Velório
frustrado
─ Doutor, hoje eu queria ouvir uma história do Doutor
menino.
─ Hum.. isso já faz muito tempo, Miguelim... Mas você me
joga assim na relembrança de uma boleia de um jeep.
─ Legal, Doutor, eu também gosto muito de andar de jeep.
─ Mas, antes do jeep, é preciso contar-lhe de minha avó e das minhas férias. Morávamos em cidades distantes cerca de cinquenta quilômetros; minha avó, vez em quando, ia lá em casa; não muito, mas invariavelmente aparecia no Dia de Finados. Se ela vinha por compromisso de uma jornada triste para visitar as tumbas de pais e avós, para nós era uma alegria recebê-la e sua sacola de balas, que também, invariavelmente, chegava junto.
─ É muito gostoso o carinho de vó.
─ Nas minhas férias, eu também me mandava para a casa dela. Bem pequeno ainda, meu pai me colocava no ônibus para Itaperuna, e lá ia eu sacolejando por aquelas estradas mal cuidadas por cerca de três horas.
─ Era muito custoso, Doutor?
─ Era sim, Miguelim, o tempo ia passando tão lerdo quanto aquele ônibus, dava voltas e voltas para ir a lugar nenhum. Dava para bater papo com aquela porteira que se divisava lá no alto da estrada: contar pra ela de nossa aflição que ela nunca chegava.
─ Isto de ver um fim de estrada que não chega dá uma gastura.
─ Mas, por mais que enrolado de tempo, sempre acabava chegando e começavam minhas alegrias. Nem era tanto por ter o carinho dos meus avós, que por aqueles tempos não era como hoje: os avós ainda tinham filhos da idade dos netos e por isso ainda não tinham olhos tão abertos para as criancices. Acho que éramos mesmo um pouco mais de preocupação para eles.
─ Mas tinha brincadeiras novas!
─ E tinha os primos que por lá moravam e tinha brincadeiras que eram um tanto que também trabalhos, mas era gostoso entregar cedinho o pão para tanta gente que se levantava para uma fadigosa jornada diária; bater de casa em casa que tinha pedido na padaria de meu avô e tirar da cesta da bicicleta aquele embrulho marcado pra ela.
─ E você menino fazia tudo sozinho?!
─ Fazia sim, Miguelim. No início ia de carona com um tio para aprender o roteiro e conhecer as casas, depois dava descanso para ele das suas tarefas diárias e divertia-me num passeio de bicicleta e com o agradecimento dos fregueses em receber em sua morada um pão bem fresquinho e gostoso, pois era assim mesmo o pão que meu avô fazia. Se a farinha não estivesse da melhor, ele xingava, batia melhor a massa e conseguia sempre aquele primor de pão.
─ E como se chamava o seu avô?
─ Meu avô se chamava Dagberto, como também um irmão meu. Estes dois devem estar juntos com Santa Isabel entregando pedidos de pães e flores para os anjos. Minha avó tinha por nome Laura, mas se chamava mesmo era Caçula.
─ Mas, Doutor, você apreciava comer o pão também?
─ Esta era uma das alegrias que por lá eu tinha. Acordava sempre bem cedinho, ia lá no forno da padaria e pegava o pão direto daquela pá enorme saindo do forno carregadinha de pão.
─ Como era isso, Doutor?
─ O forno era bem grande e era mantido à lenha. Os padeiros colocavam a massa do pão em fila, já cortada nos tamanhos certos, em uma pá bem comprida que dava para uns vinte pães. Enfiavam no forno, davam um sobressalto na pá e os pães restavam lá enfileiradinhos a assar.
─ Devia de ser até bonito de ver!
─ Era mesmo, Miguelim, aquela brancura dos pães em uma luz amarela dentro do forno era até bonita.
─ E pra tirar os pães, Doutor?
─ Aí o padeiro ia com jeito, enfiava a pá por baixo da fileira toda e resgatava tudo de uma vez só. Aí eu agarrava um pão quente de não conseguir segurar na mão, ia jogando de uma mão pra outra até a mesa do café, que ficava ali bem colada, pois a casa dos meus avós era emendada com a padaria. Passava uma manteiga mole que derretia com o calor do pão e comia com uma gulodice, sempre a mesma, todos os dias!
─ Hum, dá vontade de estar lá pra poder comer o pão do seu avô com o senhor menino.
─ Teria sido bom encontrá-lo por lá, Miguelim. Mas aquela boleia de jeep me lembrou uma viagem que não foi assim para uma alegria de férias, foi uma viagem mais sombria.
─ Conta, Doutor, conta que eu aqui já estou martirizado de curiosidade.
─ Lá na minha casa não tinha telefone, pois naqueles tempos ter um aparelho daquele custava muita prata. Quando era de urgência, usávamos de uma vizinha. Certo dia minha mão foi chamada pela vizinha para atender um telefonema de seu irmão, lá de Itaperuna. E lá foi minha mãe. Estava demorando pra voltar. Quando voltou, chegou apoiada pela vizinha e banhada em choro.
─ Nossa, Doutor, o que foi que aconteceu?
─ Ela chorava e murmurava: “Minha mãe... morreu”.
─ ...
─ Corri para ir avisar meu pai que estava trabalhando. Ele se despachou, foi buscar o jeep e fomos pra casa. Lá minhas irmãs mais velhas já estavam cuidando de arrumar os menores. Na maior pressa, juntou aquele bando de seis ou sete crianças, mais minha mãe e meu pai, tudo dentro do jeep mais parecendo uma trouxa de roupa e partimos para Itaperuna.
─ Cabia todo mundo dentro do jeep?
─ Do jeito que podia, tinha que caber. E foi assim que fizemos a mais triste e desconsolada viagem para a casa dos meus avós. As porteiras falantes se multiplicavam pela estrada, embora o jeep fosse bem mais veloz que o ônibus.
─ Que coisa triste, Doutor, tou aqui que quase chorando com muita pena de vocês.
─ Enquanto lá íamos o mundo também ia e tinha-se deixado com a vizinha solicitações para fazer saber a uma prima de minha mãe sobre a notícia. A prima, ao tomar ciência, havia ligado para a padaria dos meus avós para ouvir mais detalhes.
─ Ela também foi pra lá?
─ Não, ela não foi. Quando chegamos em Itaperuna, nada parecia mostrar o luto que tínhamos dentro de nós, é claro, e cruzamos as ruas em busca da padaria, que ficava do outro lado do rio e da cidade.
─ E chegaram lá na tristeza da casa...
─ Chegamos lá, mas a casa não estava triste. Minha vó e sua irmã nos receberam rindo de nossas tristezas.
─ Ara! Ela ressuscitou!
─ Não, Miguelim, pelo telefonema da prima de minha mãe, elas já sabiam do engodo em que caíramos.
─ Mas, o telefone!
─ O tio que chamara minha mãe no telefone jurou que nunca tinha feito aquilo, minha mãe falou que era a voz dele; dúvidas ficaram porque ele era ainda adolescente e um tanto moleque, mas nada ficou esclarecido.
─ Puxa, Doutor, será que alguém pode fazer uma maldade dessa só de chiste!
─ Procurou-se explicações daqui e dali, mais nada havia a fazer além de ficarmos agradecidos por nosso velório frustrado, e pudemos ainda contar com o carinho de nossa Vovó Caçula por mais uma década.
-o-
Ou isto ou aquilo
Cecília
Meireles
Ou se tem
chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se
calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe
nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma
grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo
o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto
ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei
se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não
consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário