quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Eros e Psiquê – Apuleio - Resumo



Eros e Psiquê – Apuleio



            Esta não é propriamente uma crônica, vou apenas transcrever, resumidamente, a estória de Eros e Psiquê contada por Apuleio, escritor latino do segundo século de nossa era, que por sua vez buscou sua fonte em mitos gregos antigos. O texto que utilizei como fonte foi a tradução do latim feita por Ruth Guimarães, do livro O Asno de Ouro. Em próxima crônica farei um comentário sobre esta fábula, pretendendo transmitir o tanto que ela me encanta. (link para o livro https://magiapdf.files.wordpress.com/2013/11/lucio-apuleio-o-asno-de-ouro.pdf)

            Como o livro foi escrito em latim, os nomes dos deuses serão apresentados como na tradição romana, exceto o nome de Eros, por ser este mais apropriado para falar do deus, já que o nome latino Cupido está para nós muito associado ao menininho alado, descaracterizando de certa forma o nome do deus.

Eros e Psiquê - Anton van Dick
 
***



            Havia em certa cidade um rei com três filhas de extraordinária beleza. Embora fossem as duas mais velhas de beleza incomum, na mais nova das três, Psiquê, a beleza excedia a possibilidade da linguagem humana.

            A fama de tal virgem espalhou-se pelas províncias, e logo inumeráveis jovens enfrentavam os perigos dos caminhos para admirar a nova Vênus; dizia-se que a deusa, nascida da espuma do azul dos mares, dignara-se a misturar-se à sociedade humana e, assim, os templos da verdadeira deusa foram negligenciados e permaneciam vazios; trocavam-na pela mortal a quem passaram a prestar culto e reverenciar.

            À Vênus não passou incólume tal afronta ao ver suas honrarias transferidas para uma simples mortal, profanadas pelo contato com imundície terrestre, e com indignada aleivosia a deusa prometeu-lhe: “Poderei, com essa mesma beleza à qual ela não tem direito, fazer com que se arrependa”. Chamando seu irrequieto filho, Eros, levou-o àquela cidade onde apontou a moça, instigando o malcriado moleque alado com estas palavras após contar-lhe sobre o confronto de belezas: “Pelos laços do amor materno, vinga aquela que te deu à luz, mas que seja uma vingança completa. Ela terá de apaixonar-se pelo mais horrendo dos homens, tão abjeto que no mundo inteiro não se encontre miséria que a sua compare”.

            Mas apesar de toda a sua beleza, Psiquê não tirava nenhum proveito dos seus encantos, ninguém se apresentava para pedir a sua mão; admirava-se a sua face de deusa, mas era como a uma estátua, uma obra de arte perfeita. Tornada assim solitária, doente e com a alma dilacerada, Psiquê odeia sua beleza. Seu pai, desconfiado do ódio dos céus pela beleza da filha, procura o oráculo de Apolo de Mileto e o poderoso deus responde com estes versos:



Sobre o rochedo escarpado

suntuosamente enfeitada,

expõe, rei, a tua filha,

 para núpcias de morte.

Então, ó rei, não esperes

 para teu genro, criaturas

originadas de mortal estirpe,

mas um monstro cruel e viperino,

que voa pelos ares.

Feroz e mau, não poupa ninguém,

leva por toda parte o fogo e o ferro

e faz tremer a Júpiter, 

e é o terror de todos os deuses,

e apavora até as águas do inferno,

e inspira terror às trevas do Estige.



           Assim que ouviu o oráculo, o rei caiu em tristeza e o reino se tornou luto e lamentações, mas a necessidade de obedecer às ordens dos céus faz com que Psiquê se entregue às núpcias de morte. Um cortejo fúnebre se forma para levá-la ao rochedo e, vendo a tristeza dos pais, Psiquê exorta-lhes: “Por que infligir à vossa velhice o suplício de contínuo pranto? Aí está para vós o prêmio glorioso de minha egrégia formosura. Hoje eu compreendo, hoje eu vejo, foi o nome de Vênus, só, que me perdeu. Levai-me logo, tenho pressa de consumar essa feliz união, tenho pressa de ver o nobre esposo. Para que adiar, para que me furtar ao encontro daquele que nasceu para a ruína do Universo?”.

            Levada ao alto do rochedo indicado pelo oráculo, Psiquê foi deixada só, apavorada e trêmula, não parando de chorar. O doce hálito do vento Zéfiro, caricioso, levantou a virgem com um movimento suave e a levou docemente, depositando-a sobre a relva macia do vale no pé da montanha. Nesse lugar adorável adormeceu.

