quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Criacionismo




Criacionismo


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– Oi, seu Zé, que bela enfiada de galinhas você tem aí.
– Oi, Dona Menina, bom dia, tô a levá estas danada pra feira pra modo fazê uns trocado pra podê comprá o fubá.
– Que trabalho ingrato, seu Zé, carregar esse pau enfeitado de frangas deve maltratar bem as narinas.
– Mas inté que tem suas vantage, Dona Menina, pois muriçoca alguma vem cá me atazaná. Mas deixa eu deitá cá no chão as penosa pro modo que eu tenho precisão de fazê um proseado com a senhora.
– Pois não, seu Zé, tenho muito gosto em uma prosinha à toa. E falando de penosa, passei uns maus bocados outro dia que fui depenar uma.
– E que foi que assucedeu, Dona Menina?
– Quando eu tava a cortar o pescoço da dita, minha netinha, a Mariinha, chegou no portão da varanda e danou a chorar e gritar: “Não mata a Branquinha, vovó, não mata. Tadinha dela, vovó”.
– Chii, aí é mesmo que o treco empreteia, né?
– E num é, seu Zé! Foi aí que, destrambelhada por causa do grito da Mariinha, deixei a danada escapar e a coitada danou a pular com a cabeça dependurada só por um fiapo de pele.
– Com bicho galinha é mesmo assim, Dona Menina, tadinha é tiro certo pro bicho nem aceitá de morrê.
– E a coitada pulou tanto que foi parar em cima do quarador, seu Zé, empapando de sangue todo o linho que lá estava quarando, e revirou tudo, fez uma mixórdia danada de linho com as folhas de pindoba, que não restou nenhuma no aprumado.
– Mas a bichinha terminô por acabá mesmo foi no caldeirão, né, Dona Menina?
– Mas fiquei num trauma, seu Zé, já disse pra todo mundo que num arrisco mais de fazer essas coisas.
– Falando nessas coisa amalucada, Dona Menina, a senhora deve de tê visto na TV essas história do homem subi lá na Lua de foguete.
– Que maravilha, né? Fiquei grudada na telinha extasiada de atenção vendo aquela moço todo paramentado de astronauta saltando que nem pipoca, que grande vitória da ciência, né?
– Que vitória mané vitória, Dona Menina, que nada! Antão cê acha que aquilo é devera real?
– Ara, seu Zé, e por que não haveria de achar?
– Pois antão, o pastô lá da minha igreja agarantiu que tudo num é mais que fingimento, que é fita de cinema dos americano lá de Oliúdi pra iludi nóis todo. Tudo trapaceado.
– E por que é que eles teriam tanto trabalho pra querer apenas iludir a gente?
– É que o marvado do tinhoso usa eles pra coloca nóis em pecado de falta de fé.
– Não entendo, seu Zé, por causa de quê há de haver falta de fé nisso?
– Ara, Dona Menina, se o home vai lá na Lua e não vislumbra vestige do céu, fica tudo no reverso virado, né? O tinhoso matreiro qué ansim dizê pra nóis que o céu não existe.
– Mas, seu Zé, a gente já sabe que o céu falado na Bíblia num é assim aquele céu que a gente vê todo dia.
– Antão até a Senhora Dona Menina acha mesmo que a Bíblia num tá correta?
– E onde é que em acreditando que o homem foi na Lua eu desacredito da Bíblia, seu Zé?
– Pois, antão, lá num diz que Jesus se foi arriba pro céu?
– Diz, mas isto pode ser apenas uma metáfora.
– Meta o quê?
– Metáfora, seu Zé.
– E que raio de bicho é isso... essa metrafa, aí?
– Metáfora, seu Zé. É um um jeito assim de dizer uma mentira pra fingir que é uma verdade.
– Ahn, como é que é? Dona Menina tá mangando comigo, é? E que modo há de ser que uma mentira pode de sê verdade?
– Vou explicar, seu Zé. Assim, por exemplo, quando você diz: aquele rapaz é um veado...
– Se eu cá me boto a dizê uma tal e qual coisa, Dona Menina, será pro modo de sê o rapaz um  reverso, de sê devera um mariquinha, mas aí vai ser certo uma reta  verdade, porque num ando fazendo fuxico por aí.
