Eros e Psiquê – comentário
Antes
de iniciar o comentário da estória de Eros e Psiquê, gostaria de salientar o
simbolismo da palavra grega “psique”, que além de significar a personificação
da alma, também significa mariposa, trazendo um paralelo, portanto, com a idéia
de transformação da alma humana de uma feia lagarta para a graça e leveza de
uma mariposa.
I - A inconsciência
A
estória começa com a situação familiar de Psiquê e com o enaltecimento de sua
beleza incomum. Tal beleza desperta em todos que a conheciam uma admiração tão
exagerada, que passaram a julgar que a própria deusa da beleza, Vênus/Afrodite,
houvesse renascido. O culto à deusa migra dos templos que lhe eram dedicados, e
que passam a serem negligenciados, para a própria Psiquê, a quem cultuavam e
ofereciam sacrifícios. Considerando-se a importância que a grande deusa tinha
para aqueles povos, no panteão antigo abaixo apenas do grande Júpiter/Zeus, a
negligência dos seus templos tinha um caráter de gravíssima ofensa à deusa e
aos céus, transferindo de maneira abjeta o culto sagrado para uma simples
mortal. Para nós, que tratamos os deuses do Olimpo como mera mitologia, e que
não observamos o caráter sacro que tinha naqueles tempos, fica-nos uma
impressão de pouca valia, porém, se raciocinarmos em termos atuais, seria como
se os católicos substituíssem o culto a Nossa Senhora por uma pessoa ainda
viva. De qualquer modo, devemos atentar para o fato de um atentado ao sagrado
que tal situação apresentava, qualquer que seja o significado que dermos ao
termo sagrado.
Estava
instalado o ambiente para uma reação, quer esta fosse uma intempestiva reação
da deusa, criada à imagem e semelhança dos homens como todo o Olimpo, ou uma
reação das forças psicológicas desencadeadas no íntimo do próprio povo
envolvido. A deusa então promete que Psiquê seria punida através da própria
beleza que havia lhe usurpado o trono. Esta forma de reação mítica, onde o
próprio objeto que fere é o mesmo que cura, ou vice-versa, é recorrente em toda
a literatura mitológica e tem paralelo com o mito religioso da ação-reação do
processo cármico, originário das religiões orientais.
A
deusa então chama seu filho, Cupido/Eros, que é retratado como um menino
malcriado que, sem nenhuma disciplina, brinca com os sentimentos alheios e
despeja suas flechas envenenadas de paixão indiscriminadamente a deuses e
mortais, do qual o próprio Júpiter temia as dores, e pede ao filho que fira
Psiquê de tal modo que ela se apaixone pelo mais abjeto dos seres, e que ela
sofra tanto que ninguém lhe queira partilhar seu sofrimento. Com tal pedido ao
filho, a deusa até se despreocupa com o assunto, visto que sua ordem ao filho
não poderia deixar de ser cumprida, e volta aos seus afazeres. Observe o
inusitado, quando conhecemos o final da fábula, que a própria mãe chama o filho
de o mais abjeto dos seres.
Enquanto
no Olimpo tais conluios dos deuses procediam, Psiquê não colhia nenhum fruto de
sua beleza e vivia solitária virgem, pois nenhum mortal achava-se em condições
de elevar-se ao seu amor. Vê-se aqui a própria punição terrena que sua
inusitada beleza lhe causava: embora adorada como uma deusa, era solitária e
triste, e até mesmo fisicamente doente. Seu pai, querendo arrancá-la daquela
tristeza, consulta aos céus para arranjar-lhe um casamento e apenas obtém um
terrível oráculo, que traduzia a própria maldição da deusa, porém como todo
oráculo, dúbio, pois lhe promete um consorte divino, e se bem analisado,
descreve-o como o próprio Eros, o terrível deus do Amor, que tanto pode
enlouquecer um homem quanto levá-lo aos mais altos enleios. Porém a todos
pareceu significar uma terrível maldição e mesmo a morte da donzela. E todo o
reino se converteu em luto e lamentações.
Chegado
o momento das núpcias, Psiquê é levada ao rochedo num cortejo fúnebre, pois
todos achavam que ela deveria morrer para realizar tais núpcias. Observe-se que
as núpcias de morte que Psiquê tem que enfrentar é um rito de passagem, a virgem
tem que morrer para sua família e para o seu mundo infantil para se tornar
mulher, sua personalidade infantil e narcisista tem que amadurecer para
enfrentar as novas tarefas de mulher adulta e mãe. Abandonada no alto do
rochedo como mandara o oráculo, Psiquê encerra a primeira parte de sua jornada,
onde ela estava sujeita aos caprichos do destino como um joguete dos céus, a
quem só cabia obedecer para atenuar suas dores.
