sábado, 3 de dezembro de 2016

Eros e Psiquê – comentário




Eros e Psiquê – comentário


            Antes de iniciar o comentário da estória de Eros e Psiquê, gostaria de salientar o simbolismo da palavra grega “psique”, que além de significar a personificação da alma, também significa mariposa, trazendo um paralelo, portanto, com a idéia de transformação da alma humana de uma feia lagarta para a graça e leveza de uma mariposa.


I - A inconsciência


            A estória começa com a situação familiar de Psiquê e com o enaltecimento de sua beleza incomum. Tal beleza desperta em todos que a conheciam uma admiração tão exagerada, que passaram a julgar que a própria deusa da beleza, Vênus/Afrodite, houvesse renascido. O culto à deusa migra dos templos que lhe eram dedicados, e que passam a serem negligenciados, para a própria Psiquê, a quem cultuavam e ofereciam sacrifícios. Considerando-se a importância que a grande deusa tinha para aqueles povos, no panteão antigo abaixo apenas do grande Júpiter/Zeus, a negligência dos seus templos tinha um caráter de gravíssima ofensa à deusa e aos céus, transferindo de maneira abjeta o culto sagrado para uma simples mortal. Para nós, que tratamos os deuses do Olimpo como mera mitologia, e que não observamos o caráter sacro que tinha naqueles tempos, fica-nos uma impressão de pouca valia, porém, se raciocinarmos em termos atuais, seria como se os católicos substituíssem o culto a Nossa Senhora por uma pessoa ainda viva. De qualquer modo, devemos atentar para o fato de um atentado ao sagrado que tal situação apresentava, qualquer que seja o significado que dermos ao termo sagrado.
            Estava instalado o ambiente para uma reação, quer esta fosse uma intempestiva reação da deusa, criada à imagem e semelhança dos homens como todo o Olimpo, ou uma reação das forças psicológicas desencadeadas no íntimo do próprio povo envolvido. A deusa então promete que Psiquê seria punida através da própria beleza que havia lhe usurpado o trono. Esta forma de reação mítica, onde o próprio objeto que fere é o mesmo que cura, ou vice-versa, é recorrente em toda a literatura mitológica e tem paralelo com o mito religioso da ação-reação do processo cármico, originário das religiões orientais.
            A deusa então chama seu filho, Cupido/Eros, que é retratado como um menino malcriado que, sem nenhuma disciplina, brinca com os sentimentos alheios e despeja suas flechas envenenadas de paixão indiscriminadamente a deuses e mortais, do qual o próprio Júpiter temia as dores, e pede ao filho que fira Psiquê de tal modo que ela se apaixone pelo mais abjeto dos seres, e que ela sofra tanto que ninguém lhe queira partilhar seu sofrimento. Com tal pedido ao filho, a deusa até se despreocupa com o assunto, visto que sua ordem ao filho não poderia deixar de ser cumprida, e volta aos seus afazeres. Observe o inusitado, quando conhecemos o final da fábula, que a própria mãe chama o filho de o mais abjeto dos seres.
            Enquanto no Olimpo tais conluios dos deuses procediam, Psiquê não colhia nenhum fruto de sua beleza e vivia solitária virgem, pois nenhum mortal achava-se em condições de elevar-se ao seu amor. Vê-se aqui a própria punição terrena que sua inusitada beleza lhe causava: embora adorada como uma deusa, era solitária e triste, e até mesmo fisicamente doente. Seu pai, querendo arrancá-la daquela tristeza, consulta aos céus para arranjar-lhe um casamento e apenas obtém um terrível oráculo, que traduzia a própria maldição da deusa, porém como todo oráculo, dúbio, pois lhe promete um consorte divino, e se bem analisado, descreve-o como o próprio Eros, o terrível deus do Amor, que tanto pode enlouquecer um homem quanto levá-lo aos mais altos enleios. Porém a todos pareceu significar uma terrível maldição e mesmo a morte da donzela. E todo o reino se converteu em luto e lamentações.
            Chegado o momento das núpcias, Psiquê é levada ao rochedo num cortejo fúnebre, pois todos achavam que ela deveria morrer para realizar tais núpcias. Observe-se que as núpcias de morte que Psiquê tem que enfrentar é um rito de passagem, a virgem tem que morrer para sua família e para o seu mundo infantil para se tornar mulher, sua personalidade infantil e narcisista tem que amadurecer para enfrentar as novas tarefas de mulher adulta e mãe. Abandonada no alto do rochedo como mandara o oráculo, Psiquê encerra a primeira parte de sua jornada, onde ela estava sujeita aos caprichos do destino como um joguete dos céus, a quem só cabia obedecer para atenuar suas dores.  
            Nessa primeira parte vemos o desenrolar-se da vida terrena sem a consciência da vida espiritual; o povo cultua os deuses sem muita preocupação com o sentido sagrado, podendo substituir facilmente o culto divino por qualquer modismo que surja sem que se saiba de onde nasça.