            Restaurada pelo sono, Psiquê penetra no bosque que se descortinava a sua frente, encontrando em seu interior um palácio principesco, que não fora construído por mãos humanas, mas por artes divinas. Penetrando no suntuoso palácio ela se deslumbra com sua magnificência e logo ouve uma voz, destituída de corpo, que lhe diz que tudo aquilo lhe pertencia e que as vozes são de suas criadas, que tudo fariam para servi-la com a maior dedicação.

            Após um dia de paz e lauto a noite chega e Psiquê fica apreensiva por sua virgindade, temendo a chegada do desconhecido esposo. Noite alta chega o misterioso consorte e toma-a como mulher, mas antes do amanhecer desaparece. E assim os dias escoavam num paraíso para os sentidos durante o dia e de amor nas noites. Um dia o esposo lhe diz que suas irmãs a procuravam, mas que ela não as atendesse, pois um perigo mortal a ameaçava: “Vela e guarda-te cuidadosamente, eis o meu aviso”.

            Psiquê concordou, mas durante o dia sua solidão a fez cair em prostração. Através do choro Psiquê consegue que o marido atenda seu desejo de rever as irmãs e permita-lhe também presenteá-las com ouro e jóias, mas este a advertiu de não se deixar levar pela curiosidade sacrílega sobre sua aparência, pois isto lhe causaria a ruína e nunca mais desfrutaria de seus abraços. Psiquê lhe jurou amor eterno e as irmãs lhe foram conduzidas pelo Zéfiro do mesmo modo que ela o fora.

            Abaladas com tanto fausto e pela felicidade da irmã, e embora cumuladas de riquezas, as duas, inchadas de inveja, decidem vingar-se na irmã da vida insípida que levavam. Ocultaram dos pais o encontro e fingiram-se tomadas de desespero pelo luto enquanto preparavam uma armadilha.

            O esposo torna a advertir Psiquê sobre as malévolas bruxas e reitera que nunca mais veria o seu rosto se o contemplasse uma única vez, e que sua bondade inata a colocava em risco frente a tanta maldade. E disse-lhe, ainda: “Nossa família se acrescenta, gera-se uma criança em seu útero; divina será se souberes calar e conservar nossos segredos; mortal, se os profanares”.

            Psiquê reitera seu amor: “As próprias trevas da noite não têm mais sombra para mim; eu tenho a ti, que és minha luz”. E mais uma vez recebe as irmãs, apesar das advertências do esposo. A jovem cai em contradição sobre a aparência do marido e as duas percebem que ela não a conhecia, e que ele deveria ser um deus, e que o filho que ela portava também o seria. Insinuam que o esposo, como previra o oráculo, seria uma terrível serpente que breve a devoraria e ao filho, e por isto lhe falam de um plano para que ela matasse o horrível monstro.

            Deixada sozinha, Psiquê recebe a visita das Fúrias: agitada pelo desgosto, ela é como o mar de águas em turbilhão; transtornada, seus pensamentos em louca aflição oscilam entre o amor inusitado pelo marido carinhoso e o ódio profundo ao monstro imaginado.

            À noite, põe em prática o plano ao sentir o esposo profundamente adormecido. Munida de uma navalha para cortar a cabeça do monstro e de um candeeiro para iluminar o leito, ela depara-se com a imagem da mais bela fera, Eros, o mais belo dos deuses. Psiquê, ao ver o crime cometido, tenta matar-se, mas a navalha, guiada pelos céus, resvala de sua mão. Curiosa, ao ver a aljava do deus deixada ao lado da cama, brinca com uma das flechas e se fere, ficando assim eternamente apaixonada pelo próprio Amor.

            Extasiada com a visão do deus, Psiquê debruça-se e começa a beijá-lo, mas as forças do destino agem novamente e ela se esquece do candeeiro, que se inclina e lança uma gota de óleo fervente sobre a espádua direita do deus. Eros acorda com a dor; sem dizer uma única palavra levanta vôo parando sobre um cipreste; o deus lhe diz de como desobedecera à sua mãe ferindo-se por suas próprias flechas e que o castigo de Psiquê seria a sua ausência.

            Atordoada após tantas infelicidades, Psiquê vaga pelo mundo e chega ao reino de uma de suas irmãs e conta-lhe suas desventuras, acrescentando que Eros havia-lhe dito que, para seu castigo, ele se uniria a sua irmã. Esta, ouvindo tal promessa, corre ao penhasco e se joga, confiando novamente no vento, mas este a deixa esborrachar-se nas pedras. Psiquê repete o estratagema com a outra irmã, conseguindo igual intento.

            Enquanto Psiquê peregrinava pelo mundo à procura de seu amor, uma gaivota fora contar a Vênus tudo o que se passara com seu filho, e que no mundo inteiro corriam boatos sobre o ocorrido, e que mãe e filho desapareceram, e por toda a parte o amor morrera. Desnorteada pela humilhação ante o povo e os deuses, ela ameaça ao filho em retirar seus poderes, e quanto a Psiquê, sua raiva por ela chegara ao limite que uma deusa podia sentir, e pede a todos que lhe indiquem onde está sua rival para que possa castigá-la.

