir também nos mostra que a oitava esfera de Aristóteles, a das estrelas fixas, não é tão fixa assim.

Ticho:
-- Mas estou convencido do que as Escrituras nos dizem, que a Terra está fixa no centro do universo.

Kepler:
-- O que coloca o mestre Ticho Brahe num dilema.

Ticho:
-- Nem tanto. Nem tanto ao céu, nem tanto ao léu.

Kepler:
-- Chegou, então, a um modelo final?

Ticho:
-- Cheguei. Tenho provado que a Terra está, sim, fixa no centro do universo e que o Sol e a Lua giram ao seu redor, enquanto os demais planetas e os outros corpos celestes giram ao redor do Sol.

Kepler:
-- Não vejo em que seu sistema possa ser superior ao de Copérnico.

Ticho:
-- As Escrituras autenticam que a Terra está fixa e meu modelo não entra em choque com a verdade sagrada.

Kepler:
-- Não posso concordar com seu modelo, falta-lhe simetria. Falta-lhe a simplicidade que a natureza mostra-nos em tudo.

Ticho:
-- Bem, assim montei meu modelo e meus cálculos atestam sua veracidade. Mas, meu caro Kepler, não vim até aqui para discutirmos meu modelo, vim para oferecer-lhe trabalho.

Kepler:
-- Acabei de ouvir uma palavra mágica. Já me sinto bem melhor!

 Ticho:
-- Bom, já que está de molho e não tem muito a fazer, o que venho propor-lhe vem em boa hora. Por muitos anos observei o planeta Marte, aqui estão todas as minhas anotações a respeito. Sugiro que estude o seu movimento e tente resolver o mistério de sua estranha viagem pelo céu.

Kepler (com desprezo):
-- Traz-me trabalho ou brincadeira de criança? Em oito dias eu já terei pronta toda a solução. 

Ticho sai, Kepler começa a trabalhar entusiasmado, fita o céu diversas vezes e escreve alucinadamente.

Caos:
-- Não foram bem oito dias. Passaram-se oito semanas... oito meses...oito anos...!
Kepler levou mais de oito anos estudando o problema, detalhadamente escrevendo suas ideias e seus experimentos discutindo o porquê estariam certas ou erradas.

A luz se apaga na Terra, ao voltar deve haver um telescópio em cena.

-- Correio! (ouve-se gritar de fora da casa)
Passa correndo um menino e vai buscar a correspondência. Entrega a Kepler.

Kepler:
-- Uma carta do meu querido Galileu Galilei, o mestre italiano (larga o trabalho afoitamente, feliz pela carta).

Kepler (lendo a carta):
--“...agradeço também, de modo particular, por teres te dignado a dar-me tal prova de tua amizade... E posso verdadeiramente estar satisfeito por ter tal aliado na indagação da verdade e um tal amigo dessa verdade. Muito escrevi para apresentar as provas que aniquilam os argumentos contrários à hipótese copernicana, mas até agora não ousei publicar nada, atemorizado pelo que sucedeu a Copérnico, nosso mestre... ele é desmoralizado e apupado, tão grande é o número de tolos”.

Caos:
-- Nós bem já sabemos em que encrenca Galileu se meteu.

 Kepler (falando com o menino):
-- Que grande mestre! Gostaria de poder trabalhar ao seu lado, mas é impossível, ele lá na Itália, eu aqui. Que grande instrumento ele colocou a serviço da ciência (põe o menino no telescópio). Agora também tenho o meu e posso ver tanto quanto ele viu.

O menino olha para o céu com o telescópio.

Kepler:
-- Um telescópio é tão precioso quanto um cetro, até um menino que por ele observa pode tornar-se um rei e pode compreender a obra de Deus.

Menino:
-- Vejo a Lua e... montanhas. Vejo montanhas na Lua.

Kepler:
--Finalmente a órbita de Marte não é mais um segredo. Por anos tentei resolvê-la utilizando círculos em diversas combinações, inutilmente. Busquei na natureza outras formas mais óbvias, como uma oval, e nada obtive.

Menino:
-- Você trabalhou muito, deve estar muito cansado!