II – O Despertar do Ego


            O milagre acontece. Ao invés da morte esperada Psiquê se vê transportada a um mundo de sonho, onde tudo está feito para servi-la e com a maior magnificência. A princípio, ainda apreensiva, teme pelo esposo desconhecido, mas novamente é surpreendida por um ser amoroso que apenas lhe oculta sua verdadeira identidade.
            Nos dias que se seguem Psiquê se vê vivendo num quase paraíso, amada à noite e tratada como princesa durante o dia, porém solitária e na ignorância da identidade do seu amado. Em contato direto com o próprio Amor, Psiquê vive imersa em trevas sem saber de sua real condição. Totalmente dependente da vontade de seu amado, ela não pode procurá-lo durante o dia, restando à mercê de sua presença nas noites escuras. Enquanto assim protegida, sem nenhuma ameaça, permanece feliz, porém a ameaça está à espreita nas figuras de suas próprias irmãs. Enquanto noite, seu ego desaparece em união com o ser divino; durante o dia, a luz traz de volta seus instintos ególatras. A solidão e a saudade fazem-na presa fácil, embora o marido lhe dê avisos sobre o destino cruel que lhe está preparado, Psiquê se acha apta a seguir as recomendações e intercede para que seja permitido que suas irmãs possam visitá-la.
            E nasce a inveja, o monstro que viria destruí-la. Mas Psiquê tinha na sua bondade inata seu trunfo: através dela o seu destino de perda do paraíso deveria concretizar-se, mas também teria no futuro seu resgate. Podemos ver as duas irmãs como o nascimento das forças psicológicas que a levam a duvidar de estar na presença do próprio deus e que a levam a viver oscilando entre a felicidade do amor e a tristeza pela solidão. Assim ela faz o jogo das forças negativas que a querem expulsar do paraíso inconsciente que estava vivendo. Na falta de problemas, ela cria-os. A felicidade sem dores não é um bem duradouro.   
            Psiquê, em sua inconsciência, acha-se capaz de cumprir com as exortações do seu amado e, por grande incoerência, ainda lhe diz que ele era a sua luz. Como ela não podia fitá-lo, a luz era o único sentido que lhe faltava, e todo seu amor era proveniente dos outros sentidos, ou poderíamos dizer que sua felicidade provinha justamente de sua ignorância ou talvez pudéssemos interpretar como uma alma infantil a que faltava a luz. O marido lhe acena com um filho imortal se ela lhe fosse fiel, mas apesar de toda a felicidade em que ela vivia, sucumbe à inveja das irmãs ou, melhor dizendo, aos seus próprios demônios. As irmãs utilizam o dúbio oráculo para lhe dizerem que seu marido era um monstro terrível e a pobre moça, tomando a metáfora do oráculo como realidade, fica oscilando entre o amor pelo marido carinhoso e o ódio ao monstro criado em sua própria imaginação. Ao ficar sozinha, Psiquê é vítima das fúrias, e passa momentos terríveis de espera onde sua consciência entra em colapso, passando a oscilar de modo instável entre os dois mundos.
            Sucumbindo totalmente à instabilidade, ela executa o plano das irmãs e se vê frente ao verdadeiro deus do Amor, e só então toma consciência do crime que intentara. Através da luz do candeeiro que portava ela toma ciência do divino, e, suprema ironia, através da gota de luz fervente ela fere o deus; o choque lhe traz seus primeiros momentos de consciência. E se vê inteiramente perdida procurando encontrar refúgio na morte, mas todos os elementos estão contra ela e mesmo este intento é frustrado. E ao ver o rosto proibido do amado, a qual ela ainda não estava pronta a contemplar, o sentido ainda não revelado abre-se-lhe, e se fere, portanto, com uma das flechas de Eros, justo quando ela o perdia. Após conhecer a felicidade, agora ela conheceria a punição por não saber receber o divino como dádiva; por sua desobediência é expulsa de seu paraíso.
            Nesta segunda parte Psiquê chegou a ter o contato com o divino, embora inconsciente de tal fato e sujeita aos caprichos da divindade. Durante os momentos de união com o deus, ela sentia-se no paraíso; durante a sua falta, a mais infeliz das criaturas: situação símile à do Cântico dos Cânticos.