            Psiquê chega a um templo de Ceres que está em completa desordem com trigo e cevada espalhados em meio a instrumentos de colheita. Com a crença de que não se deve negligenciar nenhum templo, põe-se a organizar tudo. E a própria deusa, ao vê-la cuidar de suas coisas em detrimento de suas próprias atribulações, devido aos seus compromissos familiares recusa o pedido da moça em escondê-la da fúria de Vênus, mas não a entrega à outra, deixando-a seguir seu caminho.

            Psiquê ainda intercede à deusa Juno, mas esta também lhe replica que não podia atuar contra a vontade de Vênus, sua nora, a quem amava como filha, e pelas leis dos céus que impediam de recolher contra a vontade do dono um escravo fugido. Desesperada, sem poder contar com as deusas, Psiquê resolve entregar-se a sua senhora e se prepara para os castigos. Pelo menos, imaginava, talvez pudesse encontrar no palácio da mãe aquele a quem tanto procurava.

            Nesse ínterim, Vênus pedira a Júpiter que lhe permitisse usar os serviços de Mercúrio para achar a escrava perdida. E o mensageiro levou a todos os povos a ordem de que ninguém poderia ocultá-la e, ainda, oferecia um belo prêmio a quem a encontrasse, o que atiçou a cobiça de todos os mortais. Devido a tal, Psiquê apressa-se a entregar-se.

            Vênus recebe-a com exultante alegria e convoca suas criadas, Inquietação e Tristeza, para torturarem a moça, e, em seguida, clama contra o filho que a moça trazia no ventre considerando-o não seu neto, mas um bastardo, pois tal casamento não teria sido legítimo, isso caso ela viesse a consentir no seu nascimento.

            Em seguida a deusa preparou um monte misturando trigo, cevada, milho, mais sementes de papoula, lentilhas e favas, dizendo-lhe que o separasse até a noite, pois só com o trabalho duro ela poderia conquistar seu amante. Psiquê nem tentou executar a tarefa por pensá-la impossível, mas uma formiga compadeceu-se dela frente à maldade da deusa e convocou um batalhão de formigas em seu socorro.

            A deusa, ao voltar, irritou-se com o trabalho tão bem executado e disse-lhe: “─Não foste tu, velhaca, não foram tuas mãos que fizeram a tarefa, mas foi sim aquele a quem és cara, para tua desgraça, por tua desgraça, e pela sua”. Enquanto isto, Eros achava-se trancado em uma ala retirada do palácio para pensar sua ferida e também para não se encontrar com quem tanto desejava.

            Raiada a manhã a deusa chama Psiquê: “─ Vês esse bosque que, junto do rio onde suas raízes se banham, estende-se ao longo da corrente? Ovelhas de tosão de ouro pastam ali sem pastor. Procura agora um floco de lã desse tosão precioso, não importa como, e traze-mo. Eis a minha vontade”.

            Psiquê intenta atirar-se nas águas revoltas para acabar com seu sofrimento, mas um simples caniço verde, por inspiração divina, diz-lhe para não perturbar as suas águas sagradas com sua morte miserável nem tentar aproximar-se das ovelhas em pleno calor do dia, pois seus chifres e mordidas são venenosos; mas quando o calor amainar pelo sopro do vento, podes ir até aquele plátano e sacudir as árvores do bosque e colher os flocos de lã dourada que ficam por toda a parte dos seus galhos curvados. Psiquê seguiu a recomendação e conseguiu colher uma braçada de lã de ouro.

            A deusa não se comoveu com o êxito e com as sobrancelhas cerradas, disse: “─ Eu não me engano. Sei quem é o autor desta nova astúcia. Mas vês tu o cume desta montanha escarpada, dominando o altíssimo rochedo? Lá se encontra uma fonte sombria. É ela a origem do negro curso que se transforma nos pantanais do Estige e alimenta as ondas retumbantes do Cocito. Eu quero que, no próprio cimo, onde a fonte jorra das entranhas da terra, apanhes um pouco de sua água gelada e ma tragas sem demora, nesta pequena urna”.

            Psiquê restou petrificada à beira do rochedo perigoso, alto demais e muito íngreme. Além de escorregadio, das grotas saíam dragões sanguinários cuja missão era montar guarda noite e dia; e mesmo as águas gritavam: “Foge, tu morrerás”. Mas aos céus não escapou sua aflição e a águia real, a predileta de Júpiter, resolveu socorrê-la por ter-se lembrado da inestimável ajuda que tivera de Eros por ocasião do rapto de Ganimedes, e disse à menina:

            “─ Ah! Tu, simples como és, e inexperiente, não sabes que os próprios deuses, sem excetuar Júpiter, temem as águas estígias? Dá-me tua jarra”. E dizendo às águas que cumpria ordens de Vênus, a águia se esgueirou entre as serpentes e recolheu a água com a aquiescência destas, e Psiquê pôde voltar com a jarra cheia e entregá-la à deusa.