Kepler:
-- Mas fui recompensado por Deus. Agora eu sei que o Sol exerce sobre Marte e sobre todos os outros planetas uma espécie de força magnética que os atrai para si, forçando-os a ficar ao seu redor. Agora sei que mestre Copérnico só se enganou ao dizer que as órbitas dos planetas eram circulares, pois, na verdade, posso provar que são uma elipse.


 
Caos:
-- Uma elipse! Algo assim meio parecido com um ovo, mas não tão oval, meio parecido com um círculo, mas achatado.

Kepler:
-- Em sua viagem ao redor do Sol, Marte viaja mais rápido quando perto dele, e quanto mais se afasta mais lento se torna, devido à própria influência do Sol. O Sol é a causa do movimento dos planetas, o primeiro motor do universo.

Caos:
-- Kepler deixou-me e a todos os meus queridos funcionários em prontidão. Estamos todos ainda muito cansados da última mudança, mas, por pouco, muito pouco, não tivemos que mudar tudo novamente.


Cena 8

Calendários: avançam 100 anos.
Um casal de crianças brinca, Newton e Sofia. Newton bate uma bola com as mãos, jogando-a na parede.
Volta em cena a macieira com a maçã.

Newton:
(pega a bola com as duas mãos, murmura, inaudível, em seguida ouve-se)
- Platão é meu amigo! (pega a bola só com a mão direita)
- Aristóteles é meu amigo! (pega a bola só com a  mão esquerda)
- Mas minha melhor amiga... (bate palmas e pega a bola)
- É a verdade! (ajoelha-se e pega a bola).

Sofia:
-- Niltinho, vamos brincar de “se eu fosse Deus”.

Newton:
-- Vamos. Eu começo.

Sofia:
-- Ah não! Eu começo. Eu inventei, eu começo.

Newton:
-- Então comece...Vê se não fala muita besteira, Sofia.

Sofia:
-- Se eu fosse Deus... Se eu fosse Deus... Eu daria asas para toda gente. Como os passarinhos, todo mundo ia poder voar para onde quisesse.

Newton:
-- Não teria gostado se minha inteligência tivesse sido trocada por um par de asas, pois com ela tenho a minha imaginação, que também pode levar-me aonde eu quiser!

Sofia:
-- Ih! Niltinho, você é um chato, sempre critica tudo que eu invento. Chato! Vamos ver você...

Newton:
-- Se eu fosse Deus... Se eu fosse Deus... Eu colocaria os olhos nas pontas dos dedos, ficaria muito mais fácil bisbilhotar escondido.

Sofia:
-- Credo, Niltinho, ia ficar horrível, dois buracos no meio da cara sem nada!

Newton:
-- Mas seria muito prático, Sofia.

Sofia:
Se eu fosse Deus... Se eu fosse Deus... Eu colocaria o Sol de noite e a Lua de dia, aí sempre viveríamos no claro.

Newton:
-- Que ideia maluca! Você só ia inverter o dia e a noite.

Sofia:
-- Que nada! De dia já está claro, a Lua nem faz falta e o Sol iluminaria a noite.

Newton:
Se eu fosse Deus... Se eu fosse Deus... Eu colocaria a abóbora, que é enorme, no alto dessa macieira e a maçã eu colocaria no pé de abóbora.

Sofia:
-- Se eu fosse Deus... Se eu fosse Deus... Cansei. Cansei de criar o mundo, hoje já é domingo, vou descansar e fazer nada.

Eles se deitam sob a macieira, a maçã cai na cabeça de Newton que a apanha com raiva e vai atirá-la longe.

Newton:
-- Sua... Sua.. Sua grande filha... de uma macieira (começa gritando, vai abaixando a voz e termina num quase sussurro).

Newton:
-- Puxa, Sofia, ainda bem que não sou Deus, senão teria levado uma abóbora na cabeça. Já pensou que estrago?

Sofia:
-- Seria bem feito para você deixar de ser chato!

Newton:
--Para lembrar-me pelo resto da vida de minha estupidez, vou guardá-la comigo para sempre.

Sofia:
-- Niltinho, por que será que a maçã caiu? Por que será que ela não voou na direção do Sol? Por que será...?

Newton:
-- Ahhh! Para de tanto por quê? Por quê? Porque sim, ora! Porque ela caiu...
Mas, pensando bem, por que ela caiu?