III – Em Busca da Luz


            Psiquê vaga à procura de seu amado e perpetra contra as irmãs um plano que as leva à morte ou, melhor dizendo, ela mata em si mesma os baixos instintos que a levaram a perder-se, lapidando sua personalidade e sua alma.
            Em completo abandono, culpada por toda a falta de amor que grassa pelo mundo, já que seu amado se encerrara a curar suas feridas e abandonara o mundo a própria sorte, Psiquê teme a vingança de Vênus e pede ajuda às deusas Ceres/Deméter e Juno/Hera e embora as duas se compadeçam dela, respondem-lhe que nada podem fazer para ajudá-la.
A recusa de Hera, a deusa que cuidava dos casamentos, mais uma vez salienta a infantilidade da alma de Psiquê, pois parece significar que ela não estava pronta para o casamento. E sem mais a quem recorrer, Psiquê decide entregar-se aos caprichos de Vênus.
            Apresentando-se à deusa, esta, após torturá-la, submete-a a quatro trabalhos aparentemente impossíveis de serem realizados por simples mortais. Os trabalhos representam a caminhada da moça pela vida, pelos quais ela teria que aprimorar-se e evoluir, cada um representando um dos quatro elementos, terra, ar, água e fogo, pelos que, acreditava-se nos tempos antigos, todo o mundo era composto; ao mesmo tempo simbolizando o caminho zodiacal que a moça deveria cruzar no seu trabalho de aperfeiçoamento.
            O primeiro trabalho que Vênus encarrega a moça tem as características que se atribui ao ciclo da terra, pelo qual aprendemos a separar, classificar e organizar as coisas, atentando para o discernimento do todo como ele é. No ciclo da terra, a terra é preparada para o cultivo, depois semeada, e, enfim, obtém-se a colheita. Assim, através deste ciclo cultivamos em nós mesmos tudo aquilo que aprendemos na vida. Vênus entrega a Psiquê um monte enorme de sementes todo misturado a qual ela deve separar em uma tarde. A moça desesperada recebe uma ajuda imprevista das forças telúricas representadas por uma formiguinha que convoca um batalhão de sua espécie e o trabalho é executado. Portanto, podemos presumir que as sementes que ela cultiva lhe trazem novas ferramentas para a vida.
            O segundo trabalho simboliza o ciclo do ar, um caniço ao sabor do vento instrui Psiquê a aproveitar-se do momento em que o ar estivesse fresco para realizar a sua tarefa e assim colher os fios de lã de ouro. Através do trabalho intelectual, que é o fruto do elemento ar, a criatividade somada ao conhecimento colhido no primeiro trabalho, ela agora tinha ferramentas adequadas para pesar, avaliar, e aplicar o aprendido, e como prêmio poder obter a lã de ouro. A lã é utilizada na literatura de muitos povos como símbolo do conhecimento.
            O terceiro trabalho simboliza o ciclo da água. O ser verdadeiro se parece com o oceano: a consciência fica na superfície, mas o verdadeiro ser permanece nas profundezas do inconsciente. Neste ciclo acontece o ponto de mutação do ser, onde o escorpião rastejante, o terceiro signo da água, deve suicidar-se para que, transformado, surja a águia para tomar os céus como alma livre que é. O ser interior deve alçar-se aos céus e permanecer livre, o eu divino deve se tornar consciente. Rememora-se assim o simbolismo do nome Psiquê, a lagarta que se transforma num ser gracioso e flébil e que busca a luz, que pode ser perigosa para uma mariposa sem experiência.
            O quarto trabalho simboliza o ciclo do fogo, o ciclo da vivência da experiência adquirida. Somente através da experiência certas funções podem ser realizadas e Psiquê deveria descer ao inferno para realizar o trabalho; somente um ser espiritualizado, que atravessou pela vida e adquiriu o conhecimento dos outros três elementos poderia intentar realizar tal trabalho. Agora ela conta com o conhecimento de uma torre antiga, símbolo da experiência que a própria Psiquê acumulara; agora ela poderia ter o discernimento, a força de vontade e a firmeza de caráter necessários ao cumprimento desta tarefa; agora ela mesma teria que executar o trabalho e, cumprindo com todas as instruções recebidas, ela consegue concluir a tarefa.    
            Nesta terceira parte acompanhamos o desenvolvimento de Psiquê através das agruras da vida, de uma alma inexperiente a um ser rico de experiência e sabedoria. Em todos os momentos de dificuldades a graça divina estava presente permitindo a Psiquê avançar em seu caminho de luz, e ela toma consciência que nunca esteve sozinha e tudo conseguira através da graça, devido a sua natureza inata.