Nessa
primeira parte vemos o desenrolar-se da vida terrena sem a consciência da vida
espiritual; o povo cultua os deuses sem muita preocupação com o sentido
sagrado, podendo substituir facilmente o culto divino por qualquer modismo que
surja sem que se saiba de onde nasça.
II – O Despertar do Ego
O
milagre acontece. Ao invés da morte esperada Psiquê se vê transportada a um
mundo de sonho, onde tudo está feito para servi-la e com a maior magnificência.
A princípio, ainda apreensiva, teme pelo esposo desconhecido, mas novamente é
surpreendida por um ser amoroso que apenas lhe oculta sua verdadeira
identidade.
Nos
dias que se seguem Psiquê se vê vivendo num quase paraíso, amada à noite e
tratada como princesa durante o dia, porém solitária e na ignorância da
identidade do seu amado. Em contato direto com o próprio Amor, Psiquê vive imersa
em trevas sem saber de sua real condição. Totalmente dependente da vontade de
seu amado, ela não pode procurá-lo durante o dia, restando à mercê de sua
presença nas noites escuras. Enquanto assim protegida, sem nenhuma ameaça,
permanece feliz, porém a ameaça está à espreita nas figuras de suas próprias
irmãs. Enquanto noite, seu ego desaparece em união com o ser divino; durante o
dia, a luz traz de volta seus instintos ególatras. A solidão e a saudade
fazem-na presa fácil, embora o marido lhe dê avisos sobre o destino cruel que
lhe está preparado, Psiquê se acha apta a seguir as recomendações e intercede
para que seja permitido que suas irmãs possam visitá-la.
E
nasce a inveja, o monstro que viria destruí-la. Mas Psiquê tinha na sua bondade
inata seu trunfo: através dela o seu destino de perda do paraíso deveria
concretizar-se, mas também teria no futuro seu resgate. Podemos ver as duas
irmãs como o nascimento das forças psicológicas que a levam a duvidar de estar
na presença do próprio deus e que a levam a viver oscilando entre a felicidade do
amor e a tristeza pela solidão. Assim ela faz o jogo das forças negativas que a
querem expulsar do paraíso inconsciente que estava vivendo. Na falta de
problemas, ela cria-os. A felicidade sem dores não é um bem duradouro.
Psiquê,
em sua inconsciência, acha-se capaz de cumprir com as exortações do seu amado e,
por grande incoerência, ainda lhe diz que ele era a sua luz. Como ela não podia
fitá-lo, a luz era o único sentido que lhe faltava, e todo seu amor era proveniente
dos outros sentidos, ou poderíamos dizer que sua felicidade provinha justamente
de sua ignorância ou talvez pudéssemos interpretar como uma alma infantil a que
faltava a luz. O marido lhe acena com um filho imortal se ela lhe fosse fiel, mas
apesar de toda a felicidade em que ela vivia, sucumbe à inveja das irmãs ou,
melhor dizendo, aos seus próprios demônios. As irmãs utilizam o dúbio oráculo
para lhe dizerem que seu marido era um monstro terrível e a pobre moça, tomando
a metáfora do oráculo como realidade, fica oscilando entre o amor pelo marido
carinhoso e o ódio ao monstro criado em sua própria imaginação. Ao ficar
sozinha, Psiquê é vítima das fúrias, e passa momentos terríveis de espera onde
sua consciência entra em colapso, passando a oscilar de modo instável entre os
dois mundos.
Sucumbindo
totalmente à instabilidade, ela executa o plano das irmãs e se vê frente ao
verdadeiro deus do Amor, e só então toma consciência do crime que intentara. Através
da luz do candeeiro que portava ela toma ciência do divino, e, suprema ironia,
através da gota de luz fervente ela fere o deus; o choque lhe traz seus
primeiros momentos de consciência. E se vê inteiramente perdida procurando
encontrar refúgio na morte, mas todos os elementos estão contra ela e mesmo
este intento é frustrado. E ao ver o rosto proibido do amado, a qual ela ainda
não estava pronta a contemplar, o sentido ainda não revelado abre-se-lhe, e se
fere, portanto, com uma das flechas de Eros, justo quando ela o perdia. Após conhecer
a felicidade, agora ela conheceria a punição por não saber receber o divino
como dádiva; por sua desobediência é expulsa de seu paraíso.
