Língua
de gato
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Perrito chegou na pracinha com
sua mamãe. Perrito era um cachorrinho neném que começava a descobrir o mundo.
Na pracinha ele até parecia muitos Perritos: corria feliz sem saber aonde
chegar; achando uma flor, cheirava-a; tocava-a com sua patinha, assustava-se
quando ela se movia, dava um pulinho para trás e saía de novo a correr gritando
au-au-au.
Deitado sonolento em um banco
da praça, um gatinho espetou suas orelhas quando ouviu aquele au-au-au.
Perrito descobriu o gatinho.
Correu para ele querendo cheirá-lo: au-au-au. Mas quando o gatinho viu o
cachorrinho correndo em sua direção, deu um salto ligeiro e saiu em disparada
para sua casa, que ficava ali em frente da pracinha.
Perrito correu atrás dele:
au-au-au, mas o gatinho foi muito ligeiro e escondeu-se dentro de sua casa.
Perrito parou, procurou, chamou: au-au-au; e ficou decepcionado sem resposta.
Todos os dias a mamãe de
Perrito levava-o àquela pracinha. Todos os dias Perrito via o gatinho e queria
ser amigo dele. Saltava feliz e corria para o gatinho: au-au-au. E o gatinho
soltando um miado desaparecia. Perrito ficava sem entender e perguntou para sua
mamãe por que o gatinho não brincava com ele.
A mamãe de Perrito explicou
que os gatinhos eram um tipo diferente de bicho e que eles não gostavam e
tinham medo de cachorrinhos.
– Por quê? - perguntou
Perrito.
– Nem sei – respondeu a mamãe
– sempre foi assim.
Perrito ficou pensando: quando
eu corro atrás dele, ele grita miau; se eu gritar miau em vez de au-au, talvez
ele não fuja de mim.
E Perrito tentou falar o miau
e saía mais ou menos assim: auuu, auuu. Embora ele se esforçasse e pensasse
falar miau, só saía auuu. E Perrito treinou muito para aprender a falar a
língua do gatinho e poder brincar com ele.
Em um outro dia Perrito chegou
na pracinha e saiu à procura do gatinho gritando auuu, auuu, auuu. O gatinho
respondeu um miau e saiu em disparada.
Perrito voltou devagarzinho
para sua mamãe, rabinho sem balançar, murchinho entre as pernas.
– Não adianta, Perrito, -
falou a mamãe - você não vai conseguir falar a língua do gatinho, porque a boca
de um cachorrinho é feita para falar au, au, e só a boca de um gatinho é feita
para falar miau.
No dia seguinte Perrito correu
para o gatinho gritando au, au, au, e o gatinho saiu em disparada gritando
miau.
E, assim, todos os dias
Perrito repetia sua corrida atrás do gatinho só para ver o gatinho sair
correndo assustado em disparada. Perrito agora só corria atrás do gatinho para
divertir-se. Quando o gatinho sumia, parava, latia au, au, au, balançava o
rabinho e dava um pulinho de alegria: au-au.
-o-
A Língua de Nhem
Cecília Meireles
Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.
E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também
a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,
e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,
ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

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