– Não, seu Zé, tô dizendo no sentido que o rapaz corre muito, que ele é muito veloz; assim dizendo a gente tá usando uma metáfora, pois ele não é o bicho veado, mas é como se fosse porque ele corre muito.
– Ah, tomei senso, é um modo diferente de falá pra dizê a mesma coisa. Mas por que a senhora acha que Cristo subir pro céu é uma metafra?
– Porque subir dá o sentido de ir prum mundo melhor que este.
– Mas, Dona Menina, o pastô diz que se nóis num crê no céu é pro modo de que acha que Deus mentiu pra nóis.
– Por que isso, seu Zé, como é que Deus pode estar mentindo?
– Ora, pois, a Bíblia num é a palavra de Deus?
– Assim se diz.
– Que num foi o Esprito Santo que escrevinhou tudo?
– É possível que isso seja assim.
– Antão nóis tem que pensá que tudo nela está registrado que devera é pura verdade.
– Mas veja, seu Zé, quando lá tá escrito que Deus criou o mundo em seis dias, que criou Adão e Eva, o senhor acha que foi assim mesmo?
– Ara, Dona Menina, tô inté a ficá meio aperreado. Por que é que iria eu desacreditá na palavra de Deus?
– Mas, seu Zé, já está estudado e confirmado que a nossa Terra tem bilhões de anos.
– Rá, rá, ra, mais outra patarata grande das fita de cinema, pois o meu pastô afirmô que a Bíblia desfia toda história nossa, que nossa Terrinha deve de tê uns 5000 ano.
– Mas então, seu Zé, e os dinossauros?
– E que tem esses bicho de mentira a ver com isso?
– Já foram achados milhares de esqueletos de dinossauros. A Bíblia diz como eles apareceram?
– O pastô falô pra nóis disso também, que isso foi mais uma patranha do tinhoso; que ele enterrô esses osso pra modo por em prova a nossa fé.
– Vem cá, seu Zé, o senhor já viu um desenho de um dinossauro terrível, que eles chamam de Tiranossauro?
– Até que já, Dona Menina, nas figura é um marvado de um bicho bem apareiado com dente que parece um serrote dos bem afiado.
– Pois o senhor que cria tantas galinhas, já reparou como elas parecem com os desenhos daquele dinossauro pavoroso?
– Ara, Dona Menina, as galinha nem dente tem!
– Não, seu Zé, tô falando do jeito delas, das duas pernas, das asas, do aprumo delas.
– E que raio isso tem a ver, Dona Menina?
– É que as galinhas são os parentes mais chegados dos dinossauros.
– Ra, ra, ra! Só farta mesmo a Senhora Dona Menina dizê que minha tatatatata...ravó foi uma bruta macaca.
– Nem tanto assim, seu Zé, mas somos parentes próximos dos macacos.
– Ra, ra, ra!
– A ciência já estudou muito isso, seu Zé, e acha que todos os bichos foram pouco a pouco melhorando suas formas, de geração em geração pequeninas modificações vão acontecendo...
– Essas coisa já inté bateu cá nos meus ouvido, mas num degluti não, Dona Menina, o pastô já nos exortô pra pô a orelha mouca e num acreditá nessas besteira, que foi mesmo o demo ruim que baixô num tar de Darvin pra inventá tanta tonteria.
– É, seu Zé, num adianta! Fico tentando acender um foguinho pra iluminar sua cabeça, mas num tem jeito mesmo!
– E que jeito a senhora queria de tê, Dona Menina, eu já tô em ponto de doce e a senhora inda qué me pô mais fogo?!



-o-



         Egoísmo

RabindranathTagore - Tradução de Manuel Simões
 

Fui sozinho à minha entrevista,
Quem é esse que me segue
na escuridão calada?

Afasto-me para ele passar,
mas não passa.

Seu andar soberbo
levanta poeira,
sua voz forte
duplica a minha palavra.

Senhor,
é o meu pobre eu!
Ele não se importa com nada.
Mas como sinto vergonha
por ter de vir com ele
à tua porta!


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