Sofia:
-- Niltinho, por que a Lua não cai?

Newton:
-- Ah! Sofia, você tem cada pergunta. Talvez... Talvez.. Talvez ela caia, ora! Talvez ela caia só um tantinho e Deus fica atento consertando sua posição no céu.

Newton:
-- Por que essa maçã caiu e a Lua não cai? Intrigante pergunta para um garoto intrigado. Você (para a maçã) estará sempre guardada comigo, você vai ajudar-me a resolver este terrível enigma. Este é um trabalho para o... Super Newton e sua poderosa arma, a super maçã.

Newton faz um colar da maçã e coloca no pescoço. A luz se apaga e retorna com Newton estudando.

Ouve-se uma voz de mãe:
-- Newton! Largue esses livros e venha almoçar.

Newton:
-- Não posso, mãe, ainda estou desenvolvendo a minha primeira lei (continua trabalhando).

Pausa e:
-- Newton! Você ainda nem almoçou e já é hora do jantar. Venha jantar!

Newton:
-- Não posso, mãe, agora estou desenvolvendo a minha segunda lei.

Caos:
-- Que cdf, não? Só larga o pau quando a cobra está morta, dissecada e... pendurada na parede como um troféu.

Pausa e:
-- Newton! Já é muito tarde, apague essa vela e venha dormir.

Newton:
-- Não posso, mãe, estou terminando a minha terceira lei.

Pausa e:
-- Newton, já amanheceu e você continua trabalhando...

Newton:
-- Calma, mãe, já estou terminando minha quarta lei.

Caos:
-- Quarta? Esta eu não conheço ou será a Lei da Gravitação Universal?

Newton:
-- Acabei. Agora, humildemente, recolho-me ante os grandes que me precederam. Agradeço a São Galileu Galilei por desvendar os mistérios dos movimentos dos corpos, e, se a igreja o condenou, hoje e sempre, eu e a ciência o veneraremos no altar mais alto dos céus.  Agradeço ao gênio e à perseverança de São Kepler por desvendar o movimento dos planetas e a São Copérnico por abrir os caminhos onde todos pudemos caminhar. E agradeço a todos os demais que tiveram a audácia de levantar o conhecimento como bandeira aos ventos soprados pela ignorância.  

Caos:
-- Amém!

Newton:
-- Se pude enxergar tão longe, é porque estava sobre o ombro desses gigantes.

Caos:
-- Que peso! Que força aqueles gigantes possuem para suportar esse!

Newton:
Primeira Lei do Niltinho: A bola imóvel na marca do pênalti, chuto-a, e, se o goleiro não consegue rebatê-la, é gooolll!

Newton:
-- Segunda Lei do Niltinho: Se a bola fosse de ferro, seria preciso que o super Newton fosse o super-homem para fazer o super gol, e, se o goleiro alcançasse a bola, iria direto para o hospital.

Newton:
-- Terceira Lei do Niltinho: se eu, o Niltinho, chutasse a bola de ferro, decerto eu iria parar no hospital.

Caos:
-- Elementar, meu caro Niltinho.

Newton:
-- Quarta lei do Niltinho... Ah! Agora cansei!

Caos:
-- Ainda bem, não? Três já são suficientes para deixar em pé os cabelos dos estudantes.

Newton:
--Mas, esperem, ainda formulei outra lei: embora os homens não tenham, tudo o mais que existe no mundo possui o amor universal; quanto maior o coração, maior o amor; quanto maior a distância, mais volúvel e menor, muito menor se torna o amor.

Caos:
-- No espaço a Terra atrai a Lua que atrai o Sol e que é atraído pela Lua que atrai o Sol que atrai a Terra que atrai Marte que atrai Júpiter que atrai Marte que atrai o Sol... E a Terra atrai a maçã, que por sua vez atrai a Terra que atrai...Ufa! O amor é lindo!



 
Entra Sofia.

Sofia:
-- Niltinho, se os planetas e as estrelas se atraem, por que as estrelas não caem todas em algum lugar?

Newton:
-- Ah, Sofia, agora eu sei a resposta: é porque existe um número infinito delas e a presença contínua de Deus assegura a estabilidade do universo.

A luz verde pisca e a campainha dispara.


Cena 9

Calendários avançam 230 anos, nos EUA é 1930.
O painel apresenta o sistema solar dentro da Via Láctea.
Personagens: Hubble, vestido de presidiário já se encontra em cena, entra Einstein.

Einstein:
-- Como vai o meu grande amigo Hubble?

Hubble:
-- Assim, assim, como se pode ir nesta prisão.

Einstein:
-- E por quais leis o Rei das Nebulosas foi condenado?

Hubble:
-- Duplamente condenado, Einstein.

Einstein:
-- Duplamente condenado?

Hubble:
-- Sim. Condenado primeiro pelo meu desejo de saber: condenado a passar uma vida preso neste observatório a mapear o universo.

Einstein:
-- Não tão desagradável, fizeste um belíssimo trabalho.

Hubble:
-- E por causa do sucesso do meu trabalho, novamente condenado a viver preso na Terra. Quanto mais vejo o universo abrir-se ante os meus olhos, mais me sinto um pequeno inseto preso nessa redoma azul que se chama Terra.

Einstein:
-- Realmente seria maravilhoso poder pegar uma onda de luz e surfar entre as estrelas.

Hubble:
-- Ficaria feliz em acompanhá-lo. Dois surfistas nas estrelas.

Einstein:
-- Pena que jamais poderíamos surfar lado a lado. Mistérios desta coisa misteriosa que chamamos luz.

Caos:
-- Eistein já demonstrara que nenhum corpo material pode viajar na velocidade da luz.

Hubble:
-- Mesmo assim, gostaria de tentá-lo.

Einstein:
-- Seria belo, todo o corpo transformado em luz, espalhando-se pelo universo.

Hubble:
-- E, talvez, voltar um dia em uma pequena flor que não vivesse mais que alguns segundos.

Einstein:
-- Ou talvez ser capturado pela gravidade de uma estrela morrendo e explodir com ela. Pura energia que se espalharia pelo universo infinito.

Hubble:
-- Mas, aqui estamos, somos prisioneiros da nossa própria curiosidade.

Einstein:
-- Mas seu trabalho foi esplêndido, elaborei minhas estranhas teorias e seu trabalho pôde comprovar para o mundo que elas estavam corretas.

Hubble:
-- Fui apenas a sua mão esquerda, uma ferramenta um pouco desajeitada.

Einstein:
-- Não, não, estivemos de mãos dadas nesta aventura.

Hubble:
-- Finalmente sabemos que o universo de Newton era muito pequeno.

Einstein:
-- Algum dia os homens poderão sair desta prisão da atmosfera terrestre, e, com certeza, você merecerá um lugar especial no céu noturno, de onde poderá continuar o seu trabalho de observar o universo.

Caos:
-- Em 1990 a Nasa colocou em órbita da Terra um telescópio, a qual deu o nome de
Hubble.


 

Hubble:
-- De qualquer forma, acho que completamos uma bela página da ciência.

Einstein:
-- Finalmente sabemos que o universo de Newton era insignificante, somente nossa galáxia, a Via Láctea, tem a extensão de 100000 anos-luz, e além dela bilhões de outras galáxias com bilhões de estrelas nos observam.

A campainha dispara e a luz verde pisca.


Cena 10

Calendários avançam 25 anos, nos EUA é 1955.
Painel apresenta o universo como o conhecemos, muitas galáxias.
Einstein se encontra trabalhando.

Caos:
-- Ei!

Einstein ouve e não sabe de onde veio a voz. Procura.

Caos:
-- Ei! Psiu!

Einstein (continua procurando):
-- Ahn!?

Caos:
-- Ei, Einstein!

Einstein (vê Caos e aproxima-se da janela):
-- Eu?

Caos:
-- Sim, não é você o grande Einstein, o grande cientista que mudou todo o universo?

Einstein:
-- Sou, mas não mudei nada, apenas aprendi um pouco mais sobre ele.

Caos:
-- Então... ouvi por aí que você não acredita em mim?

Einstein:
-- Não faço ideia de quem possas ser, sendo assim, não sei se acredito ou não.

Caos:
-- Sou Caos, o Construtor de Mundos, responsável por este universo.

Einstein:
-- Se és o Velho Sábio, sempre te conheci.