Nesta
segunda parte Psiquê chegou a ter o contato com o divino, embora inconsciente
de tal fato e sujeita aos caprichos da divindade. Durante os momentos de união
com o deus, ela sentia-se no paraíso; durante a sua falta, a mais infeliz das
criaturas: situação símile à do Cântico dos Cânticos.
III – Em Busca da Luz
Psiquê
vaga à procura de seu amado e perpetra contra as irmãs um plano que as leva à
morte ou, melhor dizendo, ela mata em si mesma os baixos instintos que a
levaram a perder-se, lapidando sua personalidade e sua alma.
Em
completo abandono, culpada por toda a falta de amor que grassa pelo mundo, já
que seu amado se encerrara a curar suas feridas e abandonara o mundo a própria
sorte, Psiquê teme a vingança de Vênus e pede ajuda às deusas Ceres/Deméter e
Juno/Hera e embora as duas se compadeçam dela, respondem-lhe que nada podem
fazer para ajudá-la.
A recusa de
Hera, a deusa que cuidava dos casamentos, mais uma vez salienta a infantilidade
da alma de Psiquê, pois parece significar que ela não estava pronta para o
casamento. E sem mais a quem recorrer, Psiquê decide entregar-se aos caprichos
de Vênus.
Apresentando-se
à deusa, esta, após torturá-la, submete-a a quatro trabalhos aparentemente
impossíveis de serem realizados por simples mortais. Os trabalhos representam a
caminhada da moça pela vida, pelos quais ela teria que aprimorar-se e evoluir,
cada um representando um dos quatro elementos, terra, ar, água e fogo, pelos que,
acreditava-se nos tempos antigos, todo o mundo era composto; ao mesmo tempo
simbolizando o caminho zodiacal que a moça deveria cruzar no seu trabalho de
aperfeiçoamento.
O
primeiro trabalho que Vênus encarrega a moça tem as características que se
atribui ao ciclo da terra, pelo qual aprendemos a separar, classificar e organizar
as coisas, atentando para o discernimento do todo como ele é. No ciclo da
terra, a terra é preparada para o cultivo, depois semeada, e, enfim, obtém-se a
colheita. Assim, através deste ciclo cultivamos em nós mesmos tudo aquilo que
aprendemos na vida. Vênus entrega a Psiquê um monte enorme de sementes todo
misturado a qual ela deve separar em uma tarde. A moça desesperada recebe uma
ajuda imprevista das forças telúricas representadas por uma formiguinha que
convoca um batalhão de sua espécie e o trabalho é executado. Portanto, podemos
presumir que as sementes que ela cultiva lhe trazem novas ferramentas para a
vida.
O
segundo trabalho simboliza o ciclo do ar, um caniço ao sabor do vento instrui
Psiquê a aproveitar-se do momento em que o ar estivesse fresco para realizar a
sua tarefa e assim colher os fios de lã de ouro. Através do trabalho
intelectual, que é o fruto do elemento ar, a criatividade somada ao conhecimento
colhido no primeiro trabalho, ela agora tinha ferramentas adequadas para pesar,
avaliar, e aplicar o aprendido, e como prêmio poder obter a lã de ouro. A lã é
utilizada na literatura de muitos povos como símbolo do conhecimento.
O
terceiro trabalho simboliza o ciclo da água. O ser verdadeiro se parece com o
oceano: a consciência fica na superfície, mas o verdadeiro ser permanece nas
profundezas do inconsciente. Neste ciclo acontece o ponto de mutação do ser,
onde o escorpião rastejante, o terceiro signo da água, deve suicidar-se para
que, transformado, surja a águia para tomar os céus como alma livre que é. O
ser interior deve alçar-se aos céus e permanecer livre, o eu divino deve se
tornar consciente. Rememora-se assim o simbolismo do nome Psiquê, a lagarta que
se transforma num ser gracioso e flébil e que busca a luz, que pode ser
perigosa para uma mariposa sem experiência.