            A deusa não se comoveu com a tarefa cumprida e disse-lhe: “─ Toma esta caixinha, desce aos infernos e passa entre os penates do próprio Orco. Então dize a Proserpina: Vênus te pede que lhe envies um pouco da tua formosura, apenas a ração de um dia. A que ela possuía, gastou-a completamente em cuidar do filho enfermo. Mas não voltes tarde demais. Preciso untar-me com isso antes de ir a um espetáculo no teatro dos deuses”.

            Psiquê percebeu que estava sendo enviada sem mais enigmas para a própria morte, pois estava sendo mandada a se misturar com as almas dos mortos. Subiu a uma torre muito alta para precipitar-se e pegar o caminho mais curto para o fundo do Hades, mas a torre resolve falar-lhe e diz-lhe que poderia encontrar o caminho através da morte, mas não poderia retornar. E passou- lhe as instruções necessárias para encontrar a entrada e tudo que ela necessitaria para fazer a jornada e penetrar nos aposentos de Proserpina. E, ainda, aconselhou-a: “Não tentes abrir a caixa que trouxeres nem examines seu interior. Em suma, guarda-te de qualquer movimento de curiosidade a respeito do divino tesouro de beleza que ele encerra”.

            E Psiquê, cumprindo à risca as instruções da experiente torre, cumpre sua tarefa e retorna com a pomada, mas, embora com pressa de terminar sua tarefa, seu espírito foi assaltado por grande curiosidade, e pensa: “Sou tão boba que vá levar a beleza divina sem tirar nem um pouquinho para mim e agradar assim, quem sabe, o meu formoso amante”? E abriu a caixinha.

            Mas nada do que era esperado esta continha, senão o sono estígio espalhando-se por toda a volta; uma vez liberto, quando ela abriu a tampa da caixinha, ele se apoderou como uma névoa de todos os membros de Psiquê, prostrando-a no meio do caminho, imóvel como se estivesse morta.

            Eros, já curado do ferimento, escapuliu pela janela do quarto e louco de saudade, em um vôo rápido, aproximou-se da sua Psiquê. Cuidadosamente colocou o sono letárgico de volta à caixinha e despertou a adormecida esposa com um leve toque da ponta de uma de suas flechas.

            “─ És vítima uma vez mais, desgraçada criança, da curiosidade que já te perdeu. Agora vai, acaba a missão de que te encarregou minha mãe. O resto compete a mim”. E voou para pedir a Júpiter a sua intercessão. O grande deus convocou uma assembleia dos deuses a qual quem não comparecesse seria castigado, e falou:

            “─ Deuses conscritos, cujos nomes estão no registro das Musas, aqui está um adolescente que criei com as minhas mãos, como vós todos sabeis. Achei que é preciso por um freio aos impetuosos ardores de sua primeira juventude. Assim, ele tem dado o que falar pelo escândalo cotidiano de seus adultérios e tolices de toda espécie.  Tiremos-lhe a ocasião e acabemos-lhe com a luxúria de adolescente, encadeando-o com os laços do casamento. Ele escolheu uma moça e tirou-lhe a virgindade. Que a conserve, que a guarde para si, e, unido a Psiquê, possa fruir para sempre do seu amor”.

            E ainda disse a Vênus que não se perturbasse com tal casamento e ordenou que Mercúrio raptasse Psiquê da terra e a trouxesse para o céu. Indo ao seu encontro com uma taça de ambrosia, a bebida dos imortais, disse-lhe: “─ Toma, Psiquê, e sê imortal. Jamais Eros se desembaraçará dos laços que o ligam a ti. As vossas núpcias são perpétuas”.

            Dessa forma Eros casou-se com Psiquê segundo o ritual e festas do Olimpo. Chegado o momento apropriado, nasceu-lhes uma filha, a que chamamos Volúpia.





-o-





         Cantiga de viúvo



                 Carlos Drummond de Andrade



A noite caiu na minh´alma

fiquei triste sem querer.

Uma sombra veio vindo,

veio vindo, me abraçou.



Era a sombra de meu bem

que morreu há tanto tempo.



Me abraçou com tanto amor

me apertou com tanto fogo

me beijou, me consolou.



Depois riu devagarinho,

me disse adeus  com a cabeça

e saiu. Fechou a porta.

Ouvi seus passos na escada.

Depois mais nada...

                                acabou.




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