Caos:
-- Não, não sou o Velho Sábio, não sou Deus, sou apenas um seu operário ou, talvez, apenas um escravo dos homens a destruir e construir o universo conforme o homem o pensa e conhece.

Einstein:
-- Dizes que nós pensamos o universo e que tu o constróis?

Caos:
-- Sim, e quando você não aceitou o princípio da incerteza, você me negou.

Einstein:
-- De fato, não posso aceitar essa estranha teoria. O princípio da incerteza alega dizer-nos que um elétron, por exemplo, pode até não existir enquanto não tentamos observá-lo.

Caos:
-- E se o tentar, você interfere com ele, e nunca poderá ter certeza de nada sobre ele.

Einstein:
-- “A teoria pode ser muito bem sucedida, mas ela não nos aproxima dos segredos do Velho Sábio. De qualquer forma, estou convencido que ele não joga dados”.

Caos:
-- E sendo este o meu trabalho, ajeitar o mundo como o homem o vê...

Einstein:
-- Eu não posso te aceitar.

Caos:
-- Você quer dizer que eu não existo?

Einstein:
-- Não.

A campainha toca e a luz verde se acende. Ouve-se Assim Falava Zaratustra no ponto mais vigoroso, a escuridão se faz no gabinete de Caos.
Einstein permanece em cena, perplexo.

Einstein:
-- Mas, o que foi? Para onde ele foi?

As luzes se apagam.


Cena 11

O gabinete de Caos continua escuro.
Personagens: Stephen Hawking está em cena em uma cadeira de rodas. Caos entra (na Terra) com um microfone e com ele um cinegrafista.

Caos (falando para a câmara):
-- Estamos aqui na Universidade de Cambridge para entrevistar Stephen Hawking, que hoje assume a Cadeira Lucasiana de Matemática da Universidade.

Caos (dirigindo-se a Stephen):
-- Stephen, qual a importância desse cargo para você?

Hawking:
-- Abaixo do prêmio Nobel, este é o maior prêmio que posso receber em vida. Assumo a cátedra que Newton ocupou.

Caos:
-- Você se sente como o grande continuador da obra de Newton?

Hawking:
-- Com muito orgulho; além disso, nasci no dia em que se comemorou 300 anos da morte de Galileu Galilei, algo muito significativo para um cientista.

Caos:
-- O desenvolvimento da mecânica quântica tem revolucionado também o estudo do universo. Quando Einstein recusou-se a aceitar a incerteza, ele disse que “Deus não joga dados”, ou seja, ele não aceitou o acaso como força criadora do universo.

Hawking :
-- “Deus não só joga dados, mas todas as evidências mostram que ele é um jogador viciado que joga os dados sempre que é possível., ...e, às vezes, ele os joga onde não podem ser vistos”, por exemplo, dentro de um buraco negro.

Caos:
-- Buraco negro? O que é um buraco negro?

Hawking:
-- Em teoria os buracos negros são provenientes do colapso de grandes estrelas. Toda a massa de uma estrela se contrai em um pequeno espaço e sua força de gravidade torna-se tão grande que nada pode escapar dela, até mesmo a luz será tragada por um buraco negro.

Caos:
-- Eles, então, não podem ser vistos.

Hawking:
-- Não podem ser vistos e nada podemos saber do que se passa dentro deles. Nos buracos negros podemos dizer que vigora um princípio da ignorância.

Caos:
-- Estamos ainda longe de conhecer a mente de Deus?

Hawking:
-- “Deus ainda tem alguns truques escondidos na manga. No atual estágio a ciência não consegue visualizar completamente o futuro do universo”.

Caos:
-- E o universo do homem não é o universo real?

Hawking:
-- O universo que vemos é o que o homem, devido à evolução, está preparado para enxergar, além de muitos outros.

Caos:
-- Então, eu, pergunto: o que é real?

Hawking:
-- “Você não deveria fazer perguntas como essa. Eu não acho que exista um único universo real”.

Caos:
-- Então eu poderia concluir que o universo está na mente do homem?

Hawking:
-- Quem sabe?

Caos (triunfante para a plateia):
-- Então, é evidente, eu existo!

A campainha dispara, acende-se a luz no gabinete de Caos e a luz verde pisca.




Fim.



(Citações foram retiradas das obras de Marcelo Gleiser e Stephen Hawking)




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