O
quarto trabalho simboliza o ciclo do fogo, o ciclo da vivência da experiência
adquirida. Somente através da experiência certas funções podem ser realizadas e
Psiquê deveria descer ao inferno para realizar o trabalho; somente um ser
espiritualizado, que atravessou pela vida e adquiriu o conhecimento dos outros
três elementos poderia intentar realizar tal trabalho. Agora ela conta com o
conhecimento de uma torre antiga, símbolo da experiência que a própria Psiquê
acumulara; agora ela poderia ter o discernimento, a força de vontade e a
firmeza de caráter necessários ao cumprimento desta tarefa; agora ela mesma
teria que executar o trabalho e, cumprindo com todas as instruções recebidas,
ela consegue concluir a tarefa.
Nesta
terceira parte acompanhamos o desenvolvimento de Psiquê através das agruras da
vida, de uma alma inexperiente a um ser rico de experiência e sabedoria. Em
todos os momentos de dificuldades a graça divina estava presente permitindo a
Psiquê avançar em seu caminho de luz, e ela toma consciência que nunca esteve
sozinha e tudo conseguira através da graça, devido a sua natureza inata.
IV – A União Mística
Mas
Psiquê cai vítima da última armadilha preparada por Vênus. Talvez sua
curiosidade a tenha precipitado novamente, mas é de considerar-se que com todo
o conhecimento adquirido agora ela possuía as ferramentas necessárias para
saber, pois se tornara um ser totalmente consciente e conhecedor da vida
espiritual. Por isso ela se deixa cair na armadilha; visto que até então ela
fora ajudada pelas forças celestes de seu marido, ela poderia supor que, vencedora
de todos os trabalhos, ele viria novamente em seu socorro. Era necessária a sua
entrega à aniquilação de seu ego, o que lhe abriria caminho para a perfeita
união com seu amado.
Psiquê
se abandona ao torpor do sono entorpecente do mundo tenebroso, vivendo uma
quase morte. Eros vem em seu socorro e ainda ralha com a moça, que
provavelmente sorriu. Ao ser ressuscitada por Eros, totalmente livre de seu
ego, ela agora cumpriu toda a sua jornada: a mariposa está pronta para imergir
na luz de seu amado sem se queimar e viver a completa fusão nas núpcias
divinas.
Na
mitologia, quando uma mortal se apaixona por um deus, esta sempre encontra a
sua destruição, enquanto o deus vive apenas uma paixão momentânea do qual
sequer sai arranhado; mas Psiquê alcança a graça de sair fortalecida e
conquistar o seu divino amado. Eros também se transformou, graças ao amor de
Psiquê deixa de ser o filho adolescente de Vênus para ocupar seu lugar de
destaque entre os deuses. Sobe ao Olimpo
e pede a intercessão de Júpiter e este conclama a todos os deuses para anunciar
sua vontade de que o adolescente finalmente se aquietasse numa união de
verdadeiro amor.
Assim,
o mundo pôde se livrar da inconstância do Amor em uma união eterna. Nem os
homens, nem os deuses poderiam consegui-lo sozinhos, mas da união entre eles
estavam as perfeitas núpcias. E dessa união perfeita nasce a filha dileta, a
alma humana em perfeita união com o deus, a Volúpia.
Apuleio,
o escritor que nos legou essa fábula, foi um neoplatônico, e considerava as
idéias cristãs absurdas, pois falavam de um Deus único, isto nos primeiros anos
em que o cristianismo surgiu, e apesar de ter sido um “pagão”, podemos
encontrar na fábula uma bela idéia da união mística, que seria tão bem relatada
por grandes santos católicos e outros místicos.
![]() |
| “L’enlèvement de Psyché”
de William Adolphe Bouguereau
|
-o-
Cânticos
5 (Cântico dos Cânticos)
3 Eu
já tirei a roupa;
será
que preciso me vestir de novo?
Já
lavei os pés;
por
que sujá-los outra vez?
4 O
meu amor passou a mão pela abertura da porta,
e o
meu coração estremeceu.
5 Eu
já estava pronta para deixar o meu querido entrar.
As
minhas mãos estavam cobertas de mirra,
e os
meus dedos também,
e eu
segurava o trinco da porta.
6 Então
abri a porta para o meu amor,
mas
ele já havia ido embora.
Como
eu queria ouvir a sua voz!
Procurei-o,
porém não o pude achar;
chamei-o,
mas ele não respondeu.
7 Os
guardas que patrulhavam a cidade me encontraram;
eles
me bateram e me machucaram;
e os
guardas das muralhas da cidade me arrancaram a capa.
8 Prometam,
mulheres de Jerusalém:
se
vocês encontrarem o meu amado,
digam
que estou morrendo de amor.

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