IV – A União Mística


            Mas Psiquê cai vítima da última armadilha preparada por Vênus. Talvez sua curiosidade a tenha precipitado novamente, mas é de considerar-se que com todo o conhecimento adquirido agora ela possuía as ferramentas necessárias para saber, pois se tornara um ser totalmente consciente e conhecedor da vida espiritual. Por isso ela se deixa cair na armadilha; visto que até então ela fora ajudada pelas forças celestes de seu marido, ela poderia supor que, vencedora de todos os trabalhos, ele viria novamente em seu socorro. Era necessária a sua entrega à aniquilação de seu ego, o que lhe abriria caminho para a perfeita união com seu amado.
            Psiquê se abandona ao torpor do sono entorpecente do mundo tenebroso, vivendo uma quase morte. Eros vem em seu socorro e ainda ralha com a moça, que provavelmente sorriu. Ao ser ressuscitada por Eros, totalmente livre de seu ego, ela agora cumpriu toda a sua jornada: a mariposa está pronta para imergir na luz de seu amado sem se queimar e viver a completa fusão nas núpcias divinas.
            Na mitologia, quando uma mortal se apaixona por um deus, esta sempre encontra a sua destruição, enquanto o deus vive apenas uma paixão momentânea do qual sequer sai arranhado; mas Psiquê alcança a graça de sair fortalecida e conquistar o seu divino amado. Eros também se transformou, graças ao amor de Psiquê deixa de ser o filho adolescente de Vênus para ocupar seu lugar de destaque entre os deuses.  Sobe ao Olimpo e pede a intercessão de Júpiter e este conclama a todos os deuses para anunciar sua vontade de que o adolescente finalmente se aquietasse numa união de verdadeiro amor.
            Assim, o mundo pôde se livrar da inconstância do Amor em uma união eterna. Nem os homens, nem os deuses poderiam consegui-lo sozinhos, mas da união entre eles estavam as perfeitas núpcias. E dessa união perfeita nasce a filha dileta, a alma humana em perfeita união com o deus, a Volúpia.
            Apuleio, o escritor que nos legou essa fábula, foi um neoplatônico, e considerava as idéias cristãs absurdas, pois falavam de um Deus único, isto nos primeiros anos em que o cristianismo surgiu, e apesar de ter sido um “pagão”, podemos encontrar na fábula uma bela idéia da união mística, que seria tão bem relatada por grandes santos católicos e outros místicos.

“L’enlèvement de Psyché”
 de William Adolphe Bouguereau
 
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Cânticos 5 (Cântico dos Cânticos)

3 Eu já tirei a roupa;
será que preciso me vestir de novo?
Já lavei os pés;
por que sujá-los outra vez?
4 O meu amor passou a mão pela abertura da porta,
e o meu coração estremeceu.
5 Eu já estava pronta para deixar o meu querido entrar.
As minhas mãos estavam cobertas de mirra,
e os meus dedos também,
e eu segurava o trinco da porta.
6 Então abri a porta para o meu amor,
mas ele já havia ido embora.
Como eu queria ouvir a sua voz!
Procurei-o, porém não o pude achar;
chamei-o, mas ele não respondeu.
7 Os guardas que patrulhavam a cidade me encontraram;
eles me bateram e me machucaram;
e os guardas das muralhas da cidade me arrancaram a capa.
8 Prometam, mulheres de Jerusalém:
se vocês encontrarem o meu amado,
digam que estou morrendo de amor.

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